Já que a ideia é falar de séries, podia começar por dizer que a prova definitiva da superioridade cultural anglo-saxónica sobre os povos latinos seria a predominância das séries televisivas sobre as soap operas (novelas), mas isso seria um disparate. Hoje, as séries são moda - talvez já o sejam há largos anos, mas não como hoje, em que toda a gente (excepto os e as irredutíveis das novelas) as acompanha, compra em dvd, comenta, etc. E é provavel, que a prazo, venham a ser mais relevantes que o cinema. Não me surpreende. No que perde em impacto visual, uma série televisiva ganha em potencial de desenvolvimento de argumento e de personagens - o que, feitas as contas, acaba por ser uma vantagem. Conheço vários exemplos de filmes fracos que poderiam ter dado óptimas séries, mas não é disso que quero falar hoje. Não que saiba do que quero falar hoje, as manhãs de Segunda-feira são terríveis, sobretudo quando se dormem apenas quatro horas, resultado da reposição de Dexter na Fox, do calor e dos mosquitos (por esta ordem). Enfim, séries, falemos de séries. O que chateia nas séries é que as mesmas fórmulas acabam por ser repetidas ininterruptamente. Basta ver a praga CSI: de uma série original mais ou menos interessante - há policiais muito melhores - resultaram dois spin-offs sofríveis. E há toda uma constelação de séries policiais do género, muito sci-fi contemporânea para muito pouco interesse (NCIS, por exemplo). Nesse sentido, as séries policiais que ficam a ganhar são aquelas que, passe a expressão, se deixam de merdas (Southland), que apostam na tal sci-fi contemporânea mas dando-lhe uma volta (Bones), ou aquelas que quebram o cânone e mostram a coisa pelo outro lado, apesar de continuarem dentro do registo (Dexter), ou até mesmo aquelas que pegam no tema a partir de uma perspectiva completamente diferente (Lie to Me). O resto é palha. Mas as séries de investigação criminal são a moda de hoje. Nos anos 90, eram as séries de advogados, lembram-se? Desde a razoavelmente cómica Ally McBeal à soporífera JAG, não faltavam séries de advogados - e nenhuma particularmente interessante, agora que penso nisso. Também se tentou surfar a onda X-Files, o que resultou na interessante Millenium, e, mais recentemente, na também interessante Fringe (sobretudo por causa da actriz principal, confesso). E, claro, há as séries médicas, que desde a clássica E.R. (e das suas muitas cópias) já conheceram muitas formas, desde a mistura com policial de Third Watch à soap opera incursion de Grey's Anatomy à pretensão nonsense (falhada, já agora) de Scrubs - mas a única série médica realmente boa é House. E se repararmos bem, aquilo que une as séries realmente boas - House, Dexter, Bones, X-Files, Millennium - são as personagens. Não há outro médico com o carisma odiável de Greg House (o Dr. Romano, de E.R., era um menino de coro ao pé dele), como não há ou haverá dupla como a formada por Fox Mulder e Dana Scully, como não há equipa de investigadores criminais como a de Brennan e Booth (e todos o outros), ou lone wolfs como Frank Black, ou serial killers simpáticos como Dexter, ou investigadores distraidamente atentos como Cal Lightman. E não há não só porque falta imaginação para conceber personagens deste calibre, mas também - e sobretudo - porque actores como Hugh Laurie, David Duchovny, Gillian Anderson, Michael C. Hall, Tim Roth, Emily Deschanel, David Boreanaz e Lance Henriksen não são fáceis de arranjar. Enfim, quem quiser fazer o pleno e ver uma série onde todos os actures são superlativos, pode ver Firefly, que tem a vantagem de ser a melhor série da década que passou, apesar de ter sido interrompida e ter apenas catorze episódios. Mas quem não gostar de sci-fi pode sempre optar por séries mais descomprometidas mas também muito boas - e mais difíceis de categorizar -, como Six Feet Under, Californication, Castle ou Mad Men. Agora que penso nisso - este texto vai saindo à medida que o vou pensando, juro -, acho que estas três séries até cabem precisamente na mesma categoria, apesar de nem todas poderem ter uma actriz como a Christina Hendricks. A ver se vejo mais alguns episódios para confirmar.
Ia acabar o texto aqui mesmo, mas lembrei-me de que não mencionei as comédias. As comédias são o drama das séries televisivas actualmente, isto porque para além de The Big Bang Theory não há nada de jeito actualmente (que eu saiba). Sim, eu sei, tenho imensos amigos devotos de How I Met Your Mother, mas por favor, a série é engraçadita, sim, mas algo sobrevalorizada. Vá lá que arranjamos dvds de coisas antigas e boas, como Flying Circus, Allo Allo ou, com jeitinho, Red Dwarf (a sério, isto arranja-se em dvd?). Também não mencionei uma coisa chamada Heroes ou o fenómeno Lost, por dois motivos: Heroes é uma série falhada - não aprendeu nada nem com os super-heróis clássicos, nem com correntes opostas, como Watchmen; e Lost é uma série que se baseia numa premissa muito interessante para se perder dentro do seu próprio labirinto (e dentro do seu próprio hype), e que por isso se tornou desinteressante.
john