29.11.09

espelhos e reflexos #31

Há dias, sem que o pudesse prever, nem mesmo na maior das aleatoriedades meteorológicas, estive ao lado da origem de propagação de uma quase revolução. A boca de um senhor de sessenta e poucos anos era o epicentro e o seu coração – muito mais do que qualquer córtex cerebral ou qualquer outro compartimento encefálico – era o danado hipocentro. É sabido que, em tempo de eleições, as estribeiras levam-nos o raciocínio: mais que a retórica, assola-nos a manipulação, enxurradas de promessas do deus-dará e tudo que aquilo que, em tempo normal de pasmaceira nacional, é considerado exagero. O senhor apanhou-me na sua suposta teia argumentativa estava eu para chegar à estação de São Bento. Distribuía uns panfletos. Eu parei na passadeira em frente à estação, perante o sinal vermelho. Foi o meu mal. Começou, em surdina:
- Ó jovem, costumas votar? – dando-me um dos panfletos.
- Sim – retribuí.
- Muito bem. Conheces o PCTP/MRPP?
- Muito vagamente. Conheço o seu candidato Garcia Pereira e pouco mais.
Se a minha ignorância fizesse o seu papel da ocasião – desinteressando o homem da minha limitada visão política, juntamente com a passagem do sinal a verde - eu seguiria a minha vida a bom termo. Porém, o homem, impulsionado por horas e horas a ser ignorado enquanto partilhava panfletos e ideias de algibeira que mais ninguém aturava, entusiasmou-se. Começou, portanto, a dar a missa. Não tardei a ouvir inflamadas palavras sobre a sociedade, a economia, a saúde, as leis, a meio já evocava a revolução de Abril e o PREC. Uma barafunda.
À quinta vez que o sinal mudou para verde, esquivei-me com a pouca arte de terminar conversas:
- Desculpe, mas tenho de me ir embora, tenho um comboio para apanhar.
E corri feito uma gazela pela passadeira, chegando ao outro lado e não me atrevendo a olhar para trás. O homem permanecia exaltado, invectivando à revolta, ecoando pelos ares:
- Ó amigo, esta merda só lá vai com uma nova revolução, oiça o que lhe digo.
Apanhei o comboio. Chegado a casa, procurei pelos canais de televisão, pela rádio, pela internet. Não surgiam notícias de uma nova revolução. Afinal, se nascem coxas, dificilmente poderão marchar. Pobre do homem que não pôde prever a minha ataraxia.




fs

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Então até logo,

Que eu, com a gripe curada (espero), vou ver estes rapazes ali para os lados da Expo.

E será hoje que eles tocam a Showbiz?

john

27.11.09

Surpresa

É muito curioso pensar da forma como o João pensa sobre a evolução que a forma escrita teve nos últimos anos, sobretudo na internet. Muito daquilo que se escreve pela blogoesfera mais não é do que um exercício criativo-sintático do resumo como instituição. Nomeadamente resumos de ideias. Aquela coisa de poupar caracteres vem desde o exame de Português. E vem de forma triste. Porque a imposição de limites à escrita é limitativa do pensamento em cascata, esse sim saudável. Todos nós vivemos durante anos com o estigma de só poder responder em x linhas ou em x palavras. É ridículo. E mais do que isso, é deseducativo. Não se surpreendam se os miúdos comam letras, ditongos. Não se surpreendam que não consigam expressar o que pensam. Não se surpreendam que não consigam pensar sobre nada. Muito menos o consigam expressar correctamente. Não se surpreendam.

jtf

26.11.09

A gripe (II)

Gente como nós continuará sempre entregue aos bichos, dizes-me. Como nós queres dizer deslocados. Pois é, parece que não temos mesmo alternativa. Isto porque é possível um centro de saúde recusar atendimento - aconteceu mais uma vez. Sim, explicou-me a senhora da recepção do centro de saúde aqui da Ajuda, é possível fazer uma inscrição temporária no centro de saúde, mas essa inscrição não dá direito a atendimento médico: só a vacinação, caso seja necessário. Se quiser atendimento médico, tenho de eu mesmo tomar a iniciativa de mover todo o meu historial clínico de Odemira para onde quer que eu viva em Lisboa. Dito de outra forma, o Cartão do Cidadão revela-se em todo o esplendor da sua inutilidade. Mas então não há atendimento esporádico, como me disseram em São José da última vez? Só aos sábados.

Ou seja, tenho de adoecer a um sábado se quiser atendimento aqui na Ajuda. Um aviso ao meu corpo. Entretanto rendo-me, e assim que tiver tempo moverei todo o meu historial clínico, mais o caralho que o foda, mas continuo a achar que nós não temos um sistema nacional de saúde. Temos uma antecâmara de tortura.

Amiga estrangeira, de um reino civilizado no Norte, não compreende como é possível recusarem atendimento médico. Pergunta se tenho gripe A, e recomenda que compre uma caixa de tamiflu. Digo-lhe que não posso comprar assim, que tenho de ter receita médica. Que atraso de vida, responde-me, aqui qualquer pessoa com sintomas de gripe pode e deve comprar o medicamento. Como disse, a minha querida amiga vive num país civilizado, ou, se quiserem, num país. Não num chiqueiro.

john

25.11.09

A gripe (I)

Acabo de medir a febre. Tenho um termómetro hi-tech: digital, com um mostrador redondo que, após medição, mostra luz verde se o resultado não for febre, e vermelha caso esteja febril. Acabou de me mostrar uma bela luz verde: 37,3º. Esta noite, o termómetro já marcou praticamente todos os valores possíveis entre 36,6º e 37,9º, valor este que já dá direito a um mostrador iluminado em vermelho. Agora percebo quão útil seria uma conta no Twitter:

Termómetro no vermelho: 37,7º. At 22:05
@mãe: Sim, já fui ao hospital. Agora é esperar pela hora dos medicamentos. At 22:07
O SNS é uma bela merda. Ainda me fazem ir doente a Odemira arranjar um atestado. Puta que os pariu. At 22:16
@mãe: Não, mãe, ainda não tirei novamente a febre. At 22:19
@mãe: Sim, ainda falta tempo para o comprimido. At 22:22
Termómetro no verde: 37,1º. At 22:35
@mana: Tu já me viste a puta da sorte? At 22:40
@mãe: Não, já não tenho febre. At 22:44
@mãe: Sim, baixou. At 22:45
@mãe: Não, não vou para o Alentejo. Era o que faltava. At 22:47
@mana: Importas-te de dizer à mãe que eu não estou em condições para me meter num comboio ou o caralho? At 22:53
Termómetro no verde: 36,9º. At 22:55
@colega de casa: Nem te passa pela cabeça, a médica que me fez a triagem era tão tão boa... quase fiquei curado só de olhar para ela. At 23:01
@mana: Ao menos em Santa Maria só demorei uma hora... mas sim, continuo sem febre.
@colega de casa: E as gajas da farmácia do hospital? Ó deuses. Aquilo sim é serviço nacional de saúde. At 23: 10
Termómetro no vermelho: 37,7º. At 23:15
@ex-namorada: Não, não preciso que venhas para aqui, mas é simpático da tua parte. At 23:17
@colega de casa: Eras um fixe se me fizesses uma canja. At 23:22
@mãe: Mais uma vez: não vou para o Alentejo. Quatro horas em transportes e isto vai correr muito mal. At 23:26
Alguém sabe como raio consigo uma baixa médica neste maldito país? At 23:30
Termómetro no verde: 37,1º. At 23:35.
(...)


john

24.11.09

Women and children first

Tenho cá para mim que, nesta (excelente) lista, o Lourenço se esqueceu de uma coisa intitulada Kid A* que, só por acaso, inclui a música da década, como podem os caros leitores confirmar no vídeo que se segue.


john

*, ** a menos que 2000 se inclua ainda na década passada. De qualquer maneira, nesse caso entrava o Amnesiac, ou o Hail to the Thief, ou o In Rainbows.

