31.5.12

E nós?...

A sociedade de informação, a criação de redes sociais, o advento dos media alternativos baseados na internet criou plataformas extraordinárias de contacto interpessoal, mobilização e elucidação das pessoas comuns. A Web 2.0 é, por isso, a Bilderberg dos pobres... Façamos bom uso desse poder. E se tudo o resto falhar, sempre temos paus, pedras e essa pérola da tecnologia, o cocktail molotof.

fp

Reunião do Grupo Bilderberg

A partir de hoje e até dia 3 de Junho estarão reunidos em Chantilly, Virginia, nos Estados Unidos, os memmbros do grupo Bilderberg.
Da agenda, nada se sabe... certamente que se falará da crise do Euro, da austeridade que se procura impor sobre as gentes deste continente e, sobretudo, do que fazer para consolidar o poder da banca sobre a economia. Imagino. Não sei - não faço parte do grupo e certamente nunca farei. Mas a aparência é a de um grupo de gente poderosa e gananciosa que tomará decisões sobre o futuro imediato de todos nós. Conspiração? Talvez... Facto é que o secretismo deste grupo não augura nada de bom. Talvez seja interessante verificar se os mass media fazem alguma cobertura do evento. Nunca foi feito.

fp

20.5.12

Viragem à esquerda

Nunca me considerei um homem de esquerda. Talvez seja um reflexo de uma adolescência radicalizada por um seio familiar com nostalgias salazaristas; talvez fosse um reflexo de um passado histórico longínquo com o qual me queria identificar: a mitologia e a mitografia da portugalidade impelem um espírito jovem e impressionável no sentido de uma ideologia de uma direita enviesada e fortemente marcada por um domínio de uma fraseologia basaeada em orações condicionais.
Hoje, contudo, vejo as coisas de outro modo: Portugal e o seu passado são isso mesmo - passado. Como tal, são coisas a valorizar como lições de História. E a História deve ensinar a perceber o futuro - sobretudo, deve ensinar a reconhecer os erros e a aprender com eles da melhor forma possível. Isso é cultura, é a essência da cultura que é anexa à instrução. Hoje sou mais instruído e mais culto. Não necessariamente mais inteligente, apesar de tudo.
A Europa parece ter esquecido a sua História; as marcas do seu passado são mascaradas debaixo de estuque e cimento - é preciso ter atenção para ver rastos de balas em Berlim. É preciso perceber que a direita pouco tem feito pela paz dos povos e que não foi o radicalismo nacionalista que fez o crescimento inclusivo e a paz (difícil que é de manter e promover). Veja-se o discurso Sarkosista e Le Penista, agora derrotado como que a dar força aos meus argumentos. Depois há o maluco norueguês e outros tantos doidos com acesso a armas. E depois a austeridade - a austeridade que tanto adoram os políticos que vivem nas suas belas casas que visitam, de vez em quando, a meio caminho entre os parlamentos e as sedes das empresas a favor das quais legislam. Pergunto-me se é possível ser-se humanista e ser desta direita neo-liberal encimesmada com os mercados de valores.
Começo a chegar à conclusão que não: a direita é velha e conservadora quando não é preciso conservar e renovar; é violenta e arroga-se de visão de conjunto a implementar quando é preciso manter a paz...

Estarei a tornar-me um homem de esquerda?...

fp

O nosso pequeno mundo...

Algo se passa no nosso pequeno mundo. Algo que não é fácil de perceber, tão pouco de explicar. Fala-se de crise: é a conversa constante em todo o lado - entra-se em qualquer sítio e é o tema de todas as conversas nas mesas de todos os cafés. Não é uma mentira. A crise existe mesmo e é evidente que existem problemas.  Mas as estratégias de resolução não parecem ter qualquer efeito benéfico para a maioria dos cidadãos. Aperta-se e manda-se apertar o cinto às gentes e atira-se a conta para a mesa de quem não comeu a lagosta, o foie-gras ou o caviar... são as "contas à moda do Porto". Mas tal como com as contas desse género, mais cedo ou mais tarde os comensais ficam aborrecidos.
E há vozes que afirmam que as coisas ainda vão piorar mais. Parte-se do princípio de que a realidade e o destino são coisas interligadas e que não imutáveis. Parte-se do princípio que os governantes têm os seus lugares eternamente cativos não obstante a situação. E assume-se que os políticos dos arcos governativos (todos eles fundeados na falsa moderção centrista) podem sempre mentir, enganar, aldrabar e escapar no final. Há quem diga que os direitos adquiridos nos últimos 50 anos vão ser sumariamente suprimidos e que os trabalhadores viverão numa semi-escravatura inamovível. Há quem afirme como inevitável a introdução de um modelo de capitalismo selvagem e que o hiato entre ricos e pobres está destinado a ser alargado através da supressão da classe média. Mas, apesar da plausibilidade de factos e previsões há um factor que tende sempre a ser omitido nestas equações sociológicas: esquece-se a reacção das populações.
O que vemos não é inédito: aconteceu frequente e ciclicamente. E as populações, mais cedo ou mais tarde, reagem e quebram o destino que lhes querem impor como sendo inevitável. Não existe destino que não possa, em última análise, quebrado pela vontade das gentes. Sobretudo quando esse destino é uma imposição de uma minoria sobre a maioria. Em democracia existe a certeza da mutabilidade da situação política. É para isso que serve. E, se por um lado, se podem anular direitos adquiridos, certo é que o conhecimento de outras realidades e a justiça das causas não autoriza o silêncio durante demasiado tempo.
A mudança deve ser sempre uma realidade feita "work in progress"... O pau pode ir e vir muitas vezes, folgando as costas entretanto: mas a aproximação ao limite máximo de pauladas é sempre - essa sim - inevitável. E aí, onde há "fumaça", há sempre fogo.

