26.11.12

Discussões à Esquerda


Recentemente, nos blogues Vias de Facto e Passa a Palavra, têm surgido vários textos críticos em relação à possibilidade de abandonar o Euro (exemplos mais recentes aqui e aqui). Confesso que, tal como o Pedro Viana, acho esta sequência de textos extraordinária (no pior sentido da palavra).

Enfim, creio que bastaria observar casos recentes do tal “calote” que tanto parece incomodar os autores (Argentina, Ecuador, Islândia) para perceber que o apocalipse não se abateu sobre eles (e, já agora, que o seu sistema judicial continuou a funcionar, ao invés do caos que eles prevêem). E isto deveria ser suficiente para fazer os autores, no mínimo, considerar a hipótese de que podem estar claramente errados sobre algumas das proclamações categóricas que efectuam e em que não se distinguem de um qualquer João Duque ou Medina Carreira (ou qualquer outra das habituais vozes do regime que inundam a comunicação social) – e, novamente, tais companhias talvez devessem ser suficientes para repensarem o nível de certezas com que se apresentam.

Depois, há afirmações que simplesmente não se compreendem ou que dependem de pressupostos facilmente criticáveis:
“uma moeda fraca facilitaria as exportações, que sairiam mais baratas para o estrangeiro. Todavia, (…) 75% das exportações portuguesas se dirigiram para a União Europeia e 51% foram absorvidas pela Espanha, a Alemanha e a França (50% em 2011), isto significa que o país se isolaria monetariamente do seu principal mercado.”
Presumo que a única forma de entender isto seja a de que uma saída de Portugal da zona euro provocaria o colapso de todos os outros países, de tal forma que isso afundaria as exportações. Ora, isto é meramente um pressuposto, e não é especialmente solido, particularmente se a saída fosse gerida e prevista, ao invés de ser desordenada (como corre o risco de vir a ser, tanto em Portugal como na Grécia). Ora, falhando o pressuposto da ruína absoluta dos nossos parceiros comerciais europeus (ou considerando simplesmente que a desvalorização do escudo face ao euro ou a outras moedas reintroduzidas seria suficiente para compensar qualquer abrandamento nesses países), torna-se evidente que as exportações poderiam efectivamente aumentar.

Sobre a questão da dívida, os autores parecem também esquecer-se de dois pormenores:
1)  A falta de acesso aos mercados internacionais não implica que o Estado Português não pudesse contrair dívida (basta, novamente, considerar que a Argentina teve deficits depois de 2002 e conseguiu financia-los – por exemplo, através de acordos bilaterais com outros países).
2)  Por outro lado, a melhoria que estaria subjacente a uma recuperação da economia em que a variável de ajustamento passasse a ser a taxa de câmbio (e não a descida dos salários e o aumento do desemprego, genericamente designados como “desvalorização interna”) poderia implicar que, dado o aumento da actividade económica e a diminuição do desemprego, as receitas de impostos tenderiam a aumentar, o que poderia resolver por si só a questão da necessidade de financiamento do estado. Numa economia que se encontra tão abaixo do potencial, e com uma vasta proporção de “recursos” não utilizados, como é necessariamente o caso de Portugal, com uma taxa de desemprego muito elevada, tal cenário não deveria ser impossível.

Adicionalmente, um esclarecimento: tal como os autores do texto no Passa a Palavra, também eu gostaria que a solução para a crise fosse feita no âmbito da UE e da Zona Euro. Mas, tendo em conta o grau de improbabilidade de que as necessárias mudanças na arquitectura da Zona Euro sejam aplicadas (orçamento federal digno do nome, rejeição de politicas pró-cíclicas, etc.), e tendo em conta a falta de progresso evidenciada nos últimos anos, tenho dificuldades em ver o que é que qualquer pais europeu ganha em manter-se neste colete de forcas. A isto há ainda que adicionar que, na ausência de mudanças relevantes na Zona Euro (ZE), e considerando que eventualmente a crise será ultrapassada (como é óbvio, todas as crises passam), duas consequências adicionais poderiam resultar:
1)  A estratégia de austeridade/desvalorização interna poderia sair vindicada, e poderíamos facilmente contar com tentativas de reescrever a historia – não será difícil de imaginar discursos oficiais a apontar para o “sucesso” da receita austeritária e de como ela permitiu a saída da crise.
2)  Decorrente de 1), futuras crises, novamente causadas por choques assimétricos na ZE, voltariam a gerar o mesmo tipo de politicas e, previsivelmente, a ter o mesmo resultado (crise profunda e perfeitamente evitável, tal como o sofrimento humano associado, em vários países).