Da incompetência

Regra geral, aos incompetentes sobram apenas dois recursos, os quais, não raro, utilizam com interessante competência. Um deles é a capacidade que frequentemente revelam de se proteger nas hierarquias - ou, na gíria, de ter as costas quentes. A "cunha", essa instituição nacional, é causa e efeito desta capacidade. O outro recurso dos incompetentes é a prepotência e a arrogância no trato com quem julgam ser a si inferior, com quem questiona o seu trabalho por ele estar manifestamente mal feito, ou, mais simplesmente, com quem lhes coloca questões às quais tinham de dar resposta, mas não conseguem (por incompetência, lá está).

Outro traço interessante do incompetente é, por norma, ser incapaz de demonstrar qualquer brio profissional. Dito de outra forma, não interessa ao incompetente apresentar um trabalho bem feito. Normalmente, e ainda que as suas falhas possam ser questionadas pela sua hierarquia, o seu lugar nunca é colocado em causa (porque tem alguém que o protege). Neste campo, o que interessa ao incompetente é apresentar o trabalho suficiente que lhe permita manter a sua "imunidade". Também dá sempre muito jeito ao incompetente ter por perto um bode expiatório, ou seja, alguém que possa responsabilizar pelas falhas do seu trabalho - e alguém cuja cabeça possa rolar caso as falhas sejam realmente graves (já que a sua cabeça convém não rolar).

23.11.09

Parecia Aljubarrota

Nada me move contra Espanha, ou contra o simpático povo espanhol. Bem pelo contrário: tenho muito boas recordações das noites que passei em Barcelona e sobretudo em Madrid (o restaurante de tapas onde o meu amigo David, madrileno de gema mas galego de coração, me levou era o máximo). Há, no entanto, uma rivalidade histórica entre nós e o povo espanhol, e creio que até é saudável manter esse sentimento. Por isso, e porque é sempre bom recriar as muitas batalhas históricas que travámos com nuestros hermanos, gostei muito de ver os Black Towers, equipa da Galiza, vir a Lisboa levar uns expressivos 50-6 no campo dos Lisboa Navigators, em jogo a contar para o nosso campeonato de futebol americano. Deu para tudo, até para os defesas fazerem touchdown. Se a minha fotógrafa de serviço o permitir (sim, menina, isto é um pedido, que eu sei que lês o blogue), pode ser que arranje umas fotografias para ilustrar a batalha.

john

Agradecimento

ao Pedro Correia, que pela segunda vez destaca o nosso Jardim no sempre interessante Delito de Opinião.

john

20.11.09

Elementar

Portugal tem-se enchido nos últimos dias de amantes do Estado de Direito. De tal forma, que a expressão já cansa. Uns afirmam que as escutas foram ilegais. Outros querem saber se aquilo que o PM fez foi ilegal. As escutas foram ilegais? Como em tudo no direito, onde dez pareceres darão dez opiniões diferentes, a doutrina divide-se. O que o PM fez foi ilegal? A doutrina, do DIAP de Aveiro ao Presidente do STJ e ao PGR, divide-se. Ninguém está propriamente a defender o Estado de Direito. Está tudo é a defender a sua dama.

Por Luciano Amaral no Gato do Cheshire.

john

Em cento e quarenta caracteres escreve-se o nome e pouco mais

A verdade é que nunca simpatizei com o Twitter, apesar de ver nele a tendência que a net segue actualmente. Por motivo nenhum: simplesmente nunca gostei de ver as minhas escolhas limitadas, sobretudo no que concerne à escrita. Lembra-me os bancos da escola: não usem mais de uma folha de ponto para o exame. Puta que pariu: e se eu quiser escrever duas, sim, duas folhas de ponto, que dá um belo total de oito páginas? A História era canja. E só não o fiz no exame nacional de Português porque o comentário de texto era sobre Eugénio de Andrade, poeta sobre o qual pouco sabia, o que nem por isso me impediu de interpretar o poema brilhantemente e ter 9 em 10 pontos naquela questão (if you can't dazzle them with brilliance...). Adiante, antes que isto descambe de vez. Eu tenho dificuldades em ecrever uma mensagem de texto - uma SMS - em 180 caracteres, sabem? Sim, sou vagamente alienígena, ao que parece, mas por princípio recuso-me a abreviar palavras ou a aderir à linguagem de Internet que, parece, se está a tornar no idioma da adolescência. Já escrevi assim, até aos vinte. Depois deixei-me de merdas. Não abrevio em mensagens de texto. Nem em conversas no messenger: tudo escritinho como deve ser. Até há relativamente pouco tempo ainda fazia vista grossa às maiúsculas no início das frases, e aos pontos finais. Mas depois pensei: porquê? Dá assim tanto trabalho carregar no shift e meter uma maiúscula? Ou fazer um ponto final? Pronto, eu faço. Não peço ou exijo a ninguém que o faça, nem isto pretende ser um exercício de crítica a quem o faz (fica o aviso, porém, eu tenho alguma dificuldade em compreender abreviaturas excessivas), mas eu passo bem sem vícios de escrita. Ora o Twitter, é bom de ver, quer lá saber destes preciosismos: é uma ideia em 140 caracteres. Ou duas, ou três. Uma ideia que caiba em 140 caracteres raramente será uma ideia; quanto muito, será uma curta sinopse de uma ideia. Mas ainda que uma ideia caiba, de facto, em 140 caracteres: é uma ideia que vale a pena ser lida? Raramente. As ideias querem-se desenvolvidas. E para isso é necessário escrever, ao invés de ficar pelo bitaite. Bitaite. Ora aqui está a mais precisa tradução portuguesa da expressão twitter. É cagar postas de pescada, e esperar pela interactividade da rede para que a coisa cresça. Insípido: eu gosto de comida bem temperada.

