29.4.08

Para bem da minha saúde


Este post, digamos, musical, é altamente tendencioso e parcial, podendo, por isso, ferir susceptibilidades.



Saiu hoje, para todo o mundo e arredores, o novo single "Violet Hill" dos Coldplay. Durante uma semana será possível descarregá-lo gratuitamente do site oficial. Depois disso, pelo menos eu, lá terei de pagar para ter o álbum, intitulado Viva la Vida or Death and All His Friends (não, a parte inicial do título não é inspirada numa música do Ricky Martin, antes num quadro da pintora mexicana Frida Kahlo) que estará a venda no nosso país a 16 de Junho e que se juntará a Parachutes (2000), A Rush of Blood to the Head (2002) e X & Y (2005).


Este novo álbum tem vindo a ser conotado como mais sombrio e melódico, com sons mais arrojados e letras melancólicas e com Chris Martin a usar menos o seu falsete. A ver e a ouvir vamos. Para bem da minha saúde.


(agora vou contar os pontos que fiz neste post para a avaliação dos micróbios)

F.S.

livros de culto

depois da lista dos livros que integrariam a biblioteca perfeita, o telegraph oferece-nos uma lista de 50 livros de culto. entenda-se que um "livro de culto" não é um best-seller, nem um "clássico, mas os próprios autores da lista consideram a definição complicada, se não polémica. um comentador afirma, com algum sarcasmo, que estas listas são mais interessantes pelos livros que excluem do que por aqueles que incluem - o que, diga-se de passagem, não é de todo falso.

certo é, a meu ver, que um livro de culto só o é para o leitor. se me coubesse a mim escolher alguns livros de culto, não elaboraria uma lista que não incluísse the catcher in the rye (salinger), the silmarillion (tolkien; e não escolheria o the lord of the rings - esse é apenas o início), alice's adventures in the wonderland (carroll), crime and punishment (dostoievsky) e metamorphosis (kafka). e, claro, muitos outros que decerto virei a ler ao longo da vida. para o meu culto pessoal, claro.

(via blogue da revista ler)

jc

28.4.08

e para ilustrar o manifesto anterior,

muito me agradaria poder colocar aqui um vídeo com boa imagem e som ainda melhor da música micro cuts, dos muse - hino do SBAAENJDM, e proposta de hino para o jardim a apresentar em breve. mas não o posso fazer, devido à inexistência de placa de som que me permita auditar a qualidade da voz de falsete do matthew bellamy. 'tá mal.

já agora, os muse vêm ao rock in rio dia 6 - e assim se faz gente de bem, como eu, gastar uma pipa de massa.

jc

micro-avaliação #2

O SBAAENJDM - Sindicato dos Bloggers Alentejanos A Escrever No Jardim De Micróbios - vem por este meio expôr o seu protesto a esta proposta de avaliação intolerável.

Recorde-se que, de acordo com a última sondagem do Microstat, 11,1% da população activa deste blogue é composta por alentejanos. Se considerarmos os elementos citados pela Direcção, então essa percentagem passa para 33,3% - ou seja, um terço. O que já será suficiente para encher a Avenida da Liberdade em protesto. Considere-se a direcção avisada.

O SBAAENJDM afirma não ter condições para cumprir todos os requisitos para uma avaliação de qualidade, dado que os computadores dos seus postos de trabalho não dispõem de placa de som - o que os impede de colocar online conteúdos de áudio e os limita grandemente de disponibilizar conteúdos de áudio e vídeo. Podem tentar, mas é quase certo que, como se diz no Alentejo, "dá merda". Como tal, os micro-bloggers alentejanos consideram-se discriminados por um sistema de avaliação injusto e que visa apenas manter o poder opressivo de alguns "bacilurgueses" sobre os "microbalhadores"!

Como tal, o SBAAENJDM exige um subsídio para aquisição de placas de som topo de gama. Enquanto isso é negociado, pede à RTP que disponibilize os arquivos de todas as aparições televisivas de Fátima Campos Ferreira - apesar de o SBAAENJDM considerar, por unanimidade dos seus membros, que este ponto da avaliação é irrelevante. Pode ser muito divertido fazer chacota à custa da senhora, mas torna-se difícil competir quando ela dá um show de horário nobre no canal público todas as segundas-feiras.

