31.12.09

A resolução deste ano é não faltar o Jack Daniels em casa

Como já escrevi várias vezes, fazer "listas" que não sejam as listas de compras são um exercício mais ou menos fútil. Aliás, no meu caso mesmo as listas de compras são um exercício fútil e, não raro, de uma inutilidade absoluta: nelas fica sempre a faltar alguma coisa muito importante, porventura a mais importante; e se tiver dez elementos, o carrinho do supermercado terá quinze, e nenhum desses quinze será aquilo de que realmente preciso (pois isso terá ficado esquecido quando a lista foi elaborada, e no supermercado a memória apenas recupera coisas mais ou menos inúteis). Adiante. Quando falo de "listas" não falo das listas de compras, obviamente: falo das listas que volta e meia surgem nos jornais, nas revistas e, nos tempos modernos, nos blogues e noutros meios da tal Web 2.0. Listas de livros, de filmes, de discos, enfim, daquilo que o seu autor muito bem entender. É uma cedência ao tempo, digamos assim: estamos naquela época do ano em que se fazem todos os balanços - e, apesar de ser Dezembro, este texto está a ser escrito a dois de Novembro. Maravilhas da agenda do blogue. De qualquer maneira, a lista está completa agora, em Novembro, quando escrevo; e a menos que alguma coisa muito interessante aconteça, não conhecerá quaisquer alterações até ao final do ano. Refiro-me, claro está, à lista dos blogues que, durante o ano de 2009, por um motivo ou por outro, mais me agradaram; faço a lista em jeito de prémios, apesar de não ter prémio algum para dar a quem quer que seja (posso pagar um café se houver interessados). A lista reflecte a minha visão (apenas a minha, não a do Jardim) da coisa a que nos habituámos chamar de blogosfera. Ou antes, de uma parte dela: farei referência a blogues de uma das zonas mais conhecidas da blogosfera*, deixando de fora aquela blogosfera que será porventura a mais interessante: aquela que pouca gente conhece, mantida por autores mais ou menos anónimos, que não constam na lista de hiperligações de nenhum blogue dito de referência. As categorias que escolhi são francamente redutoras, como nestas - e noutras - coisas é sempre redutor categorizar. Enfim, isto vale o que vale. No fundo, é apenas uma referência a alguns dos blogues que, ao longo deste ano, me proporcionaram excelentes momentos de leitura e distracção. (e a cujos autores agradeço desde já, desejando votos de bom ano). Aqui vai então a lista, tão subjectiva e parcial quanto possível:

Blogue mais original: Ouriquense*
Melhor blogue individual (masculino***): Vontade Indómita e Complexidade e Contradição (ex-aequo)
Melhor blogue individual (feminino***): Menina Limão e Corpo em Excesso de Velocidade (ex-aequo)
Melhor blogue colectivo: É Tudo Gente Morta
Melhor blogue temático: Sete Sombras
Blogue mais interessante****: Aurea Mediocritas
Melhor estreia: sem filtro

E é isto, a minha pequena concessão à futilidade de fim de ano. Agora, e com a vossa licença, vou ali apanhar a bebedeira de passagem de ano. Boas entradas.

john

*Decidi não entrar no nebuloso mundo dos blogues ligados à política. Aliás, num ano em que houve ainda mais guerrilha partidária na blogosfera do que é normal, chegamos aqui e apetece muito pouco entrar pela política. Há, contudo, um ou dois que eu destacaria, mas deixo isso para outra ocasião (e os autores, de resto, já o sabem).
**Para além disso, o Ouriquense é um blogue alentejano, de longe o melhor blogue alentejano, apesar de eu não conhecer outros blogues alentejanos (que eu saiba). Sim, a parcialidade é uma coisa muito feia (pelo menos, é o que dizem), mas que se lixe: nunca se é parcial quando se fala do Alentejo, o melhor pedaço de terra deste planeta.
***
Esta divisão é estúpida e uma óbvia concessão ao cliché, mas não lhe consigo escapar.
****
Não seria esta a categoria que eu pretendia para o Aurea Mediocritas, que, tal como o Ouriquense, é um blogue extremamente difícil de classificar. O que, como é bom de ver, só o torna melhor. Sinceramente, a categoria destina-se, mais do que outra coisa qualquer, a agradecer ao blogue que me deu a conhecer pérolas como Sinfest.

No Shire também havia pinheirinhos de Natal, ao que parece

Todos nós sabemos que há filmes que bem podiam ganhar a designação de "filmes de Natal". Esta designação é, como se sabe, independente de géneros, e abrange filmes tão diversos como Shrek (qualquer um deles, nas terríveis dobragens portuguesas), Mary Poppins, ou Sozinho em Casa 2 - este, de resto, é já tão tradicional como o Natal dos Hospitais. O que me aborrece é que, no o ano passado (se bem me lembro), a SIC tenha achado que passar a trilogia O Senhor dos Anéis no Natal era uma boa ideia, como se fosse um filme "para toda a família". E este ano repetiu a graça. Como se a Mary Poppins alguma vez tivesse ido a Mordor (talvez tivesse voado sobre Orodruin com a sua sombrinha?), ou se o Kevin McCallister se tivesse perdido em Fangorn. Que não repita para o ano. Há filmes que são demasiado bons para serem queimados em rotinas televisivas vagamente imbecis.

Na imagem: Gandalf a chegar a Minas Tirith, O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (2003)

john

Agarra que é ladrão:

Mais dez cêntimos nos maços de tabaco. Isto é que é começar bem 2010. O próximo não-fumador que me disser não estar disposto a pagar com os seus impostos os tratamentos dos fumadores engole uma moeda de dez cêntimos, juro. É que como estão as coisas, eu já pago os meus e os dele.

john

*parece que o aumento do preço destina-se apenas aos cigarros mais vendidos - Marlboros, Ventil e merdas do género. Estava já aqui para dizer "abençoado seja o meu Português Amarelo", mas com a sorte que tenho...

**Vejam quanto tresandam a fundamentalismo os comentários à notícia. Aquela gente precisa mesmo de fumar um cigarrinho para desanuviar.

Gripe A já matou 69 pessoas em Portugal

É uma marota, esta Gripe A.

john

A falsa modéstia

Um dos traços de carácter que menos aprecio é a falsa modéstia. Não devemos ter vergonha de algo que fazemos bem se realmente o fazemos bem. Para mim, é precisamente esse o caso de José Mourinho, que afirma ter sido o melhor treinador de futebol da década que agora termina. Evidentemente que o foi - Mourinho venceu, enquanto treinador do Futebol Clube do Porto, várias competições nacionais (não me lembro de todas), uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões; fez do Chelsea campeão de Inglaterra passados 50 anos - sim, teve o dinheiro que quis para fazer uma equipa, mas outro treinador podia facilmente cair na tentação de fazer um novo Real Madrid. No Chelsea, não chegou mais longe na Liga dos Campeões porque, por duas vezes, esbarrou com um fenomenal Barcelona. E foi campeão de Itália pelo Inter, proeza que parece querer repetir este ano. Ou seja, foi campeão em três campeonatos europeus diferentes, e venceu algumas edições das competições europeias. É arrogante? É realista: ele é, de facto, o melhor. Não perde tempo com falsas modéstias, algo que os portugueses tanto apreciam (ver os comentários à notícia citada), e faz ele muito bem.

john

30.12.09

Eu ainda nem vi o filme (sublinhe-se o "ainda")