Creio até que este artigo ilustra perfeitamente a tese: esta ideia não cabia em 140 caracteres, com ou sem abreviaturas, a menos que eu possuísse um poder de síntese que, atrevo-me, muito pouca gente possui (para aí umas quatro ou cinco). O que há de interessante em escrever é não saber exactamente para onde vamos. Ou seja: é a possibilidade de acabarmos por escrever uma coisa completamente diferente da ideia original. O Twitter não permite nada disso: é uma ideia precoce, uma espécie de coito interrompido versão web 2.0.. Pode ser muito giro para acompanhar eventos (nada que um blogue não faça, convenhamos), mas se a ideia é largar o bitaite e ver quem "bitaita" de volta, então, e na minha modesta opinião, há coisas mais interessantes para fazer. Manter um blogue, por exemplo.

john

19.11.09

Vamos a África do Sul

Agora temos nove meses, mais coisa menos coisa, para aprender a jogar à bola. O Raúl Meireles e o Ricardo Carvalho estão obviamente dispensados deste exercício. O Bruno Alves tem de se decidir de uma vez entre o futebol ou o kung-fu, mas enquanto não se decide pode continuar a assustar avançados e a marcar golos. O Nani tem de ser amarrado a um poste, ou tem de ser obrigado a escrever duas mil vezes num quadro de ardósia "devo passar a puta da bola aos meus colegas de equipa". O Duda tem de me dizer de onde veio, e em que clube joga, afinal. O Paulo Ferreira tem de continuar a rezar para que os seus cortes in extremis continuem a não resultar em auto-golos. O Liedson tem de perceber que não ganha em disputa física a um jogador com duas vezes o seu tamanho. Que diabo, não lhe chamam levezinho por nada. Quando for assim, soltem o Bruno Alves.

De resto, gostei muito do jogo de ontem. A Bósnia - cujos adeptos não respeitaram o nosso hino, dizem-me - merece todo o meu respeito por ter recambiado o Gilberto Madaíl para as bancadas. Deviam tê-lo enviado para a zona mais "quente" do estádio, aquele canto de onde voavam objectos não identificados (viram o ar acagaçado do Simão?). De resto, o jogo foi bom sobretudo porque nao parecia um jogo entre duas selecções europeias, mas sim um jogo de uma segunda distrital, uma espécie de Sabóia Atlético Clube vs. Ouriquense (jogaram na semana passada*). Com um estádio mais cheio, verdade seja dita (demasiado cheio, até). Com pancadaria, com duas equipas de qualidade duvidosa, e com faltas de respeito como enviarem o presidente da federação de futebol do país visitante para o meio dos adeptos. Grande espectáculo.

john

*Consta que o Sabóia deu dois secos ao Ouriquense. Não jogo pela equipa (obviamente), mas, já que sou da terra vencedora, dedico a vitória a este amigo.

Nem sei que título hei-de dar a isto

O "debate" sobre o casamento homossexual está aborrecidíssimo na blogosfera. Como, aliás, era previsível, uma vez que não se trata de um debate. Ambas as posições estão já entrincheiradas, e nenhuma delas cede um milímetro que seja, por mais que uma ou outra apresentem argumentos válidos. Quando isso acontece, reduz-se tudo ao ridículo. Já vi o filme antes: o debate está afectado por "clubite".

Para mim, a coisa é muito simples: se os homossexuais querem casar, pois que se casem. Eu não tenho nada a ver com isso, e o tema interessa-me tanto como o sexo dos anjos. Que se casem, que tenham filhos (que se aproveite para tornar mais flexível as regras e os processos de adopção, pois consta que até para um casal heterossexual é difícil adoptar hoje em dia), que sejam felizes. Só não deixa de ser irónico ver uma minoria que passou anos a bater-se pelo direito à diferença em manifestações, paradas gay (um fenómeno muito curioso) de repente começar a querer ser igual ao resto. Recordo-me do barulho que se deu há um par de anos quando uma marca de cerveja fez uma campanha com a ideia de "orgulho heterossexual", com as "associações gay" a reclamarem em tudo quanto era sítio. Faz tanto sentido um "orgulho heterossexual" como um "orgulho homossexual", mas isso são detalhes. Aconteceria o mesmo ao empresário que quisesse abrir um "bar heterossexual" - era acusado de preconceituoso, de retrógado, e o mais certo era acabar em tribunal. Se abrisse um bar gay, estaria tudo bem, passava tudo com o argumento só lá vai quem quer. A vida é assim, o politicamente correcto impera e é difícil ser Dom Quixote hoje em dia. Eu tentei, noutras circunstâncias, mas nem moinhos de vento são fáceis de encontrar hoje em dia, nem esta cidade tem muitas Dulcineias (ontem vi uma no 714 da Carris - meu Deus, era a rapariga mais gira que vi em muito, muito tempo. Infelizmente, há coisas que só acontecem nos filmes).

De resto, não será com o casamento gay, ou com todos os malabarismos semânticos em redor dos conceitos de casal, casamento e afins, que os homossexuais conseguirão reconhecimento social. Ganharão igualdade jurídica e fiscal e nessas coisas todas, o que é mais do que justo. Mas não conquistarão por decreto igualdade social. Façam a experiência, vão para as vilas e aldeias do interior. Tirando talvez as gerações mais novas, que de resto começam a escassear no interior, ninguém diz gay, muito menos homossexual. Um casamento gay num desses sítios é um pagode, os cônjuges são, para as gentes, dois paneleiros, e tal casamento é uma espécie de freak show. O tal reconhecimento social ainda demorará muitos anos, e tenho cá para mim que é preciso deixar muita poeira assentar - e perder a mania das tais paradas, que apenas ridicularizam a "causa" - e muitos anos passarem para que um casal gay seja encarado com normalidade em todo o país. A menos que para os gays, como aliás já acontece com outros grupos (ver políticos), o país se resuma a Lisboa. Mas mesmo nesse caso tenho algumas dúvidas.

john

18.11.09

O poder solitário

Sejamos cristalinos: acreditar que Jesus Cristo andou sobre as águas exige menos fé do que acreditar que as conversas entre Sócrates e Vara têm a inocência de um episódio da Abelha Maia. Supondo que o juiz de instrução criminal de Aveiro não enlouqueceu, o simples facto de enviar certidões para o Supremo envolvendo Sócrates tem só por si um efeito devastador e que exige uma dupla resposta: jurídica (saber se as escutas são legais) mas também política. E, para a resposta política, a legalidade das escutas interessa pouco. Sócrates disse: "A questão mais importante para mim é saber se, durante meses a fio, fui escutado e se isso é legal num Estado de direito." Mas a questão mais importante para mim, e suponho que para a maioria dos portugueses, não é saber se as escutas são legais, mas se o primeiro-ministro teve conversas inaceitáveis com Armando Vara à luz de um Estado de direito. Isso até devia sossegar Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento. Só que eles conhecem demasiado bem a política para ainda serem capazes de confiar no poder solitário da justiça.


