e agora os leitores do blog ficam a pensar: "basebogo? mas que raio? o que é que este imbecil vai inventar agora?" espero que muitos pensem isto, pois será sinal de uma boa audiência.
aviso à navegação: segue-se uma parede de texto. joão, disseste que eu me podia esticar, portanto . . .
adiante. a minha infância foi muito diferente da infância das crianças de hoje em dia. não tinha computador, ou consola, e dos meus amigos mais próximos, apenas dois tinham uma sega saturn. mas todos preferíamos conviver na rua, nos descampados, nas florestas, onde calhasse. a vantagem de crescer no campo, com poucos recursos, é que se estimula a imginação. certo, não é preciso imaginação para jogar à bola ou às escondidas. mas não havia um campo de futebol decente, e raramente apanhávamos uma bola digna desse nome, pelo que tínhamos de improvisar; e o nosso terreno para jogar às escondidas era uma aldeia inteira. para além disso, havia os carrinhos de rolamentos, a deslizar ruidosamente na minha antiga rua, que descia da igreja em direcção ao cemitério, e que não sendo muito inclinada tinha pouco trânsito, tornando-se assim perfeita para os nossos carrinhos improvisados com tábuas, paus de vassoura para eixos (sempre a partirem-se, e as nossas mães sempre a reclamar que faltavam vassouras em casa) e rodinhas de rolamentos. e, claro, havia também o basebogo.
breve explicação etimológica: "bogo" é um termo inventado, talvez na minha terra, que ordinariamente designa uma pedra. "base" lê-se do inglês, e é uma alusão ao desporto nacional dos americanos, o baseball. os filmes americanos sobre o baseball não permitem aprender as regras pelo que no antigo largo da feira de sabóia (descampado de terra batida nas traseiras da escola primária) nasceu uma nova modalidade. a fusão de base + bogo é facilmente explicável pelo facto de não termos uma bola de baseball, ou até tacos de baseball. logo, improvisávamos tacos com paus ou tábuas, e utilizávamos uma pedra (sim, uma pedra) como bola. cedo percebemos (curiosamente, sem feridos) de que uma pedra era potencialmente perigosa, e muito pouco aerodinâmica, pelo que testámos pinhas que os vários pinheiros do recinto da escola nos forneciam em abundância. mas é impossível prever a trajectória de uma pinha quando o taco lhe acerta. se ela estiver fechada, pesa mais, vai mais longe, e parte cabeças; se estiver aberta, uma tacada mais forte vai desfazê-la. alguém se lembrou de testar uma bola de golfe, mas apenas ficámos mesmo satisfeitos quando testámos uma bola de ténis. uma bola de ténis era perfeita - não aleijava muito se nos acertasse na cabeça (acreditem, sei do que falo), era aerodinâmica, leve, saltava e com uma boa tacada podia ir mesmo, mesmo longe. finalmente, um home run estava ao nosso alcance.
como jogar basebogo: com uma pedra grande, assinalávamos o centro do terreno (a olho, claro está). os jogadores (quantos mais, melhor) espalhavam-se de forma mais ou menos uniforme em redor da base central, a uma distância que nos parecesse apropriada para um lançamento de dificuldade razoável. cada jogador tinha, assim, uma base, também assinalada por uma pedra grande e por um pequeno buraco (normalmente escavado com o próprio taco).
sorteava-se um jogador para abandonar a sua base e ir ao centro, e ele teria que, no sentido dos ponteiros do relógio, atirar a bola para os jogadores que estavam nas respectivas bases. cada jogador podia falhar dois lançamentos - se falhasse o terceiro, ia ao centro, e o anterior lançador voltaria à sua base.
caso o jogador que estava na sua base acertasse na bola, o lançador teria de a ir buscar, independentemente da distância que ela fizesse, ou onde ela caísse - vi muitos bons meninos a irem buscar bolas a silvados. ora enquanto o lançador ia apanhar a bola, a restante canalha agarrava nos tacos, corria para a base individual do lançador e, com os tacos, escavava furiosamente um buraco. se entretanto o lançador apanhasse a bola e a conseguisse colocar no buraco da base de algum jogador, poderia voltar à sua base, e o outro jogador iria para o meio. para evitar que isto acontecesse, tínhamos de correr para as nossas bases e colocar a ponta do taco dentro do buraco.
se o lançador não conseguisse colocar a bola em nenhuma base, realizaria os três lançamentos ao jogador seguinte. e assim sucessivamente. os lançamentos tinham de ser feitos de maneira a que não fossem impossíveis - por outras palavras, quem estava ao meio tinha de nos colocar a bola a jeito e rezar pela nossa azelhice. o que, diga-se de passagem, acontecia frequentemente.
o jogo terminava quando nós entendêssemos que devia terminar, e perdia o jogador que, no final, tivesse a base mais escavada - ou seja, o buraco maior. escusado será dizer que, se as pedras que assinalavam as bases eram reutilizáveis, algumas bases jamais o poderiam ser.
das várias épocas como jogador de basebogo, posso orgulhar-me de vários home runs (um deles para o silvado, outro sobre o telhado da escola primária, e ambos nos deram cerca de 15 minutos de escavação), e de nunca ter perdido um jogo. não que não fosse azelha, porque o era; mas havia sempre alguém pior do que eu. para além do mais, o meu taco era o melhor disponível, visto ter perdido uma tarde inteira às voltas com as ferramentas do meu pai a esculpir um taco a partir de uma tábua. o meu pai deu uma ajudinha (leia-se ele fez o trabalho todo), e o resultado foi um taco leve, fácil de manusear e com a capacidade de dar umas belas pancadas na bola independentemente da minha força, que não era muita. infelizmente, nem todos tinham tacos bons e seguros como o meu, pelo que numa bela tarde de maio um certo taco (correcção: um pedaço gigante e disforme de madeira) soltou-se das mãos de um colega e voou num arco perfeito em direcção à cabeça de outro colega. o resultado foi muito sangue, uma visita ao centro de saúde de odemira, cinco pontos na nuca e o fim do basebogo em sabóia. sempre achei esta última parte um disparate, mas não podia jogar sozinho.
note-se que o jogador ferido sobreviveu, continua vivo e de boa saúde a viver em sabóia, e nunca precisou de acompanhamento especial, de terapia ou de psicólogo para superar o trauma. como disse no início, a minha infância nada teve que ver com as actuais infâncias, pelo que nós podíamos aleijar-nos sem consequências de maior.
e eis o maior texto que já publiquei num blogue. ena, sinto-me orgulhoso, sobretudo porque ninguém o vai ler até ao fim, hehe.
jc