Está para breve, garanto. Mas já vi e li muita coisa sobre Avatar. Como por exemplo, esta crónica de Fernando Gabriel, à qual cheguei através d'O Insurgente. Pseudo-filosofias à parte, que disso têm os críticos de cinema (aqueles que fazem vida disso) de sobra, e que tal ver o filme apenas como, sei lá, um filme? O cinema costuma entreter - divertir? - muito mais quando não perdemos as três horas de projecção a procurar um "manifesto revolucionário", "apologias do terrorismo"ou mesmo "uma distorção grotesca da história política da década" (duvido que Cameron tivesse tamanha presunção). Ou até comparações com os "arianos". Digo eu, sei lá. Há quem veja filmes apenas e só para dizer mal deles (os críticos). Há quem procure uma "mensagem", um traçozinho de "propaganda", enfim, qualquer coisa nas entrelinhas, independentemente de o realizador e o argumentista terem realmente colocado qualquer coisa nas entrelinhas. Há também uns quantos malucos - como eu, por exemplo; espero que haja mais gente por aí - que vê filmes porque gosta de ver filmes, uma história contada por imagens, sejam elas feitas com actores reais ou em animação (ou num misto das duas). Assim de repente lembro-me do V for Vendetta, que também estava, aparentemente, cheio até ao pipo de "significados políticos". Pois estava, isso tudo é muito giro, mas o filme vale pelo Hugo Weaving, pela Natalie Portman e pela história que é contada, não por qualquer alegoria política que os Wachowsky tenham pensado, ou que nós, público, tenhamos pensado que eles tenham pensado. Para quê meter lá política, mesmo que o realizador a meta lá? Que diabo: esta merda estraga-me mais a ida ao cinema do que qualquer spoiler que possa encontrar quando vasculho os messageboards do imdb.com. Mais valia que o Fernando Gabriel tivesse dito quem morre no fim.

john

A redacção faz-me mal

Durante os meus dias de Natal na aldeia, dei por mim a carregar na tecla 0 do telefone fixo sempre que telefonava para alguém. Sim, preciso de férias urgentemente. E Abril nunca mais chega.

john

29.12.09

Alguém peça a Mário Soares que deixe de ver filmes do Emmerich

É que, às tantas, o ex-presidente troca-se todo. E entusiasma-se. Leia-se esta crónica no Diário de Notícias. Sim, à partida, se as temperaturas subirem os tais três graus até ao final do século, a água do mar deverá subir qualquer coisa. Mas será que pode fazer "desaparecer algumas ilhas e recuar zonas costeiras de certos países marítimos"? Sim, creio que sim (a verificar-se o tal aumento). Será que isso irá provocar "excessos climáticos" como "chuvas torrenciais, ventos ciclópicos [sic], furacões, secas, calor excessivo"? Talvez. Sim, talvez esses três graus venham a causar - se se registarem, claro - ventos dignos, enfim, de um Polifemo. Isto, Polifemos à parte, requer neste ponto um elevado grau de fé. Mas afirmar que o "aquecimento global" irá causar "tsunamis, [...] tremores de terra", isso, já requer mesmo delírio puro, para não falar de um desconhecimento absoluto de Geologia. E esse delírio, tão visível nos "filmes-catástrofe" da moda (Mário Soares foi ver o 2012 e ficou encantado, pronto), é que não é, de todo, "uma perspectiva agradável para ninguém".

john

Um a menos

João Miguel Tavares despede-se do Diário de Notícias, após polémica recente com Pedro Marques Lopes nas páginas de opinião do diário. Recorde-se que João Miguel Tavares ficou conhecido por uma célebre crónica onde "comparava" o primeiro-ministro, José Sócrates, à Cicciolina - crónica que, de resto, deu origem a um processo em tribunal de Sócrates ao colunista, que o primeiro perdeu. João Miguel Tavares tem sido, dentro do DN (e do panorama de opinião em jornais nacionais), uma das vozes mais críticas ao actual governo, pelo que esta saída não deixa de ser, no mínimo, curiosa. Resta saber porque saiu o colunista: por ter sido "saneado" pela direcção, ou, mais simplesmente, por não estar para aturar patetices. Na verdade, inclino-me para a segunda hipótese.

O que eu não compreendo é a confusão entre jornalista e colunista. No DN, João Miguel Tavares desempenhou funções de colunista, escrevendo a sua opinião. Noutros meios, como o próprio aliás esclarece, é jornalista. Há quem pense que ambas as actividades são incompatíveis - houve até aquele caso da RTP e das suas "linhas de orientação" para os jornalistas que escrevam em blogues, no Twitter ou em redes sociais - um caso que seria cómico se não fosse trágico (e um grave sinal dos tempos). Mas não são. Se o fossem, então também o "jornalismo de causas" teria de ser colocado "em causa. Ou não? No resto, continua a confusão, tantes vezes conveniente, entre "objectividade" (uma ilusão) e "rigor".

john

Knives Out

É sempre bom encontrar alguém com a mesma opinião que eu. Pessoalmente, acho que Knives Out, do álbum Amnesiac, tende a ser uma música muito ignorada em Radiohead. Para mim, é a melhor deles - e provavelmente será mesmo a minha "música da década".



john

28.12.09

Sugestão de leitura

Encontrada aqui: Lost in the Filth Simulacrum. Um artigo bem interessante sobre o "submundo" da Internet. Leiam também os comentários. Encontram pérolas como esta:

i think you adults should really stop theorizing about how bad our generation's going to be, and start fixing the mess you're going to be leaving us.

A ironia deste comentário anónimo é que tem mais verdade do que o seu autor provavelmente imaginou.

john

Alergias, translacções, encontros.

Há anos que isto acontece: estou perfeitamente bem em Lisboa (bem de saúde, entenda-se) e, poucas horas após chegar ao Alentejo, as minhas alergias atacam-me em força com o seu arsenal de espirros, pingo no nariz e olhos rasos de água. Não sei porque isto acontece, pois eu era (sou) alérgico ao pó. Será que é apenas ao pó lisboeta hoje em dia? Não sei, mas é esquisito. Tenho uma explicação simples, e lógica: mudanças de temperatura. Penso numa explicação rebuscada: falta de gases poluentes que respiro em grande quantidade aqui em Lisboa, mas que lá na aldeia só consigo respirar se for dormir para a garagem (e mesmo assim...). Penso na ironia que seria a minha reacção alérgica ser causada por falta de nicotina, dado que lá pouco fumo. Um amigo lembra-me que isso não seria alergia, mas sim ressaca. Bem visto, bem visto. Imaginem: fazer-me mal ao nariz e aos olhos não fumar. Delírio, delírio.

Sempre que me ligas no aniversário até me fazes sentir mal. Eu sou uma amiga tão boa que me esqueço sempre do teu. És a melhor amiga que eu poderei algum dia ter, e por isso mesmo eu não cobro esse esquecimento. Mal está a amizade quando depende de protocolos tão ridículos como o aniversário - que, no fundo, é apenas mais um movimento de translacção. Não preciso que me ligues a dar os parabéns. Preciso apenas de que, quando nos voltarmos a ver, tudo se mantenha na mesma: a intimidade, a cumplicidade, a sintonia de pensamento que nos faz sorrir ou revirar os olhos - depende da ocasião - em simultâneo.

