30.6.10

A Independência #9

Vamos então a isso, com números.

#1 Incorporar os "artistas" numa instituição (credo, isto soa mal) seria uma forma diferente de fazer a mesma coisa. Os propósitos de formação, porém, não me parecem maus.De qualquer maneira, o meu ponto aqui era apenas e só este: não são independentes. São, sim, uns sortudos. Adiante.

#2 É evidente que Shakespeare* é canónico. Repara que eu não questiono o cânone em si - eu questiono, sim, a incapacidade de o Estado não conseguir pensar fora dele; e dou mais importância ao gosto (à preferência) individual, por oposição ao cânone estabelecido e colectivamente aceite. Tenho dúvidas quanto à complexidade, pois uma obra mais complexa não é necessariamente melhor; aliás, diria que não será raro acontecer exactamente o contrário.
Se fores pensar num programa de Literatura Portuguesa para os três anos do Secundário, é evidente que há quatro autores que tens necessariamente de incluir: Gil Vicente, Camões, Eça, Pessoa. Os restantes? Depende. E mesmo que escolhas um, a obra escolhida pode não ser a mais indicada. Um exemplo: nos programas, Camilo aparece sempre representado por "Amor de Perdição", quando "A Queda Dum Anjo" é incomparavelmente melhor, mais interessante e até mais adequado. Nesta matéria, acredito que o ideal era os programas serem "liberais", dando oportunidade às escola de escolherem aquilo que os seus alunos estudariam, dentro de alguns limites. Mas estou a divagar, e isto é capaz de ser um bom tema para outro debate, um dia destes.

#3 De qualquer maneira, e pelo exemplo que dei acima, terás compreendido que, para mim, as escolhas de que falas deviam ser mais livres. Quanto ao apoio do Estado às "artes", bom, depende. Sinceramente: depende. Pessoalmente, não me incomoda que o Estado mantenha um museu como o Museu Nacional de Arte Antiga - até agradeço (já me incomoda quando o mesmo Estado corre com uma directora que, dizem-me, estava a fazer um bom trabalho, apenas por esta ter dito algo que desagradou à pessoa que, por ocasião, ocupava o sofá do Ministério da Cultura). Mas incomoda-me, por exemplo, que o Estado mantenha apoios ao cinema; sobretudo a alguns cineastas e produtores em concreto, esquecendo tudo o resto; e sobretudo quando o cinema é das "artes" que, como a música, mais facilmente poderia passar muito bem sem andar de mão estendida. ** Quanto às restantes artes, dependerá da necessidade do Estado. Não havendo privados, como é costume não haver, bom, que remédio. Mas é bom que o Estado não se esqueça de que o país não se resume à faixa litoral Lisboa - Braga, com uma ou duas "ilhas" no interior.

#4 O problema é que os critérios nunca são transparentes. Seja quem for que esteja no poleiro.

#5 Das mesmas escolas sairão os "alternativos", suponho. De qualquer maneira, acho que se desvaloriza (no geral) o "Entretenimento/Comercial". É que acaba por ser exactamente essa vertente que torna possível tudo o resto.

#6 Não sei se impõe ou não. Acredito no que dizes, já que estás mais dentro da área do que eu. E acrescento: espero mesmo que não imponha.

john

* Shakespeare, aliás, é um excelente exemplo da degradação do ensino em Portugal. Falarei disso daqui a uns dias.
** Uma excepção: entendo que o Estado deve dar todo o apoio possível ao cinema se um filme incluir a Soraia Chaves.

Os açoites

Afinal, foram os espanhóis a darem uns belos açoites aos portugueses; e não fosse estar lá o Eduardo para dizer "já chega" uma carrada de vezes, a coisa tinha ficado feia. Explicações? Perguntem ao Queirós. Quanto a mim, a seguir ao jogo decidi seguir em força a máxima "se não podes vencê-los, junta-te a eles". Não, não torço pela Espanha a partir de agora (sou alemão desde pequenino, toda a gente sabe isso), mas acabei a cerveja e fui passar o resto da noite a despejar imperiais num bar espanhol e a arruinar um Quiz.

john

A independência #8

João,

sempre achei que um debate à séria tem que ser numerado. E por cardinais. Por isso, aqui vai:

#1 Concedo que se tomando à letra o conceito de "independente", não se poderá aplicá-lo estritamente neste caso. Mas, o "independente" é aqui um qualificativo conceptual que designa: artista que é frequentemente apoiado financeiramente pela tutela para desenvolver trabalhos de criação mais-ou-menos reconhecidos como importantes pelo poder político vigente. É mais ou menos isso. Era justo chamá-los dependentes? Era. Mas é apenas uma questão de nomenclatura. Poder-se-ia chamar-lhes outra coisa. Optou-se por independentes, porque nada obriga que sejam apoiados de forma recorrente. Mas, para mim, não significa que não devam ser apoiados no seu trabalho de criação tout court. Aliás, para mim (como já disse), dever-se-ia incorporar estas pessoas numa instituição que os deixasse fora da categoria de subsidiados. Com um enquadramento de financiamento que poderia e deveria ter dinheiros públicos e privados, como acontece com todos os organismos do Ministério da Cultura - TNDMII/PT, TNSJ/REN, Teatro Viriato/BPI, TNSC/EDP&MillenniumBcp , Serralves/BPI etc.

#2 Porque julgo que é no seguinte que divergimos. A tutela obviamente faz considerações subjectivas quando opta por apoiar um artista e não apoiar outro. Isso é inevitável. Contudo, não vejo mal nenhum nisso. Aliás, o critério é, obviamente canónico (i.e. discutível, aceito) mas é perceptível por todos. Volto a dizer que é impossível justificar inequivocamente por que é que Shakespeare é mais "cultura" do que Um Violino no Telhado. Posso ensaiar uma: a complexidade da mensagem; o facto de Shakespeare questionar e existência humana e potenciar a racionalização individual sobre as questões fundamentais do ser humano; não se limitar a um mero entretenimento (nada condenável); e procurar estimular uma variedade de acepções e de visões com o objectivo de situar o indivíduo no mundo que o rodeia e na sua relação com os outros. Resumindo: apesar do entretenimento não ser cultura menor – que não é -, é-o de forma mais imediata e procura, menos, levantar questões ao espectador.