Atenciosamente,

o SBAAENJDM (pela pena do seu presidente, vice-presidente, primeiro vogal, segundo vogal, relações públicas, tesoureiro, assessor, militante enfurecido e militante pacífico joão campos)

chumbo neles

interessante, esta entrevista da ministra da educação ao correio da manhã (via blogue atlântico):

(Correio da Manhã) Não ficam a saber mais?
(Maria de Lurdes Rodrigues) Não. O princípio é este: não sabes ficas mais um ano para repetires toda a matéria que deste para ficares a saber. E o que acontece é que a segunda parte desta premissa não se verifica. Ele chumba, fica para repetir, repete mas não aprende. Pelo contrário. Desaprende.

- Fica pior?
- Fica pior. E por isso é que eu digo que é facilitista porque é a maneira de deixar os alunos entregues a si mesmo. É uma contradição do nosso sistema. Que é considerar que a exigência se mede pelo número dos que repetem. Nós temos inúmeros alunos a repetir muito mais do que a média de todos os países da Europa ou mesmo da OCDE. Somos o País em que há mais repetências.

- Mais chumbos?
- Somos o País em que há mais chumbos. E por aí o nosso sistema não seria facilitista, seria exigente, mas na realidade é facilitista porque essa repetência não serve para aumentar o rigor e a exigência de trabalho com esses alunos. Ficam numa espécie de limbo que depois prejudicam muitíssimo os nossos resultados como se pode ver no estudo do PISA.

- Prejudicam como?
- Se considerarmos na amostra os alunos que não repetem, os alunos que estão no ciclo adequado à sua idade têm valores iguais à média dos países da OCDE. Até produzimos mais excelência. Isto é, os nossos alunos do 7 º ano muito bons são melhores do que os muito bons dos outros países. Mas depois temos o peso dos que chumbam, dos que ficam retidos, que puxam os nossos resultados médios para baixo.

deste trecho da entrevista à ministra da educação, fico a pensar duas coisas. a primeira, óbvia, é que mais importante do que a exigência e, em última análise, os alunos, são as estatísticas (o ficar bem na fotografia). nada de novo, portanto. a segunda, é que a nossa ministra (e provavelmente a maioria da nossa classe política) vive alheada da realidade.

os resultados médios são irrelevantes. a média, como se sabe, é um cálculo extraordinariamente susceptível a valores extremos - altos ou baixos. o que importa é que os alunos aprendam qualquer coisa útil - o que no meu tempo acontecia pouco, e hoje não me parece que seja melhor.

volto a um exemplo recorrente: no final do ano passado estive durante uma semana na dinamarca, em casa de um casal amigo - ambos mais velhos do que eu, com família numerosa (quatro filhos, de 18, 17, 15 e 13 anos). todos, sem excepção, falavam um inglês que, não sendo perfeito, era incomparavelmente melhor, em vocabulário, sintaxe e pronúncia, do que o inglês falado de qualquer português que anda por aí a dizer que fala inglês (é aquele velho mito de que somos bons em línguas). a filha mais nova, com treze anos, fala um inglês com o qual eu não sonhava falar quando tinha a idade dela - ou seja, quando andava no sétimo ano. sejamos francos - o inglês da rapariga era inferior ao meu apenas em vocabulário, mas isso apanha-se com a idade.

o mais curioso é que o inglês escrito e falado que tenho hoje não têm a sua origem nos seis anos que estudei inglês - nesses, aprendi as bases, a construção das frases, a gramática, os rudimentos da escrita. o meu inglês vem de ver filmes com atenção (temos por cá a sorte de ter filmes legendados, e não dobrados), de jogar videojogos e jogos de role-play como magic: the gathering, de me esforçar para ler os livros das histórias dos jogos que jogava (e jogo), e de tentar escrever contos e diários em inglês como forma de prática. se estivesse a contar com a escola para aprender a falar e a escrever inglês... era mais ou menos como o nosso primeiro-ministro.

outra curiosidade: sou um nabo a matemática. é verdade que no sétimo e no oitavo ano tive péssimos professores, e que apesar de alguns brilharetes fugazes a trigonometria no nono ano, não consegui recuperar. sobretudo nas equações - caramba, sou péssimo a equações. uma vergonha. coloquem-me uma equação com duas variáveis e vejam-me entrar em parafuso. há quem diga que é uma visão divertida. pessoalmente, não me orgulho muito dessa vertente do meu sentido de humor.