Nota-se em nós o passar do tempo no Natal. Não por ser Natal, mas porque as circunstâncias ditam que apenas nos conseguimos encontrar todos no Natal - e, por enquanto, em Agosto, algo que suspeito não se vir a repetir no próximo ano. Este passar do tempo não se nota no desvanecer da amizade, pois creio que essa é bastante resistente. Nota-se, sim, na crescente falta de disponibilidade que todos temos, cada um à sua maneira e pelos seus motivos. No jantar do próximo ano, seremos menos. E assim sucessivamente, até que o nosso jantar se torne apenas numa recordação.

john

24.12.09

A minha cedência ao espírito da época: votos de bom Natal aos micro-camaradas João e Fábio, aos leitores, e aos blogues e bloggers que acompanho diariamente. Não coloco a lista completa, porque seria exaustiva, e sinto-me demasiado preguiçoso para fazer tantas hiperligações. Mas vou destacar alguns (saberão porquê): Portugal dos Pequeninos, Delito de Opinião, Aurea Mediocritas, Complexidade e Contradição, É Tudo Gente Morta , Mar Salgado. Feliz Natal, e abusem dos sonhos e do bolo-rei, que o Natal pode até ser quando um homem (ou uma mulher) quiser, mas as pastelarias não servem destas iguarias todo o ano (eu fico-me pelos sonhos, já que não aprecio bolo-rei). Volto para a semana, que, apesar de não ser "a minha época," faço gosto em passar a consoada com a família - e, de resto, tenho saudades do Alentejo e de comer como deve ser (para além de precisar de um corte de cabelo com alguma urgência).

john

23.12.09

No diminutivo

É impressão minha, ou a secção de opinião do Diário de Notícias está a ser palco de uma guerrinha (sim, no diminutivo) de colunistas? Pedro Marques Lopes contra João Miguel Tavares? Isto depois de, na bloga e a propósito desta crónica, a guerrinha ter-se instalado entre Pedro Marques Lopes e Pedro Lomba (e de cada um deles ter, sem querer, arranjado vários interessados em partilhar cada uma das trincheiras). Isto é uma excelente ideia, e o director do DN deve estar a esfregar as mãos de contente: colocar colunistas em combates verbais. Eu, se fosse leitor do DN em papel, mal podia esperar pela próxima edição com crónica de João Miguel Tavares. Felizmente, existe uma coisa chamada Internet.

john

O balanço da década

Não se assustem, que não vou escrever nada sobre a década que agora termina. Não é necessário: Ricardo Araújo Pereira já o fez, e com humor q.b.. Confirmem aqui.

john

22.12.09

Subscrevo.

john

Lisboa ficou mais triste

Março

Costumo dizer que a época entre Dezembro e Fevereiro é péssima. Não tanto por causa do frio - a esse a gente habitua-se mas por causa de duas datas particularmente aborrecidas: o Natal e o São Valentim. Por isso, e apesar de Janeiro nem costumar ser um mau mês, normalmente encontro-me nesta época ansioso que chegue Março. E este ano mais do que nunca, com Alice in Wonderland, de Tim Burton, a estrear a 4 de Março, e com os Cranberries em Lisboa a 10. Se ir ao concerto será ver, finalmente, uma das minhas bandas preferidas de sempre, já ver o novo Burton será ver aquele que, aposto, vai ser considerado "o" filme de 2010. Tim Burton, de resto, é um pouco como Tarantino: não consegue fazer maus filmes (não, o Death Proof não é um mau filme, muito pelo contrário). E, convenhamos, há que tê-los no sítio para realizar um Alice in Wonderland que não é uma adaptação do clássico de Carroll, mas sim... uma sequela. Quanto ao elenco, enfim, nem vale a pena fazer comentários.

A propósito, já repararam que muito provavelmente os Óscares este ano serão decididos entre Tarantino (Inglourious Basterds), Eastwood (Gran Torino) e Cameron (Avatar)? Ainda não vi este último - escreverei aqui a crítica para a semana - mas quanto mais leio e vejo sobre o filme, mais vontade me dá de ir a correr para o Alvaláxia. Quanto aos outros dois, enfim, se não forem nomeados para Melhor Filme e Melhor Realizador, então temos a prova definitiva de que há algo muito errado na "Academia".

john

Até agora, este é o único motivo para pensar em 2010 como "um ano promissor":

Radiohead voltam ao estúdio em Janeiro de 2010 (a preparar novo álbum). Thom e Ed, vejam se se deixam de merdas e se lembram de que a malta cá no burgo está mortinha mortinha por vos tornar a ver.

john

21.12.09

Citação do dia:

JORNALISMO DE INVESTIGAÇÃO: Para SIC, TVI e RTP, é notícia haver frio e chuva no Inverno. Estas três, no estafado episódio do homem que mordeu o cão, acentuariam o facto de o cão ter quatro patas e ladrar. Por Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado (o que eu ri com esta tirada).

john

Definição:

Sportinguista (adj.): adepto fervoroso de qualquer equipa, nacional ou estrangeira, que jogue contra o Benfica. Pessoa que diz torcer pelo Sporting mas que prefere ver o Benfica a perder ao Sporting a ganhar.


Este é dedicado a todos os meus amigos sportinguistas, a quem desejo desde já um santo Natal.


john

20.12.09

Do frio

É Dezembro. Amanhã é o Solstício de Inverno, ou seja, entraremos oficialmente no Inverno. No Inverno é suposto fazer frio. Muito frio. Também é suposto chover. Eu sei que o frio incomoda e a chuva aborrece, mas a vida é assim mesmo. Estamos no Inverno. Emigrem para o Brasil se não gostam, mas por favor, parem de se queixar "do frio que está". Querem o quê, 30º e uma tarde na Caparica?

john

18.12.09

A mim ninguém me cala!

É o que diz quem nunca tem razão: a mim ninguém me cala. Como aquela rapariga hoje, quando o 742 ficou bloqueado a meio da rua Maria Pia e ela decidiu fazer do motorista saco de pancada verbal - como se o motorista tivesse culpa de haver obras num lado da rua, carros estacionados à lisboeta (ou seja, mal) do outro, e de vir um autocarro em sentido contrário. Porque estou aqui há hora e meia e a Carris nunca cumpre horários. O que até era mentira : quanto muito estaria ali havia uma hora. Mas sejamos generosos, e desconte-se a hipérbole pela histeria.

Não adianta discutir com quem não tem formação, ou, simplesmente, com quem não quer ouvir por já ter as suas verdades todas muito bem arrumadinhas na cabeça. Aquela rapariga devia ter a minha idade (palpite) e da discussão com outros passageiros que defendiam o motorista, fiquei a saber que ia para o trabalho e tinha uma filha. Pormenores irrelevantes: gritava e estrebuchava que não havia direito (como se ela conhecesse outros direitos que não que achava que tinha), que era inadmissível (como se o autocarro pudesse voar sobre os obstáculos). Porque não escreve ao Presidente da República?, perguntou-lhe um senhor que estava mortinho para meter lenha na fogueira. Porque não faz uma revolução, como fez a minha geração, se acha que as coisas não estão bem? Estas pessoas nunca se revoltam. Acusam tudo e todos de fazerem nada - como ela aliás acusou o senhor que educadamente procurava fazê-la ver o ridículo a que se expunha ali. É a única coisa que estas pessoas sabem fazer: gritar e espernear perante o reduzido e acidental auditório que obtém. No caso, foi o 742 da Carris neste final de semana. São pessoas que desconhecem, de facto, o que podem fazer: podem gritar no autocarro porque estamos numa democracia. Pois estamos. Mas elas mesmas desconhecem o que é isso da democracia. Pois podem também, de facto, escrever ao Presidente da República. Como podem fazer petições, militar em partidos e em movimentos de cidadãos. Podem até fundar os seus próprios partidos ou movimentos se reunirem as condições necessárias e que o nosso (pobre) regime prevê. No limite, e com apoio suficiente, até podem, realmente, fazer uma revolução. Mas como naquele famoso sketch, estas pessoas sabem apenas falar. Falar, falar, falar. Gritar. Barafustar. Contra quem não tem culpa e nada pode resolver.

Mas ela tinha razão num ponto. A ela ninguém a cala. Ninguém a pode calar, porque ela não pode ouvir. Está tudo já arrumadinho e pronto a sair quando chega o acesso da histeria. Hoje calhou-lhe um auditório mais interactivo no 742. Infelizmente, não creio que tenha aprendido o que quer que seja com ele.

john

Micro cuts

Imperdível (vai já ali para o lado, com a licença dos camaradas do jardim).

john

Coisas para rir antes de almoçar

Ou "adaptando provérbios", o que seria uma interessante ideia para começar uma série neste blogue: Diz o roto ao nu...

john

A terra tremeu? Venha mais uma rodada.

Leio algures na Internet (deve ter sido uma posta de pescada do Twitter) que, perante o sismo, as pessoas se dividiram em dois grupos: os "Abalados" e os"Embalados", aludindo assim àqueles que sentiram o sismo e se assustaram com ele, e àqueles que, na paz do vale de lençóis, não deram por nada.

