30.9.11

Direitos Reais


O tema da campanha eleitoral foi a descida da tsu, bandeira-ao-vento dos tecnocratas da lapa. O passar do tempo é, sempre, um óptimo sedativo à loucura com que se olham as pessoas, os factos e os caniches. No derradeiro duelo para as últimas legislativas, o anterior primeiro-ministro defendeu a ideia de que uma descida grande da tsu era nefasta para o equilíbrio orçamental geral e que esse tipo de estímulo à competitividade necessitaria de um estudo mais aturado para que a demagogia não toldasse os ímpetos mais desconfiados. Passos Coelho encheu-se e cresceu sobre si, inchando de leveduras e de azeites. O passar do tempo muda as análises de vitória dos debates; e talvez alguns comentadores - e, quiçá, chefes-de-estado - devessem emendar a mão. Choca-se com a realidade - sem airbag - com muita facilidade.

jtf

29.9.11

A nódoa de nêspera

Agradou-me, em Junho, a escolha de Nuno Crato para Ministro da Educação. Apesar de as coisas naquele sector não estarem a correr de feição, ainda não queimei todas as minhas expectativas, espero que Crato venha fazer um mandato que, em termos gerais, seja positivo. No entanto, a mais recente polémica em redor dos prémios aos melhores alunos não deixa de ser uma nódoa de nêspera: por mais que lavemos, nunca vai sair da camisa. Não creio que seja necessário dar aos cem melhores alunos de cada ano lectivo um prémio de quinhentos euros, pois não será decerto por aí que se recompensa o mérito individual de cada um. No entanto, o prometido é devido; se o Ministério da Educação quer ser considerado pessoa de bem, deve comportar-se como tal; e pessoas de bem não fazem uma promessa que decidem quebrar a dois dias, com a suprema hipocrisia de dizer uma bacorada como achamos melhor que os 500 euros que estavam atribuídos a cada aluno sejam atribuídos a projectos de escola, a projectos de apoio aos alunos e não devemos estar simplesmente a distribuir dinheiro. Há qualquer coisa nesta infeliz declaração do ministro que me faz voltar a Ayn Rand, mas não é esse o ponto agora: entre os cem melhores alunos do país, não há nenhum com os tomates no sítio para se levantar e dizer "Senhor Ministro, meta os quinhentos euros no cu"?

john

Adenda: Por outro lado, este triste episódio pode ter um carácter altamente educativo.

Luís Menezes Leitão, no Delito de Opinião: Mas há que reconhecer que com esta decisão o Ministério da Educação acaba de prestar um grande serviço pedagógico aos alunos. Ficaram desde já a saber que é este o Estado Português com que terão de conviver em adultos: um Estado que a todo o tempo pode desrespeitar os seus compromissos, cortar unilateralmente os salários aos seus funcionários, as pensões aos seus pensionistas e aumentar retroactivamente os impostos que cobra. Os alunos podem assim desde já habituar-se a que é este o país em que vivem e pensar em emigrar para o estrangeiro. Só essa lição vale mais que o prémio.

João Miranda, no Blasfémias: Ao que parece o Estado vai faltar ao prometido e não vai pagar os prémios aos melhores alunos do secundário. É bom que esta geração de estudantes se vá habituando. Não será a primeira vez que o Estado os vai enganar ao longo da vida.

Belém e a Presidência

Há muito quem goste daquilo a que se tem chamado «institucionalismo»; e o formalismo é - tem sido - uma coisa importante na história dos povos. O esqueleto semi-presidencial português confere ao PR a qualidade quasi-pomposa de «supremo magistrado da nação». O que implica ser o último guardião da legalidade, do normal funcionamento democrático e do cumprimento constitucional básico. Porém, dá-se o caso em que há um titular de um órgão de soberania que viola ostensivamente uma lei da república e faz disso gala, balbuciando embriaguez pelas televisões. Perante isto o «supremo magistrado da nação» - vulgo PR - diz apenas que é grave; chegando ao cúmulo de nem sequer assumir como seu o qualificativo, dizendo que está a «corroborar o adjectivo usado pelas autoridades estatísticas». Vivemos, então, num país onde o último garante pela legalidade limita-se a considerar grave-por-entreposta-pessoa o ostensivo desrespeito pelo ordenamento jurídico. Ficará para a história o período em que alguém ocupou o palácio de belém, mas Portugal não teve presidente.

jtf

28.9.11

Economia Monetária III

O Álvaro da Economia ainda vai dar que falar, e tendo em conta a prestação televisiva na praça-de-touros da RTP à segunda, talvez tenha aí encontrado um futuro público adequado. Hoje avança com: «a secagem do crédito deve-se ao endividamento excessivo do estado». Porventura seria avisado dizer ao Álvaro que há coisas que necessitam de demonstração e não basta lançar papagaios ao vento. A dívida pública é cerca de 100% do PIB, ao passo que a dívida externa é o dobro. Assim sendo, o exercício contrafactual de dizer que a única razão pela qual a economia não é objecto de escolha pelos investidores em t, é o o facto do estado o ter sido em t-1; é manifestamente abusivo e ligeiramente amador. Já que o alarde à tecnicidade é tão grande, temos que ser exigentes com o rigor do Álvaro.

jtf

26.9.11

As ideias do Relvas #1

O mega-programa de redefinição das funções do Estado chama-se PREMAC - Programa de Redução e Melhoria da Administração Central. Logo no nome se incorpora o odor pérfido da mentira e do logro. Toda a gente sabe que a redução implicará pioria. É só p'ra tentar entreter o pagode.

