31.1.08

paridade não significa igualdade

vital moreira considera que uma "lei de paridade" (no caso do post citado, a espanhola) é uma medida positiva para a "promoção da "igualdade de género", ou da igualdade em geral". ou seja: obriga-se uma instituição - imagine-se, um parlamento - a haver uma quantidade x de mulheres, independentemente do seu mérito ou da sua capacidade. não quero com isto dizer que as mulheres são inferiores aos homens, nem nada que se pareça. apenas creio que as pessoas devem obter oportunidades de acordo com o seu mérito, com as suas capacidades, com a sua inteligência, e não por causa do órgão genital. ora, se o problema é a falta de mulheres na política, uma lei de paridade vai atacar o problema de forma forçada e superficial.
uma assembleia, uma empresa, deve acima de tudo escolher os seus membros de acordo com o seu valor. ora, o valor transcende o sexo - ou, pelo menos, deve transcender. forçar uma instituição a contratar uma mulher para cumprir quotas acaba por inferiorizar essa mulher, na medida em lhe está implicitamente a dizer: contratamos-te não porque és boa para o cargo, mas porque temos de cumprir a lei. não sei, mas esta lei que procura promover a igualdade parece-me algo machista.
jc

30.1.08

mas, joão,

esclarece-me uma coisa: é só de mim, ou o verbo "remodelar" aplicado aos ministros e secretários, e não ao governo, ganha contornos hilariantes? é que cada vez que leio ou ouço a expressão "o ministro foi remodelado" a única coisa que me vem à cabeça é o ministro a levar uma nova pintura no cabelo, estuque novinho rodapés pintados, chão encerado e fatiota com nova decoração.
ó caros jornalistas, opinion-makers e cidadãos do país: os ministros não se remodelam. ou saem, ou entram. como as pilas, estão a ver? os governos, esses sim, são remodelados. porque os ministros, como as pilas, saem e entram. bolas, que tem de ser um mísero estagiário a dar conta disto!
e sim, sei que a piada das pilas é de um vago mau gosto, mas hoje não dá para mais.
jc

no fundo, no fundo,

a história do fecho das maternidades e das urgências (que não são urgências, mas adiante) faz-me, assim de repente, lembrar a história da co-incineração. sim, aquela que quase incinerou o ministro pinto de sousa, do ambiente, há uns aninhos. toda a gente reconhece que a saúde funciona mal, e que é preciso racionalizar a coisa. mas ninguém quer que se feche os serviços que existem ao pé da sua porta. tal como toda a gente entendia a necessidade de co-incinerar (nunca percebi o prefixo) os resíduos, mas ninguém queria isso fosse feito na sua vizinhança. por outras palavras: façam a merda que vos apetecer, mas façam-na longe da minha porta.
e nesta linha de raciocício podíamos ir para as linhas de alta tensão. e para os aterros sanitários. e para....
jc

Tesouros #2

A Maria, o Herman e uma Obra,

F.S.