Por João Miguel Tavares, no DN (destaques meus). Note-se como o colunista trocou a Cicciolina pela Abelha Maia, procurando evitar assim mais um processo. Esperto, o João. E quase acerta na mouche, para variar. Digo quase porque a Justiça neste país não pode ser um poder solitário: a Justiça simplesmente já não é um poder. É apenas solitária.

john

17.11.09

Os bons e os maus

Leio pela blogosfera vários comentários ao Prós e Contras de ontem. Não vou falar sobre eles, como não vou falar sobre o programa de ontem: há muito tempo que deixei de assistir a um programa que se diz de debate, mas do qual o debate anda muito, muito afastado. No Prós e Contras existe um ponto de vista bom, defendido por ilustres convidados e por uma moderadora que, em bom rigor, não modera coisa alguma, mas defende os bons; e que frequentemente se apresenta mal preparada; e existe um ponto de vista mau, defendido por algumas almas que ainda se prestam ao frete, e que são reduzidos ao ridículo pelos bons, pela moderadora e, não raro, pelo público também. O programa nem é enviesado: é mesmo um combate entre os bons e os maus. Se é para isso, prefiro um livro de Tolkien, ou um bom velho western no pequeno écrã.

john

O paradigma da mãezinha

O paradigma da mãezinha foi, se bem me lembro, o grande paradigma ético que aprendi na cadeira de Ética do meu curso de Jornalismo. Faltei a mais aulas do que devia, e faltei precisamente à aula em que esta parte da matéria foi dada; mas na aula seguinte, perante um "caso prático", fiquei esclarecido: "não faças aos outros aquilo que não querias que fizessem à tua mãezinha". Assim se ensina ética a estudantes de Jornalismo. O caso prático era engraçado: envolvia um refém, uma tentativa de execução em directo. O que nós, enquanto jornalistas, faríamos? Fui o único a dizer que filmava e transmitia. Os meus colegas embarcaram no heroísmo lírico (tentavam impedir a execução, mesmo que arriscassem a vida), ou no silêncio cúmplice (recusavam-se a pactuar com um acto abjecto, diziam eles). Defendi sozinho o indefensável, a posição egoísta. Não interessa se essa posição seria a minha; avancei com ela não por convicção mas por provocação, um luxo a que um estudante universitário se pode dar. Caem os rótulos: "egoísta" à cabeça, mas outros menos simpáticos também. Pergunta o docente: e se o refém fosse a sua mãezinha?

A pergunta, conforme expliquei, era imbecil, pois caso fosse a minha mãezinha, o meu estatuto no caso mudaria: eu deixaria de ser o jornalista para passar a ser o filho. A dimensão emocional seria completamente diferente. Argumentei e dei exemplo: se eu ver um desconhecido a ser assaltado na rua, tentarei não dar nas vistas e chamarei a polícia. Se for um amigo chegado, se calhar já tentarei intervir, com risco pessoal. Toda a gente, atrevo-me, age assim. Ou talvez não: muita gente não chamaria sequer a polícia (ver Kitty Genovese).

Fui o egoísta naquela aula de Ética. Eram interessantes, as aulas de ética. Gostava sobretudo da primeira aula, com as apresentações - onde o docente gozava, passe o eufemismo, com os alunos. Porque eram escuteiros. Porque pertenciam a um grupo religioso. Porque davam explicações. Porque escreviam uma crónica num jornal da província. Porque vinham de terras com nomes engraçados. Gostei do paradigma da mãezinha. Foi esclarecedor, no mínimo.

Hoje, leio este texto no Porta da Loja. Não consigo evitar um sorriso, enquanto lamento não ter visto o meu antigo docente na televisão. É, de facto, a sua ética. Tal como nas aulas. E não consigo evitar sentir-me triste por ver - como vejo todos os dias - onde o jornalismo português chegou. Santos Silva tinha razão, ainda que pelos motivos errados: é jornalismo de sarjeta. Não viram a capa do DN na sexta?

Gostaria muito de saber o que pensa o meu antigo professor de ética - e membro do sindicato - sobre o escândalo dos estágios no jornalismo, um tema muito interessante mas que não suscita muito interesse nem no sindicato, nem na comissão de carteira, nem mesmo entre os jornalistas. Não sei se sabem, ou se preferem não saber: tirando algumas raras e assinaláveis excepções, os estágios em jornalismo não são remunerados. Ou antes, alguns dão "subsídios", cento e cinquenta euros, com sorte. Excluindo alguns casos de sorte ou cunha - o mérito não interessa -, é isto que espera um estudante de Jornalismo: anos de "estágios não remunerados". Pagar para trabalhar, sem vislumbrar qualquer retorno, nem sequer a longo prazo. Sim, estou novamente a bater nesta tecla. Tenciono continuar. Pois não vejo como podem os jornalistas vir falar em paradigmas da mãezinha ou em "ética" - seja ela qual for - quando se calam perante o que se passa na sua própria classe, à qual falta, diga-se de passagem, muita classe.

john

Adenda: a famosa capa de sexta-feira do DN está aqui. Perdoem-me o comentário rasteiro, mas desde o fim da revista Gina que não se via uma capa tão pornográfica nas bancas portuguesas.

16.11.09

O ouriço

Há coisas que não mudam, pois não foram feitas para mudar. Acontece por vezes, ao visitar a minha aldeia, sentir algo esquisito, algo surpreendentemente idêntico ao que sentia quando era criança. Talvez isso não seja assim tão surpreendente: afinal, aquela aldeia é a minha terra, o território esquecido onde nasci e vivi. Pode estar abandonada, mas continua a ser minha. O ouriço fez-me recordar exactamente isso. Mais: trouxe à minha memória recordações de um tempo distante, de uma época à qual muito poucos dos meus amigos actuais assistiram. Uma época em que o meu "recreio" não conhecia limite, pois ia tão longe quanto as estradas de terra batida alcançavam, e a minha energia para caminhar ou pedalar durava. Era uma época em que eu passava a maior parte do meu tempo no campo, entre ribeiros e árvores, em vales e no topo das colinas que nós temos por montanhas por lá. Era uma época em que os meus companheiros de brincadeira eram animais, mas não animais de estimação: se excluírmos o meu cágado, eu nunca tive animais de estimação. Falo mesmo de animais selvagens - e até mesmo o Eustáquio, o meu cágado, é um cágado selvagem domesticado. Falo de sapos e rãs, de cobras e lagartixas, de morcegos ou ouriços. E de pássaros, de aves de todas as cores e formas. As melhores eram as corujas, mas essas eram muito difíceis de se encontrar: ou se saía à noite e se esperava pela sorte, ou se encontrava um ninho. De uma vez arrombei a porta de um armazém abandonado nos limites da aldeia para me abrigar da chuva, e assustei uma coruja, uma enorme e nobre coruja cinzenta. Sapos e rãs eram fáceis de apanhar entre os matagais de juncos nas margens da ribeira. Lembro-me de uma vez ter apanhado, com o meu amigo, duas relas, que para quem não sabe são aquelas rãs venenosas de cor verde-viva que se colam a todo o lado. Eu e o meu amigo, cada um colou uma na testa, muito para desagrado da avó dele, que dizia que os bichos davam mau olhado. Como quase todos os batráquios, de resto. Cobras eram também fáceis de apanhar junto à ribeira, e lagartixas, enfim, apanham-se em qualquer lugar, por vezes até em casa. Morcegos eram mais raros, a menos que se subisse à torre da igreja. Apanhámos um em certa ocasião, acendendo a luz e usando o meu casaco de lã como uma rede - um animal giríssimo, como um rato pelado com asas. E lembro-me dos ouriços, mas eram tambem raros. Tenho uma vaga memória de o avô do meu amigo ter encontrado dois ouriços junto ao burro, e de os ter trazido dentro de um balde para nós vermos e tocarmos neles (sabia que adorávamos animais). Tudo isto voltou à minha memória quando vi o ouriço naquela noite, no passeio, a ganhar coragem para atravessar a estrada. Parei para observar: era um enorme vulto pardo coberto de espinhos. Há coisas que não podem mudar, e senti o mesmo impulso quase infantil de o ver de perto e de lhe tocar. Que engraçado era, com o focinho a espreitar naquele amontoado de espinhos castanhos e brancos. Mas não o podia deixar ali: era tarde, mas ainda havia gente na rua, e um carro podia atropelá-lo por descuido ou maldade. Comecei a mexer no ouriço, devagar, sentindo os espinhos na ponta dos meus dedos, procurando chegar perto da sua barriga. Até que senti o fim dos espinhos, e um tufo irregular de pelo debaixo da armadura. Lá coloquei os dedos, e levantei o ouriço, que não se enrolou, nem sequer se mexeu: simplesmente deixou que eu lhe pegasse e o transportasse para a erva do outro lado da estrada. Pousei-o, e a sua reacção foi enroscar-se de imediato. Mas estava a salvo.