#3 E julgo que essa subjectividade fica mais-ou-menos protegida pela democraticidade do regime. Ora, apesar dessa subjectividade, não aceito que para combater isso se elimine o apoio estatal à criação cultural. Por mais subjectiva que seja. Desde que seja assumida, tem, para mim, tanta legitimidade como escolher manuais no ensino básico, secundário e superior. São escolhas. Mas isso não pode implicar a demissão do Estado no seu apoio. Nada é perfeito. Sendo a arte das escolhas, a Política também não o é.

#4 Obviamente que quando escolhes ler uma obra e não ler outra, estás no teu direito e isso só te vincula a ti. Certo. Mas, a meu ver, deve o Estado definir, com critérios transparentes, quais os criadores que apoia e continuar a fazê-lo. Não deve, uma vez que é difícil definir critérios de definição de "cultura", resolver esse problema não apoiando ninguém.

#5 Quando dizes que o Estado devia apoiar de tudo um pouco, isso é, na medida do possível, verdade. O Estado apoia Teatro de pendor comercial - dispenso-me de repetir o exemplo Rivoli. Para além de que o Estado apoia as escolas de formação de onde saem os criadores que fazem e farão esta vertente mais Entretenimento/Comercial. E isso também é dinheiro público.

#6 De facto, não é justo impormos as nossas escolhas individuais aos outros. Concordo. Mas quando a tutela financia um Teatro Nacional, um filme do João Botelho ou uma exposição de arte contemporânea está a fazê-lo porque entende que essa criação é um contributo cultural para o desenvolvimento da população. E, basta olhar para as programações dos Teatros ou os filmes subsidiados para ver que todos os géneros são apoiados. Desde o Manoel de Oliveira ao António Pedro Vasconcelos. O Estado não impõe género nenhum a ninguém.

jtf

29.6.10

A Independência #7

João: está certo. Mas, sendo assim, não há independência para ninguém. É esse o meu ponto.

Se o Teatro São João funciona muito bem com dinheiros públicos, fico contente (sem ironia), mesmo que dificilmente lá vá ver alguma coisa. O mesmo para o Teatro Viriato. Mas isso não invalida que, idealmente, a cultura devesse contar com mais apoios privados e menos públicos. No cinema, então, isso parece-me demasiado óbvio. Talvez seja utópico pensar que pudesse ser assim, estamos afinal muito longe do mundo perfeito. Isso eu também sei. Mas o João Botelho, a Margarida Gil ou o Fernando Matos Silva, mencionados nesta notícia, não são independentes, nem fazem cinema independente - vivem com os pais, passe a metáfora, e os pais pagam-lhes as bebedeiras. Cinema independente fizeram uns amigos meus lá em Odemira, que no ano passado estrearam lá no cinema da vila um filme escrito, realizado e produzido por eles, e cujos poucos apoios que conseguiu foram lá na zona. O resto saiu-lhes do corpo - e da carteira. Mais uma vez: não me venham falar em artistas independentes se os artistas, coitadinhos, vivem à custa do papá Estado. A independência tem um preço. Ou será que a malta que mencionei, tão boa e tão influente que é, não conseguiria arranjar por si apoios para fazer os seus filmes, colocá-los nas salas e convencer o público português de que são bons?

De resto, continuo a achar que na cultura, o orçamento público e as políticas culturais deviam ser regionais, ao invés de estarem centralizadas em Lisboa. E esse princípio aplica-se a imensas coisas, claro.

Mudando de assunto: é evidente que todos fazemos juízos de valor. Isso é naturalíssimo. Tal como a existência de cânones. Mas os cânones não se aplicam a toda a gente. Até porque, e esta será uma diferença muito importante, os cânones nada têm que ver com o gosto individual. É evidente que À Espera de Godot é uma obra mais complexa que A Gaiola das Loucas, e é evidente que, entre ver uma ou outra, eu nem hesito. Mas este juízo de valor vincula-me apenas e só a mim, e não tenho qualquer intenção - nem creio que fosse correcto - tornar esse juízo de valor universal, por força de lei. A verdade é que eu conheço muito mais gente que escolheria exactamente o oposto. Como conheço mais gente que prefere Miguel Sousa Tavares a Saramago, que gosta mais de ver o filme American Pie do que The Night of the Hunter, que gosta mais de ver a novela das dez da TVI do que a série Os Sopranos. E quem é que tem razão? Eu, porque tenho o cânone do meu lado? É que nem isso eu tenho: posso-te dizer com toda a seriedade, por exemplo, que considero Tolkien o maior e mais importante escritor do século XX, e este juízo de valor é tudo menos canónico. Quem tem razão, então? Eu ou quem diga que foi, sei lá, Saramago (que nada me diz), ou Vergílio Ferreira (que me diz muito), ou Hemingway, ou Kafka, ou Borges ou Beckett? Repara que mesmo fazer um programa escolar de literatura portuguesa será complexo e nunca consensual - é justo trocar-se A Aparição pelo Memorial do Convento? Qual é o critério? O Nobel? Isto é tudo tão discutível que, pessoalmente, considero sempre muito arriscado ser o Estado a decidir o que devem as pessoas ver no teatro ou no cinema, ou o que devem ler, ou de que artistas devem gostar. Se calhar o Estado deve apoiar de tudo um pouco? Talvez não deva apoiar coisa alguma? Se calhar deve apoiar a componente de formação apenas, para os mais jovens poderem aprender a, mais tarde, fazerem as suas próprias escolhas, e deixar as pessoas adultas decidirem aquilo que querem, mesmo que escolham o tal "lixo cultural"? Não sei. Eu sinto-me muito à vontade para, neste momento, estar a ler Dune em vez de, por exemplo, O Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas não tenciono impor isto a ninguém, nem acho que tal seria correcto. Cada um que veja o que quiser - eu decido o que quero ver, ou ler.

john

Nota: post algumas vezes editado. Vou parar agora, se não até ao final do dia já o re-escrevi todo.