vou tentar dar-te algumas respostas, joão, apesar de não ter sido metido ao barulho no teu post:
1) não conheço os números, mas confio nos teus: terão encerrado 150 maternidades desde o ínicio dos anos 90. certo; nunca, porém, o encerramento de maternidades foi "bandeira" de nenhum ministério da saúde - que me lembre, claro.
2) conheço vários casos de nascimentos em ambulâncias, e até em sítios menos confortáveis, muito antes desta legislatura. não sendo óbvias para as populações as razões que ditam o encerramento das maternidades, o povo faz a simples soma de dois mais dois, e atribui a um efeito - o nascimento em ambulâncias, as mortes, etc - uma causa - o encerramento de certos serviços de saúde. na ausência de explicações, todos tendemos a procurar uma, esteja certa ou errada.
3) a coordenação entre bombeiros e inem sempre foi, para recorrer à expressão certa, uma merda. simplesmente nunca foi colocada em evidência da forma que o foi agora.
4) encerrar todos os serviços - maternidades, urgências, o que quer que seja - que não tenham um x de utilizações anuais pode ser uma boa medida no papel, mas quando é transposta para a realidade tem que ter em conta alguns factores. nomeadamente, a geografia.
5) não creio que algum ministro da saúde tenha sido competente. e poderia alargar a crítica a outros ministérios. correia de campos, no entanto, colocou-se a jeito com algumas declarações feitas à comunicação social.
no fundo, joão, a queda de correia de campos deveu-se aos media, que amplificaram até ao exagero as sucessivas polémicas, e ao autismo que grassa no governo. a saúde no país é um caos, e não é necessário sair de lisboa para constatar este facto - poderia contar as várias histórias que tenho do sns para ilustrar esta ideia. a verdade é que os portugueses têm andado a comer e a calar há muito tempo. a corda tinha que rebentar por algum lado, e rebentou precisamente pela saúde. não levantámos cabelo na história da licenciatura. com o aumento do iva, agachámo-nos. com o referendo ao tratado, colocámo-nos de quatro. mexeram na (falta de) saúde, e fomos aos arames. era mais ou menos previsível.
a remodelação, porém, peca por ser curta. a educação continua e continuará na lama (e onde pára a tlebs?), e transcende-me o facto de mário lino continuar alegremente no seu lugar, sobretudo após a conferência de imprensa para a decisão de alcochete. sócrates prometeu ao país as reformas de que este necessitava. ainda não vi nada, se queres saber.
esperaria uma remodelação e 2009, mas uma a sério. não votarei no partido socialista, como não votei nas últimas eleições - isso é mais do que certo. mas para trocar sócrates por menezes, sinceramente, prefiro vender o país a espanha.
jc

29.1.08

Mi(ni)stério #2

Gostaria de saber: (i) a opinião de todos os partidos da oposição, particularmente o psd, sobre o que acham do encerramento de 150 maternidades nos anos 90; (ii) se nunca antes do início desta legislatura tinha ocorrido um parto numa ambulância; (iii) se a coordenação entre inem o bombeiros era perfeita antes do mandato de Correia de Campos; (iv) o que achariam de que, contrariando as orientações da OMS sobre salas de parto, não se transferissem todos os nascimentos para salas-de-parto com mais de x partos por ano; (v) resumindo, se acham possível que, com a quantidade de Ministros que o país já teve em todas as áreas depois de 1974, em 23 anos nunca ouvi que algum tenha sido competente.

jtf

Mi(ni)stério #1

Já era esperada a saída do ministro da saúde mais tarde ou mais cedo. Incorporo, constantemente, a papel do advogado do diabo, e faço-o com inequívoco prazer. Uma vez que acredito naquilo que defendo e, neste caso, defendo o ministro. Bem sei que é um papel difícil e solitário, mas a beleza da liberdade de expressão reside precisamente aqui. Todas as iniciativas reformistas desta legislatura me pareceram razoavelmente acertadas e sensatas. Tanto o fecho de algumas maternidades, como o fecho de alguns sap, que nunca urgências foram. Começando por este último, (i) é-me completamente incompreensível como é que líderes autárquicos locais maniupulam povo desinformado como rebanhos de cabras. Organizam manifestações repugnantes utilizando a ignorância alheia, para depois, meses mais tarde, virem a concordar com o ministro assinando protocolos no que respeita a urgências médicas. Acresce o facto de que em quase todas as localidades em que se encerraram serviços médicos nunca existiram urgências, pelo que, gritar "queremos a nossa urgência de volta" me parece abominável. Ora, o povo manifestante gritou este tipo de frases porque ninguém teve a honestidade de lhes explicar que nunca tiveram urgência antes. E esta tarefa devia estar a cargo dos presidentes de Camara e não só do Ministro. Infelizmente, os autarcas aproveitaram esta oportunidade para mobilizar os seus eleitores em seu torno, corporizando uma luta inexistente e profundamente lamentável; (ii) o caso das maternindas é ainda mais deprimente, quando o principal partido da oposição (pela voz de Fernando Negrão) exprime um dos mais lamentáveis argumentos saídos de uma cabeça humana. Foi dito, na altura, que o fecho da sala de partos em Elvas era umas questão patriótica. Eu vou-me coibir de explicar o ridículo do argumento. Voltarei a este assunto em breve.

