28.2.08

Óscares #2

Tal como para o João, é-me complicado fazer grandes comentários em relação aos óscares. Não só porque indesculpavelmente não vi muitos dos filmes nomeados, bem como porque tudo me parece tão suspeito que quase embarco naquela onda bem-portuguesa da "cabala". Apesar de me ter parecido mais pobre em show-off do que em anos anteriores (menos tempo de red carpet, countdown, etc), gostei da cerimónia. A performance de John Stewart esteve perto do muito bom (aquela piada à Angelina Jolie é soberba).
Destaco, desde logo, o óscar para Javier Bardem, cuja carreira já acompanhava e considero ser um dos melhores actores da sua geração. Soberbo tinha sido já em Mar Adentro encarnando Ramón Sampedro, e agora é sublime neste filme de contornos absolutamente épicos No Country for Old Men, dos inefáveis irmãos Cohen. É-me muito complicado não gostar de filmes que tenham nascido da cabeça de alguém que fez The Big Lebowski, mas julgo que Joel e Ethan Cohen superaram todas as minhas expectativas nesta última fita.
À semelhança da literatura, o título é talvez o peça mais importante do puzzle. Toda a avaliação do leitor pode depender dele e, no meu caso, não raras vezes fico saciado apenas com o título, já que se me torna claro que nele está contido todo o romance. No cinema passa-se irremediavelmente o mesmo, e neste caso nele estão condensados todos os fotogramas do filme. A fotografia é assombrosa, combinada por uma simples mas engenhosa velocidade narrativa só possível com doses maciças de genialidade nas veias. Pessoalmente, o que faz deste No Country for Old Men um filme épico é o regresso à essencia do cinema, utilizando até à exaustão as imagens para contar a história. Expurgando os diálogos ao mínimo indispensável e concentrando toda a tensão do enredo na sequência ritmada de imagens trabalhadas a bisturi.
Pela simples razão de ter visto apenas este filme (e mesmo este, depois da cerimónia), é-me impossível tecer considerações sérias sobre os restantes vencedores. Como vêem, muito me diferencia de Marcelo Rebelo de Sousa.

