Parece que corre pelas redes sociais uma petição pública e um "ultimato" ao Primeiro-Ministro e ao Secretário de Estado da Cultura a propósito do cinema português. A coisa pode ser lida
aqui. Alguns comentários às exigências:
1. Que enquanto a nova Lei do Cinema não for aprovada pela Assembleia da República e entre em vigor, o Governo encontre uma solução de emergência para a situação de ruptura e descalabro financeiro do Instituto de Cinema e que permita dotá-lo dos meios financeiros necessários aos compromissos assumidos com os produtores e aprovados entre 2010 e 2011.
O Estado também tinha um compromisso para com a função pública de lhes pagar subsídio de Natal e de férias, e isso ardeu até 2018 (ou até Vítor Gaspar arranjar uma nova data). E nem irei mencionar todos os compromissos rasgados com contribuintes, pensionistas e cidadãos em geral entretanto. Não vejo por que motivo se devem manter os compromissos com os produtores de cinema quando os compromissos com os contribuintes - que, só por acaso, até são (em teoria) a audiência dos filmes - foram rasgados.
2. E que essa solução de emergência permita também que os Concursos de 2011 sejam homologados pelo Secretário de Estado da Cultura e contratualizados pelo Instituto.
E se não houver possibilidade (leia-se dinheiro) para o fazer? Aumenta-se a extorsão Taxa do Audiovisual para abranger isto também? Ou pede-se à ministra Cristas para taxar ainda mais o milho para pipocas?
3. Que a versão definitiva da nova Lei do Cinema seja tornada pública de imediato e que o Governo assuma um prazo para a sua aprovação em Conselho de Ministros e posterior apresentação à Assembleia da República.
Isto é mesmo prioritário?
4. Que essa Lei consagre os princípios gerais contidos no projecto apresentado, nomeadamente no que diz respeito
a) às contribuições e investimentos de todas as empresas que operam no mercado do cinema e do audiovisual,
b) ao reforço do princípio da atribuição dos dinheiros públicos de fomento do Cinema por concursos públicos assentes em júris independentes e através de critérios equilibrados de valoração dos projectos
Cá está a parte dos subsidiozinhos. Era inevitável. Mas é justamente neste ponto que a coisa não bate certo. Vejamos: os autores deste "ultimato" dizem, no início do seu texto,
É hoje em dia indiscutível o reconhecimento do cinema português, tanto nacional como internacionalmente.
E se dúvidas houvesse, os prémios que ao longo dos últimos meses os filmes portugueses têm vindo a obter e o eco que a sua estreia entre nós tem tido, junto do público e da crítica, seriam a sua mais evidente comprovação.
No entanto, o público em geral parece continuar indiferente ao cinema português - qualquer xaropada com o Adam Sandler parece ser mais visto do que o filme português mais "aclamado" pela "crítica" dos meios ditos "de referência". Até estou disposto a apostar que
The Avengers sozinho vai meter mais gente nas salas de cinema do que todos os filmes portugueses de 2012 juntos. Claro que podemos aplicar o raciocínio do
Sérgio Lavos e assumir que as pessoas que preferem ver os filmes dos porcos capitalistas norte-americanos não passam de
zombies ignorantes e influenciáveis pelo grande capital, incapazes de ver a luz e o cinema português de altíssima qualidade, mas, convenhamos, o exercício é capaz de cair um bocado no ridículo.
A verdade é que o cinema português precisa de ser pensado como um negócio, e não como uma sessão de masturbação pseudo-intelectual para os "amigos". Não digo que não haja bom cinema português (mas admito que não há, até ao presente, cinema português que me interesse - o que é completamente diferente), mas é necessário haver muito mais do que isso: é necessário haver filmes para o público em geral (blockbusters), capazes de gerar receitas que permitam investir em mais produções do género, e noutras produções mais "alternativas". Se o cinema português for lucrativo, então são necessários menos apoios do Estado, e ficamos todos contentes - a malta que gosta de cinema português passa a ter mais e melhor cinema português, e quem não quer ver cinema português não tem de o financiar.
Claro que isto é pedir demasiado, bem sei. É mais fácil partir para petições (já foram quantas?) e "ultimatos". Mas isto do "ultimato" é engraçado. Partindo do pressuposto de que um ultimato, por definição, implica uma ameaça - se não fizer X acontece Y -, o que farão os proponentes deste se o primeiro-ministro e o secretário de estado da cultura não cederem? Deixam de produzir cinema?
Esta ironia é que daria um belo filme.
john