Mas há um terceiro grupo: os "Inebriados". Aqueles que já iam no terceiro (ou quarto, ou quinto) whisky ou gin tónico, e para quem a mesa e o chão a tremer são consequências do álcool no sangue, e não das brincadeiras das placas tectónicas. Eu, por exemplo, fiz parte deste grupo.

john

17.12.09

1h37

Diziam que o país precisava de um abanão e bem que ele, sorrateiro, apareceu. A destacar, devido à contribuição para a compreensão antropológica do homem do novo século, só mesmo a inquietação e o sentimento de injustiça de um sujeito, num comentário que li algures no site do Correio da Manhã, pois - pobre dele - julgava que era o telemóvel a vibrar em hora tardia e, ao contrário dos outros mandriões todos, tem de se erguer bem cedo da cama. Ou ainda outra senhora que se sentiu abençoada por ter conseguido poupar cerca de dois minutos nas pilhas do seu aparelho de massagens pessoal. Isto não se faz às pessoas de modo tão trapaceiro, seus movimentos tectónicos malvados.




fs

Jogar para perder?

Hoje, enquanto caminhava para a paragem do autocarro, parei os olhos nas manchetes dos diários desportivos que estavam em exposição no quiosque. Entre os destaques do jogo de hoje do Benfica para as competições europeias e os "prognósticos" para o jogo entre Benfica e Porto de Domingo, podia-se ler, numa das primeiras páginas, que Jorge Jesus, a perder um dos jogos, preferia perder o de hoje.

Esta mentalidade é incompreensível para mim. O Benfica - ou o Sporting, ou o Porto, ou qualquer outra equipa portuguesa profissional, que volta e meia todas se queixam do mesmo - é, justamente, uma equipa de futebol profissional. Não é o Sabóia Atlético Clube, com todo o respeito que o meu clube merece, cujos jogadores que alinham em campo aos domingos trabalham durante toda a semana nos seus empregos, seja a carregar baldes de massa ou a servir minis. A equipa de futebol do Benfica é uma equipa composta por atletas profissionais muito bem pagos para, justamente, jogarem à bola e treinarem. Apenas para isto. Não me venham com merdas: então uma equipa como o Benfica não aguenta jogar ao Sábado, à Quinta-feira e ao Domingo? Nem é todos as semanas - é uma vez por acaso. É realmente preciso começar no choradinho do "poupar os jogadores"? Se querem poupar paguem-lhes menos, que diabo. Não me venham é com tretas de que os meninos estão cansados e que é preferível perder este jogo em vez daquele. Com mentalidades assim não se vai muito longe. Olhem para Inglaterra, senhores.

john

Provavelmente, a "ideia" mais estúpida do Natal

É esta.

A Internet já tem uns aninhos, e se é muito boa para muitas coisa, é melhor ainda para propagar lixo. Como esta "ideia" aliás confirma.

john

E lá vamos, cantando e rindo

Ouço por aí que, a seguir à cantiga do casamento gay, o Rancho Folclórico de São Bento vai tocar e dançar a moda "Regionalização", um hit de 1998. Ouço também dizer que a nova versão daquela moda quer dividir o país em cinco partes, e eu não sei quais são - alguém me diz? Se adivinhasse, diria que o Algarve contará como uma região. Os "Alentejos" fundir-se-ão num só Grande Alentejo com "capital" em Évora. Provavelmente fundem-se as Beiras também, e faz-se a região Beirã, entre o Tejo e o Douro (será?). A zona a Norte do Douro tornar-se-á numa só grande Região Norte com sede no Porto (claro). E sobra Lesboa e o "vale do Tejo", que dependendo da vontade do senhor do bombo, perdão, do primeiro-ministro, tanto pode ir de Lisboa a Santarém como de Lisboa a Vila Velha de Ródão.

A regionalização num país como o nosso faz-me alguma confusão, confesso. Portugal não é afinal, um país particularmente heterogéneo. Falamos todos a mesma língua, uns com um sotaque e outros com outro, mas entendemo-nos todos muito bem. No geral, temos todos uma mesma matriz cultural e religiosa, quer pratiquemos efectivamente uma religião ou não. E o país nem sequer é muito grande. A ideia até poderia ser boa se as regiões se tornassem efectivamente autónomas. Mas não adiante alimentar muitas ilusões: estamos em Portugal. Ninguém no seu perfeito juízo deverá acreditar que a mama de Lesboa vai secar.

Mas não nos iludamos. O país já se encontra "regionalizado". Em duas grandes regiões: Lisboa, e o Resto. E assim há-de continuar, com mais ou menos regionalização. Haja pachorra e areia para atirar aos olhos dos portugueses.

john

O triângulo das bermudas

Coitado do Cavaco. Se já o comeram vivo - salvo seja - pela forma como o senhor degustou um bolo rei há uns anos, nem imagino o que lhe fariam se ele usasse uma coisa tão azeiteira como uma "bermuda", fosse na Cimeira Ibero-Americana ou a passear o cachorro em Boliqueime.

No resto, sou absolutamente contra todo e qualquer tipo de dress code. Não acredito que a roupa diga alguma coisa muito importante sobre nós - ela dirá aquilo que nós quisermos que ela diga. Por isso, e se a tal deputada do PS quiser continuar a ir para o parlamento com decotes generosos, faça favor. Não é por isso que votarei PS, ou que ponderarei sequer assistir à "ARTV".

john

A crónica doméstica (2)

Diz que houve um sismo ontem. Seis-ponto-zero na escala de Richter. O estuque do tecto do meu quarto, ou o que resta dele, manteve-se no sítio. Ainda bem. Gosto de saber que o meu tecto - e, de resto, o meu prédio - resiste mais facilmente a um terramoto do que, sei lá, a uma queca em cima da cómoda no quarto de cima.

john

16.12.09

Sugestões

É verdade que eu não sou apreciador do Natal - passe o eufemismo. No entanto, tenho de o viver à mesma, e submeter-me a algumas das suas convenções. Por isso, farei aqui (mais) um pequeno exercício de incoerência e de plágio descarado (todos temos os nossos momentos mais baixos) e, à semelhança do que alguns bloggers têm feito por aí, deixo aqui uma muito humilde lista de sugestões para presentes que me podem oferecer no Natal. Mana, espero que leias isto, caso não me queiras comprar o bilhete para ir ver The Cranberries em Março no Campo Pequeno (como se a minha irmã lesse o meu blogue).

Um livro:


Um filme:


Um disco:

Como vêem, é uma lista simples e - perdoem a imodéstia - de muito bom gosto.

john

Dou até 15 de Janeiro para ter comprado isto tudo.

Cheira, cheira

A Radar hoje está numa onda grunge. Eu estou quase aos saltos na cadeira. Por favor não passem a Smells Like Teen Spirit.

john

Alguém quer "descatalogar" a Fnac?

Uma loja de filmes que se preze não pode responder-me "esse já nem temos em catálogo" quando pergunto se têm para venda o filme Reservoir Dogs. Mas foi precisamente essa a resposta que ouvi ontem na Fnac do Chiado.