jtf

27.2.08

o basebogo

e agora os leitores do blog ficam a pensar: "basebogo? mas que raio? o que é que este imbecil vai inventar agora?" espero que muitos pensem isto, pois será sinal de uma boa audiência.
aviso à navegação: segue-se uma parede de texto. joão, disseste que eu me podia esticar, portanto . . .
adiante. a minha infância foi muito diferente da infância das crianças de hoje em dia. não tinha computador, ou consola, e dos meus amigos mais próximos, apenas dois tinham uma sega saturn. mas todos preferíamos conviver na rua, nos descampados, nas florestas, onde calhasse. a vantagem de crescer no campo, com poucos recursos, é que se estimula a imginação. certo, não é preciso imaginação para jogar à bola ou às escondidas. mas não havia um campo de futebol decente, e raramente apanhávamos uma bola digna desse nome, pelo que tínhamos de improvisar; e o nosso terreno para jogar às escondidas era uma aldeia inteira. para além disso, havia os carrinhos de rolamentos, a deslizar ruidosamente na minha antiga rua, que descia da igreja em direcção ao cemitério, e que não sendo muito inclinada tinha pouco trânsito, tornando-se assim perfeita para os nossos carrinhos improvisados com tábuas, paus de vassoura para eixos (sempre a partirem-se, e as nossas mães sempre a reclamar que faltavam vassouras em casa) e rodinhas de rolamentos. e, claro, havia também o basebogo.
breve explicação etimológica: "bogo" é um termo inventado, talvez na minha terra, que ordinariamente designa uma pedra. "base" lê-se do inglês, e é uma alusão ao desporto nacional dos americanos, o baseball. os filmes americanos sobre o baseball não permitem aprender as regras pelo que no antigo largo da feira de sabóia (descampado de terra batida nas traseiras da escola primária) nasceu uma nova modalidade. a fusão de base + bogo é facilmente explicável pelo facto de não termos uma bola de baseball, ou até tacos de baseball. logo, improvisávamos tacos com paus ou tábuas, e utilizávamos uma pedra (sim, uma pedra) como bola. cedo percebemos (curiosamente, sem feridos) de que uma pedra era potencialmente perigosa, e muito pouco aerodinâmica, pelo que testámos pinhas que os vários pinheiros do recinto da escola nos forneciam em abundância. mas é impossível prever a trajectória de uma pinha quando o taco lhe acerta. se ela estiver fechada, pesa mais, vai mais longe, e parte cabeças; se estiver aberta, uma tacada mais forte vai desfazê-la. alguém se lembrou de testar uma bola de golfe, mas apenas ficámos mesmo satisfeitos quando testámos uma bola de ténis. uma bola de ténis era perfeita - não aleijava muito se nos acertasse na cabeça (acreditem, sei do que falo), era aerodinâmica, leve, saltava e com uma boa tacada podia ir mesmo, mesmo longe. finalmente, um home run estava ao nosso alcance.
como jogar basebogo: com uma pedra grande, assinalávamos o centro do terreno (a olho, claro está). os jogadores (quantos mais, melhor) espalhavam-se de forma mais ou menos uniforme em redor da base central, a uma distância que nos parecesse apropriada para um lançamento de dificuldade razoável. cada jogador tinha, assim, uma base, também assinalada por uma pedra grande e por um pequeno buraco (normalmente escavado com o próprio taco).
sorteava-se um jogador para abandonar a sua base e ir ao centro, e ele teria que, no sentido dos ponteiros do relógio, atirar a bola para os jogadores que estavam nas respectivas bases. cada jogador podia falhar dois lançamentos - se falhasse o terceiro, ia ao centro, e o anterior lançador voltaria à sua base.
caso o jogador que estava na sua base acertasse na bola, o lançador teria de a ir buscar, independentemente da distância que ela fizesse, ou onde ela caísse - vi muitos bons meninos a irem buscar bolas a silvados. ora enquanto o lançador ia apanhar a bola, a restante canalha agarrava nos tacos, corria para a base individual do lançador e, com os tacos, escavava furiosamente um buraco. se entretanto o lançador apanhasse a bola e a conseguisse colocar no buraco da base de algum jogador, poderia voltar à sua base, e o outro jogador iria para o meio. para evitar que isto acontecesse, tínhamos de correr para as nossas bases e colocar a ponta do taco dentro do buraco.
se o lançador não conseguisse colocar a bola em nenhuma base, realizaria os três lançamentos ao jogador seguinte. e assim sucessivamente. os lançamentos tinham de ser feitos de maneira a que não fossem impossíveis - por outras palavras, quem estava ao meio tinha de nos colocar a bola a jeito e rezar pela nossa azelhice. o que, diga-se de passagem, acontecia frequentemente.
o jogo terminava quando nós entendêssemos que devia terminar, e perdia o jogador que, no final, tivesse a base mais escavada - ou seja, o buraco maior. escusado será dizer que, se as pedras que assinalavam as bases eram reutilizáveis, algumas bases jamais o poderiam ser.
das várias épocas como jogador de basebogo, posso orgulhar-me de vários home runs (um deles para o silvado, outro sobre o telhado da escola primária, e ambos nos deram cerca de 15 minutos de escavação), e de nunca ter perdido um jogo. não que não fosse azelha, porque o era; mas havia sempre alguém pior do que eu. para além do mais, o meu taco era o melhor disponível, visto ter perdido uma tarde inteira às voltas com as ferramentas do meu pai a esculpir um taco a partir de uma tábua. o meu pai deu uma ajudinha (leia-se ele fez o trabalho todo), e o resultado foi um taco leve, fácil de manusear e com a capacidade de dar umas belas pancadas na bola independentemente da minha força, que não era muita. infelizmente, nem todos tinham tacos bons e seguros como o meu, pelo que numa bela tarde de maio um certo taco (correcção: um pedaço gigante e disforme de madeira) soltou-se das mãos de um colega e voou num arco perfeito em direcção à cabeça de outro colega. o resultado foi muito sangue, uma visita ao centro de saúde de odemira, cinco pontos na nuca e o fim do basebogo em sabóia. sempre achei esta última parte um disparate, mas não podia jogar sozinho.
note-se que o jogador ferido sobreviveu, continua vivo e de boa saúde a viver em sabóia, e nunca precisou de acompanhamento especial, de terapia ou de psicólogo para superar o trauma. como disse no início, a minha infância nada teve que ver com as actuais infâncias, pelo que nós podíamos aleijar-nos sem consequências de maior.
e eis o maior texto que já publiquei num blogue. ena, sinto-me orgulhoso, sobretudo porque ninguém o vai ler até ao fim, hehe.
jc