A série da década

E sim, isto para mim é indiscutível:
O que deve fazer de mim um browncoat. E logo eu, que nunca sequer fui um trekkie, ou algo que lhe valha. Enfim, não há volta a dar: Firefly, de Joss Whedon (autor de Buffy The Vampire Slayer, Angel e Dollhouse) é a série televisiva da década. Tem o melhor do western, o melhor da ficção científica, diálogos inteligentes, personagens realmente interessantes, que apetece realmente conhecer. Tem também uma invulgar atenção ao detalhe, sem descurar o rigor - deve ser a única série sci-fi onde o espaço é realmente silencioso. E um elenco extraordinário (melhor ainda que o de Bones - o que é difícil). Pensar que a Fox rejeitou o episódio piloto original (vejam, é um espectáculo), transmitiu os episódios sem qualquer ordem ou nexo e cancelou a série quando esta ia no décimo-segundo episódio. O que faz com que Firefly seja não só a melhor série da década, mas provavelmente a melhor série cancelada de sempre. E poucas vezes se terá registado uma tão grande concentração de burrice numa emissora como na Fox de 2002, está visto.

E agora, com a vossa licença, vou ver a segunda temporada de House, e a primeira de Battlestar Galactica. Mas só depois de ver Portugal dar uns açoites à Espanha, logo à noite.

john

A independência #6

João,

muito provavelmente Mondrian pintaria com o dinheiro de um mecenas. Numa época em que o Estado não desempenhava as funções de formação que tem hoje, naturalmente o dinheiro viria de um mecenas. Mas isso apenas vem confirmar o meu ponto, que é o de que já nessa altura quem financiava achava que a criação artística era uma mais-valia social e/ou individual. Uma das duas, ou as duas em simultâneo. Logo, digna de apoio. É precisamente o que eu acho hoje.

Quando digo que o Porto é carente culturalmente, não estou a dizer que não há regiões que o sejam mais. Antes pelo contrário. Apenas estou a dar um exemplo contextualizado em que um Teatro (financiado e só assim) contribui para a afirmação cultural (digo cultural no sentido nerd, assumidamente) de uma cidade. Havendo regiões muito mais carentes (e obviamente que há), isso só vem ao encontro do meu argumentário. O Estado deve apoiar as manifestações artísticas que o sejam segundo uma definição (sempre discutível, mas clara e assumida), em todo o país e de forma a que a fome passe das novelas da tvi até chegar ao que verdadeiramente interessa.

Eu também acho que tudo são manifestações culturais e que é muito difícil definir o que é arte e o que é o lixo-comercial. É evidente que nessa afirmação estou a fazer juízos de valor. Mas, todos sabemos, que as definições não são assim tão discutíveis. Os cânones existem e são razoavelmente consistentes. Todos sabemos que o Beckett é mais complexo do que a Gaiola das Loucas - não me quero deter em exemplos concretos, mas no caso de La Feria estamos mesmo a falar de teatro mau, que extravasa da mera consideração de estilo. João, é claro que é difícil demonstrar cartesianamente por que razão um musical do La Feria é menos "cultura" que À Espera de Godot do Beckett. Agora isso não impede que todos saibamos que assim é. E, de facto, é. E eu entendo que o Estado tem a obrigação de subsidiar mais o Beckett do que o La Feria (admitindo a hipótese de que era competente no estilo musical, que não é). Aliás, não ser subsidiado não implica que não se seja apoiado, basta pensarmos de que forma o teatro Politeama lhe foi cedido, sem que ninguém saiba as condições. Para não falar na trafulhice que foi o RIvoli no Porto.

Por certo que teremos uma conversa muito interessante sobre o financiamento das Universidades. Também tenho algumas coisas a dizer sobre esse assunto. Mas neste contexto estou apenas a dizer que ninguém exige à Universidades que as propinas paguem os custos. E bem.

jtf

A independência #5

João,

não sei se Mondrian produzia com subsídios estatais. De qualquer maneira: eu também acho que o criador deve estar "solto" para fazer o que bem entender, e para chamar arte ao que quiser. Considero é ser discutível que o criador o faça às custas dos outros. E aqui volto à questão do mecenato, ou da falta dele.

Se o Porto é uma região carente de cultura, o que é o Alentejo? Ou o Algarve? Eu digo-te: são um deserto. O Mário Lino tinha razão nisso, mais até do que aquilo que ele próprio sabia. Como é um deserto cultural o resto do interior do país - se Viseu é uma excepção, e eu espero que seja, isso é muito bom, e espero que continue a melhorar. Mas é precisamente por isso que eu creio que o modelo de financiamento deve ser mais descentralizado, para que as várias regiões possam definir as suas próprias políticas culturais, se queres colocar a questão nesses termos. Muito francamente: os burocratas de Lisboa nada sabem do que se passa em Beja, em Faro, em Évora, na Guarda, em Castelo Branco ou em Bragança.

E quando falamos de políticas culturais, há que ter a noção de que essas políticas têm necessariamente que abranger, sem distinção, um My Fair Lady ou um À Espera de Godot. Podes considerar que um My Fair Lady é "lixo-comercial" - se concordo ou não, é irrelevante -, mas esse lixo comercial tem uma audiência muito grande. Podes dizer que é por ignorância, mas isso não explica tudo. Acima de tudo, é por gosto. E tens uma fatia considerável da população que já não será educada de forma alguma para gostar de algo diferente. Por isso, essas "políticas culturais" de que falas têm de estar orientadas para o futuro, e de apostar nas gerações que aí vêem (boa sorte). Mas estou curioso: com que critério é que se define o que é cultura e o que não é? Subsidia-se uma peça de Beckett mas não um musical do La Féria? Porquê? É preferível que as pessoas vejam o musical, ou que não vejam coisa alguma? Isto até me lembra uma discussão antiga, dos tempos de universidade: será preferível as pessoas lerem "lixo", ou não lerem de todo? Não sei. O que sei é que eu não teria o direito de dizer às pessoas o que elas deveriam ler ou ver, ou o que elas devem considerar "arte".