Claro que agradeço à Fnac ser tão expedita em impedir-me de gastar dinheiro. Sempre que tento comprar um filme na loja, ouço da parte dos assistentes de vendas (é assim que se diz?) que não têm o tal filme. Seja uma obra (prima) de 1955 intitulada The Night of the Hunter, seja um filme de 2005 intitulado Serenity. Ou uma série do início da década intitulada Firefly, que, para quem não sabe, deu origem ao (excelente) filme Serenity. Que a loja não tenha Serenity ou Firefly eu até compreendo (sinto-me bem disposto hoje), dado que a ficção científica nunca foi a coisa mais popular neste friorento país. Que a loja não tenha o The Night of the Hunter, eu também compreendo: o filme tem a idade dos meus pais, que diabo, e nem toda a gente aprecia filmes antigos - ou, alternativamente, nem toda a gente tem aulas com alguém como o Mário de Carvalho (sim, o escritor) para aprender a gostar de filmes antigos (foi o meu caso). Mas que a Fnac não tenha o primeiro - e, até à data, o melhor - filme de um dos mais famosos realizadores da actualidade - e pior, que tenha "descatalogado" (interessante neologismo) o tal filme -, isso é que eu não consigo compreender. Não estou a falar de nenhum filme obscuro realizado por um realizador desconhecido na década de 70, com um elenco composto apenas por desconhecidos: estou a falar de um filme realizado em 1992 - há dezassete anos, portanto - por Quentin Tarantino - autor de filmes certamente obscuros como Pulp Fiction, Kill Bill ou Inglourious Basterds - e com actores como Harvey Keitel, Tim Roth e Steve Buscemi no elenco. O que mais me irrita é que provavelmente a Fnac ainda não terá "descatalogado" nenhuma das borregadas com o Adam Sandler, actor de filmes que prenchem apenas os mínimos (sim, estou mesmo muito simpático hoje), e à justa, para entrar na categoria de "filmes de Sábado à tarde". Não me fodam, por favor.

john

A crónica doméstica (1)

Recebi ontem a nova máquina de lavar. Nova no sentido de que ainda não a tinha usado, pois ela será porventura mais velha do que eu. Acho que também não tinha contado que a anterior tinha uma fuga no tambor - coisa que descobrimos durante o fim-de-semana - e que essa era a causa pela qual, cada vez que a ligava, necessitava de um bote para atravessar a cozinha. Enfim, a nova máquina chegou ontem, e posso assegurar que à uma e meia da manhã todo o prédio acordou com o modo de centrifugação. Ao menos lava, ou assim me pareceu. Mesmo a calhar: mais um par de dias e não haveria cuecas ou meias lavadas naquela casa.

Entretanto, sente-se a falta de uma máquina de lavar louça - ou, no limite de uma torneira de água quente no lava louça que tenha, de facto, água quente. Com o frio que está, lavar pratos e esfregar panelas com água fria não está com nada.

john

15.12.09

Do estado do tempo

Dizem que há possibilidade de queda de neve na minha aldeia. Acho indecente haver sequer a possibilidade de nevar na minha aldeia quando não há qualquer possibilidade de eu lá estar para ver, caso a primeira possibilidade se verifique. Por outro lado, espero que não aconteça como da última vez que previram neve para lá: em Monchique tiveram neve, na aldeia ficámos com granizo do tamanho de ovos de perdiz. Ficou tudo branco, sim, mas não é a mesma coisa.

Apenas andei debaixo de neve uma vez, numas férias que passei na Dinamarca (e, de acordo com os meus amigos dinamarqueses, tive muita sorte por ter visto neve por lá, pois mesmo eles não a viam há imenso tempo). Ficou tudo branco, mas não deu para mais. Leia-se, não deu para fazer um boneco de neve, para deslizar ladeira abaixo num tobogã (pergunto-me se algum habitante de Lisboa terá um tobogã? Na aldeia sei que ninguém tem). Ou na câmara-de-ar de um pneu de tractor, vá, que é a versão mais rústica, mas que continua a permitir bloppers fantásticos. Também não deu para fazer uma bola de neve e atirá-la à cabeça de alguém, o que foi manifestamente uma pena. Enfim, foi apenas uma amostra de neve feita à medida para deslumbrar um turista alentejano que nunca na vida tinha visto neve (não, aquela ocasião há quatro anos em Lisboa não contou - não era neve, era chuva, digamos, mais condensada). De qualquer maneira, neve - em amostra ou em dimensão e textura suficiente para a produção manual de projécteis - é sempre melhor do que granizo, seja este de que tamanho for.

Dizem-me também que é possível que neve em Lisboa. Gostava. Uns quinze centímetros de neve, para não abusar também. Ia para a varanda ver os carros patinarem pela avenida abaixo, que ela tem inclinação para isso, ou ouvir a capital do país ficar parada debaixo de um manto branco. Ia ao quintal fazer bolas de neve, muitas bolas de neve - atiraria algumas pela janela, enquanto gritava "headshot!", à boa maneira do jogo Unreal Tournament (uma vez geek...). Outras, guardaria no congelador, como fazia o Calvin, para as atirar em Julho (e tornar a gritar "headshot!"). Seria uma forma diferente de passar uma quarta-feira. E finalmente todas aquelas pirosas decorações de Natal com bonecos de neve, flocos de neve e cristais de gelo fariam sentido.

Falando em decorações de Natal. Os meus vizinhos de baixo colocaram a árvore de Natal à janela. Eu já acho a árvore de Natal um objecto de gosto discutível, quanto mais metê-la à janela, para a vizinhança toda ver. É uma árvore de Natal convencional, de plástico, a fazer as vezes daquele tipo de pinheiros em forma de cone, que raramente se vêem cá em Portugal. Aqui em casa não temos árvore de Natal, porque nenhum de nós se dispôs a isso (e também porque, de resto, nenhum de nós passará a consoada aqui). Mas também não faria um pinheiro. Uma vez que aqui vivem três alentejanos de gema, sugeri fazermos um "chaparrinho de Natal", o que seria mais original e também mais "nacional". Trazer um chaparro para Lisboa - mesmo um pequenino - é que seria um sarilho, pelo que a ideia deverá ser abandonada. Também nunca vi chaparros de plástico, o que para todos os efeitos acho indecente. Gosto muito dos países e dos povos nórdicos, e provavelmente serei a última pessoa que os caros leitores irão ver a dizer mal de noruegueses, dinamarqueses, suecos, finlandeses ou lapões (é assim que se diz?). Mas isto de importar as tradições nórdicas todas não tem muita piada, convenhamos.* Porquê um pinheiro e não um chaparro, um castanheiro, um medronheiro? Até mesmo um eucalipto, que pode não ser de cá mas é uma praga (e cheira bem que se farta). Porquê decorações com bonecos de neve e renas e o diabo a quatro quando não temos cá nada disso? Aliás, estou plenamente convencido de que a esmagadora maioria dos portugueses nunca sequer viu um veado vivo, quanto mais uma rena. Enfim, quando a isto das tradições vale-me a minha avó, que me dará alguma coisa pelo "Menino Jesus". Eu não ligo ao Natal nem à religião, mas gosto muito de tradições. Cumpra-se esta, que já não perco a época.

john

*Por outro lado, ainda não decidi se acho aquele anúncio do Licor Beirão divertido ou simplesmente estúpido. Sabem do que falo: daquele spot televisivo em que a garrafa do (péssimo) licor empurra um bacalhau com um capacete viking por um alçapão abaixo. Se o Licor Beirão chegar ao estatuto de "bebida nacional", creio que vou pedir cidadania na Rússia ou no estado do Tennessee.