jtf

"inspectores de lancheira" *

li isto no blogue da revista atlântico, e, apesar de surpreendido, não fiquei chocado - kinda saw it coming. ora agora querem controlar o que os paizinhos colocam na lancheira dos filhos? e se não for saudável, é confiscado? tudo em nome da "saúde pública".
creio que se um dos burocratas produtores deste tipo de leis, ou um defensor da "saúde pública", tivesse visto a minha lancheira de criança, tinha um acidente vascular cerebral instantâneo. bem me recordo de levar para a escola - ou em visitas de estudo - um ou dois pacotes de leite com chocolate, e um ou dois pães barrados com banha (sabem aquela banha alaranjada que a carne de porco acumula? essa mesmo; no pão, é uma delícia), e recheados com piques de carne de porco cortados em pequenas fatias. ou então uma bela sandes de linguiça ou de chouriço - produtos caseiros, claro, produzidos sem condições de higiente nas tradicionais matanças de porco que a asae deve atacar em breve. fruta, nem vê-la - ficaria pisada, intragável, e seria uma chatice de limpar. salada? estão a gozar? então e em casa? os meus pais estaria presos há muito tempo, por nunca terem obrigado o filho a comer sopa de vegetais (coisa que abomino) ou salada (idem). ou por lhe darem linguiça assada em aguardente (produzida ilegalmente por um velhote a partir de medronho, numa destilaria caseira).
aliás, se um desses burocratas visse os meus hábitos alimentares tinha um enfarte. receições fora de horas, com muita carne, pouco peixe e virtualmente nenhuns vegetais. cerveja e vinho à refeição quando se pode. muitos enchidos, muito pão alentejano sempre que posso. quatro cafés por dia (três até à hora de almoço), um maço de tabaco por dia. em média.
dadas estas condições, e a péssima alimentação que os meus paizinhos me deram em petiz, é evidente que sou gordo. gordo, não: obeso. tenho aqui 72 quilos de pura obesidade distribuídos por 1,86 metros de altura. claro que quando a minha mãe diz que eu devia engordar, está apenas a ser sarcástica, muito sarcástica.

jc (com muitas saudades da carne e da banha de porco, lisboa não tem iguarias destas)

*título roubado do post do blog atlântico, dado ser realmente o mais adequado.

o jornalista e a má vontade

pois é, camarada fábio: nós, jornalistas, somos todos uma corja de abutres, sempre em busca de carne podre para fazer a festa. nos cursos de jornalismo, comunicação e quejandos, desde o cenjor à fcsh, existe uma cadeira mais ou menos secreta (tão secreta que bolonha nem lhe atribui créditos, vê lá tu) intitulada "técnicas de ataque a ministros e de criação de editoriais, vá, desagradáveis". na gíria, tamcevd. nesta cadeira, entre muitas outras coisinhas úteis, aprendemos o impensável: que um caso como aquela surreal conversa dos serviços de emergência que todos ouvimos no telejornal ou no youtube é notícia, e que os milhares de boas práticas das urgências nacionais (impressionante como o ministro conseguiu falar em casos de sucesso das urgências sem se rir) não o são. isto é, como facilmente se pode ver, um escândalo: então desde quando o anormal é notícia? um caso daqueles, como outros (vide a licenciatura do nosso primeiro, por exemplo), é de uma irrelevância tal que deve, sim, ser abafadinho por nós jornalistas. vá, podemos escrever qualquer coisa sobre o assunto: uma breve de 200 caracteres no jornal, entre o anúncio de um t2 mobilado na ameixoeira e o de uma "meiguinha e gostosona" na alameda; ou uma ligeira nota de rodapé no noticiário das oito. mais do que isso, nem pensar. o que faz sentido, claro: o que é que interessa ao país saber que o seu sistema de saúde é caótico, e que não existe qualquer articulação entre os vários serviços de emergência médica? ainda por cima, naquele caso concreto, o homem já estava morto e tudo. se estivesse, vá, em paragem cardíaca, certamente que a coisa tinha corrido melhor. como diria o mui iluminado ministro da saúde, em 15 minutos estaria lá o inem, e como se sabe, em 15 minutos ninguém morre. e se morrer, é mesmo por má vontade.
ora má vontade é o que não falta aos jornalistas - esses pulhas -, quando exibem coisas destas. como há-de o país avançar e modernizar-se, se existe por aí meia dúzia de safados consantemente a desmoralizar, a falar de idosos que morrem nas urgências quando caem de uma maca, a referir bombeiros que não sabem o que hão-de fazer, a colocar perguntas maçadoras ao senhor ministro e a trabalhar com critérios editoriais mauzinhos para com os nossos excepcionais governantes?
está tudo louco, é o que é.
jc