25.2.08

the office na tugolândia

o meu dia de trabalho tem sido divertido. não pelo trabalho em si, mas por dois senhores que desde as primeiras horas da manhã têm travado uma árdua batalha com o sistema de campainhas e intercomunicadores do prédio. como a redacção onde trabalho é no rés-de-chão, calhou-nos a nós a sorte de sermos cobaias nos testes de comunicação da entrada do prédio. assim, os meus sobre green IT têm sido pautados por
- estás a ouvir-me?
- *não*
- estás agora?
- *sim, mas mal. fala mais alto!*
- (...)
para às cinco e vinte da tarde, mais coisa menos coisa, chegarem à brilhante conclusão:
- *não ouço nada*
- pá, temos de trazer outro equipamento para ouvir*
jc

o admirável mundo dos blogues

o mundo dos blogues é curioso. muito curioso. quatro anos passaram desde que por aqui comecei a deambular, e há padrões que ainda se mantém. afastando-me da esfera política (onde as coisas se passam de forma um pouco diferente), notei antes e continuo a notar que há uma fórmula fácil, muito fácil, para sem grande trabalho ter um blogue muito comentado e visitado. normalmente, resulta não se esforçar demasiado para escrever algo original, próprio, minimamente interessante ou até com respeito pelas normas gramaticais e ortográficas (a linguagem sms irá arruinar a linguagem escrita). debitar meia dúzia de lugares-comuns de fácil compreensão e de mensagem já bastante gasta puxa pelo comentário fácil. melhor ainda é recorrer à poesia. mas atenção: nada de escrever poesia. citar (ou antes, copy paste ou ctrl+c ctrl+v) poemas de outros, sobretudo se forem conhecidos, é fórmula de sucesso garantida. neste campo, quatro anos de bloga permitem-me afirmar, com um grau de certeza quase tão elevado como o vencedor das "eleições" em cuba, que florbela espanca e fernando pessoa estiveram, estão e estarão sempre na moda.
isto tem uma explicação. é muito mais fácil dizer banalidades a propósito de banalidades. é simples e rápido, sobre um soneto da florbela, dizer "sempre adorei esse poema", do que comentar um poema escrito do próprio autor do blogue.
conheço, claro, duas excepções a esta regra: a alice e a blueshell, que há algum tempo (a blueshell há vários anos) escrevem prosa e poesia próprias sempre com grande qualidade e, por aquilo que vejo, com muitas pageviews e comentários interessantes. tudo inteiramente merecido, se querem saber a minha opinião.
jc

óscares

é sempre difícil para mim tecer grandes considerações sobre os óscares. por vários motivos. o primeiro, nunca assisto à gala. o segundo, nunca vejo mais do que uma fracção dos filmes candidatos. em ambos os aspectos, este ano não foi excepção.
pessoalmente, o certame deste ano não merecia muito respeito, uma vez que ignorou o genial control para a categoria de melhor filme estrangeiro e esqueceu-se do papel genial de helena bohman carter em sweeney todd. ainda assim, confesso-me surpreendido por sweeney todd não ter ganho o óscar de melhor filme, ou (e) por johnny depp não ter sido reconhecido como melhor actor. quanto ao filme desilusão do ano, the golden compass, ganhou o único óscar que poderia ter ganho - efeitos especiais. o que foi uma pena.
jc

23.2.08

Auto-retrato #1



F.S.