Anos, muitos anos tinham passado desde que tinha pela última vez visto um ouriço. Mais de uma década, sem dúvida. Mas posso dizer-vos que é um dos animais mais engraçados que se podem encontrar na minha terra.


john

15.11.09

espelhos e reflexos #30

É impossível não se gostar da Rua de Santa Catarina em Novembro. Mesmo todos os dias do ano é difícil não se gostar, contudo, em Novembro, é uma injúria não apreciá-la, não estacar um momento na largueza do espaço, com o vento sorrateiro e frio subindo-nos pela pele do pescoço, e observar o ziguezague das pessoas a deambular no empedrado. Certas ruas conseguem condensar o mundo, não têm medidas, são micro-cosmos. Mas em Novembro é diferente pois aparecem elas, as castanhas, aparece ele, o fumo. E se aparecem elas, as castanhas, e ele, o fumo, a nossa rua assemelha-se às lareiras de casa, ao calor e ao crepitar da lenha da infância. Relembramos os olhos dos nossos avós, o beco do quintal onde repousavam os castanheiros, o sotaque sibilante do pároco da aldeia.(Eu bem avisei que era um micro-cosmos). E a nossa rua está cheia, são as reuniões esparsas dos familiares, dos amigos, dos errantes, são os agregados envoltos na tonalidade cinzenta do ar, nos aromas intrometidos. Tudo porque apareceram elas, as castanhas, ele, o fumo.




fs

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13.11.09

Pormenores

Isto é uma pena. Não há ninguém entre a Serra do Caldeirão e a margem Sul do Tejo que se disponha a manter vivo um projecto realmente interessante?

john

A notícia é já antiga. Há muito tempo que tento encontrar a revista em Lisboa, mas parece que o país inclinado ao centro não inclui o Alentejo. Como quase nada inclui o Alentejo, para mal do próprio Alentejo, mas sobretudo para mal de tudo o resto. Enfim. Hoje fiz mais uma tentativa de encontrar a revista, numa loja de um centro comercial lisboeta. Não é fácil encontrar coisas numa base de dados informática quando a senhora da loja insiste em escrever "Promenores". Mesmo quando eu a corrijo.

12.11.09

Tom Bombadil

Numa conversa durante o Fórum Fantástico do ano passado (infelizmente, este ano não se realizou), dizem-me que a tradução portuguesa de O Senhor dos Anéis, pela Europa-América, afinal não se afasta do triste paradigma de tradução dos géneros fantásticos em Portugal. Ou seja, que não era grande coisa. Agora que releio a obra de Tolkien no original, concluo que o meu interlocutor tinha, e simultaneamente não tinha razão: a tradução portuguesa é boa, a edição em si é melhor ainda, mas não há nada como ler o original. O que, de resto, se aplica a qualquer livro, creio. Jamais me atreverei a ler, por exemplo, Salinger traduzido.

Mencionei há dias Treebeard, Barba de Árvore na tradução portuguesa, senhor dos Ents, os pastores de árvores da floresta de Fangorn. Treebeard é uma das minhas personagens preferidas da obra de Tolkien, e será porventura uma das mais fascinantes persongens criadas por o velho professor inglês. O mais antigo dos Ents, apresenta-se aos hobbits Merry e Pippin como Fangorn, assumindo-se assim como avatar da própria floresta, e levando a própria natureza a revoltar-se contra as forças do mal - no caso, contra Isengard, e contra a traição de Saruman. Há, porém, uma personagem talvez ainda mais interessante: Tom Bombadil, que tambem parece assumir-se como um avatar, mas não apenas da Floresta Velha, território que domina - nele parecem estar contidas as próprias forças da terra. Contrariamente a Treebeard, que assume uma parte activa e decisiva no desfecho da guerra, Bombadil mantém-se à margem. Intervém por duas vezes: para salvar os hobbits do velho salgueiro (o Old Man Willow), dando-lhes de seguida abrigo por duas noites, e mais tarde, salvando-os novamente dos Espectros das Antas (Barrow-wrights). Bombadil revela um comportamento alegre e despreocupado enquanto passeia e canta na floresta, contrastando quase agressivamente com o mundo que existe para lá do seu domínio - um mundo onde as trevas ganham forças, e onde a guerra se prepara. Durante a estadia de Frodo e dos seus companheiros na casa de Bombadil e Goldberry, sua esposa, Tom revela ainda um poder extraordinário: não só consegue ver Frodo quando este usa o Anel, como, na posse do próprio Anel, permanece inalterado: não se torna invisível, nem parece sensível a qualquer influência maligna da parte do Anel. Mais tarde, durante o Conselho em Rivendell, o nome de Bombadil surge como um potencial guardião do Anel - o que é rejeitado, devido à sua natureza despreocupada. Incapaz de sentir a influência maligna do Anel, acabaria por se esquecer dele, e mesmo perdê-lo; e ainda que o poder de Bombadil sobre o seu domínio fosse absoluto, nem ele conseguiria resistir à fúria de Mordor "quando tudo o resto caísse".

O que é Tom Bombadil, não se sabe. Provavelmente, nem o próprio Tolkien o saberia. Quando os hobbits colocam essa mesma pergunta a Goldberry, a sua resposta é apenas "ele é". Uma força da natureza, talvez, um avatar da pureza original do mundo. Há quem diga que Tom Bombadil poderá ser uma manifestação terrena do próprio Eru, deus supremo, mas tal possibilidade terá sido descartada pelo próprio autor. Tolkien, porém, nunca esclareceu a natureza de Bombadil.