Os irmãos Bloom

Devo confessar-vos que já não via um filme tão perfeito há muito tempo. O ritmo, a melodia, a estética, a mensagem, a linguagem (a Linguagem), a sequência, a performance, o conflito, o desenlace e tudo o resto. Dificilmente duvidaríamos do talento de Mark Ruffalo, Adrien Brody e (sobretudo) Rachel Weisz, no entanto por vezes isso não se traduz numa película conseguida. Aqui sim. Limito-me a recomendar que vejam estes Irmãos Bloom, já que qualquer consideração subjectiva sobre o seu conteúdo não passa de poeira. Poeira pura e simples.

jtf

14.12.09

espelhos e reflexos #32

Grosso modo, tenho em mim todas as respostas, todas as atitudes em modo fight-or-flight. Possuo a faculdade de lutar até à fadiga pela permanência de homeostasia da minha relação com o exterior, não contando com as várias trincheiras do nosso âmago (ainda está para chegar a minha crua inquietação com os processos internos e conflituosos que lidam, convenhamos, com aquilo que poderei ser o que penso). Mas fujo, não raras vezes, descurando a luta por uma fadiga que mostre sempre a parte vantajosa do recobro, do reverso das situações frequentemente agudas. Aliás, tenho fugido bastantes vezes com a sensação estabelecida de que não conseguiria repelir o que me atormenta ou pressiona ao ponto de evidenciar, muito mais do que a capacidade de adaptação, um uso sistemático do medo e da evasão de maneira a que, numa qualquer lei de uso e do desuso, irei um dia tornar-me eu próprio o medo ou então um ser entrópico concomitante com esse medo. É necessária, pois, uma nova nomenclatura para o efeito. Certamente que Lamarck não saberia, nem poderia crer, que tantos mas tantos cobardes são de geração espontânea. E assim nos vamos herdando.





fs

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Não era Copenhaga, era "canhão de água"

Vejo as imagens na televisão dos distúrbios em Copenhaga. Se aquela canalha fosse de extrema-direita, não eram tratados como "jovens" ou como "manifestantes", mas o enviesamento do jornalismo nacional para a esquerda já não surpreende, apenas envergonha. Na questão ambiental - que, aparentemente, é o que os líderes políticos discutem na capital dinamarquesa - eu sou céptico. Mas isso sou eu. Que aqueles "jovens" se queiram manifestar, pelo ambiente ou pelo fim do capitalismo (no fundo, é o que está verdadeiramente em causa nas suas revoltadas cabecinhas), é lá com eles, e nem me passaria pela cabeça retirar-lhes o direito de se manifestarem. Mas lembrar-me de Copenhaga - uma das mais belas cidades que visitei, e de longe a mais limpa - e pensar que alguns milhares de arruaceiros está lá apenas e só para destruir o que conseguirem irrita-me. Fosse eu a decidir, e o tratamento a dar-lhes seria o mesmo que as autoridades dariam a uma "manifestação" de extrema-direita: porrada no lombo e canhão de água nas ventas. Com o frio que faz por lá nesta altura do ano, aposto que iriam implorar aos deuses por um "aquecimento" qualquer.

john

*nota: título e texto editado.

13.12.09

A segunda silly season

O João tem toda a razão aqui. Não é só o Verão que é a silly season - o Natal não lhe fica nada atrás. Pensava justamente nisso: chegámos à época onde é incrivelmente difícil assistir a um filme na televisão em que não apareça uma árvore de Natal. Ou, mais simplesmente, a um filme que não tenha passado exactamente há um ano atrás. E cada filme, como não poderia deixar de ser, a ter três intervalos, cada um de quinze minutos, onde apenas passa publicidade a brinquedos. Claro que há o cabo - também contaminado pela praga de "filmes de Natal", mas ao menos com intervalos mais curtos. Isso, porém, também acaba por cansar. Pode-se sempre sair de casa e ir dar uma volta - sim, faz frio, mas não exageremos, que hoje às três da tarde estava-se muito bem na rua, ao sol. O que não se pode fazer, em circunstância alguma, é queimar cinco minutos que seja de um fim-de-semana a ir ao centro comercial - a qualquer um. A menos, claro, que se goste de andar apertado no meio de uma multidão. Eu não gosto de centros comerciais em dias, digamos, "normais". Em fins-de-semana da época de Natal são o inferno. Mas ao menos ainda está bom tempo, pese o frio: se isto chove, passam de infermo para baixo.

john

10.12.09

Foi uma placa de tecto(nica). Sim, a piada é estúpida.

O meu professor de Filosofia do secundário - de longe, e sem desfazer os outros professores da escola secundária de Odemira (no geral muito bons), o melhor professor que tive em toda a minha vida de estudante, do pré-escolar ao fim da licenciatura - costumava dizer, no seu inigualável jeito de brincadeira, que caso nós (os alunos) não parássemos de fazer barulho ele pediria ao invertebrado gasoso (nome pelo qual ele tratava "a divindade") que fizesse soltar um fragmento de tecto sobre as nossas cabeças.

No universo de Astérix, Abraracourcix, o chefe da irredutível aldeia gaulesa, afirma só temer uma coisa: que o céu lhe caia em cima da cabeça.

Pois, por Toutatis, parece que a praga do meu antigo professor concretizou os medos do chefe gaulês. Quer dizer, quase. Isto foi só uma tentativa de dar algum interesse a uma história simples: o um enorme pedaço de estuque do tecto do meu quarto desabou, sem que nada o fizesse prever. Para além do prédio ser antigo, claro (passe o eufemismo). Enfim, hoje dorme-se na sala, que ainda não me livrei da poeira toda.

john

9.12.09

Poesia, essa espécie de música

(clicar para ver melhor)


Imagem da montra da livraria Poetria, em frente ao Teatro Carlos Alberto, no Porto. Assim que o tempo o permita, o degradante fotógrafo terá todo o prazer em entrar para ouvir todas as espécies de sons.




fs

Not so secret santa

Não sei se é por ser forreta ou naturalmente "desligado", mas a verdade é que apenas dou prendas de Natal ou de aniversário a três pessoas: ao meu pai, à minha mãe e à minha irmã. Quando o acaso o permite, dou a uma quarta - à namorada - mas isso quase requer ano bissexto. Nunca tive o hábito de trocar prendas com os meus amigos, nem mesmo com os mais próximos. Na verdade, nem acho o conceito de "dar prenda de aniversário" ou de "dar prenda de Natal" uma coisa muito relevante. Chateia-me um bocado a ideia de dar prendas por ocasiões assim. Os melhores presentes que recebi, aqueles que mais significado tiveram (e têm), foram aqueles que pessoas importantes para mim me ofereceram "fora de ocasião", porque viram algo que as fez pensar em mim.

Adiante. Comprar prendas é para mim um suplício. Diria mesmo mais: comprar o que quer que seja para além de discos e livros é um suplício para mim. Vá lá que dou a pouca gente. Para os pais, é simples: a minha irmã escolhe, o mano entra com metade. Para a minha irmã é sempre um sarilho porque não convém pedir-lhe ajuda, naturalmente. Em tempos tinhamos o hábito de fazer uma lista e dar um ao outro, pelo que a coisa se tornava fácil - era só escolher. Mas há dois anos tive a brilhante ideia de ignorar a lista dela e surpreendê-la, e daí para a frente ela deixou de dar listas (não por não ter gostado do que lhe dei, porque gostou e muito; mas por ter percebido que eu afinal até me posso esforçar). Enfim, vou acabar por cair numa Fnac em vésperas de Natal e escolher um livro ou um disco (falta-me originalidade, bem sei, mas ao menos não lhe ofereço peúgas). Como é bom de ver, ainda não estamos em vésperas de Natal, pelo que ainda não comprei nada. A sério, esta época deprime-me.

john

Esperava pior, confesso

Só nesta manhã, a M80 já passou U2, The Cure e Tasmin Archer. Como não acredito no "espirito de natal", imagino que devem ter deixado - finalmente - a música entregue a um(a) estagiário(a) a com um mínimo de bom gosto.

john

Ainda há paciência para o Natal?

Eis-nos chegados à época do Natal. Quem acompanha este blogue há pelo menos um ano saberá certamente que o Natal não é de todo a época do ano de que mais gosto. Muito poderia ser dito a propósito disso. Não gosto, por exemplo, de ligar a televisão e ser massacrado - passe o eufemismo - por publicidade a brinquedos, coisa de que não gostava nem quando era criança (eu pedia sempre legos aos meus pais, e a publicidade da Lego não é a mais abundante nos meios de comunicação portugueses). É impressionante como os anúncios de brinquedos parecem competir entre si para ver qual tem a cantilena mais irritante. De resto, e quando não são os anúncios que nos massacram, são os filmes, repetidos sempre nesta época. Ontem passou o Sozinho em Casa 2 e o Piratas das Caraíbas nos generalistas. Até ao Natal, anotem, vamos ter Shrek 1 e 2, na terrível versão dobrada (é de vómito, a dobragem ao Shrek), e mais uma dúzia de "clássicos de Natal". Junte-se a isto aqueles programas do género "Natal nos Hospitais" ou "Natal na Prisão" em que metem um Goucha e uma Júlia Pinheiro a dizer piadas secas e a apresentar "artistas de variedades" (termo técnico para música "pimba") e a época torna-se quase num convite ao suicídio. Pelo menos para quem está no hospital, na prisão, ou em frente ao pequeno écrã.