Por fim, causa-me estranheza, que neste e noutros textos no Passa a Palavra (do João Valente Aguiar, do João Bernardo, ou de outros), se continue a atribuir à intenção de sair da ZE um ímpeto nacionalista/isolacionista, como a primeira tivesse necessariamente de implicar a segunda.

sp

P.S. Obviamente, estou a usar um teclado sem acentos. Assim que puder, corrijo o texto.

P.S. II Texto corrigido. Entretanto, a discussão continua, quer na caixa de comentários deste post, quer num novo texto do Pedro Viana.

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19.3.12

Santos Pereira a fazer pontaria aos próprios pés

Título redundante e post escrito relativamente à pressa, dado que a personagem que o fundamenta também não merece que se perca muito tempo sobre ele. Ao que parece, o Ministro da Economia e do Emprego decidiu perorar sobre dívida e a consequente ‘necessidade’ de austeridade. Nada como entrar à matador, puxar dos galões, e garantir que, apesar de se “dizer que o crescimento económico" não "tem a ver com as finanças públicas, que há demasiadas finanças e pouca economia", a verdade é que "quem diz isso, não percebe de economia".

Não contente com isso, avança para a estafada (e inteiramente errada e enganadora, ainda que devidamente desmistificada) analogia entre a dívida das famílias e as dívidas dos estados. Sobre este ponto, acho que basta repescar o que diz Paul Krugman sobre o assunto:
“Deficit-worriers portray a future in which we’re impoverished by the need to pay back money we’ve been borrowing. They see America as being like a family that took out too large a mortgage, and will have a hard time making the monthly payments.
This is, however, a really bad analogy in at least two ways.
First, families have to pay back their debt. Governments don’t — all they need to do is ensure that debt grows more slowly than their tax base. The debt from World War II was never repaid; it just became increasingly irrelevant as the U.S. economy grew, and with it the income subject to taxation.
Second — and this is the point almost nobody seems to get — an over-borrowed family owes money to someone else; U.S. debt is, to a large extent, money we owe to ourselves.”
Em conclusão, diz ele, “The general point is that the analogy with a family that owes too much is all wrong. Unfortunately, this dumb analogy dominates our national discourse”. A resposta do nada dumb Santos Pereira adivinha-se pronta: “Esse Krugman é um merdas que não percebe nada de Economia”.

Segue-se o diagnóstico para que Portugal regresse aos amanhãs que cantam: “conseguir crescer -- que significa criar emprego -- é baixar a dívida, é a consolidação orçamental". Para não deixar dúvidas, o caríssimo Santos Pereira refere mesmo que "é por isso que a austeridade é tão importante”. Uma olhadela rápida para a evolução das dívidas públicas dos países sujeitas a austeridades curativas impostas pelos Gapares e Santos Pereiras por essa Europa fora é ilustrativa qb (clicar para aumentar):
Não só se projecta que Portugal tenha uma dívida pública, no final de 2016, superior à que detinha no final de 2011 (forma curiosa de baixar a dívida), como se observa que estes 4 países, seguramente entre os que mais medidas de austeridade aplicaram na zona euro, chegam a 2016 com uma dívida largamente superior à que detinham no final de 2009 (sim, poder-se-ia descontar o efeito entre 2009 e 2010 na Irlanda, cujo aumento se deve principalmente razões não relacionadas com a austeridade, mas em nada influencia o conteúdo do post). Enfim, talvez alguém devesse mostrar ao Santos Pereira a base de dados do World Economic Outlook, do FMI, de onde aqueles dados foram retirados. Mas, dado que a razão aparenta ser algo que não assiste o Ministro, também é discutível que isso viesse a ter algum efeito.

Por fim, gostaria de perceber de que forma é que um país com desemprego galopante, sucessivos cortes salariais, e austeridade infinita, consegue reduzir a dúvida privada – que era, no início da crise, em Portugal e na generalidade da Europa (com a possível excepção da Grécia), o principal problema com que se debatiam as diversas economias. Santos Pereira, lamentavelmente, não faz uso da sua profunda sapiência para explicar isso a todos nós, que “não percebemos nada de economia”.

sp

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