volto a dizer, os resultados médios são irrelevantes. as estatísticas são irrelevantes - a realidade concreta arrasa facilmente com elas. o "chumbo", conceito que tanto parece desagradar à ministra, é fundamental para estabelecer um ponto de partida. imaginemos que no sétimo ano, na cadeira de matemática, é suposto um aluno chegar ao final a saber resolver facilmente uma equação com duas variáveis. se o sabe fazer, passa com boa nota. se resolve uma equação com uma e duas variáveis facilmente (como eu resolvia), mas balança um bocado ao chegar às duas variáveis, poderá passar, mas com uma nota suficiente apenas. se não consegue resolver nenhuma delas, chumba. ou "não transita", para recorrer ao eufemismo. a ministra parece considerar que chumbar um aluno é abandoná-lo. mas passar um aluno que não tem condições para passar de ano é abandonar todos os alunos que se esforçaram, que são mais inteligentes, que aprenderam - em suma, que mereceram passar por mérito próprio.

pena que o mérito seja irrelevante perante as estatísticas.

jc

24.4.08

Micro-avaliação

Em primeiro lugar, e sendo que a maioria dos micróbios pertencentes ao quadro raramente ou nunca se manifestou, julgo ser de bom-tom entrarem apenas em avaliação os micróbios que mais publicam. Respectivamente: (i) João Campos; (ii) Fábio Santos; (iii) João Teago Figueiredo.

Em segundo lugar, venho por este meio comunicar (é sempre neste palavreado insuportavelmente mecânico e articulado que estas papeladas formais se expressam) que serão tidos em conta alguns pontos que, combinados, darão a pontuação final a dar a cada micro-blogger. Enumerando: (i) publicação de um mínimo de 2 post por semana (1 ponto); (ii) publicação de posts com mais de 200 caracteres (acresce 2 pontos); (iii) utilização de ferramentas audio - podcast audio (3 pontos); (iv) utilização de ferramentas audio e video - podcast vídeo (5 pontos); (v) escrever todos os meses pelo menos 1 post em que a jornalista Fátima Campos Ferreira é vítima de chacota (30 pontos).

Serão recebidas com agrado todas as propostas para melhorar o sistema de avaliação. Sendo que, ao contrário de Maria de Lurdes Rodrigues, aqui as notas dos leitores não serão critério de avaliação dos micro-bloggers.

Atenciosamente,
João Teago Figueiredo

prioridades ou a subversão da história

o cinco de outubro é feriado em portugal. celebra-se a implantação da república (ou a queda da monarquia, como quiserem), e acidentalmente, o início de um dos períodos mais... como dizê-lo? estupidificantes da nossa história - a primeira república -, fundado sobre o assassinato de um rei. tudo bem. o que não sabia - ah, as maravilhas da wikipedia - é que o tratado de zamora foi também assinado a 5 de outubro. mas de 1143.

ora o que foi o tratado de zamora? simplificando a coisa, o tratado de zamora, assinado entre dom afonso henriques e afonso VII de castela e leão, marcou a independência e fundação do reino de portugal. apesar de só em 1179 ter sido a soberania portuguesa reconhecida pelo papa alexandre III, foi a cinco de outubro de 1143 que, para todos os efeitos, nasceu o reino de portugal.

não sei porquê, mas parece-me a mim que a criação do nosso país é incomparavelmente mais importante do que uma mudança de regime político. no entanto, não ouço ninguém dizer que a cinco de outubro nasceu portugal - há quem fale no início da república (e que república), há quem fale no final da monarquia (como se a monarquia, em si, fosse uma coisa má). mas ninguém se lembra de zamora.

curiosa, esta escolha de feriado.

jc

Micro-informação #1

Eu, espelho sem reflexo, de nome civil Fábio Videira Santos, funcionário nº6 a contar de cima do estabelecimento "Jardim de Micróbios" desde Outobro de 2007, venho por este meio questionar o gerente do referido estabelecimento, Molero, de nome civil João Teago Figueiredo, se, tal como no caso dos professores, equaciona implementar um método de avaliação dos micróbios e, se sim, quais os parâmetros a utilizar.