Idealmente, sim, seria bom que a cultura conseguisse viver - não apenas sobreviver - sem depender única e exclusivamente da generosidade forçada de todos nós. Seria óptimo que houvesse mais mecenato, mais instituições privadas a fornecer apoios, etc. Não temos tradição disso. Se consideras fundamental educar o público, por que não tentar mudar também as mentalidades nesta esfera?

Mas voltando ao ponto inicial: se um "artista" trabalha à custa dos subsídios do Estado, não é independente. Como eu, se viver com os meus pais e às custas deles, não sou independente, por mais dinheiro que tenha na carteira ou independentemente das horas a que posso chegar a casa. Na música, por exemplo, as bandas ditas independentes são aquelas que não se promoveram com uma grande produtora, mas optam por produzir e editar os seus próprios álbuns - ou optam por pequenas editoras independentes e alternativas, que, tanto quanto sei, têm visto o seu negócio a subir consideravelmente, enquanto os "gigantes" definham todos os dias. Tens músicos a promoverem-se exclusivamente online - se bem que é verdade que a música permite isto de forma bastante simples até, ao contrário de outras formas de expressão artística. O cinema, por exemplo, também consegue encontrar aqui o seu nicho, e posso dar-te óptimos exemplos de produções verdadeiramente independentes disponíveis no YouTube.

john

E por acaso até podes questionar o financiamento dos sistemas de ensino, sim. Isso ficará para outro dia.

A independência #4

João,

tens razão quando dizes que o objecto artístico tem sempre uma dimensão interpretativa discutível. E Pedro Cabrita Reis tem isso, de facto. Aliás, é na diversidade de interpretações que se cria um objecto dito artístico. A linha é muito ténue e eu acho que muito do que Pedro Cabrita Reis produz é, de facto (aqui está a negação do acordo ortográfico), arte. Por muito aparentemente simplista e, um-tanto-ou-quanto, surrealista que seja. Neste sentido, julgo indispensável deixar o criador solto de interpretações mais ou menos difusas e/ou impressionistas. Pensemos em Mondrian, João César Monteiro, Luiz Pacheco etc.

No entanto, temos um ponto de divergência total. A cultura não deve pagar-se a si própria. No dia em que o fizer, deixará de ser cultura e passará a ser lixo-comercial - não são necessariamente sinónimos. Nesse dia teremos os teatros cheios de My Fair Ladies e Gaiolas das Loucas, que levarão à loucura qualquer pessoa com o mínimo de noção do que é cultura. A política cultural tem que ser encarada como isso mesmo: Política. E nesse sentido não é razoável pensar que: ou se paga a si próprio ou então não deve ser subvencionado. Para mim esta ideia está profundamente errada. Como já disse, o orçamento que o MC distribui pelos Teatros Nacionais, Regionais, pelo cinema, pelo apoio à edição de novos autores e novos criadores musicais faz parte das funções de soberania do Estado - basta ler o artigo 79º da Constituição da República. Tal como é o ensino básico, secundário e superior. Até porque, como diz a lei que regula os Teatros Nacionais (agora EPEs) por exemplo, os teatros têm que garantir várias funções de formação de públicos. E esta função tem sido razoavelmente cumprida, basta olhar para o sucesso que o Teatro Viriato conseguiu numa cidade como Viseu. Para não falar do sucesso nacional e internacional do Teatro Nacional S. João como factor de afirmação cultural de uma cidade e de uma região tão carente de cultura como é o Porto. Os Teatros Nacionais têm, ainda, a função de desenvolvimento de um sem número de facetas técnico-artísticas que nunca seriam desenvolvidas se apenas se olhasse para a auto-sustentabilidade das representações. Falar de uma peça como "Turismo Infinito" ou "Castro" ambas Ricardo Pais/TNSJ e pensar que as receitas de bilheteira poderiam cobrir o custo das produções é tão utópico como pensar que conseguiremos pagar os custos da Universidade de Lisboa com as propinas dos alunos. E ninguém questiona o orçamento das Universidades, e bem. Para mim, é este precisamente o ponto. A verdadeira criação artística nunca será rentável porque, precisamente por tentar criar objectos cénicos a priori desconhecidos do público e tomados por complexos por este - representando repertórios clássicos, modernos e contemporâneos nas suas diversas variantes, os grandes clássicos e a defesa da Língua Portuguesa falada, como factor de afirmação cultural no exterior e, até, de exportação (volto a falar a este propósito do TNSJ, por exemplo) -, está aí a cumprir o seu papel de criação de públicos que tem que ser encarada como uma função basilar de um estado de direito democrático.

jtf

Auto avaliação

Se eu tivesse uma empresa e estivesse a recrutar trabalhadores, daria o emprego de caras - de caras mesmo - a quem tivesse tomates para, naquela parte das "competências sociais" dos currículos, se assumir como "egoísta", "individualista", "competente". É que hoje em dia toda a gente é "pró-activa", "criativa", gosta de "trabalhar em equipa", tem um "espírito dinâmico", e com todas estas qualidades está disposta a que lhe pagem uma merda de ordenado. Ah, a sinceridade é uma coisa tão bonita. Pena que esteja em desuso.

john

28.6.10

Boas-vindas

Queria dar as boas-vindas ao novo companheiro de blogue, o Henrique Albuquerque. O Henrique irá mostrar naturalmente por que razão eu acho que é o blogger galáctico. Isto é uma espécie de contratação do Mourinho dos blogues. Um grande abraço, Henrique.

jtf

O Aníbal #1

"Único líder partidário a conquistar duas maiorias absolutas consecutivas, o que o tornou no Primeiro-Ministro português que mais tempo permaneceu em funções em democracia (1985-1995), Cavaco Silva deixou, nos seus mandatos como governante, uma marca de determinação e firmeza na aplicação de um vasto conjunto de reformas estruturais, que promoveram a democratização e a liberalização da sociedade e da economia portuguesas." in site www.presidencia.pt

É curioso que o Primeiro-Ministro português que mais tempo permaneceu em funções em democracia, diga que o país está numa situação insustentável. Cavaco Silva deixou uma marca de determinação e firmeza na aplicação de um vasto conjunto de reformas estruturais, o que, pelos vistos, não evitou que Portugal esteja numa situação insustentável. Ah, e eu não aceito que um Presidente da República faça auto-elogios duvidosos e aldrabões no site da Presidência que, como sabem, não é o site do psd nem é o facebook do Aníbal.

jtf

Comentários, desacordo ortográfico, piaçaba, etc.