Fugir à guilhotina

Se és ministro dessa grande República Portuguesa e te vês constantemente atacado pela comunicação social, com promessas de te levarem à guilhotina, então invoca o mau critério editorial.


F.S.

25.1.08

é a luta, camarada

campo de ourique, oito e meia de uma longa noite. perto dos correios, no caminho que vai para santa isabel, deparo-me com um rafeiro e dois bêbedos. dois borrachos, cuja idade os cabelos brancos não escondem e cuja bebedeira os narizes escarlate não tentam sequer disfarçar. um deles, mais alto, com um casaco de cabedal gasto, dirige-se à parede mais próxima e coloca-se em posição de alívio. penso eu para mim, ele não vai mijar ali; mas cedo um certo ruído característico confirma as minhas suspeitas (afinal, eu mesmo já mijei em muitas paredes e em muitos chaparros). não tendo como evitar, passo mesmo por trás dele, cruzando-me com o seu companheiro - um homem a entrar na velhice, de cabelo branco desalinhado, óculos fundo-de-garrafa, jornal enrolado numa mão e guarda-chuva na outra. passo por ele, e eis que ergue os braços ao céu e grita,
isto é uma vergonha, camarada! é a luta! o sócrates é um ladrão!
e continua a vociferar sozinho, a apelar à luta, enquanto o seu camarada descarrega o que resta da cerveja e do vinho na parede.
jc

24.1.08

sem rumo

Ele disse: Acabou.
Ela permaneceu calada.
Afinal, todos sabemos o quão analfabetos somos na linguagem do coração.

23.1.08

voltamos a 1984?

aviso à navegação: o primeiro agente da asae, da gnr, da psp ou de onde quer que seja que entrar na minha casa para me impedir de assar uma linguiça e comê-la com pão alentejano, acompanhando com um bom tinto de pias, leva chumbo. e se atacarem as "matanças do porto" no alentejo, está prometida uma guerrilha armada. tenho dito.
jc

outros pontos de vista

tomás vasques coloca aqui uma questão curiosa acerca da nova lei do tabaco. de facto, nunca me tinha passado pela cabeça esse pequeno pormenor - a nossa casa, espaço privado para nós, pode ser um local de trabalho para terceiros. por isso, e no limite, a interdição de fumar em casa poderá fazer sentido.
bem visto. daqui até começarem a surgir processos em tribunal poderá ser um saltinho. se eu entretanto enriquecer - improvável, mas o mundo anda louco de qualquer maneira -, lembrem-me de fazer um contrato com a empregada no qual ela declare que aceitou, em consciência, trabalhar na casa de um fumador. só para prevenir.
podemos ainda ver as coisas de outros pontos de vista. se eu fizer o meu trabalho a partir de casa, no meu escritório (não tenho um, mas imaginemos!), poderei ser impedido de fumar? é que a minha casa acaba por se tornar no meu lugar de trabalho; de acordo com a lei, o que estará acima? habitação ou escritório? ou podemos imaginar (não é o que acontece, mas imaginemos mais uma vez) que eu trabalho numa redacção na qual todos os colaboradores, sem expecção, são fumadores. e que não se importam minimamente de fumar o seu cigarrinho enquanto martelam furiosamente o teclado. fará sentido a lei impedir meia dúzia de pessoas, todas fumadoras, que fume neste caso?
o direito tem, realmente, muito que se lhe diga.
jc