21.2.08

as regras do jogo

ora parece que as discotecas querem passar a ser associações sem fins lucrativos (yeah, right). o objectivo: permitir aos seus clientes fumarem no interior, uma vez que a lei é omissa quanto a estas instituições.
quem tinha razão era o meu professor de filosofia do secundário - que me dizia que é sempre de grande utilidade conhecer bem as regras do jogo, porque só assim conseguiremos explorar as suas falhas e utilizá-las em proveito próprio. sem dúvida. a artimanha, porém, não pegou com os casinos. vamos ver como resulta aqui.
jc

a anotar:

daqui a dois dias, o blogue dos marretas faz cinco anos. eu sei que me vou esquecer no dia, portanto que fiquem aqui já registados os meus votos de parabéns ao blog que mais me faz rir desde que descobri a blogosfera (há coisa de quatro anos). espera-se festa rija!
jc

pastoral portuguesa

(...)
(...)
creio que este artigo (da qual o texto acima é uma breve citação) e este outro, sobre as letras que compõem os nomes dos principais candidatos presidenciais democratas, explicam porque alguns bloggers consideraram o pastoral portuguesa o melhor blogue português do ano passado.
leiam, que os textos são longos e proporcionam umas belas gargalhadas.
jc

19.2.08

e, joão,

eu sei que a introdução deste blogue diz "um blogue sobre a vida-curta", e que os meus textos saem invariavelmente longos. passo a explicar: quando era puto, quis ser praticamente todas as profissões possíveis de imaginar (excepto padre, go figure). e uma das mais recorrentes era pedreiro. coisas de crianças, enfim. mas pronto, eu queria ser pedreiro. e adorava brincar com legos. ora sucede que hoje, gosto de escrever; e quis o destino que não tivesse compleição física para a construção civil (uma pena, seria mais bem remunerado do que como jornalista). logo, impossibilitado de erguer paredes de tijolo e betão armado (e de conseguir um tacho no lobbie das construtoras), faço paredes de texto nos blogues.
no fundo, isto tudo deve-se a um desvio de vocações.
jc

é da praxe...

...dizer mal das praxes. o assunto tem vindo a ser falado, a espaços, na blogosfera. tradição retrógada, dizem uns. cultura de violência, dizem outros. citam-se os casos polémicos, que colocaram em causa a integridade física ou psicológica de alguns caloiros - casos que acabaram em tribunal, como deve ser num estado de direito.
antes de prosseguir, já que a prosa será longa, gostaria de desafiar os camaradas de blog a falarem sobre o assunto e sobre a sua experiência pessoal e opiniões.
pessoalmente: fui praxado no meu primeiro ano de universidade, e integrei a comissão de praxes da escola durante dois anos. sou, portanto, suspeito; mas antes de mais, importa esclarecer que fui praxado voluntariamente, e que ninguém praxado por mim o foi contra a sua vontade (apesar de confessar que convenci alguns mais relutantes - que posteriormente até me agradeceram). enquanto caloiro, nunca qualquer praxe atentou contra a minha integridade física ou psicológica, tal como nenhuma actividade foi sentida por mim como humilhante. da mesma forma, nenhuma praxe ordenada por mim atentou contra os caloiros de alguma forma - creio. nunca recebi uma queixa, durante ou após a "semana de praxe". o objectivo, meu e dos meus colegas de comissão, sempre passou pela "integração" dos novos alunos. podem dizer-me, com toda a legitimidade, que há outras formas de integrar quem chega ao mundo universitário. creio que sim, que deve haver. a minha, porém, resultou.
com isto, atenção, não pretendo de alguma forma dar a entender que todas as praxes são boas. porque não são. já me contaram muitas praxes às quais jamais me submeteria. já li sobre praxes violentas, estúpidas, retrógadas. mas convém lembrar um ponto importante: só é praxado quem quer. a praxe é voluntária, e creio que a consequência principal de alguém se recusar a ser praxado reside na impossibilidade de vir a praxar - o que faz todo o sentido. colocava-se em tempos a questão da integração, do afastamento dos colegas, das histórias de ostracização dos anti-praxes. esse fenómeno verifica-se, efectivamente, mas de uma forma indirecta, e diria até involuntária: se a maior parte dos novos alunos se submete à praxe, geram-se de forma mais rápida e fácil (é farra, afinal) ligações entre eles - e essas ligações são transpostas para a sala de aula, para as turmas, quando a farra acaba e o estudo começa (ou deve começar). e desse ponto de vista, os alunos anti-praxe saem efectivamente prejudicados, porque não conhecem os colegas ou porque há grupos já formados. mas não é líquido que assim seja - vai depender de cada aluno, individualmente.
mas a praxe, torno a lembrar, é sempre voluntária - tanto no momento em que se decide ser praxado ou não, como no momento de cada actividade individual de praxe. caso seja coagida, ou caso tenha consequências mais graves para o caloiro, há o recurso às instâncias de direito - à direcção da escola, que poderá sancionar o comportamento dos responsáveis; ou aos tribunais, como já aconteceu várias vezes. e como tem de acontecer. não me parece, portanto, justo da parte dos comentadores que, sempre que se lembram de falar do assunto, peguem nos mesmos casos; ou que seja justo da parte dos meios de comunicação social só falarem das praxes quando, para utilizar a designação correcta, estas dão merda (literalmente ou não). talvez não fosse má ideia darem um passeio pelas universidades e institutos politécnicos do país e falarem com os caloiros, e com aqueles que em tempos foram caloiros. talvez fosse interessante procurar compreender porque jovens adultos, com idade para pensarem pela sua cabeça, se submetem a estes rituais - e se foram obrigados, se estão a gostar ou se gostaram do que viveram. talvez fosse engraçado, para variar, falar de praxes que correm bem. é que é sempre politicamente correcto falar da barbárie que são as praxes, mas não me recordo de jamais terem sido ouvidos os seus principais intervenientes: os caloiros.