Atenciosamente,
espelho sem reflexo




P.S. Após tudo isto, gostaria de saber, igualmente, se o regulamento interno contempla despedimento sem justa causa.
F.S.

coisas deprimentes

não importa o mês ou a estação do ano, aos primeiros indícios de fim de semana com sol, céu limpo e temperaturas acima dos 22º o tuga médio migra para a praia - vulgarmente, para o algarve. caso o céu esteja nublado (com possibilidade de ocorrência de aguaceiros), ou caso simplesmente as temperaturas desaconselhem os areais, o tuga médio, espécime lisboeta (ou a residir em lisboa) encafua-se em centros comerciais. em caso de chuva, barrica-se em frente à televisão a reclamar do tempo.

jc

ler

a ler voltou, agora pela mão de francisco josé viegas. já era notável o trabalho que viegas vinha a desenvolver no blogue da revista, com informações em primeira mão sobre a polémica da feira do livro de lisboa e muitos outros artigos interessantes, bem informados. mas a revista está realmente acima daquilo que esperava. note-se, não é uma revista que vá (creio) provocar rupturas, criar um estilo, renovar o universo da escrita ou o mundo editorial, ou colocar o país a ler, infelizmente (ler no sentido que antónio lobo antunes atribui na entrevista central - e que entrevista). mas é uma revista sólida, bem escrita, com um grafismo adequado, artigos interessantes e um grupo de colunistas muito bom.

de destacar é a entrevista a antónio lobo antunes (já disse que era extraordinária?), as crónicas do melhor blogger português, filipe nunes vicente (grande escolha da parte do francisco), de onésimo teotónio de almeida (divertidíssima), e o artigo de josé mário silva sobre os cinquenta autores mais influentes do século XX.

Este artigo, curiosamente, vem quase no seguimento daquela "lista" elaborada pelo telegraph que aqui mencionei. é certo que este tipo de lista vale o que vale - no fundo, por mais "clássicos" que ela inclua, e mesmo que alguns sejam evidentes, a lista será sempre - sempre - uma avaliação subjectiva de quem a elabora (a mim nunca me passará pela cabeça falar de livros sem mencionar, para além dos inevitáveis tolkien e salinger, joan vinge, philip pullman ou vergílio ferreira, só para não sair do século vinte - se recuar mais um pouco, já tenho de arranjar cadeiras para sentar dostoievsky, verne, eça e poe). mas achei interessante que josé mário silva tenha dado destaque também a filósofos. agradou-me particularmente descobrir, entre beckett e kafka, walter benjamin ou freud - este último tudo menos consensual. e, claro, que o autor não se tenha prestado à tarefa costumeira de fazer uma lista com as vacas sagradas, com os tais "clássicos", mas que tenha procurado alargar mais um pouco os horizontes. aplauso.

e, claro, dignas de registo são também as crónicas de pedro mexia e de eduardo pitta (e dos restantes colaboradores, evidententemente).

agora terminava o textinho dando, claro, os parabéns a francisco josé viegas pelo excelente trabalho (e dou), e com uma citação retiradinha da entrevista (muito boa) de antónio lobo antunes. não o farei (a citação), porém, por dois motivos: primeiro, porque não saberia qual escolher; segundo, porque se começo a retirar citações da entrevista, vou acabar por transcrevê-la na íntegra, e não pretendo isso. há coisas que só devem ser lidas em papel.

joão campos

21.4.08

a isto deve-se chamar "não morrer do mal para morrer da cura"

ou o pensamento higienista e politicamente correcto da sociedade ocidental, na qual vivemos, a fazer ricochete: 'cruzada contra a obesidade' leva crianças à anorexia.

demasiado previsível, não?

jc


e que queijo!

camarada joão figueiredo, tenho a dizer-lhe que a sua região é de uma beleza extraordinária. e que gastronomicamente falando, não fica a dever rigorosamente nada ao meu alentejo.

posto isto, o tempo (a culpa é dos americanos, os grandes responsáveis pelo aquecimento global que se tem verificado nos últimos dias) quase arruinou o meu fim-de-semana em mangualde e as noitadas em viseu, e a neve impediu-me de subir à serra. mas o queijo, o belo do queijo, voltou comigo para lisboa. salvou-se o mais importante, portanto.

jc

16.4.08

pequenas nuances sobre o acordo ortográfico

como aponta um leitor do blogue blasfémias neste comentário, será que com o acordo ortográfico o símbolo químico do cobre (cu) passa a ler-se bunda?