22.1.08

olha, terroristas

um engraçadinho enrola uma mochila num trapo árabe (não sei o nome daqueles lencinhos à arafat que fazem, há anos, as delícias dos jovens camaradas do bloco), atira a coisa para os carris do metro e pronto, estação de telheiras encerrada, ruas cortadas e se calhar até gente evacuada. é a febre terrorista a chegar a portugal. o que se esperava? dias e dias a martelar no assunto nos meios de comunicação social, desde o zé da esquina até ao presidente da república. os média devem andar em roda-viva: emissões especiais, provavelmente, tema de abertura para os telejornais das oito, debates nas notícias do cabo, vox-pop com qualquer jagunço, encher chouriços até não dar mais. por favor. levamos anos a achar-nos pequeninos enquanto país, enquanto povo; e, assim de repente, temos dimensão para atentados terroristas? coisa a sério, nada de peidinhos no metro de lisboa (ameaças de bomba também já as houve em odemira, e nem por isso se falou de terrorismo). sei lá, rebentem com as torres de lisboa, mandem aviões contra as amoreiras ou façam como o ministro santos silva sugeriu e "dinamitem" a ponte 25 de abril (caro ministro, com o atraso devido aproveito para lembrar que o dinamite está fora de moda). qualquer coisa assim. mas agora a sério, é plausível pensar que isto pode acontecer? em portugal? por favor.
jc

21.1.08

Impressão



Because in the end there is only us

F.S.


18.1.08

A vidinha #6

Nos últimos dias, ao espreitar-me no espelho, constato cada vez mais que sou o maior argumento a favor da teoria do caos.

F.S.

16.1.08

e assim espero conseguir o meu lugar no céu, sem parquímetro

campo de ourique, manhã já atrasada, aborda-me um senhor dos seus cinquenta anos para quem não olharia duas vezes na rua: limpo, vestido normalmente, de feições banais, com um telemóvel na mão. pede-me para lhe ditar um número de telefone, escrito em letras microscópicas, impresso num pedacinho de papel ínfimo. 96765... sabe o que é, é para ligar para uma namorada, diz-me ele, casualmente. reparo então que o minusculo papel é maior e está dobrado, e que está algo escrito por cima do número de telefone. o nome da menina? meiguinha e gostosona. bom dia.
jc

13.1.08

Tenho dúvidas existenciais

Tenho dúvidas existenciais, admito. A minha vida está cheia delas. Numa esquina, numa parede, num jardim, dentro de um carro, em locais totalmente banais. Assolam-me, quase diariamente, ao acordar de sonhos inquietos ou à noite tentando sonhos descansados e dispersos. Interrompem os meus pensamentos e divagações interiores, espalham-se qual sinal nervoso por este corpo que há muito procura razões, sinais divinos, fumo branco no sopro do vento ou mesmo o Encoberto que revele o Quinto Império a mim destinado, se é que o destino conta ou pode ser contado. Mas uma coisa é certa, não me posso queixar! São estas dúvidas que apimentam a minha vida, enquanto eu as tento resolver. E é por cada vez mais me aparecerem estas dúvidas, cada vez mais sem solução aparente, que a minha vida vai ganhando alguma emoção. Se, algum dia, me perguntarem como defino a minha própria existência, da minha boca apenas ouvirão: um livro dos porquês.
E como acaba por ser cruel o tempo! Quanto mais ele passa, mais curta é a vida e, por outro lado, mais longa a lista de questões. Mas não me importo! Cada lágrima de desespero ou sorriso de euforia guardo com afinco nas gavetas do tempo, espremo a vontade que perpassa no meu peito e assim elas se mantêm vivas, não vá precisar de tais recordações para resolver alguma dúvida futura. É por estas incertezas me vou conhecendo, tentando saber quem sou e por que vagueio por aqui. É pelas minhas dúvidas existenciais que consigo viver.

Duvido, logo existo.

(um pequeno texto arrumado nas gavetas do meu quarto)
F.S.

10.1.08

fedorento que baste.