fp

O país que merecemos.

Num país decente, toda esta embrulhada com Miguel Relvas e a jornalista do Público teria como conclusão óbvia a sua demissão - e seria o próprio a abrir a porta. Diz que nos países nórdicos, que tão frequentemente veneramos, já caíram ministros por menos. Em Portugal, o caso rende umas quantas manchetes, suscita meia dúzia de indignados, o ministro balbucia um pedido de desculpas mal amanhado - como se isso fosse suficiente - e continua tudo na mesma. 

São é inúteis as conversas de "ah e tal, se fosse o Sócrates". Quando foi o primeiro-ministro José Sócrates a "pressionar" jornalistas, os seus opositores apontaram o dedo e os seus apoiantes e simpatizantes assobiaram para o ar. Agora que é Relvas - ministro do executivo de Passos Coelho - a pressionar os jornalistas, em termos gerais os papéis inverteram-se. Quem antes criticava Sócrates ou fica calado, ou dispara bojardas destas. Quem antes desvalorizava os casos de Sócrates pede a demissão e o fogo do Inferno para Relvas. 

A única conclusão lógica é que nós, portugueses, temos os políticos - e o país - que merecemos. 

john

16.5.12

Baile de Verão

Há cerca de um ano, derrapagens nas previsões macroeconómicas significavam -na melhor das hipóteses- incompetência, amadorismo e irresponsabilidade. Hoje, deslizes maiores são apenas singelas «surpresas que a realidade impõe» (é delicioso o determinismo subjacente), inevitabilidades inultrapassáveis e, claro está, heranças desculpabilizantes.

Há muito quem tenha já feito da coluna vertebral um naco de barro moldável a qualquer formato. Mas, como sabemos, tudo se cria tudo se transforma; e ainda os veremos besuntar a boca de moral quando o vira-do-minho mudar de roda.

jtf

4.5.12

Tabu (2012)



É com este Tabu que Miguel Gomes expande a já de si endémica inclinação para a profundidade. Há, no prólogo, uma chuva oblíqua sobre o íntimo do africanismo; e dos outros ismos depositados e que lhes são consanguíneos: primos, cunhados e assim por diante. Trata-se, como se perceberá depois, de uma peregrinação granulada aos primórdios do cinema e às entranhas da linguagem enquanto meio de suceder imagens umas depois de outras com (ou sem) fim à vista. Resiste-se heroicamente às sereias do pastiche e do déjà vu, sempre prontas a desvios de rota e a pântanos alienantes.

Há, também, um exercício que consiste na reunião da narrativa numa contemporaneidade quotidiana que actua como ponto de partida, o tempo presente; ao qual se regressa sempre que se revisita aquele abandonado passado individual e colectivo. Esta ligação límpida é abalada por um jogo de fotografia perturbante -perfurante até- que consegue transformar a actualidade num esbatido reflexo daquilo que nos é anterior,  ulterior, longínquo, íntimo e -imagine-se- anatomicamente inescapável. 

Deste modo, pode dizer-se com propriedade que não há nenhum filme como este. Tabu enche de corpo o gasoso conceito de novidade, em cinema. É, de facto, um novo mecanismo para filmar a inquietude; o desassossego inerente à condição dos vivos de hoje e dos vivos de ontem. Onde quer que a acção decorra. A narrativa é, aqui, um dialogo aberto entre uma aparente linearidade de temáticas e aquele arrebatamento com que se desfaz o papel-celofane que cobre os objectos ainda por explorar. 