No filme, Bombadil não é mencionado, o que causou fúria entre alguns fãs mais hardcore da obra de Tolkien. Mas Bombadil não poderia jamais ser mencionado num filme: Peter Jackson, que realizou a trilogia, explicou (e bem) que a sua presença não iria acrescentar nada à narrativa, o que não deixa de ser verdade (de resto, todos nós sabemos como funciona a mente de um fã hardcore). Ainda assim, não deixa de ser uma personagem extremamente interessante e enigmática.

john

11.11.09

O medo de existir #2

Não se consegue viver em Portugal. Concluo. É cada vez mais clara a esquizofrenia em que caímos. E vamos caindo. Faz quase 900 anos que assim é. Vejamos:

(i) Somos desgostosos uns dos outros com uma convicção estranha;

(ii) Quando cada um de nós se manifesta desgostoso do povo, não percebe que o povo é desgostoso dele e que isso é característica de ser Português;

(iii) Vivemos num dramodilema com poucas soluções à vista, em que os cargos políticos/públicos (mais cedo que tarde) serão definidos por directores de informação/jornalistas/palhaçosvários, aos quais importa perguntar que interesse os orienta ao lançar suspeitas sobre algo/alguém. Sequência lógica:

não raras vezes é exigido que qualquer suspeito(remoto ou verosímil)/arguido deve demitir-se por razões éticas e/ou morais > o lançamento de suspeitas sobre alguém assenta no facto de serem publicadas notícias que levantam a possibilidade de alguém estar associado a algum processo judicial em curso > de três uma, ou as suspeitas saem por violação do segredo-de-justiça ou por delírio-de-redacção ou por decisão de um magistrado (que fundadamente suspeita de alguém) > tanto num caso como nos outros, força-se-á alguém a demitir-se (sobre a capa da tal ética) quando isso está unicamente dependente das decisões de 1 magistrados 2 jornalistas 3 funcionários judiciais. E nada me leva a duvidar que os magistrados, jornalistas e funcionários não sejam sensatos, mas nada me pode garantir que serão.

jtf

A terceira pessoa

A verdade é que o nosso primeiro-ministro, mais do que qualquer outra coisa, tem muito azar: foi o caso da licenciatura, foi o caso Freeport, foi o caso Cova da Beira, foi o apartamento na rua Castilho, foram as "casas" na Covilhã, é agora o escândalo da sucata. Enfim, José Sócrates está enguiçado, tem maus amigos e maus filhos-de-tios, e a coisa só lá deve ir com bruxa, pois será mau olhado sem sombra de dúvida. Estou obviamente a brincar, mas a verdade é que destes casos o único que, creio, foi realmente óbvio, foi o da licenciatura, e aí parece que a questão era mais de princípios do que de polícia. Adiante. Como já disse anteriormente, não creio que o primeiro-ministro deva ser julgado sem provas, pois até ao momento o que há, ao que parece, é muito "diz-que-disse". O problema é o impacto de todos estes casos na opinião pública. E aqui Sócrates, o cidadão, é mais ou menos irrelevante, pois o homem é transitório: mais mandato, menos mandato, irá à sua vidinha. O que importa são as instituições, e essas, hoje, estão bem abaixo do nível médio das águas da credibilidade. Para o cidadão comum, o que o caso "face oculta", com este último e mal explicado desenvolvimento do pormenor das escutas, vem demonstrar por a+b é que quem está no topo não cai, nem sequer chega a tremer. Ficou a ideia de que as escutas foram anuladas não por não serem relevantes - não sei se eram - mas por nelas aparecer o primeiro-ministro. Ficou a ideia que o primeiro-ministro - seja ele qual for - é intocável. Este é que é o problema. No final, e após tantos e tantos "casos mediáticos", são as instituições do nosso estado que estão em causa. Ou deixarão de estar em causa, pois o cidadão passará, como se diz no Alentejo, "a cagar para isso". A desculpa é perfeita: "eles são uns gatunos, eles são todos iguais, neles ninguém toca". Eles, eles, eles. No fundo, a terceira pessoa refere-se a ninguém em concreto, mas ao país em si.

john

O chiqueiro

Deixem lá ver se percebi: então há escutas feitas feitas a Armando Vara no âmbito daquele processo com nome de bordel, José Sócrates aparece nessas escutas e - independentemente do que ele possa ter dito - estas são consideradas inválidas porque, e citando o Pedro Soares Lourenço, do blogue Arcádia, qualquer escuta telefónica em que intervenha o Primeiro-Ministro, estará ab inicio ferida de nulidade, caso não seja autorizada pelo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça? Isto já nem é cómico.

john

10.11.09

A Rua Sésamo faz quarenta anos

Da minha parte, os parabéns àquele que certamente terá sido um dos melhores programas de televisão jamais feitos. Sobretudo num tempo em que, perdoem-me a expressão, os programas infantis tendem a ser uma merda. Finda a Rua Sésamo, o que apareceu? Coisas mais ou menos alucinantes e irrelevantes como os Teletubbies. Recordar a Rua Sésamo faz-me ter vontade de arranjar a série algures: para eu mesmo rever*, e para um dia, se isso se proporcionar, dar à descendência a possibilidade de ver alguma coisa realmente boa no pequeno écrã, e não o telelixo que este nos impinge diariamente. A Rua Sésamo era um programa diferente, e provou que é possível usar a televisão para fins extraordinariamente didácticos. Com personagens fabulosos como o Monstro das Bolachas, o Guálter ou o Ferrão, eu - e certamente tantos outros miúdos - aprendi a ler, a escrever, a contar. E passei imensas horas entretido. Infelizmente, é daquelas coisas que já não se fazem nos dias de hoje. Os tempos são outros.

john

*para rever, entenda-se, no sentido nostálgico. E para rever a Alexandra Lencastre com vinte cinco anos, claro.

[Nota: Leitor atento, a quem agradeço desde já, alertou-me para uma valente biqueirada que dei na língua portuguesa. Isso já foi corrigido. Entretanto, e sobre o mesmo tema, recomendo a leitura deste texto de José Medeiros Ferreira]

9.11.09

Coerência

Já escrevi sobre o tema até mais do que uma vez, mas o reacender da polémica - e este artigo de Helena Matos - faz-me voltar a ele. Naturalmente, um ateu convicto não pode celebrar o Natal, pois apesar do declínio do seu significado original, o Natal é, em si, uma festividade religiosa. Pouco importa se as pessoas o consideram "uma festa de família", uma "troca de prendas", ou simplesmente um dia livre de trabalho. Um ateu que proteste contra os crucifixos - e tem todo o direito de protestar - deve bater-se pelo fim dos feriados religiosos (e pontes, quando estas surgem), pelo fim das férias do Natal e da Páscoa. Leve-se o assunto ao Parlamento. E que, de uma penada, se acabe com o Natal, com o Carnaval, com a Sexta-feira Santa, com a Páscoa, com o Corpo de Deus, com a Assunção, com a Imaculada Conceição, e com os feriados locais dos patronos. Ah, e convém não esquecer o subsídio de Natal, aqueles trocos que dão sempre tanto jeito para comprar as prendas. Acabe-se também com o infame subsídio. Torno a dizer: defendam os laicos e os ateus isto com o mesmo fervor com que se batem contra os crucifixos nas escolas, e pelo menos eu respeitá-los-ei. Enquanto isso não acontecer, continuarão apenas a passar a imagem de "laicismo, sim, mas só quando convém". Haja coerência, se faz favor.