10 de Janeiro, ainda a noite não tinha caído mas tombava de tal modo que já nada a detinha na queda pingante, aquele lusco-fusco das seis e meia da tarde, Lisboa, Campo de Ourique, Rua Coelho da Rocha, enquanto tudo isto passava como num filme aveludado a Hallelujahs de ipod, a 32 db, pessoas fazem fila para enfiar cartas em ranhuras encarnadas nos ctt do bairro, prática que julguei mais arcaica do que conduzir charruas nos Restauradores, 18h25m e já a sala superior da Casa Fernando Pessoa esticava todas as costuras que ainda resistiam, julgo até que respirar se tornou penoso, o evento era simples e tão literário-intelectual que (em circunstâncias normais) ninguém sairia de casa, apanharia chuva, irritar-se-ia para estacionar o veículo ou a coche, resistiria sem adormecer por mais de cinco minutos ouvindo alguém falar de poesia, ali apresentava-se hoje o mais recente livro de poemas de Francisco José Viegas editado pela Quasi, é mais do que óbvio que apresentar livros de poesia supõe não mais de cinco ou seis gatos pingados, com cara de aborigenes, transpirando a Esquerda por todos os poros, com aqueles óculos que só os pseudo-intelectuais usam, pretos e de massa, (como os meus), nunca mais de seis se poderiam supor, contudo hoje a apresentação de Se Me Comovesse O Amor parecia um concerto do Robbin Williams ou mesmo de qualquer um dos Carreiras, a justificação é anã e o conselho é simples: quando quiserem multidões para o que quer que seja convidem o Ricardo Araújo Pereira.

jtf

p.s.1: João, é verdade que tenho estado ausente. A tese não me tem dado tempo para me coçar.
p.s.2: Tudo isto não invalida o facto de que, sendo ateu, nem tentei falar com o RAP. Afinal, toda a minha educação foi construída sabendo que não se fala com Deus de qualquer maneira.

jamais!

assisto à conferência de imprensa do governo sobre o novo aeroporto enquanto almoço. sócrates domina, vende o seu peixe, leva a água ao seu moinho. mário lino permanece mudo, mesmo quando as baterias dos jornalistas para ele apontam. inútil. sócrates domina, e mesmo as perguntas dirigidas para o ministro das obras públicas são respondidas por o nosso iluminado primeiro. a expressão incomodada de lino foi notória - assistiu-se ali, naquela sala, a uma humilhação como poucas vezes vi em directo.
num país "civilizado", mário lino teria sido sumariamente despedido quando afirmou que o sul do tejo era um deserto. a comunicação social, a bloga e os humoristas apanharam o soundbyte "jamais!", mas as considerações que o ministro teceu sobre o sul foram - e são - muito mais graves do que a sua obstinação. não digo que não tenha razão - sou do alentejo (odemira, para ser mais preciso), e por muito que goste da minha terra (e gosto), reconheço - é um deserto. temos boa comida, bons vinhos, gente simpática - mas falta tudo o resto. nem a auto-estrada do sul, que rasga o território, nos beneficia. isto, por si só, é grave, muito grave, mas o ar indiferente e natural com que um ministro o afirma - como se não fosse nada com ele - roça o surreal. não se demitiu o ministro, a polémica estalou, estudos foram encomendados. ganhou alcochete, o "jamais!" de lino. este facto, por si só, seria mais do que suficiente para que sócrates o demitisse. ou "remodelasse", como se diz agora na gíria. não só não o demite, porém, como ainda o arrasta para a conferência de imprensa para uma silenciosa humilhação pública. tivesse mário lino alguma dignidade, e não se prestaria a este papel.
a conferência foi ainda reveladora de um outro detalhe, não menos importante: a reafirmação da postura arrogante de sócrates, do controlo total que exerce sobre a sua equipa e que não permite réplica. mário lino não abriu a boca. esclarecedor, para dizer o mínimo. imagino a conversa que antecedeu a conferência.
jc
joão: sei que me ando a alongar nos posts, mas pronto. onde andas rapaz? tenho o blogue por minha conta?