jc

autocarro político

nota matinal: eu e o francisco louçã apanhamos o mesmo autocarro. pena não ter reparado nisso esta manhã - chamaram-me a atenção para o facto. entrou na bracaamp.
até podia ir com o nosso primeiro, que mora ali à castilho. seria bonito ver a nossa classe política a passar o passe L e a debater os temas da assembleia entre o marquês e são bento.
jc

18.2.08

mas há no programa da maria elisa uma ironia curiosa

e perdoem-me o humor algo negro, mas não resisto. o programa de ontem foi sobre cheias. de madrugada, a chuva intensa provocou o caos em vários pontos do país, com mortes e tudo.
coincidência? em princípio sim, mas é melhor não arriscar. maria elisa, pela sua rica saúde, não faça nenhum programa sobre incêndios, terramotos, tsunamis, tornados, furacões ou atentados terroristas. o país agradece. mas em jeito de brincadeira, coloque num programa a possibilidade de o governo de josé sócrates cair. só para ver o que acontece.
jc

a minha terra tão linda

apareceu ontem na têvê, naquele novo programa da maria elisa. o tema de ontem era inundações, e como se sabe (e se não se sabe, passa a saber-se), o concelho de odemira foi particularmente devastado por as grandes inundações de cinco de novembro de 1997. no programa foram mostradas imagens da parte baixa da minha aldeia, sabóia, onde a água atingiu uma altura de 1,80m.

uma breve nota para terem uma noção do que realmente se passou no concelho de odemira nessa noite: na barragem de santa clara, a terceira maior do país (à altura a segunda, pois alqueva ainda não estava concluída), o nível da água subiu mais de quatro metros, colocando a barragem perto, muito perto do ponto em que simplesmente não consegue escoar mais água. foi algo absolutamente surreal.

mais interessante, porém, foi a presença do actual presidente da câmara de odemira, antónio camilo, no debate. à altura das inundações, camilo era vereador da oposição; e já há uns bons aninhos que é presidente (creio estar no terceiro mandato). camilo foi eleito pelo partido socialista, e tanto a nível partidário como pessoal, não colheu o meu voto. no entanto, esteve bem no debate ao mencionar o problema das limpezas dos leitos de cheias - e a falta de limpeza, à altura, foi um catalisador para as inundações.