Também não gosto particularmente de decorações de Natal, e aproveito para dizer que os meus vizinhos tiveram um péssimo gosto a decorar as suas varandas - eu ria-me era se visse a factura de electricidade que vão receber em Janeiro. Já para não falar das decorações de Natal da cidade de Lisboa - que, diga-se de passagem, não têm piada nenhuma. Gostei muito, em Agosto, e a propósito do Festival dos Oceanos e do Ano da Astronomia, daquelas decorações da Rua do Ouro, em que cada conjunto de luzes desenhava sobre a rua uma das constelações que podemos ver no céu nocturno. Eram originais, e o efeito era muito giro. As de Natal são sempre as mesmas. Aborrece.

O Natal é também aquela época do ano em que é perigoso ficar-se triste - ou simplesmente melancólico - por qualquer motivo. Mas como podes estar triste? É Natal! Raios partam. Um tipo como eu, com uma óbvia propensão para a melancolia, não faz greve por ser Natal. Mais. O Natal é aquela época do ano em que as pessoas manifestam com entusiasmo a sua queda para o disparate e para as ideias ridículas. E um bom exemplo de uma ideia ridícula é, naqueles "jantares de natal" das empresas, organizar-se as "trocas de prendas", os secret santa da tradição anglo-saxónica. Dá sempre merda. O Natal é também a época em que as pessoas que nunca se lembram de nós nos ligam ou mandam uma mensagem "de boas festas", outro fenómeno que também não consigo compreender. E é a época em que é impossível ir a um centro comercial nem que seja para comprar pilhas para o comando da televisão.

Este ano, infelizmente, não me será possível ir saborear as tradições de Natal escandinavas (um dia destes conto a história dos shots de schnaps (será assim que se escreve?) dinamarqueses durante um jantar de Natal há um par de anos). Acabou a boa vida de estudante, e já não há férias de Natal e tempo para a rambóia. Enfim, há um fim-de-semana prolongado que dá para ir até ao Alentejo fazer o que manda a tradição. A ver se convenço a minha mãe a fazer sonhos, que comê-los enquanto releio os meus álbums de Calvin & Hobbes é capaz de me salvar a noite.

john

7.12.09

Digam-me, por favor,

que não sou o único a achar o slogan "Hopenhagen" completamente ridículo. Pior mesmo só na tradução portuguesa que já vi por aí: "Hopenhaga". Deus* nos ajude.

john

*Quem diz Deus diz Alá, diz Odin, diz Zeus, diz Buda, diz Shiva, diz Toutatis... enfim, quem o leitor desejar. Se me perguntar a mim, e dado o tema em debate na capital dinamarquesa, eu rezaria a Eris.

Começaram a estrebuchar

Mas, de facto, não tinha visto as coisas por este prisma. Tenho cá para mim que 2010, o ano do "centenário da república" (sim, com minúscula), vai ser um pagode. No resto, quem tem razão é o Filipe Nunes Vicente.

john

Do entusiasmo

Perdoem os leitores o calão, mas o entusiasmo é por vezes uma coisa fodida. A título de exemplo, sugiro a leitura deste post de Eduardo Pitta, que consiste apenas numa citação de uma crónica de João Pereira Coutinho no Correio da Manhã, em que o colunista diz (na citação de Pitta):

«[...] a Oposição instrumentaliza a Justiça para atacar o primeiro-ministro. E ainda aprova diplomas lunáticos que põem em causa a sanidade financeira da nação. [...]»

Eduardo Pitta, ao que parece, entusiasmou-se por ver um colunista tradicionalmente avesso à esquerda em geral a ralhar com a oposição e a defender José Sócrates. Devia era ter lido mais um bocadinho do texto. É que logo a seguir, João Pereira Coutinho diz

«[...] E ainda aprova diplomas lunáticos que põem em causa a sanidade financeira da nação. Que, na verdade, seja o PS a usar a Justiça para atacar a Oposição, pouco importa. E pouco importa que o descalabro económico seja, em grande medida, um prodígio de Sócrates. [...]»

O que, convenhamos, é tudo menos simpático para o nosso primeiro. Mas ao menos esta história do entusiasmo já me fez rir um bocadinho nesta manhã, o que não é mau.

john

Chamem o Bruce Willis, o Will Smith e o Jeff Goldblum - e arranjem uma gaja boa também para mostrar as curvas, pode ser a Liv Tyler que não me importo

Hoje, 56 jornais em 44 países dão o passo inédito de falar a uma só voz através de um editorial comum [sobre Copenhaga]. Fazemo-lo porque a Humanidade enfrenta uma terrível emergência. Podia ser a sinopse alarmista de um filme do género de Deep Impact, Armageddon, 2012, Independence Day ou outro do género em que a destruição da Terra está iminente - seja por impacto de um meteorito ou de um cometa, seja pela paragem do núcleo do planeta, seja pela destruição do campo magnético, seja pela invasão de criaturas extraterrestres, seja por qualquer outro motivo. Podia, mas não é: é mesmo um editorial do Público sobre a cimeira de Copenhaga. Falta ver se, tal como nestes filmes, a salvação do mundo depende de um orçamento bilionário da Nasa, e de uma equipa de americanos com um russo ou um francês a servir de comic relief. Para já, e à luz dos filmes sobre o apocalipse, a cimeira de Copenhaga não me tranquiliza nada: quando, num destes filmes, o presidente dos Estados Unidos era preto (Deep Impact, com Morgan Freeman), levámos com um pedaço de cometa no Atlântico Norte que devastou a costa Este norte-americana - e, suponho, também a Europa, costa noroeste de África, etc. Há, por isso, que ter cuidado, que não vai sair boa coisa daqui.

john

4.12.09

Vou buscar pipocas, que a "República e Laicidade" vai entrar em paragem cardíaca

A série (I)

Eu sei - já o disse inúmeras vezes - que as listas valem o que valem, e normalmente não valem muito. Mas não deixa de ser irritante o certo "preconceito" que ainda existe para com alguns géneros. Esta lista das melhores séries da década tem coisas interessantes, apesar de me dizerem que faltam por lá Battlestar Gallactica e Firefly. Eu, que ainda não decidi descarregar ambas as séries, digo apenas que falta Stand Alone Complex, de longe a melhor série de televisão que já vi, e que só não aparece em nenhuma lista por ser uma série de animação japonesa. Mesmo que seja baseada no filme Ghost in the Shell, porventura o melhor filme de ficção científica da década de 90 (e que, surpresa! é também de animação japonesa). Comprem os DVDs na Fnac (estão disponíveis as duas temporadas), sigam durante uns dias as aventuras da Secção 9, e depois contem-me como foi. Ah, e se depois de verem a primeira temporada ficarem com vontade de (re)ler Salinger, é normal.

john

Vira-latas

Há um filme antigo com o Eddie Murphy que, em português, tem o título "Um Vira-latas no Parlamento". Com este recente caso de corrupção em torno das sucatas, não sei se o título não ganha um novo significado.

john

A sandes de carne assada

Paul McCartney defende a criação de um dia sem consumo de carne, como medida para combater as alterações climáticas. Eu, que desconfio sempre de vegetarianos (estou a cuspir para o ar, não se esqueçam), pergunto-me: o ex-escaravelho está apenas a tentar sensibilizar as pessoas, ou lá no fundo o que ele gostava era que a coisa tivesse assim forma de lei?