john

Hibernação

A hibernação, afinal, teve lugar neste fim-de-semana, no qual acabei por não sair à rua - a menos, claro, que consideremos as visitas ao pequeno quintal das traseiras para fumar uma "saída à rua". Um tipo pensa em sair de casa, ir espairecer algures, para logo de seguida pensar "para quê?" E, de facto, para quê? Existe a Internet, existe a televisão (estou lentamente a voltar a ter o hábito de ver televisão, sobretudo o Animax), existe uma série intitulada A Teoria do Big Bang que será provavelmente a melhor série cómica desde a saudosa Red Dwarf, existe uma estante cheia de livros para ler ou reler. E existia - sublinhe-se o pretérito - uma pilha enorme de loiça à espera de ser lavada. Três gajos a morar juntos dá nestas coisas, enfim, nada a fazer para além de negociar: Entre limpar as latrinas e esfregar restos de alho queimado do fundo de um tacho, venha o esfregão e o super pop limão. Preferências, nada a fazer.

Houve também futebol, mas sobre isso apenas vi na diagonal um bocadinho daquele programa da Sic Notícias com Rui Santos. Diz-se por aí muito mal do Rui Santos, mas com os Gato Fedorento (temporariamente) fora do pequeno écrã, Rui Santos será provavelmente o único humorista disponível em programas nacionais, justiça lhe seja feita. Gosto sobretudo daquele ar muito sério de grande teórico com que ele fala sobre os jogos, os "casos da jornada", as arbitragens, a "chicotada psicológica" do Sporting. A propósito, tive imensa pena de o Paulo Bento ter saído, e não, isto não é cinismo benfiquista. Aliás, sendo adepto (não sofredor) de uma equipa que ao longo dos últimos quinze anos (pelo menos) se dedicou alegremente a incinerar treinadores, gosto naturalmente de uma equipa que aposta no mesmo técnico durante não-sei-quantas épocas. Para além disso, perdeu-se o melhor penteado de treinador da primeira liga, pois a juba alva de Jesus não tem o factor cómico do risco ao meio de Paulo Bento. Esta, para mim, é uma das maiores perdas para o futebol português desde que os treinadores deixaram de ter bigode.

Para além disto, decorrem n'O Sono Luso as votações para o prémio Lambe Botas 2009, agora já com os finalistas nomeados. É uma lista tão boa que um tipo nem sabe em quem há-de votar. Apesar disso, eu já dei o meu contributo cívico.

john

4.11.09

Triste-feia

Será, no mínimo, um nome curioso para designar uma rua. Triste-Feia. É ali em Alcântara: começa junto à estação, vai não sei para onde. Nunca atravessei a rua a pé. Comecei a passar por aquela zona todos os dias há coisa de um mês, e desde o primeiro dia que reparo na placa que designa a rua. Triste-Feia. Na verdade, não me parece uma placa, mas uma lápide, porventura a mais mórbida lápide que já vi. Não perguntem porquê, não saberia responder.

*Fotografia retirada do blogue Urbanus Detalhes, que neste post apresenta um pouco da história daquela rua.

john

Single radio

Isto ocorreu-me quando ouvia na rádio Another Brick in the Wall, dos Pink Floyd, pela enésima vez. Um dos problemas da rádio - de qualquer rádio, salvo uma ou duas honrosas excepções - é que vivem de playlists muito limitadas. Limitadas, mais precisamente, ao single. Numa rádio comum, ouvimos apenas os singles das bandas, sejam elas os The Killers ou os Amália Hoje, os Metallica ou os Diapasão. As rádios vivem disto: das músicas que as editoras lhes dizem para passar, porque a promoção do álbum 'x' está a ser feita com base na música 'y', e é essa música que as editoras querem que fique nos ouvidos de toda a gente. Nem vou dizer que os singles raramente correspondem às melhores músicas dos álbuns; digo apenas que isso é extremamente redutor. Uma rádio deve ter o disco da banda 'x', e passar a música 'y', mas também a 'p', a 'j', a 'ç', enfim, qualquer uma das faixas que compõem o álbum. De preferência, de forma a encaixar nas playlists, por isto de montar o puzzle com singles gera combinações esquisitíssimas.

Vá, deixem de ser preguiçosos, senhores da rádio. Das (poucas) bandas que vocês metem nas playlists, mostrem mais qualquer coisa. Isto para que um dia possam, enfim, libertar as playlists e meterem lá coisas um bocadinho diferentes. Peço desculpa insistir, juro que nada me move contra a emissora, mas é inadmissível que, em tantas tardes de música dedicada à melhor música dos anos 70, 80 e 90[sic], a M80 ainda não se tenha dignado a passar uma única música de Smiths. Olhem para a Radar, senhores, que até passa músicas de EPs/discos de bónus, como a Bangers and Mash dos Radiohead. Eu nem queria acreditar.

john

A última marcha dos Ents

(*)É uma das minhas passagens preferidas d'O Senhor dos Anéis: quando os Ents da floresta de Fangorn se levantam e marcham para a guerra, enfrentando o poder de Isengard. Para mim, é uma das partes mais marcantes da história, ver aqueles seres, mais antigos do que as eras do mundo, acordarem do seu sono, erguerem-se na sua floresta e descerem das montanhas rumo a uma guerra que poderá muito bem ser o seu fim. "Of course, it is likely enough, my friends", he [Treebeard] said slowly, "likely enough that we are going to our own doom: the last march of the Ents. But if we stayed at home and did nothing, doom would find us anyway, sooner or later. That thought has long been growing in our hearts; and that is why we are marching now. It was not a hasty resolve. Now at least the last march of the Ents may be worth a song." [Em As Duas Torres, Livro III ] Como na vida, por vezes temos de enfrentar as nossas sombras, independentemente do resultado do confronto.

Quem me dera que Tolkien tivesse escrito o poema The Last March of the Ents. O título é excelente, e, à semelhança de outros poemas contidos no livro, seria certamente magnífico.

john

Lições da planície*

(...) Enfim, o que queria dizer é muito simples: ao acordar, o deprimido deve de imediato criar uma situação de vida. Idealmente, o deprimido acordaria convencido de que o prédio está em chamas ou que tem um tigre da Sibéria entre os lençóis, mas também serve um gole de gaspacho suficientemente acondimentado para o transportar até ao calor de um começo de tarde. O importante é evitar o leite, o café e os cereais. Tentem antes marisco, se não gostam de gaspacho.