no entanto, camilo esteve mal em alguns pontos. o primeiro, na questão do realojamento das pessoas afectadas. as cheias, repito, datam de novembro de 97, e só muito recentemente (não sei precisar a data concreta) é que as casas de realojamento ficaram concluídas no bairro novo de sabóia. nove ou dez anos depois, portanto. em segundo lugar, não falou do tempo absurdo que a autarquia levou a reparar devidamente a estrada que liga sabóia à aldeia da boavista (e, consequentemente, a odemira). em terceiro lugar, que me lembre (mas era novo na altura, posso estar em lapso), a maior parte dos trabalhos de recuperação, no dia a seguir, foram feitos pela população local - até porque a aldeia ficou isolada.

de resto, há uns anos houve uma reportagem muito interessante, creio que na sic, que dava conta de uns fundos atribuídos à câmara, julgo que pelo governo, para a recuperação das freguesias afectadas. os jornalistas apuraram que de um milhão e duzentos mil contos na moeda antiga, apenas tinham sido "utilizados" quatrocentos mil - sendo o paradeiro dos restantes oitocentos mill um mistério. foi realmente uma pena que não houvesse espaço para perguntas aos convidados do debate, e que não houvesse um jornalista para colocar estas questões a antónio camilo - eu teria todo o interesse em ouvir as respostas.

jc

adenda: esqueci-me de um pormenor importante. camilo falou dos leitos de cheia, mas creio que está para ser construído em odemira um bairro em pleno leito de cheia do rio. a coisa fala-se já há uns aninhos; tanto que quando eu estudava no secundário fiz até um trabalho para geografia sobre o tema.

adenda #2: um amigo recordou-me que, assim que foi possível, a câmara de odemira e os bombeiros voluntários enviaram para sabóia um tanque para fornecer água à população. no dia a seguir, portanto - foi a brevidade possível naquela situação de desastre

ao cuidado de barack obama e de alguns políticos nacionais

"esperança" e "mudança" não são programas políticos. nem políticas, sequer. sem fundamentação, ambas as palavras são apenas um soundbyte que fica bem na abertura de um noticiário ou na manchete de um jornal. na verdade, apelar à esperança e prometer mudanças funciona sempre como arma retórica num discurso, sobretudo em tempos de incerteza. em política, o cidadão comum tende a ficar pelo superficial, por o óbvio. e não raro, isso dá merda.
é muito fácil pedir aos eleitores para acreditarem. é muito fácil gritar palavras de ordem como "esperança". é extraordinariamente fácil afirmar que irá haver mudança. mas não temos qualquer controlo sobre a realidade. ela não muda porque alguém brada, do cimo do púlpito, que ela irá mudar. nos últimos três anos, o que mudou para melhor no nosso país? algumas coisas mudaram, sim, mas sempre com contrapartidas. não foram, nem serão, os milhares de computadores distribuídos pelo programa e-escola que nos vão tirar da iliteracia tecnológica - e a iniciativa, porém, é meritória. não é a "racionalização" das urgências, ou semi-urgências, que melhorou substancialmente os nossos cuidados de saúde - aposto que as urgências do hospital de santa maria continuam caóticas. e claro que não foram criados 150.000 empregos, e claro que os cartazes da juventude socialista a dizer que houve, no ano passado. não-sei-quantos milhares de licenciados a sair das universidades esconde que vários milhares desses licenciados simplesmente não consegue arranjar um emprego na sua área decentemente remunerado.
a mudança é uma coisa bonita. mas tem de ter um fundamento. tem de mostrar um caminho a seguir. metas contretas. planos de contigência. no paradigma actual, tem de ser ousada, entrar em ruptura com alguns paradigmas tão firmemente cristalizados. o que não acontece. a solução é sempre mais e mais estado, a mudança consiste em programas muito bonitos para o eurostat mas com fracos resultados reais. isto em portugal, claro. nos estados unidos, obama promete a mudança. como deverá ser ele o próximo residente da casa branca, veremos em que sentido se encaminhará a sua prometida "mudança".
jc

