A Independência #9
#1 Incorporar os "artistas" numa instituição (credo, isto soa mal) seria uma forma diferente de fazer a mesma coisa. Os propósitos de formação, porém, não me parecem maus.De qualquer maneira, o meu ponto aqui era apenas e só este: não são independentes. São, sim, uns sortudos. Adiante.
#2 É evidente que Shakespeare* é canónico. Repara que eu não questiono o cânone em si - eu questiono, sim, a incapacidade de o Estado não conseguir pensar fora dele; e dou mais importância ao gosto (à preferência) individual, por oposição ao cânone estabelecido e colectivamente aceite. Tenho dúvidas quanto à complexidade, pois uma obra mais complexa não é necessariamente melhor; aliás, diria que não será raro acontecer exactamente o contrário.
Se fores pensar num programa de Literatura Portuguesa para os três anos do Secundário, é evidente que há quatro autores que tens necessariamente de incluir: Gil Vicente, Camões, Eça, Pessoa. Os restantes? Depende. E mesmo que escolhas um, a obra escolhida pode não ser a mais indicada. Um exemplo: nos programas, Camilo aparece sempre representado por "Amor de Perdição", quando "A Queda Dum Anjo" é incomparavelmente melhor, mais interessante e até mais adequado. Nesta matéria, acredito que o ideal era os programas serem "liberais", dando oportunidade às escola de escolherem aquilo que os seus alunos estudariam, dentro de alguns limites. Mas estou a divagar, e isto é capaz de ser um bom tema para outro debate, um dia destes.
#3 De qualquer maneira, e pelo exemplo que dei acima, terás compreendido que, para mim, as escolhas de que falas deviam ser mais livres. Quanto ao apoio do Estado às "artes", bom, depende. Sinceramente: depende. Pessoalmente, não me incomoda que o Estado mantenha um museu como o Museu Nacional de Arte Antiga - até agradeço (já me incomoda quando o mesmo Estado corre com uma directora que, dizem-me, estava a fazer um bom trabalho, apenas por esta ter dito algo que desagradou à pessoa que, por ocasião, ocupava o sofá do Ministério da Cultura). Mas incomoda-me, por exemplo, que o Estado mantenha apoios ao cinema; sobretudo a alguns cineastas e produtores em concreto, esquecendo tudo o resto; e sobretudo quando o cinema é das "artes" que, como a música, mais facilmente poderia passar muito bem sem andar de mão estendida. ** Quanto às restantes artes, dependerá da necessidade do Estado. Não havendo privados, como é costume não haver, bom, que remédio. Mas é bom que o Estado não se esqueça de que o país não se resume à faixa litoral Lisboa - Braga, com uma ou duas "ilhas" no interior.
#4 O problema é que os critérios nunca são transparentes. Seja quem for que esteja no poleiro.
#5 Das mesmas escolas sairão os "alternativos", suponho. De qualquer maneira, acho que se desvaloriza (no geral) o "Entretenimento/Comercial". É que acaba por ser exactamente essa vertente que torna possível tudo o resto.
#6 Não sei se impõe ou não. Acredito no que dizes, já que estás mais dentro da área do que eu. E acrescento: espero mesmo que não imponha.
john
* Shakespeare, aliás, é um excelente exemplo da degradação do ensino em Portugal. Falarei disso daqui a uns dias.
** Uma excepção: entendo que o Estado deve dar todo o apoio possível ao cinema se um filme incluir a Soraia Chaves.