Vou pensando nisso enquanto como uma sandes de carne assada ao pequeno almoço. É só para ser chato.

john

3.12.09

Da gula

Há dias em que é uma chatice viver em Lisboa. Bom, verdade seja dita que todos os dias têm qualquer coisa que nos aborrece, por mais pequena que seja - foi o café que foi mal tirado, foi aquele imbecil que nos roubou o lugar de estacionamento mesmo à porta do escritório, foi o autocarro que saiu da paragem momentos antes de a nossa corrida nos permitir lá chegar. Hoje Lisboa aborrece-me particularmente, apesar de ter perdido um autocarro e de ter bebido um café mal tirado (não tenho problemas com estacionamento, dado não ter carro). Simplesmente tenho uma daquelas vontades irresistíveis de comer sericaia. Não sei porquê. Verdade seja dita, apenas tive conhecimento daquele doce tradicional alentejano em Lisboa, já que a sericaia não é tradição da minha região do Alentejo. Mas houve qualquer coisa hoje que - mais do que me dar vontade de passar a tarde na esplanada da Gulbenkian a ler um livro - me fez ter vontade de comer sericaia. Tivesse eu carro e hoje jantava em Elvas, juro.

john

O sujeito e o predicado

Ao contrário do que algumas pessoas possam pensar (e eu tenho a certeza de que pensam), eu convivo muito bem com as críticas que me são feitas. A sério, eu nem me importo que digam mal. O problema é que a maior parte das pessoas - e todas as pessoas que pensam que eu não suporto ser criticado - não sabe criticar, nem sequer dizer mal como deve ser. Isto para dizer que a pior coisa do meu trabalho é ter a rever os meus textos uma tipa que nem sabe que numa frase um sujeito e um predicado não podem ser separados por uma vírgula. Isto há coisas.

john

Não contem comigo para cliente,

de "carne artificial", que, enquanto puder, hei-de continuar a defender a bela tradição das matanças de porco lá do Alentejo. Digam o que quiserem: os enchidos feitos pelos meus pais não têm comparação possível com as merdas que se vendem nos supermercados a passar por linguiça ou chouriço.

john

1.12.09

Comercial

Ainda a propósito dos Muse, e a propósito desta crónica, torno a pensar nessa coisa que anda tão na boca de toda a gente: a chamada "música comercial". Só porque nunca percebi ao certo o que é "música comercial". Ou antes, perceber até percebo, mas acho o conceito demasiado estúpido para sequer ser um conceito, digamos assim. Opomos música "comercial" a música "alternativa", e quem ouve "alternativa" é cool, quem ouve música comercial é careta. Basicamente é isto, não é?

Cá para mim, é tudo uma questão de personalidade. Ou, em muitos casos, de falta dela. Quando uma banda é mais ou menos desconhecida, tem um núcleo de fãs pequeno mas fervoroso, que a tratam como a melhor coisa do mundo. Quando, a um dado momento, essa banda chega ao grande público e entra nas tabelas de vendas, enfim, passa a ter um "som" muito "comercial" e deixa de agradar. Já não é cool ouvi-la. Já ouvi isto tantas vezes, a propósito desta e daquela banda. E quando se ouve, percebe-se que continua a estar tudo lá, que o novo álbum é apenas a evolução dos anteriores (como é natural que aconteça numa banda). E que, de resto, não tem mal nenhum em se querer chegar a um público mais vasto, a música é um negócio e sem dinheirinho é que não se faz. De resto, o que há é muita vergonha.

Mas não acontece só na música. Há tempos, em conversa com uma amiga, ela pergunta-me o que estava eu a ler. Respondi-lhe, e devolvi-lhe a pergunta. Ela responde "só te digo se não gozares". Adivinhei na hora a resposta dela, mas fiz-me de mouco até ela dizer que estava a ler Twilight, aquela série de vampiros (muito esquisitos) da Stephenie Meyer que tem levado adolescentes ao delírio. Eu não gozo com quem lê o Twilight, como não gozo com quem lê José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto ou Miguel Sousa Tavares. Em bom rigor: quero lá saber. Leiam o que quiserem. Só não compreendo porque tinha a minha amiga vergonha de ler Twilight.

Mas voltando a desta crónica, gostaria muito de saber o que afinal se queria dos Muse? É que dizer que "o alinhamento jogou com o presente e com o passado" equivale mais ou menos a dizer, sobre um jogo de futebol (recorrendo à metáfora do crítico), que o objectivo das equipas é marcarem golos. A menos, claro, que o crítico - e tão exigentes são os críticos, não são? - quisesse que os Muse tocassem, para além de músicas do "presente" e do "passado", músicas "do futuro". Eu sei que os rapazes são bons, e até têm uma música chamada Futurism e tudo, mas calma. Não exageremos. Mas eu percebo o drama do crítico. Estou até profundamente solidário. Fez-me lembrar o João Bonifácio naquela já lendária crítica ao Super Bock Super Rock e aos The Killers: não gosta nada da banda no concerto, mas eles dão um espectáculo do caralho e dizer mal torna-se difícil até para os mais experientes. Continue a tentar, amigo Davide, que há-de lá chegar.

john

The Resistance

Não é preciso dizer muito sobre o concerto dos Muse porque, enfim, são os Muse, meter aqueles três rapazes num palco dá invariavelmente espectáculo. E do bom. Este, diria, foi o melhor concerto a que já assisti deles.

Dá-se uma voltinha pela notícia e fórum da Blitz, a coisa mais parecida com uma revista de música que temos por cá, e fica-se parvo com alguns comentários. Bom, é a Blitz, e são os utilizadores do fórum da Blitz, pelo que temos de dar um desconto. Um deles queixava-se de na Newborn o vocalista não ter tocado os acordes iniciais no piano - esquecendo-se que isso foi deliberado, devido à estrutura toda que tinham no palco. Eu gosto muito da Newborn, já a vi três vezes ao vivo, as duas anteriores sempre com piano. E nunca - mas nunca - vi a música ser tocada com tanta energia como no domingo. Outro comentário queixava-se de uma setlist muito "previsível", com muitas músicas do álbum mais recente, The Resistance (que, dizem, é muito fraco) e nem uma do primeiro álbum. Eu também gostava disso; aliás, a minha música preferida da banda é do primeiro álbum (Showbiz), e gostava muito mas mesmo muito de a ver ao vivo. Mas não vai acontecer. Como provavelmente nunca verei os System of a Down tocarem a Highway Song, ou os Radiohead tocarem a Knives Out (para isto, claro, preciso de ver Radiohead, e isso anda difícil). É o que acontece quando as nossas músicas preferidas não são os singles. De resto, se uma banda está em digressão a promover o mais recente trabalho, é óbvio que vai tocar sobretudo músicas do novo álbum. E ainda bem que os Muse conseguem dar um concerto daqueles com músicas novas - é péssimo quando uma banda tem de recorrer aos êxitos antigos para dar um concerto decente.

No fundo, nem foi muito diferente do concerto que deram em 2006 no Campo Pequeno, quando apresentaram em Portugal o álbum Black Holes and Revelations. Com uma setlist de vinte músicas, tocaram oito desse álbum, cinco do Absolution, quatro do Origin of Symmetry, uma do Showbiz. Tocaram uma instrumental do Hullabaloo (Forced In) e fizeram um riff da I Want to Break Free, dos Queen. Agora, em dezoito músicas tocaram oito do novo álbum, quatro do Black Holes and Revelations, três do Absolution e três do Origin of Symmetry. É a vida. Noutro concerto, fora de uma tour de promoção de um álbum, também eu esperaria uma setlist mais arrojada (não num concerto como o do Rock In Rio do ano passado, onde tiveram apenas uma hora). No caso, foi a setlist pretendida - e, convenhamos, deu para duas horas espectaculares no Pavilhão Atlântico. Enfim, nunca se pode agradar a todos. Quanto a mim, valeu o bilhete, as horas de espera, e a molha.

john