Uma mudança no Jardim: os comentários aos nossos posts estão abertos a todos, e não apenas quem tem contas Google. Não conto com hordas de trolls furiosos.

E outra mudança: o João (não eu - descansem que ainda não falo na terceira pessoa do singular) acrescentou ali em baixo "aqui não usamos o novo Acordo Ortográfico." E acrescentou muito bem. Da mesma forma que não usamos pontos de exclamação (por vezes lá sai um, mas com moderação) e que dizemos piaçaba, também não escrevemos com as regras do acordo ortográfico. É bonito ver o acordo ortográfico pertinho do piaçaba, pois como se sabe, o segundo serve para empurrar o primeiro. Pessoalmente, não tenciono fazer uso de tal coisa (do acordo, claro, que o piaçaba por vezes é necessário), e não é por ter alguma coisa contra o Brasil, que não tenho. É apenas por considerar o acordo ortográfico desnecessário e francamente idiota. Já debati o assunto várias vezes e com várias pessoas, com vários pontos de vista. Obviamente, sou contra. Vou poupar a discussão agora, recomendando a leitura deste texto, da autoria de Maria Regina Rocha e originalmente publicado no Diário do Alentejo. Está lá tudo.

john

A independência #3

João,

Mondrien é para mim mais ou menos consensual, como são a maioria dos movimentos artísticos até à chamada "arte moderna" - dadaísmo incluído. Na "pop art", gosto muito dos quadros de Warhol e, sobretudo, dos trabalhos de Roy Lietchenstein. Mas acho que um idiota cagar para uma lata e escrever no rótulo "merde d'artiste" é apenas e só isso: um idiota a cagar para dentro de uma lata. Não é arte, e a ser artista, o senhor apenas foi "artista" na mui portuguesa definição do termo (na do povo). Mesmo dando de barato que o idiota tenha tido o bom gosto de escrever em francês, pois o inglês "artist's shit" seria obviamente inferior. Como acho a "instalação" do Pedro Cabrita Reis (e a maioria das "instalações" em si; aliás, o próprio conceito de "instalação" é para mim um disparate) um simples pedaço de sucata. Se calhar nem pretendia ser outra coisa, não sei, nem estou minimamente interessado em analisar um monte de pneus pendurados em ferro. Como a arte - ou falta dela - não é nem poderá jamais ser um tema consensual, cada um traça a sua linha como quiser e onde bem entender. Portanto, a minha linha, eu traço-a aí - ainda que algumas pessoas, hoje e amanhã, me vejam como um retrógado. Mas, parafraseando um grande senhor do nosso país, "eu quero que as pessoas se fodam". Artisticamente falando, claro.

Voltando ao ponto. Para ser franco, eu até concordo com o que dizes. Talvez fosse importante ter um teatro nacional capaz de assegurar temporadas de ópera decentes. Será sem dúvida importante assegurar o funcionamento de museus como o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu dos Coches, etc. Talvez haja realmente projectos artísticos que valham a pena - dás o exemplo da Cornucópia, e eu acredito que o seja, apesar de pessoalmente o desconhecer. Mas, no limite, a cultura deve pagar-se a si mesma. De nada serve teres um óptimo teatro ou um óptimo museu se ninguém for ver a exposição ou as peças. Tal como não serve para rigorosamente nada estares a subsidiar - a pagar, mesmo - a produção de um filme que ninguém vai ver. Acho que há aqui dois problemas fundamentais. Um deles é a incapacidade genética dos portugueses para com o mecenato. Não temos mecenas neste país. Nem um tipo como o Berardo, como bem se sabe. Por isso, a "cultura" apenas é possível com apoios públicos, o que é errado. O outro será a educação. A verdade é que os portugueses gastam muito pouco do seu tempo a visitar um museu, a ir ao teatro para ver alguma coisa mais interessante que os musicais do La Féria (não desfazendo; muita gente me diz que ele é um produtor muito bom), a ver um filme mais sofisticado que o Desaparecido em Combate ou o Scary Movie 3, etc. Percebes certamente onde quero chegar.

Relativamente aos apoios, subsídios, patrocínios, enfim. A meu ver, a política de subsidiação mais correcta é regional. Ou seja, os habitantes de Lisboa pagariam as suas coisas, como os habitantes do Porto pagariam as suas, como os habitantes de Odemira pagariam as suas, etc. Claro que para isto ser possível seria porventura necessário alguma forma de regionalização, e uma muito maior autonomia regional (local?), sobretudo em matéria de impostos. Mas não me parece que isto fosse mau - bem pelo contrário. O que acontece agora é que a "cultura" existe em Lisboa, sobrevive no Porto e é uma miragem no resto do país. E já que a cultura tem de ser subsidiada, então não poderá ser beneficiada apenas num sítio quando todos pagamos para isso.