jc

15.4.08

Acordo

Tudo aquilo que se poderá dizer sobre o famigerado acordo ortográfico é, em qualquer caso, insuficiente e mesmo, na grande maioria dos casos, inútil. Convém, no entanto, fazer uma ligeira historiografia dos factos: (i) já em 1986 foi arquitectado e negociado um acordo que, nomeadamente, suprimia a generalidade dos acentos e, também, a utilização de hífens etc. Este acordo provocou uma forte mobilização contra ele que, na realidade, abortou o seu avanço; (ii) em 1988 houve uma reformulação do acordo e em 1991 pronunciaram-se várias organizações institucionais contra o dito (entre os quais já se contava, desde 1986, o próprio departamento de letras da Universidade de Lisboa) e o Presidente da Republica de então tinha já promulgado o documento; (iii) já nessa altura muitos foram os que visceralmente se insurgiram contra as tentativas de normalização ortográfica e, entre eles, já estava Vasco Graça Moura. Julgo ser de razoável bom-senso reconhecer razoabilidade em ambas as facções que emitem opiniões sobre este assunto. Nesse sentido, a discussão prende-se, fundamentalmente, com dois pontos:

1. A supressão das consoantes mudas (c de acção, c de facto, p de óptimo, etc) prende-se com o facto de não serem pronunciadas (isto é, mudas). Contudo, sendo a pronunciação das palavras propriedade de quem as pronuncia, não me parece que seja legítimo que se obrigue alguém a pronunciar ótimo no caso de esse alguém pronunciar óptimo. Mais, no caso de pronunciar adopção, a supressão da consoante p poderá, em último caso, levar facilmente à expressão adução que possui significado completamente díspar.

2. No caso das chamadas facultatividades, parece-me óbvio que quando um acordo possibilita a utilização facultativa de ortografia está, nesse momento, a perder a sua característica de acordo e passa a documento que permite o desacordo na norma escrita.

Convém, também, aduzir um facto importante e que sistematicamente é ocultado na discussão deste tema que é o facto de aqui se estar a querer apenas uniformizar a ortografia. Deixando de lado todos os outros elementos distintivos entre as vertentes europeia, africana e brasileira do Português enquanto língua universal. Ortografia é, apenas (e aqui o apenas não se refere ao sentido de diminuição de importância, mas antes de separação face à sintaxe e à gramática, por exemplo) a norma-gráfica em que uma determinada língua é escrita e cumpre a sua função de meio comunicativo entre seres que partilham a mesma linguagem. Neste sentido, a tentativa de normalização da grafia preserva toda a diversidade linguística que as vertentes do Português supra-citadas conservam.

jtf

14.4.08

é o massacre do português

o camarada joão teago decerto lembra-se de um certo colega da nossa residência, aqui inominável, cujo português escrito era assim, digamos, catastrófico (reparámos uma vez, naquele cubículo que o director designava eufemisticamente por "sala da net", na escrita do inominável colega enquanto ele comunicava no messenger com alguém). o dito camarada escrevia, por exemplo, e passo a citar, comceguiste. havia um outro exemplo ainda mais trágico, mas de momento não me consigo lembrar dele.

pois bem, camarada joão, e restantes camaradas de blogue: dão-se alvíssaras a quem descodificar a seguinte "palavra", cuja história me foi narrada por um amigo há dias:

"sequesso"

aceitam-se comentários no blogue, mensagens sms para quem tiver o meu número, correio electrónico para jeraynes[at]gmail[dot]com, sinais de fumo, código morse com frigideiras e tampas de panela, ou pombos-correio.

jc

e o manguito foi feito de acordo com as normas europeias?

parece que na passada sexta-feira um gang da asae decidiu ir inspeccionar o snob - afamado ponto de encontro de vários jornalistas bem conhecidos da nossa praça. eu já sabia que os senhores da asae gostam do mediatismo (aliás, já sabia disso desde a vergonhosa reportagem sobre os restaurantes chineses), mas desta vez estou em crer, baseando-me nos relatos a que tive acesso aqui, que o tiro lhes saiu pela culatra.

o manguito da inspectora, da agente, ou lá como se designe uma criatura asaeana, deve ter mesmo sido a cereja sobre o bolo.

jc

ele há coisas que me surpreendem

da recente polémica envolvendo o psd e uns documentários de fernanda câncio sobre, se não me engano, bairros sociais e os jovens que lá habitam, apenas me surpreende uma coisa: o facto de a jornalista ser, alegadamente, namorada do nosso primeiro ministro.