E eis que, passados vinte e quatro anos sem abdicar do ritual de beber uma caneca de leite ao pequeno-almoço*, percebo por que afinal eu sou deprimido e, vai na volta, pessimista. A culpa é do leite. Obrigado, Ouriquense. Hoje já vou tarde, mas a partir de amanhã, trato-me a sapateira. Não gosto de gaspacho. Se calhar até dou um toque pessoal à mezinha e acrescento um gole de aguardente de medronho. Ou isto é já capaz de ser uma má ideia.

john

*título roubado ao Ouriquense, com todo o respeito e mais algum. Espero que não me leve a mal, mas em último caso irei a Ourique um dia destes para uma aguardentezinha. Ou convido o eremita da planície a tomar essa aguardente comigo na estação da Funcheira num domingo destes, quando estiver à espera do comboio para Lisboa.
**É verdade que mantenho o hábito de beber uma caneca de leite - por vezes com chocolate - de manhã. E à noite, antes de me deitar, se bem que tenho andado um tanto ou quanto desleixado com esta minha rotina nocturna. O hábito do leite ao acordar sobreviveu à minha saída da aldeia e vida em Lisboa, e acompanhou-me em todas as viagens que fiz, de Barcelona a Praga, de La Valetta à Lolland (Dinamarca). Sempre leite para o pequeno-almoço. A única excepção que de repente me ocorre foi naquela noite em Madrid que substituí o leite por duas coca-colas por ter passado a noite, não a dormir, mas a vomitar. E não foi por bebedeira, que essas eu curo... com leite. E Gurosan, quando tenho. Mas sem misturar, atenção. Sou doido, mas nem tanto.

3.11.09

O novo paradigma noticioso do Público:

Mensagens em código. Assim pode-se falar mal de Sócrates sem ninguém perceber. Conferir aqui.

john

Sopas de batata

Eu as favas até dispenso. Pode ser que um dia também eu me delicie com uma bela pratada de favas, mas aos vinte e quatro anos elas continuam a não fazer parte dos meus hábitos alimentares. Tal como as muitas - e interessantes - sugestões de Francisco José Viegas. É defeito meu, mas os vegetais nunca agradaram ao meu palato, e não sei se isto passa com a idade. De qualquer maneira: se um dia destes encontrar um restaurante, seja ele onde for, que sirva umas sopas de batata como as que a minha santa mãe cozinha, eu torno-me cliente da casa para os almoços de domingo (pois, como se sabe, o almoço de sábado é sempre em casa, com o feijão com arroz, linguiça e sopas (de pão, como no Alentejo) cozinhado por moi même - há rituais que não se podem perder). Sopas de batata é isto: pão, batata e muito caldo. Não me perguntem o resto dos ingredientes que eu não sei: mas convém que a batata seja boa, e que o pão seja daquele pão que com quatro dias continua melhor que qualquer pão de Lisboa. Tentei uma vez fazer sopas de pão para uma açorda com pão comprado em Lisboa, e acabei a mandar vir uma pizza. Imagine-se, trocar uma bela açorda alentejana por uma pizza! Enfim. Há quem acrescente às sopas de batata um ovo escalfado, o que é bastante bom, mas para mim sopas de batata têm de acompanhar é com uns piques de toucinho frito, mesmo bem frito. Esqueçam lá a alimentação saudável: as sopas de batata com piques de toucinho são manjar dos deuses. Acabei de almoçar e já estou com fome outra vez.

Claro que eu não posso estar à espera de encontrar um restaurante que faça as iguarias que a minha santa mãezinha confecciona com talento, a menos que lhe abra um restaurante um dia destes. Mas sonho com umas sopas de batata. Na verdade, cada vez que almoço sonho com comida alentejana, e esse sonho é provavelmente a única coisa que me faz aguentar os menus de cinco euros dos centros comerciais das imediações. O problema disto é que até eu, orgulhoso alentejano, me esqueço por vezes de como as coisas são na minha terra. Há dias, no Festival de Gastronomia de Santarém, um cartaz a dizer "Migas à Alentejana" entrou-me pelos olhos dentro na hora de almoço e só saiu quando me sentei à mesa. Pedi um prato de migas, um jarro de vinho (dos pequenos, que estava em trabalho) e linguiça assada para entrada, já que as migas estavam demoradas. Como disse, esqueci-me. Esperava um pires com meia dúzia de rodelas de linguiça assada. O empregado traz-me o pão (alentejano, que maravilha), o vinho, e aparece na mesa com um daqueles castiços assadores de barro com uma linguiça inteira - repito, com uma linguiça inteira - acabadinha de assar. Assada com álcool ou etanol, provavelmente - a tradição recomenda que a linguiça seja assada em aguardente de medronho, mas ao preço a que está, não dá para grandes aventuras. E foi o meu almoço alentejano: uma linguiça quase inteira (sou alarve, mas não tanto) e um prato de migas com mais comida do que cinco menus dos centros comerciais. E um jarro de vinho alentejano. Saí do almoço a rebolar, como é óbvio - e com vontade de ir para Beja, e esquecer Lisboa. Comer em conta em Lisboa é um inferno. Dou por mim a pensar que devia ir viver para Évora ou Beja, a sério.

john

A "cosa nostrinha"

Esta facilidade com que um muito pequeno influencia os muito grandes é a coisa que mais se aproxima em Portugal de um procedimento mafioso. Mas não há corpos atirados para o rio: à boa maneira lusitana, é uma cosa nostrinha. Portugal é um país livre da máfia porque não é preciso ameaçar ninguém com uma pistola. Basta abanar com um maço de notas. Um Mercedes com jantes de liga leve? Ó meu amigo, leve lá a sucata para casa. Dez mil euros? Está bem, eu faço dois ou três telefonemas. Golpes de colarinho banco com os quais se compram ilhas em paraísos tropicais eu ainda posso perceber. Mas esta corrupção dos pobrezinhos nas maiores empresas portuguesas é verdadeiramente deprimente. Até a roubar temos de ser rascas?

Por João Miguel Tavares, no Diário de Notícias. Em cheio, diga-se de passagem.

john

2.11.09

O linchamento

No i: Fernando Lopes Barreira, um dos catorze arguidos do processo Face Oculta recusa todas as acusações de que tem sido alvo. O arguido do caso fala antes em "linchamento político", e recusa fazer mais comentários. Eu acho é que as autoridades deviam deixar de investigar qualquer indício criminoso que envolva políticos, ou parasitas similares. Quando o tribunal bate à porta destes senhores, são todos inocentes, e há uma entidade malévola algures, a promover um linchamento político. Não me lixem.

john

O nome é uma história

(...) 'For I am not going to tell you my name, not yet at any rate.' A queer half-knowing, half-humorous look came with a green flicker into his eyes. 'For one thing it would take a long while: my name is growing all the time, and I've lived a very long, long time; so my name is like a story. Real names tell you the story of the things they belong to in my language, in the Old Entish as you might say. It is a lovely language, but it takes a very long time to say anything in it, because we do not say anything in it, unless it is worth taking a long time to say, and a long time to listen to.

Treebeard, n'O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, por Tolkien

john