E em jeito de adenda: não, o Ministério da Educação é, na verdade, o Mistério da Educação. Porque da 5 de Outubro não sai "educação", mas merda, e como se sabe há muito tempo. Aliás, acho que a "escola moderna", a tal que não chumba alunos, está mais interessada em ensiná-los a bater pívias do que a conherem o alfabeto ou a tabuada.

john

A independência #2

Camarada, algumas ideias: i) Eu não sou contra a política do subsídio em geral. Há actividades artísticas que só assim conseguem adquirir a sustentação necessária para se tornarem projectos verdadeiramente sólidos; ii) No entanto, há projectos que já apresentam essa consistência e já não deveriam estar dependentes dos humores dos titulares do MC, quaisquer que eles sejam - é o caso da Cornucópia, por exemplo; iii) A razão da existência do Ministério da Cultura é, para mim, a mesma que justifica a existência do Ministério da Educação, do Ensino Superior, da Biblioteca Nacional ou dos Jerónimos. Enquanto não se encarar a cultura como objecto de promoção do país, não se fará nada desta terra. O orçamento que um Teatro Nacional tem para programar durante o ano, tem que se encarado como o investimento num hospital ou numa escola. E ainda não o é - infelizmente. iv) O facto de uma instalação ser constituída por pneus pendurados numa estrutura metálica nada me pode dizer sobre a sua relevância artística. Muito provavelmente, se olhássemos para os quadros do Mondrian antes de serem reconhecíveis, provavelmente diríamos que nada teriam de artístico. O aparente disparate do objecto de arte pode muito bem esconder a mais profunda e inovadora manifestação artística. E essa linha é muito difícil de definir. O Estado, por razões de educação e formação da população, não se pode demitir de financiar esses movimentos artísticos, porque isso representa, em último caso, a formação das pessoas. Representa, se se quiser, o mesmo do que ensinar o alfabeto.

jtf

25.6.10

A independência

Artistas independentes são quem mais vai sofrer com os cortes. Este é o título que o Público faz a propósito desta entrevista à ministra da Cultura. O que me faz alguma confusão é: um artista que viva à sombra do Ministério da Cultura - estrutura cuja existência tenho dúvidas de que faça sentido - pode ser considerado um artista "independente"?

john

Lobantunoholic.

Mesmo na mais profunda, apesar de aparente (sublinho aparente), rivalidade, há sempre pontos de coincidência. Há sempre. O Ano da Morte de Ricardo Reis. A Morte de Carlos Gardel.

jtf

Führer.

jtf

24.6.10

Proposta

Já que Teresa Venda e Maria do Rosário Carneiro querem mudar as feriados para a sexta ou segunda-feira - e alguns deles são comemorações de efemérides - proponho que mudemos os nossos aniversários para a sexta-feira também. Para podermos ir todos para o Bairro sempre que alguém faz anos.

jtf

23.6.10

Do atraso

Eu já sei que tenho tendência para andar atrasado. Em Novembro ouvi pela primeira vez Arcade Fire e, no momento em que a playlist saltou para a Wake Up, dei por mim a pensar como era possível eu ter ignorado aquela banda durante tanto tempo, sobretudo quando alguns dos meus melhores e mais próximos amigos já me tinham dito que aqueles canadianos eram mesmo muito bons. Esperei até ao início de 2010 para finalmente ver a trilogia original de Star Wars - e dei por mim a olhar para o écrã, abismado, a pensar como tinha sido possível fazer algo assim antes de eu ter nascido. Poderia dizer o mesmo, aliás, de Blade Runner (vi em 2007, quando a Final Cut apareceu nos cinemas) e de 2001: A Space Odyssey, que vi pela primeira vez no verão passado. E agora que estou a ler Dune, estou a pensar: por que carga de água não li eu isto antes? Já sabia que era um clássico do género, aclamado por praticamente toda a gente. Não, ainda não acabei de ler o livro - estou até bastante longe disso. Mas mesmo que o final me venha a desiludir (nunca se sabe): a passagem do jantar, do primeiro banquete social organizado pela familia Atreides no planeta Akarris, está entre as melhores coisas que já li na vida.

john

Como é que queriam que uma figura destas soubesse o que é a Literatura?


jtf

In modo di-verso.
















jtf

a aldeia.

É basicamente isto e isto.

jtf

Ajuda



jtf

Leitura para as próximas semanas:

Dizem-me que Dune está para a literatura de ficção científica como The Lord of the Rings está para a high fantasy. É o que vou descobrir agora, com o agradecimento à FNAC por, no meio da confusão que reina na secção de sf&f, permitir encontrar coisas destas a preços irresistíveis (e que até ao fim do mês não esgote a edição de 2001 - A Space Odyssey, de Arthur C. Clarke que lá estava por oito euros). 2010 pode muito bem ser um ano péssimo para o amor, mas será certamente um ano muito bom para eu ler algumas coisas que, como admirador de boa sci-fi, já devia ter lido. Como é evidente, as duas coisas até devem estar ligadas.

john

22.6.10

Ketchup.

"É como o ketchup. Quando aparece, aparece tudo de uma vez.", disse o Cristiano. Permitam-me apenas sublinhar a palavra tudo.

jtf

O humor negro

O Filipe Nunes Vicente diz que são "tristes trocadilhos" as piadas "que misturam o resultado de um jogo de futebol com a realidade norte-coreana". Tem razão, naturalmente; mas essa é uma forma de humor que, goste-se ou não, tem há muito pernas para andar. No fundo, essas piadas, obviamente fáceis, são muito idênticas às vagas de "humor negro" que as grandes catástrofes e tragédias tendem a alimentar. Os atentados de 11 de Setembro foram uma tragédia, e dele resultaram inúmeras piadas secas. Até a nossa tragédia de Entre-os-Rios teve a sua dose, para mencionar algo que nos é geograficamente (e porventura emocionalmente) mais próximo. São piadas de mau gosto? Sim, sem dúvida. Serão uma forma de "escarnecer dos abandonados"? É possível; mas o escárnio e o humor sempre andaram muito próximos. Já duvido é que sejam "cripto-racismo" (oi?) - a mim parecem-me algo bem mais simples .A verdade é que o humor não se quer apenas inteligente, como nos saudosos sketches dos Monty Python. Uma vez mais: goste-se ou não.

john

21.6.10

O ano da morte de José Saramago.