9.1.08

um blog que merece destaque:

8.1.08

e já agora,

para filme português, o call girl não está nada mau mesmo. a história, não sendo o cúmulo da originalidade, é coerente, e os desempenhos são aceitáveis. há quem critique o excesso de palavrões - facto, mas também os filmes americanos estão cheios de fuck e damn e asshole, entre outros, e ninguém se chateia por isso. alguém imagina, já agora, um tarantino sem calão? também há quem critique o facto de o filme se centrar na soraia, no corpinho da soraia, nas cenas de sexo da soraia. olhando bem para a rapariga, seria uma idiotice se o filme não puxasse por isso.
tudo bem, assumo que, mais do que apelar à tusa, as deixas sexuais apelam à gargalhada (o inglês soa sempre melhor nestas coisas, tal como o francês, idioma erótico por excelência). mas o final do filme, com uma curiosa reviravolta, foi das melhores coisas que já vi no cinema português.
ah, e já falei aqui da soraia?
jc

7.1.08

danos colaterais

o primeiro dano colateral da nova lei do tabaco está nas ruas - e não me refiro aos fumadores, trémulos como varas verdes, a abafar o vício ao frio. refiro-me, sim, quantidade de beatas que infestam as calçadas de lisboa. no sábado, em frente a uma das entradas do metro de saldanha, o cenário era desolador; bem contadas as pontas, e estariam ali talvez dezenas de maços consumidos, espalhados pelo chão molhado pela chuva. nada de surpreendente: a lei obriga os fumadores - esses párias - a fumar fora de espaços fechados. no entanto, nada pressiona as câmaras municipais ou as juntas de freguesia no sentido de colocarem nas ruas cinzeiros ou outro qualquer recipiente para as beatas. será, talvez, uma questão de tempo até se proibir o simples acto de atirar a ponta do cigarro para o chão. a malta do costume, sempre pronta a apontar o dedo, irá aplaudir de pé. por mim, tudo bem. desde que tal lei não se limite às beatas, alargando-se à merda de cão que torna os passeios em autênticos campos minados (dê-se um giro por campo de ourique para perceber melhor), aos escarros que tanto gostam os portugueses de disparar, e ao entulho em geral.
já agora, seria bom que todos os cafés começacem a dispor de copos de plástico para café. estes não só permitem trazer a bica - a melhor amiga do cigarro - para a rua, como serve de cinzeiro no final.
jc

5.1.08

hate blogging for the beginning of the year

gostava que me oferecessem, assim em jeito de prenda de reis, uma espécie de free card, assim coisa tipo via verde, acompanhada de respectivo arsenal que me permitisse destruir qualquer coisa em lisboa. digamos, por exemplo, as lojas do cidadão. sim, isso mesmo: um passe e artilharia para rebentar com a loja do cidadão dos restauradores. não era preciso muito: bastavam uns quilinhos de c4, para o fogo de artifício, uma pistola desert eagle para uns tiritos à queima roupa, e uma pump-action shotgun de calibre 12., como aquelas porreiras que vemos nos filmes, para o massacre geral. era entrar a mandar chumbo sobre a maralha que lá anda, a começar pelos sempre solícitos empregados da repartição de impostos, cada um com a sua própria e enviesada interpretação das leis. depois, colocar o c4 em sítios mais ou menos estratégicos para ter a certeza de que aquilo ia mesmo abaixo. mais uns tirinhos, just for the fuck of it, portas barricadas com a canalha lá dentro. excepto crianças, claro, que os petizes não têm culpa da imbecilidade paternal que os obriga a aturar o suplício burocrático nacional numa manhã de sábado, quando deviam de estar em casa, quentinhos no sofá com uma caneca de leite com chocolate a ver os desenhos animados. adiante. portas barricadas, população histérica a gritar aqui d'el rei - e eu, ao som de um beethoven ou de uns slipknot, sentadinho com um cigarro na praça dos restauradores, a premir o detonador. pudesse eu começar o ano assim, e teria a certeza de que 2008 seria o tempo da minha glória pessoal.

já agora, e se não fosse pedir muito, gostaria de, no caso de me sobrarem cartuchos na espingarda, poder abater a alma iluminada que inventou os recibos verdes. obrigado.

enfim. bom ano a colegas e leitores.

jc

4.1.08

partilha...

O tempo, lá fora, é a metáfora do eu, cá dentro...


ff