não fazia a mais pequena ideia.

a verdade é que toda esta história vai ter um efeito similar àquele que teve a omissão de salazar na lista original do concurso "os grandes portugueses": os documentários dificilmente necessitarão de qualquer publicidade, uma vez que ela já está praticamente feita com este caso.

apenas espero que os documentários não sejam a ladainha do costume. ou seja, mostrar ao público quão miseráveis são as pessoas que vivem naqueles bairros, puxar à pena e à compaixão, procurar justificações para o facto de que vários jovens desses bairros (estou a tentar não generalizar) serem, na verdade, uns pulhas, e de haver muito boa gente a viver em barracas de lata que poderia ter uma vida bastante melhor. mas isso dá muito trabalho.

mais interessante, do meu ponto de vista, seria uma série de documentários sobre a pobreza escondida que existe em vários bairros no coração de lisboa. mas isso talvez não puxe tanto pela audiência, não é?

jc

11.4.08

a biblioteca perfeita

o telegraph publicou um artigo sobre os 110 livros que supostamente integrariam a biblioteca perfeita. é um artigo interessante, mas que a meu ver tem algumas falhas. uma delas, apontada nos comentários de uma forma tão brejeira que só pode ter origem portuguesa, indica a falta de autores latinos na lista - e, de facto, não incluir dom quixote, de cervantes, é uma falha considerável. e falta os lusíadas também (não, isto não é nacionalismo, é realismo).

sendo omissa relativamente à religião, não creio que a lista falhe ao não incluir a bíblia (apesar de ser uma obra fundamental, seja-se ou não religioso).

mas a lista peca, a meu ver, em dois aspectos. o primeiro, ao não incluir o romance the catcher in the rye, de j.d.salinger - para todos os efeitos um clássico, tanto pela obra em si como por toda a polémica que causou ao longo dos anos. e, claro - eu tinha de falar disto, não tinha? - ao colocar o senhor dos anéis, de tolkien, na secção de livros para crianças. este rótulo, já consideravelmente gasto, apenas comprova o velho ditado que diz "no melhor pano cai a nódoa", e que mesmo os melhores jornais não resistem ao preconceito tradicional. alguém devia esclarecer estes, e muitos outros senhores, de que a fantasia não é por definição um género infantil.

jc

adenda: esqueci-me - e a lista também - de incluir alice's adventures in the wonderland.

não sei se me estavam a compensar por alguma coisa

mas já é possível, num vôo tap entre frankfurt e lisboa, assistir a um episódio completo de desperate housewives (não perguntem de que temporada), e a um documentário sobre cinema minimamente interessante. não sei se foi para compensarem o atraso de uma hora, o facto de na portela não haver uma única smoking lounge, ou de os lagartos terem hibernado na taça uefa. mas que foi bom, foi.

jc

5.4.08

Cegueira

Já circula pela rede o teaser trailer do novo filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles - Blindness, baseado no Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Conta com as participações de Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Gael García Bernal, Sandra Oh e Danny Glover o que, a meu ver, merece alguma boa expectativa para quem, tal como eu, teve o prazer da leitura, apesar de se saber a dificuldade da transição de um livro para o cinema.

Blindness 2008 Teaser Trailer




F.S.

3.4.08

governar para as estatísticas

in público: o ministro da ciência e ensino superior está convencido de que quase não há licenciados desempregados em portugal.

reconheço que é muito provável que o ministro tenha razão. não conheço, de facto, muitos licenciados no desemprego. no entanto,

não especificou se o trabalho que encontram em qualificado ou se tem relação com a área em que tiveram formação superior.

aqui é que reside a verdadeira questão. um licenciado é alguém que tem formação superior (universitária) numa determinada área através de um determinado curso. para obter esse grau académico, investiu pelo menos três anos da sua vida (e, diga-se de passagem, muito dinheiro, mesmo numa universidade pública) a estudar para conseguir uma determinada profissão. é perfeitamente natural que um licenciado não esteja desempregado - tem de ganhar a vida de qualquer maneira. mas desçamos nós à terra, já que o ministro parece não ter vontade de o fazer. quantos licenciados não estão a trabalhar

a) em caixas de supermercados;
b) em cafés/restaurantes/bares/casas de alterne;
c)call centers (de seguradoras, de operadoras de telecomunicações, de isp, etc)
d) ou a estagiar em situação precária e extraordinariamente mal remunerada
e) outras áreas que em nada estejam relacionadas com a sua área de estudos.