um país representado por vermes. um país onde o presidente da república não percebe o significado da cultura. um país onde o presidente da república não percebe a importância da língua, como único e mais alto valor desta terra. oito séculos. o nosso valor mais alto é o verbo. sempre foi. um país onde o presidente nada percebe de nada e com nada se alimenta e alimenta os que o rodeiam. nada percebe e nada perceberá. a vista cega-se-lhe perante o calhau que lhe cobre os ombros. que país este que não se representa perate o sucumbir do campeão do mundo que em prosa se e nos navega. um país onde nos excitamos em orgasmos embandeirados, e nenhum voo mais prosaico nos traz um qualquer silva que nos mereça respeito e se cubra de dignidade. envergonhar-me-ei sempre que se disser o seu nome. envergonhar-me-ei perante tal vilania. é baixo. é pequeno. perante tal cenário, nada mais me restará do que procurar outro lugar para viver. talvez um pedaço de terra em lanzarote. talvez.

jtf

17.6.10

Jorge Miranda #1

#1 Jorge Miranda acha inquestionável a inconstitucionalidade de impostos retroactivos. Verdade óbvia, e não é necessário ser o pai da constituição para saber que o filho tem braços e pernas. É óbvio. Agora, o problema não é esse. O problema é que a retroactividade deste aumento dos impostos é discutível. Levando à letra o que diz JM, um Governo Português ficaria limitadíssimo na sua política fiscal. A elasticidade da política fiscal tornaria o país ingovernável e a Constituição da República seria o maior obstáculo ao desenvolvimento. Ora, a determinação da política fiscal por parte de um Governo legítimo ficaria congelada num máximo de 12 meses e num mínimo de 1 dia, caso se publicasse a lei a 31 de Dezembro do ano em questão. E esta elasticidade é imprópria de um Estado governável.

#2 A questão matemática é absolutamente indiscutível. Se se taxa sete meses em mais 1%, taxar-se-á o rendimento anual no seu duodécimo. É matematicamente justo.

#3 Ainda sobre a inconstitucionalidade, numa visão mais rigorosa - e se é por aí que JM vai, iremos com ele - o apuramento dos impostos é feito no final de cada ano. Nesse momento - 31 de Dezembro de 2010 - a lei já estará em vigor há mais de 6 meses. Logo, nunca poderá ser retroactiva já que é aplicada num momento posterior à sua publicação.

jtf

9.6.10

A vergonha da moral

Cavaco Silva recebe duas pensões de reforma
Presidente da República recebe da Caixa Geral de Aposentações e do Fundo de Pensões do Banco de Portugal

A Presidência da República esclareceu esta terça-feira que o chefe de Estado recebe duas pensões de reforma em resultado dos descontos que efectuou ao longo da sua vida profissional e não aufere qualquer subvenção por cargos políticos anteriormente exercidos.

«O Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva recebe duas pensões de reforma em resultado, exclusivamente, dos descontos que, ao longo da sua vida profissional, efectuou para a Caixa Geral de Aposentações, como professor, e para o Fundo de Pensões do Banco de Portugal, como funcionário do Banco», lê-se numa nota informativa divulgada no site da Presidência da República.

Na nota é ainda referido que o Presidente da República «não recebe qualquer subvenção em resultado do exercício de cargos políticos».


A Vergonha da Moral. Não há moralidade. Nem comem todos. É assim. Com Caras-de-Pau se evoca a moralidade alheia. Assim é fácil. E incluir a designação Doutor num comunicado oficial é piroso. Muito.

jtf

8.6.10

Os pequenos sacanas

Gosto dos pequenos sacanas que este país produz e reproduz a uma velocidade irreproduzível pelo mais apto dos coelhos. Os pequenos sacanas são, como o nome indica, indivíduos muito pequeninos, apesar de por vezes até terem uma estatura considerável. Pequeninos de carácter, portanto. Ninguém sabe bem do que vivem - hoje em dia ninguém tem trabalho ou sequer emprego, e os pequenos sacanas estão sempre envolvidos em várias "actividades". Normalmente em lugares elevados. Eles gostam disso, os pequenos sacanas. Gostam de exibir o título, igualmente pequenino, debaixo do seu nome sempre que enviam uma mensagem de correio electrónico. Gostam do correio electrónico, os nossos pequenos sacanas. Permite resolver tudo sem grande maçada, sem olhar nos olhos a pessoa com quem falam, o que é muito conveniente: o excesso de bazófia não deixou muito espaço para a coragem. Escrevem longamente, com retórica esforçada e dicionário de sinónimos ao lado. O conteúdo é inexistente. É inútil, pensam eles, de sorriso sacana nos lábios, enquando processam no Outlook as vacuidades com que ganham a vida. E no fim, debaixo do nome, o títulozinho. Já não estamos na época dos condes, dos barões e dos duques, aristocráticos e por isso de alguma grandeza. Coisa velha, pensam os pequenos sacanas. Gostam mais de "administrador", "director" ou, melhor ainda, um título em sigla cujo significado ninguém conhece, ou um estrageirismo - normalmente do inglês, pois um título em inglês é sempre outra coisa.
Mas mais que dos títulos ou da vacuidade electrónica, os pequenos sacanas gostam de ter subordinados, outras pessoas em quem mandar, e que tenham obrigatoriamente de os ouvir. Falam como escrevem - longamente e sem conteúdo, com muitas adversativas, e a justificar as suas sempre boas intenções a cada três frases. Não dão ordens, pois são superiores hierárquicos modernos; dão "sugestões", fazem "pedidos". E quando esbarram numa recusa, têm sempre uma frasezinha, sarcástica e assassina, pronta a usar. Nunca reconhecem os seus erros - os pequenos sacanas são também mestres na arte de delegar tarefas. E responsabilidades. Sobretudo responsabilidades. Sendo necessariamente incompetentes, cometem erros. Muitos erros. Mas nunca a responsabilidade é deles. Há sempre alguém que sirva de bode expiatório. Há sempre alguém para culpar. E para queimar - um pequeno sacana que se preze tem sempre consigo um garrafão de gasolina e uma caixa de fósforos, não vá o diabo tecê-las.
E para melhor avaliar as situações em que se envolve, o pequeno sacana recorre à burocracia. Sim, o pequeno sacana é criatura burocrática: não vive sem o relatóriozinho, sem o documento, sem o "mail" - seja para disparar em alguma direcção, seja para simular um trabalho que nunca faz. Tem é de ser "tudo por escrito".
Disse no início do texto que gosto dos pequenos sacanas, mas a verdade é que os abomino como abomino muito poucas coisas. A simples visão de um deles enoja-me. Infelizmente, quis o destino que estivesse rodeado deles, de pequenos sacanas, chicos-espertos de trazer por casa, caricaturas incompetentes a quem eu não daria emprego nem a esfregar o chão da minha cozinha. Infelizmente, num país onde a mediocridade é a medida, os pequenos sacanas são como as ervas daninhas. São até piores. As ervas daninhas sempre se podem arrancar.

john

7.6.10

Como as coisas poderiam ser

4.6.10

O Poder #3

"O ex-ministro de Cavaco Silva defende o Presidente e lembra que, mesmo com o veto o único efeito seria atrasar a lei e nunca impedir a sua entrada em vigor, dado que a esquerda teria maioria no Parlamento para confirmar o diploma." citando Marques Mendes via Público.