jtf

21.9.11

Economia Monetária II

Tem-se espalhado a ideia de que a solução para a economia portuguesa seria, sendo possível, desvalorizar a moeda. E por que não desvalorizar o Moedas?

jtf

19.9.11

Mark Twain

Naturalmente, pouco se explica quanto pouco sobra de explicação. O ódio fervilhante aos «chefes» faz com que apenas o anúncio do fim, faça rejubilar os mais desprevenidos e os mais destituídos. Falta o mais importante: demonstrar por que razão «estavam a mais». E há ainda a hipótese de estarmos, alegremente, perante a morte de Twain. Manifestamente exagerada.

jtf

A Liberdade


jtf

18.9.11

Se continuar a perguntar pode ser que um dia alguém me responda

No país do Simplex e do Cartão do Cidadão, é normal os cidadãos continuarem presos a uma mesa de voto, a um centro de saúde,  a uma repartição de segurança social e a um centro de emprego?

john

14.9.11

O Incêndio

Não é nova a dictomia entre os Portugueses e o Estado. Este Governo tem cultivado com afinco a oposição entre estes dois grupos como forma de legitimar aquela ideia antiga de tratar-da-saúde ao segundo, para com isso aliviar os primeiros. A adjectivação sempre foi uma parte importante da comunicação; e chamá-lo gordo talvez não tenha sido prudente, ao mesmo tempo que se vendem as Águas de Portugal por dois patacos e se aumentam os transportes 15%. Marcou-se, assim, o trote do erro em que o Governo tem, fulgurantemente, laborado. Facilmente se verá que, se por um lado diminuir o peso do Estado significa aliviar os cidadãos dos seus custos, por outro significa retirar-lhes os seus benefícios. Os dois grupos são, na verdade, o mesmo; e isso inquinará os propósitos ofuscadamente reformadores de Pedro Passos Coelho. Talvez por impulso preventivo, o primeiro-ministro já avisou que não tolerará quem queira «incendiar o país». Pode ser que os Portugueses venham a avisar o Governo de que não toleram quem quer incendiar o Estado.

jtf

13.9.11

Da estatística e das putas


É mais ou menos este o problema das generalizações, caro João. São como a estatística e as putas: prestam-se a tudo.

john

(disclaimer: não admiro o trabalho de Mário Crespo nem trabalho como jornalista actualmente)

Do Jornalismo #4



Para aqueles dias em que está quase convencido que os jornalistas se regem por uma certa deontologia, ouça o Mário Crespo que isso passa-lhe num instante.

jtf

12.9.11

Ornamentação



Há silhuetas que de tão inimagináveis nos comovem e, outras, nos ferem. A imagem de um estimável académico como Nuno Crato a fazer de ornamento ao lado de alguém de-certa-forma destituído e imberbe, faz alguma pena.

jtf

11.9.11

Mais depressa votava no PS

Nunca pensei que existisse o verbo "envelopar", mas o dicionário diz-me que sim. Não estou a ver nenhuma tragédia suficientemente grande para me obrigar a usar tão monstruosa palavra.

john

9.9.11

Blogoesfera

Saudações ao novo Forte Apache. Autores de leitura obrigatória.

jtf

8.9.11

Macroeconomia doméstica

Em entrevista à Sic, Vítor Gaspar justifica todos os aditivos de receita de 2011 com o receio de que políticas recessivas levem a diminuições de receita previstas. O que parece ser racional não passa de uma «self-fulfilling prophecy» descarada. Basta pensar que os aumentos de tributação são - eles próprios - o pai e a mãe da recessão.

jtf

6.9.11

Da Linguagem

Mesmo um poeta destituído esforça-se por evitar expressões superfulamente coloquiais. A puxar para o chinelo. «Que vai naquela cabeça» é uma espécie de aileron da língua portuguesa. Conversa de taberna.

jtf

5.9.11

Agora a sério:

Pensando nos Bastonários das Ordens dos Médicos e dos Advogados, pergunto-me: o cargo de Bastonário serve apenas para dizer disparates em tempo de antena, não é?

john

Impostemos, então

O Bastonário da Ordem dos Médicos quer taxar a fast food. Sugiro antes que se taxe a estupidez. É mais simples e garante mais receitas. E já que se pôs a jeito, comecemos pelo senhor Bastonário.

john

O Outro

Para júbilo dos vingativos, o actual parece-se cada vez mais com o anterior, em pior. O concurso de máscaras continua, e a margem de progressão do bobo é todo um caminho a percorrer. Talvez, mesmo que fora-de-cena, a imagem do outro se abrilhante, paulatinamente, até ao infinito.

jtf

3.9.11

Pela primeira vez em muitos anos li um livro acabadinho de sair

pelo que me sinto inteiramente à vontade para afirmar que A Dance With Dragons, de George R.R. Martin, é o livro do ano (está ali nas recomendações, mas leiam a série do início).

john

2.9.11

Caminhar em círculo

Não abona em favor da inteligência colectiva que ainda não se tenha percebido que, agregadamente e do ponto de vista do cidadão, "corte de despesa" e "aumento de impostos" são sinónimos.

jtf

1.9.11

Autonomia

Na ausência de justiça, em teoria, simpatizo com a ideia de organizar um grupo de sócios do Vitória de Guimarães que fosse à Madeira fazer à casa do Alberto João Jardim aquilo que os rebeldes fizeram à casa do Kadafi. Só p'ra começar.

jtf