Tabu é o triunfo da elegância sobre a repetição. 

jtf

3.5.12

Um irónico ultimato

Parece que corre pelas redes sociais uma petição pública e um "ultimato" ao Primeiro-Ministro e ao Secretário de Estado da Cultura a propósito do cinema português. A coisa pode ser lida aqui. Alguns comentários às exigências:

1. Que enquanto a nova Lei do Cinema não for aprovada pela Assembleia da República e entre em vigor, o Governo encontre uma solução de emergência para a situação de ruptura e descalabro financeiro do Instituto de Cinema e que permita dotá-lo dos meios financeiros necessários aos compromissos assumidos com os produtores e aprovados entre 2010 e 2011.

O Estado também tinha um compromisso para com a função pública de lhes pagar subsídio de Natal e de férias, e isso ardeu até 2018 (ou até Vítor Gaspar arranjar uma nova data). E nem irei mencionar todos os compromissos rasgados com contribuintes, pensionistas e cidadãos em geral entretanto. Não vejo por que motivo se devem manter os compromissos com os produtores de cinema quando os compromissos com os contribuintes - que, só por acaso, até são (em teoria) a audiência dos filmes - foram rasgados.

2. E que essa solução de emergência permita também que os Concursos de 2011 sejam homologados pelo Secretário de Estado da Cultura e contratualizados pelo Instituto.

E se não houver possibilidade (leia-se dinheiro) para o fazer? Aumenta-se a extorsão Taxa do Audiovisual para abranger isto também? Ou pede-se à ministra Cristas para taxar ainda mais o milho para pipocas?

3. Que a versão definitiva da nova Lei do Cinema seja tornada pública de imediato e que o Governo assuma um prazo para a sua aprovação em Conselho de Ministros e posterior apresentação à Assembleia da República. 

Isto é mesmo prioritário? 

4. Que essa Lei consagre os princípios gerais contidos no projecto apresentado, nomeadamente no que diz respeito 
a) às contribuições e investimentos de todas as empresas que operam no mercado do cinema e do audiovisual, 
b) ao reforço do princípio da atribuição dos dinheiros públicos de fomento do Cinema por concursos públicos assentes em júris independentes e através de critérios equilibrados de valoração dos projectos

Cá está a parte dos subsidiozinhos. Era inevitável. Mas é justamente neste ponto que a coisa não bate certo. Vejamos: os autores deste "ultimato" dizem, no início do seu texto, 

É hoje em dia indiscutível o reconhecimento do cinema português, tanto nacional como internacionalmente. E se dúvidas houvesse, os prémios que ao longo dos últimos meses os filmes portugueses têm vindo a obter e o eco que a sua estreia entre nós tem tido, junto do público e da crítica, seriam a sua mais evidente comprovação. 

No entanto, o público em geral parece continuar indiferente ao cinema português - qualquer xaropada com o Adam Sandler parece ser mais visto do que o filme português mais "aclamado" pela "crítica" dos meios ditos "de referência". Até estou disposto a apostar que The Avengers sozinho vai meter mais gente nas salas de cinema do que todos os filmes portugueses de 2012 juntos. Claro que podemos aplicar o raciocínio do Sérgio Lavos e assumir que as pessoas que preferem ver os filmes dos porcos capitalistas norte-americanos não passam de zombies ignorantes e influenciáveis pelo grande capital, incapazes de ver a luz e o cinema português de altíssima qualidade, mas, convenhamos, o exercício é capaz de cair um bocado no ridículo. 

A verdade é que o cinema português precisa de ser pensado como um negócio, e não como uma sessão de masturbação pseudo-intelectual para os "amigos". Não digo que não haja bom cinema português (mas admito que não há, até ao presente, cinema português que me interesse - o que é completamente diferente), mas é necessário haver muito mais do que isso: é necessário haver filmes para o público em geral (blockbusters), capazes de gerar receitas que permitam investir em mais produções do género, e noutras produções mais "alternativas". Se o cinema português for lucrativo, então são necessários menos apoios do Estado, e ficamos todos contentes - a malta que gosta de cinema português passa a ter mais e melhor cinema português, e quem não quer ver cinema português não tem de o financiar. 

Claro que isto é pedir demasiado, bem sei. É mais fácil partir para petições (já foram quantas?) e "ultimatos". Mas isto do "ultimato" é engraçado. Partindo do pressuposto de que um ultimato, por definição, implica uma ameaça - se não fizer X acontece Y -, o que farão os proponentes deste se o primeiro-ministro e o secretário de estado da cultura não cederem? Deixam de produzir cinema? 

Esta ironia é que daria um belo filme. 

john