Ora, é muito curioso, porque se o veto presidencial existe para ter efeitos práticos, isso é uma estupidez formal. Pela simples razão de que no caso da maioria parlamentar ser diferente da cor da presidência, não faz sentido sequer o veto existir potencialmente. Acresce que muito raramente - em Portugal nunca - a maioria parlamentar coincide com a orientação politico-partidária do PR. Logo: elimine-se o veto. Não me parece que nem Marques Mendes, nem Cavaco Silva (o tal guardião da Constituição) queiram a eliminação do veto como instrumento constitucional. Se existissem agências de rating para os desempenhos dos Presidentes da República, este teria Junk.

jtf

Genética

Francisco Anacleto Louçã, sobrinho de Ana Maria d'Orey Côrte-Real e Manso.

jtf

Uma questão de fruta

Construir uma mesquita no ground zero do 11/9 é, de facto, a melhor medida política de defesa externa protagonizada pelo Pentágono. Com uma mesquita lá, nenhum terrorista muçulmano arriscará atacar Alá. Com o Obama é mesmo outra fruta.

jtf

Portugal seria tão melhor #3

Portugal seria tão melhor sem o jornal Sol.

jtf

1.6.10

Provedor #1

Jornal de Negócios, 1 de Junho 18:20:
"Telefónica oferece 6,5 mil milhões pela Vivo
A Telefónica subiu a parada pela posição da PT na Telefónica para 6,5 mil milhões de euros, apurou o Negócios. O suficiente para a administração rever a sua posição."

Versão Correcta:
"Telefónica oferece 6,5 mil milhões pela Vivo
A Telefónica subiu a parada pela posição da PT na VIVO para 6,5 mil milhões de euros, apurou o Negócios. O suficiente para a administração rever a sua posição."

Parece uma insignificância. Mas o mundo vive de insignificâncias. E esta demonstra que quem escreveu isto não percebe o que se passa. E não percebe o básico.

jtf

Citação, I

She sat down on the edge of a table, her hands flat behind her, leaning back on two straight arms, swinging her legs slowly. She said:
"You know, Alvah, it would be terrible if I had a job I really wanted."
"Well, of all things! Well, of all fool things too say! What do you mean?"
"Just that. That it would be terrible to have a job I enjoyed and did not want to lose."
"Why?"
"Because I would have to depend on you - you're a wonderful person, Alvah, but not exactly inspiring, and I don't think it would be beautiful to cringe before a whip in your hand - oh, don't protest,it would be such a polite little whip, and that's what would make it uglier.I would have to depend on our boss Gail - he's a great man, I'm sure, only I'd just as soon never set eyes on him."
"Whatever gives you such a crazy attitude? When you know that Gail and I would do anything for you, and I personally..."
"It's not only that, Alvah. It's not you alone. If I found a job, a project, an idea or a person I wanted - I'd have to depend on the whole world. Everything has strings leading to everything else. We're all so tied together. We're all in a net, the net is waiting, and we're pushed into it by one single desire. You want a thing and it's precious to you. Do you know who is standing ready to tear it out of your hands? You can't know, it may be so involved and so far away, but someone is ready, and you're afraid of them all. And you cringe and you crawl and you beg and you accept them - just so they'll let you keep it. And look at whom you've come to accept."
"If I'm correct in gathering that you're criticizing mankind in general..."
"You know, it's such a peculiar thing - our idea of manking in general. We all have a sort of vague, glowing picture when we say that, something solemn, big and important. But actually all we know of is the people we meet in our lifetime. Look at them. DO you know any you'd feel big and solemn about? There's nothing but housewives haggling at pushcarts, drooling brats who write dirty words on the sidewalks, and druken debutantes. Or their spiritual equivalent. As a matter of fact, one can feel some respect for people when they suffer. They have a certain dignity. But have you ever looked at them when they're enjoying themselves? That's when you see the truth. Look at those who spend the money they've slaved for - at amusement parks and side shows. Look at those who're rich and have the whole world open to them. Observe what they pick out for enjoyment. Watch them in the smarter speak-easies. That's your mankind in general. I don't want to touch it."
"But hell! That's not the way to look at it. That's not the whole picture. There's some good in the worst of us. There's always a redeeming feature."
"So much the worse. Is it an inspiring sight to see a man commit a heroic gesture, and then learn that he goes to vaudeville shows for relaxation? Or see a man who's painted a magnificent canvas - and learn that he spends his time sleeping with every slut he meets?"
"What do you want? Perfection?"
"- or nothing. So, you see, I take the nothing."
"That doesn't make sense."
"I take the only desire one can permit oneself. Freedom, Alvah. Freedom."
"You call that freedom?"
"To ask nothing. To expect nothing. To depend on nothing."
"What if you found something you wanted?"
"I won't find it. I won't chose to see it. It would be a part of that lovely world of yours. I'd have to share it with all the rest of you - and I wouldn't. You know, I never open again any great book I've read and loved. It hurts me to think of the other eyes that have read it and of what they were. Things like that can't be shared. Not with people like that."
"Dominique, it's abnormal to feel so strongly about anything."
"That's the only way I can feel. Or not at all."

Ayn Rand, The Fountainhead