Numa conversa durante o Fórum Fantástico do ano passado (infelizmente, este ano não se realizou), dizem-me que a tradução portuguesa de
O Senhor dos Anéis, pela Europa-América, afinal não se afasta do triste paradigma de tradução dos géneros fantásticos em Portugal. Ou seja, que não era grande coisa. Agora que releio a obra de Tolkien no original, concluo que o meu interlocutor tinha, e simultaneamente não tinha razão: a tradução portuguesa é boa, a edição em si é melhor ainda, mas não há nada como ler o original. O que, de resto, se aplica a qualquer livro, creio. Jamais me atreverei a ler, por exemplo, Salinger traduzido.
Mencionei há dias Treebeard,
Barba de Árvore na tradução portuguesa, senhor dos
Ents, os
pastores de árvores da floresta de Fangorn. Treebeard é uma das minhas personagens preferidas da obra de Tolkien, e será porventura uma das mais fascinantes persongens criadas por o velho professor inglês. O mais antigo dos
Ents, apresenta-se aos hobbits Merry e Pippin como
Fangorn, assumindo-se assim como avatar da própria floresta, e levando a própria natureza a revoltar-se contra as forças do mal - no caso, contra Isengard, e contra a traição de Saruman. Há, porém, uma personagem talvez ainda mais interessante: Tom Bombadil, que tambem parece assumir-se como um avatar, mas não apenas da Floresta Velha, território que domina - nele parecem estar contidas as próprias forças da terra. Contrariamente a Treebeard, que assume uma parte activa e decisiva no desfecho da guerra, Bombadil mantém-se à margem. Intervém por duas vezes: para salvar os hobbits do velho salgueiro (o
Old Man Willow), dando-lhes de seguida abrigo por duas noites, e mais tarde, salvando-os novamente dos Espectros das Antas (
Barrow-wrights). Bombadil revela um comportamento alegre e despreocupado enquanto passeia e canta na floresta, contrastando quase agressivamente com o mundo que existe para lá do seu domínio - um mundo onde as trevas ganham forças, e onde a guerra se prepara. Durante a estadia de Frodo e dos seus companheiros na casa de Bombadil e Goldberry, sua esposa, Tom revela ainda um poder extraordinário: não só consegue ver Frodo quando este usa o Anel, como, na posse do próprio Anel, permanece inalterado: não se torna invisível, nem parece sensível a qualquer influência maligna da parte do Anel. Mais tarde, durante o Conselho em Rivendell, o nome de Bombadil surge como um potencial guardião do Anel - o que é rejeitado, devido à sua natureza despreocupada. Incapaz de sentir a influência maligna do Anel, acabaria por se esquecer dele, e mesmo perdê-lo; e ainda que o poder de Bombadil sobre o seu domínio fosse absoluto, nem ele conseguiria resistir à fúria de Mordor "quando tudo o resto caísse".
O que é Tom Bombadil, não se sabe. Provavelmente, nem o próprio Tolkien o saberia. Quando os hobbits colocam essa mesma pergunta a Goldberry, a sua resposta é apenas "ele é". Uma força da natureza, talvez, um avatar da pureza original do mundo. Há quem diga que Tom Bombadil poderá ser uma manifestação terrena do próprio Eru, deus supremo, mas tal possibilidade terá sido descartada pelo próprio autor. Tolkien, porém, nunca esclareceu a natureza de Bombadil.
No filme, Bombadil não é mencionado, o que causou fúria entre alguns fãs mais hardcore da obra de Tolkien. Mas Bombadil não poderia jamais ser mencionado num filme: Peter Jackson, que realizou a trilogia, explicou (e bem) que a sua presença não iria acrescentar nada à narrativa, o que não deixa de ser verdade (de resto, todos nós sabemos como funciona a mente de um fã
hardcore). Ainda assim, não deixa de ser uma personagem extremamente interessante e enigmática.
john