Não sei bem porquê, mas dá-me imenso gozo ver (ler) críticos de cinema furibundos com a enorme exposição mediática gerada pelo último filme da série Harry Potter. É o marketing, é a fortuna gerada pelo filme, enfim, é tudo e mais um par de botas. Não sei se dos livros se disse o mesmo - provavelmente -, mas mais do que o marketing actual, diria que foi o enorme sucesso dos livros que gerou o enorme sucesso dos filmes. Não vou dizer que os filmes são muito mais fracos que os livros porque essa ideia já se tornou quase cliché: muito poucas são as adaptações que conseguem tornar-se melhor do que os livros, e mesmo as mais bem conseguidas - The Lord of the Rings, Blade Runner, A Clockwork Orange, para dar alguns exemplos - nunca chegam verdadeiramente lá, também porque nunca foi o seu objectivo chegar lá, ao ponto em que são tão boas como os livros quando são forçosamente coisas completamente diferentes (um livro é um livro, um filme é um filme). Mas divago. Não vi todos os filmes da série Harry Potter, e os que vi (os três primeiros, e a primeira parte do último) pareceram-me algures entre o mediano e o medíocre, apesar de apresentarem um elenco formidável. Li os livros todos várias vezes, tenciono relê-los a todos várias vezes, pois merecem essa releitura. Gosto de ver a fúria dos críticos, dos mesmos críticos que colocam nos píncaros filmes de bocejo e escrevem críticas blindadas a quem não entender o código, repletas de referências quase sempre deslocadas e com o único objectivo de dizer "vejam, vocês que só vêem e lêem merda, quão culto eu sou, a fazer citações inteligentíssimas de autores desconhecidos" - isto lembra-me, muito a propósito, de uma crítica, se não me engano, ao filme Harry Potter and the Order of the Phoenix publicada num jornal português na qual, para desancar o filme, era até referida uma corrente filosófica qualquer (foi uma bela gargalhada, aquela crítica). No fundo, os críticos são irrelevantes e sabem disso. Dentro do grande género de fantasia, J.K. Rowling não é Tolkien, Pullman, Martin ou Pratchett, é certo. Mas tem o seu lugar. Rowling deu-nos sete livros (e oito filmes, vá) de excelente escapismo, com excelentes personagens (olá, Professor Snape) e uma história bastante sólida e boa, escrita de forma simples, que levou uma quantidade inacreditável de miúdos (e não só) a pegarem em calhamaços e a lerem-nos com enorme entusiasmo - e, quem sabe, a lerem com o mesmo entusiasmo outros autores e outros livros, de fantasia, de ficção científica e de outros géneros mesmo. O marketing aqui é mais ou menos irrelevante, pois o resultado, a meu ver, é inteiramente meritório. E, feitas as contas, é isso mesmo que interessa.
john