17.2.08

Micro-fone #3

14.2.08

14 de Fevereiro

14 de Fevereiro de 2008.
O dia em si nada me diz. Nada. Juras de amor, sorrisos dos comerciantes a contar as notinhas de euros, corações afixados aqui e ali, cor-de-rosa e encarnado pintando as montras de certos estabelecimentos, no fim de contas acontecimentos irrelevantes, mas que acabam por distrair as dioptrias das lentes dos meus óculos, já que nos olhos pouco confio. Não fosse este pequeno desvio na normalidade diária de Viseu e eu nem saberia que era S. Valentim. Porém, há uns anos para cá, um ritual neste dia começa a ser banalidade.
Isto porque ter uma irmã gémea tem muito que se lhe diga (se bem que de gémeos temos pouco, na barriga da minha mãe as coisas foram mal divididas, não houve imparcialidade, a quota que recebi de aspecto físico deixa muito a desejar quando se olha para mim e de seguida para a minha irmã). O que se passa, passando à frente pormenores da minha vida que a ninguém deve interessar, é que hoje o ritual celebrou-se novamente. Quatro e meia da tarde vou eu com a minha irmã, como um bom irmão levando-lhe as malas até à estação, Coimbra o destino dela. Pouco antes de lá chegar, na zona do fórum Viseu, um grupo de rapazes mais velhos que nós com ar de engraçadotes, e um deles vira-se, mirando as malas que eu levava nas mãos:
- Isso é que é uma prenda aí para a namorada!
Pela nona ou décima vez em pouco mais de dezoito anos passo por namorado da minha irmã. E atenção que eu não me queixo. O verdadeiro namorado dela é que não deve achar piada.
F.S.

12.2.08

Micro-fone #2

11.2.08

A brincar?

Foi com grande curiosidade que vi a notícia de oferta pública de aquisição (OPA, a menina bonita dos olhos de Belmiro de Azevedo) da Yahoo! por parte da Microsoft, no valor de 30 mil milhões de euros, mais coisa menos coisa e entretanto rejeitada. Pergunto, sabendo que há gente mais habilitada do que eu aqui no jardim para o dizer, o senhor Bill anda a brincar ao monopólio?

F.S.

liberais e conservadores

há por aí uma tremenda confusão sobre os conceitos de "liberal" e "conservador". sobretudo entre as pessoas das minhas idades. conheço muitos meninos e muitas meninas bem-pensantes que se afirmam como "liberais" - julgando, na sua inocência, que ser liberal é apoiar a interrupção voluntária da gravidez, a despenalização das drogas leves e outras causas nobres que fazem a agenda mediática (e do bloco de esquerda, já agora). e há aquela imagem indelével de que um "conservador" tem necessariamente de ser uma criatura retrógada, agarrado ao passado, com medo do "progresso", que luta para voltar a um tempo já ido.
sucede que ambas as ideias estão francamente erradas. ser-se liberal nada tem que ver com essas grandes causas. não li os grandes teóricos (ando em falta, isso está agendado), mas creio passar essencialmente por uma cultura de individualismo, de querer fazer a sua vida sem grande interferência externa (sobretudo do estado), de respeito para com as liberdades, de não pretender impor nenhuma "verdade" a ninguém. e não, isso não implica o relativismo que vivemos hoje em dia. já um conservador não é nenhum dinossauro. é, sim, alguém que preza uma certa ordem das coisas, alguns valores - e, no presente, alguém que vê os seus valores fundamentais ameaçados. é curioso como esses valores podem ser francamente liberais.
liberalismo e conservadorismo não são correntes opostas, por estranho que possa parecer. mas há aí pela blogosfera óptimos textos sobre o assunto, escritos por gente com muitos maiores conhecimentos teóricos (e práticos) do que eu. valem a pena, certamente.
jc

10.2.08

Micro-fone #1

9.2.08

estado da arte?

como nos últimos tempos não li nenhum livro recente, não assisti a nenhuma peça de teatro (a preguiça levar-me-à direitinho ao inferno), não ouvi nenhum disco recente (dediquei-me a descobrir e redescobrir bandas antigas, como os smiths), e não segui nenhuma série televisiva digna de registo (nem comprei nenhuma em dvd), creio que o meu estado da arte fica por o seguinte:

pelos filmes control (o melhor preto-e-branco desde a lista de schindler na biopic de ian curtis, o malogrado vocalista dos joy division) e death proof (um tarantino menor, dizem alguns; mas as palavras "tarantino" e "menor" não fazem sentido na mesma frase).