estes são os dados que importam. a afirmação do ministro é pura - e rasteira - demagogia. porque os licenciados trabalham, claro que trabalham. mas não estão a obter qualquer retorno do investimento que fizeram numa formação académica. não pretendo menorizar qualquer uma das profissões citadas - eu próprio já trabalhei num restaurante e num bar, e gostei de o fazer. mas são profissões que não exigem uma formação universitária - quanto muito, poderão exigir uma formação profissional ou técnica. ora, é preciso o ministro ter muita lata para vir dizer que

“o número de profissionais que sai dos cursos superiores todos os anos para o mercado de trabalho não chega e são todos absorvidos pelo mercado”.

foda-se. são absorvidos e exploradinhos pelo mercado. mas temos professores qualificados a atender telefones para a tmn, por exemplo.


se dúvidas havia, com estas declarações ficamos com uma certeza: em portugal governamos para as estatísticas europeias.

note-se que não defendo que o estado deve empregar a canalha toda. nada disso. deve é criar condições - e não ser um obstáculo - a uma evolução económica que permita corrigir este problema. porque é muito bonito termos uma percentagem de licenciados acima das médias escandinavas, mas é igualmente inútil as potencialidades dessa população qualificada não forem aproveitadas.

jc

2.4.08

não sei se será má ideia, mas pelo sim pelo não a gente já perguntava ao al gore, não?

dois cientistas estão a processar, num tribunal havaiano (não sei se isto se deve às maravilhas da globalização ou simplesmente à falta de dinheiro) o CERN.

para quem não sabe, CERN significa European Center for Nuclear Research, fica em genebra, na suíça, e é onde um bando de cientistas irá em breve passar os dias a brincar ao big bang com um brinquedo intitulado LHC (Large Hadron Collider) - ou, dito de forma mais simples, um grande acelerador de partículas que, para além de colocar protões numa espécie de circuito de fórmula 1 supersónico para os fazer colidir (e a quercus não diz nada sobre os direitos dos protões?), também deve dar para manter umas minis bem fresquinhas. ora os cientistas walter l. wagner e luis sancho querem acabar com a brincadeira helvética, talvez porque os meninos do CERN não os deixam brincar ao big bang também. claro que eles não disseram nada disto, nem há qualquer evidência disto, o meu sentido de humor é que está algo retorcido nesta manhã de primavera - os dois cientistas dizem, sim, que a colisão de partículas que pretende recriar o big bang e compreender, finalmente, a formação do universo, pode gerar um buraco negro que engoliria a terra.

para além da ironia que seria vermos a suíça, país de antiga tradição neutral mesmo quando toda a europa à sua volta decide trabalhar em favor do controlo populacional com tanques, mísseis e metralhadoras, ser a responsável pela destruição da terra. a mesma suíça que guarda dinheiro de meio mundo sem perguntar a sua origem (do dinheiro, não do mundo - e há coisas que o melhor é não saber mesmo), que nos deu os relógios de cuco, o chocolate milka, meia dúzia de personalidades interessantes e os guardas do vaticano nas suas fatiotas catitas, a criar um buraco negro que engoliria as contas de poupança e reforma dos ditadores africanos, a vaquinha roxa e as fábricas que volta e meia produzem relógios swatch ultra-pirosos.

mais grave ainda: se uma coisa destas acontece, como é que os kamaradas do costume vão culpar o bush? pelo sim pelo não, rapaziada do CERN - se é para fazerem um buraco negro, façam-no depressa, que o jorge arbusto já está com um pé fora da casa branca, e quando tiver os dois fora há muita gente que ficará sem bode expiatório.

de qualquer maneira, um buraco negro produzido na suíça seria necessariamente um buraco negro neutro, pelo que não causaria qualquer problema. mas se assim não fosse, não seria provável que, se um buraco negro engolisse a terra numa espécie de "cosmic blowjob", estariam resolvidos todos os nossos problemas ambientais? alguém pague uns milhares de euros ao al gore por uma palestra sobre os efeitos de um buraco negro sobre o aquecimento global, se faz favor.

e, se não for pedir muito, espero que se a malta do CERN conseguir realmente engolir a terra com um buraco negro produzido em genebra, coloque o vídeo no youtube.

jc