pelos livros the snow queen, world's end, the summer queen e tangled up in blue, que juntos fazem uma genial saga de ficção científica escrita pela americana joan d. vinge (reli-os todos).

pelo concerto acústico (e gratuito) dos nouvelle vague no casino de lisboa, e pela actuação dos white stripes no festival oeiras alive (foram melhores que os recém-retornados smashing pumpkins). continuo à espera que os muse e os radiohead voltem.

pelo álbum in rainbows, dos radiohead. ainda não o ouvi, mas deu pancada na indústria discográfica e pode marcar um ponto de viragem na forma como as bandas vendem as suas músicas, o que será sempre de louvar.

pelo videojogo world of warcraft e pelos blogues, que substituíram definitivamente a necessidade de ver televisão (a menos que seja para adormecer no sofá).

e chega.

jc

um gajo tem de sair do país para serem publicadas coisas destas nos blogues

o henrique burnay fala aqui de sabóia, a minha santa terrinha natal, no 31 da armada. o facto de haver quem, neste fantástico mundo dos blogues, saiba onde raio fica sabóia, e mais até: haver quem, aqui na vizinhança blogosférica, conheça e visite a aldeia, foi a maior surpresa que tive durante os meus três dias... em barcelona.

jc

8.2.08

O estado da Arte #2

Livros
****
Jerusalém, Gonçalo M. Tavares
Discos
****
Oh, Inverted World, The Shins
Séries
****
Grey's Anatomy Serie 4

Filmes
*****
Me and You and Everyone We Know, Miranda July
Teatro
*****
Turismo Infinito, Ricardo Pais


jtf

7.2.08

os espanhóis lêem mais depressa

em lisboa, temos o jornal diário gratuito "meia hora". em barcelona, há o "20 minutos".

3.2.08

O homem dos mil dedos


A primeira vez que vi uma actuação de Carlos Paredes na televisão, tinha eu onze, doze anos. Fiquei completamente perplexo . Aquelas mãos inquietas dedilhando imensamente a guitarra portuguesa, o roçar dos dedos perfilando os acordes, foi das coisas mais comoventes que vi no mundo da música. A simbiose descomunal entre ser vivo e objecto fascinou-me, a maneira como ele acariciava a guitarra e a maneira como ela respondia. Hoje, quando relembro algumas das suas composições, apesar de conhecer superficialmente a sua obra, parece-me que até o silêncio se arrepia.

O seu amor pela guitarra era tanto que referia muitas vezes:

"Quando eu morrer, morre a guitarra também. O meu pai dizia que, quando morresse, queria que lhe partissem a guitarra e a enterrassem com ele. Eu desejaria fazer o mesmo. Se eu tiver de morrer, morrerá comigo a minha guitarra".


Na próxima quinta-feira - 7 de Fevereiro, a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) homenageia-o com a exposição "Carlos Paredes guitarra com génio". A exposição está disponível de segunda a sexta-feira, das 9 às 19 horas, até 28 de Março e a entrada é livre.


Carlos Paredes - Verdes Anos


F.S.

1.2.08

a dúvida da maçã

pergunta geek que surgiu numa pausa para cigarro: se o steve jobs, da apple, se soltar, chama-se a isso um iPeido?

ingenuidade

no canadá, planeia-se legislar no sentido de proibir fumar ao ara livre. no reino unido, proibem-se os aquecedores de exteriores que tantos proprietários de restaurantes, cafés e bares instalaram, pela sua própria iniciativa (e bolso), para proporcionarem algum conforto aos clientes que recusam deixar de fumar e se tornam frequentadores de esplanadas, independentemente do frio (e sim, custa fumar no exterior quando lá fora estão -12º). quem foi mesmo a última pessoa que me disse que a legislação sobre o tabaco visava apenas proteger os não-fumadores em espaços fechados abertos ao público?
a ingenuidade é tão bonita como triste.
jc