27.2.13

Grandolar — o novo verbo da língua portuguesa

Como se enuncia o verbo Grandolar?

Eu grandolo
Tu grandolas
Ele grandola
Nós grandolamos
Vós grandolais
Eles grandolam.

O que é certo é que a vacuidade de Grandolar me parece absoluta.

Achei interessante — bonito, mesmo — um grupo de manifestantes terem interrompido o Primeiro Ministro no Parlamento ao som da canção de Zeca Afonso. Achei que essa interrupção estava imbuída de uma carga simbólica relevante. Foi sinal de descontentamento. Foi uma revisitação das origens do processo revolucionário que, confusões do quente Verão de 75 à parte, nos colocou a todos no caminho democrático que gerou uma sociedade mais justa e mais livre. Sim, porque apesar das injustiças, desigualdades e opressões que vivemos hoje neste Portugal democraticamente sem rumo, o período anterior foi de penumbra e de opressão que a minha geração só pode conhecer de ouvir dizer foi muito mais injusto e opressivo.

Mas depois de se ter Grandolado o Primeiro Ministro começou uma vaga de Grandolações (Grandolamentos? Grandolâncias? Grandolaminações?) a todos os Ministros ou Secretários de Estado que aparecessem em público. Miguel Relvas vai à frente com duas Grandolaminagens no currículo. Paulo Macedo, Vítor Gaspar, Franquelim Alves — enfim: qualquer um é passível de ser Grandolizado.

Grandolar não serve propósito algum — comentadores e jornalistas já o disseram em plataformas de maior visibilidade que esta. Mas os Grandoleiros (que não são os habitantes da Vila de Grândola) acham que cantar a canção de Zeca Afonso é uma acção de luta que, só por si, fará cair o Governo de Pedro Passos Coelho. Não só não fará cair o governo como não mete medo aos governantes. Tal como a Grândola Vila Morena nas ondas hertzianas na madrugada de 25 de Abril de 1974 não meteu medo ao Governo de Marcello Caetano. Porquê? Porque é apenas uma canção... e não passa daí.

É a história que se segue — o facto de a canção ter sido um sinal para os militares, que nos quartéis se preparavam para descer sobre Lisboa com o fito de derrubar o regime, se colocassem em marcha — que dá à canção de Zeca Afonso o seu peso simbólico. Antes da Grândola foi o E Depois do Adeus. Mas e se em vez dessas canções tivessem sido escolhidas outras? Sei lá... o equivalente à música do Noddy. Teria sido diferente?

Seguramente que não. Mas a Grândola Vila Morena tem um poema que lhe subjaz e que é mais forte— encapsula em si os rudimentos da democracia. O povo ordena e decide. Mas para o povo ordenar e decidir tem que saber o que quer e para onde quer ir.

Cantar a Grândola — ou Grandolar — reflecte uma profunda incoerência. Se se quer fazer uso da canção como arma, só deve ser cantada uma vez: como sinal, como toque de sino a rebate, como chamamento a uma descida sobre Lisboa para derrubar o Governo. Se se canta a Grândola Vila Morena em tom de clarim, só se canta uma vez: alto e bom som e depois parte-se a cara a quem de direito. De outro modo teremos sempre o Miguel Relvas a juntar-se ao coro e a estragar a musicalidade daquela segunda voz lá em cima, em lugar de discante.

Zizek tem razão: as pessoas querem revoluções sem revoluções. Querem uma revolução na casa de outras pessoas. Uma nova ordem, mais justa, mais honesta e mais transparente: mas sem que seja necessária a barbárie da revolução. Ou seja: as pessoas querem revolução, mas só os seus resultados. O processo revolucionário é sujo e as pessoas sabem-no bem. Por isso, em vez de deitarem mãos às armas (ou exortarem os militares para o fazerem como em 74) cantam: cantam na esperança de que a revolução se faça por si como deus ex-maquina que resolve tudo no final sem que ninguém sofra ou se aborreça.

Grandolar políticos é idiota. É vazio. É inútil. É bonito... mas pouco mais serve do que ridicularizar quem canta a bela canção de Zeca Afonso. O resultado está à vista: depois de tantas Grandolagens, a gandulagem continua. E continuará.

fp


25.2.13

E o resto é Conversa.


jtf

5.2.13

Blogger no Supermercado

Não fossemos nós um povo secular e tudo isto não passaria de uma excitação momentânea e relativamente inodora, desinteressante. Contudo, para espanto dos mais incrédulos, tudo isto é perene como as coisas perenes, insistentes e desinteressantes. Assim somos e assim seremos até que qualquer coisa nos impeça tal desígnio. Tudo isto -este folclore de tira este põe aquele- é permanente e genuíno, é perpétuo e é incontornável. Não fossemos nós um povo secular e tudo isto pareceria passageiro e monótono. Temporariamente precário. Pareceria, na indefinição de todas as perguntas, o começo apenas.

jtf

2.2.13

Foi você que falou em ignorância?

O Daniel Oliveira resolveu publicar, no Arrastão e no Expresso, um texto sobre o Icesave, a Islândia, e Portugal. Dentro do que seria previsível, os suspeitos do costume, assim que viram um texto a desancar o Daniel Oliveira, tiveram a reacção pavloviana expectável e recomendaram a prosa de Miguel Poiares Maduro no facebook.

Miguel Poiares Maduro, diga-se, não se coíbe nas palavras, sentenciando desde logo que o texto do Daniel Oliveira apenas se poderia "explicar por ignorância ou, pior, manipulação". Mandaria a prudência que, quem assim decide iniciar um comentário, tivesse o cuidado de cobrir a retaguarda e de se abrigar, não fosse a cuspidela inicial cair-lhe em cima. Mas a satisfação por desmascarar a "desonestidade intelectual" de mais um bloquista deveria ser tal que, lá para o fim do texto, lhe começam a sair umas frases algo curiosas:

Na minha opinião a grande diferença é esta: os Islandeses tiveram uma quebra brutal do seu PIB e rendimento per capita (à volta de 40%) (...) O nosso sofrimento é muito mais moderado (por comparação com o deles) mas mais longo. Ainda estamos longe no entanto da queda de rendimento que eles tiveram.

Ora vamos lá à Exhibit A (clicar no(s) gráfico(s) para aumentar a(s) imagem(ns)):

Naturalmente, a quebra do PIB, em termos reais, não foi de 40%. Por razoes que só o Miguel Poiares Maduro saberá explicar, ele entendeu que o indicador mais adequado seria o GNI per capita , medido em valores correntes (em vez de constantes), providenciado pelo Banco Mundial. Neste indicador, a Islândia sofre evidentemente uma enorme quebra, presumivelmente porque o efeito da desvalorização da coroa islandesa é capturado sem o contrabalanço da redução do índice de preços ou do deflator necessário para obter valores reais ou constantes (em vez de nominais ou correntes).
É verdade que ainda não perdemos 10% (e não 40%) do nosso PIB. No entanto, a recessão em Portugal continuará em 2013 e, provavelmente, o valor de 1% de queda do PIB (estimativa incluída no Eurostat para 2013) será claramente optimista (tanto mais quanto o governo decidir efectivamente cortar 4.000 milhões de euros em despesa). Paralelamente, apesar da enorme crise que os afectou, a Islândia já cresce há 2 anos, apresentando neste momento uma queda relativa (face a 2007) semelhante à de Portugal (assumindo como boas as projecções de queda do PIB de 3.0% em 2012).

Passemos então à Exhibit B:
Em termos de desemprego a diferença é enorme, o que, por si só, deveria ser suficiente para impedir alguém de fazer proclamações solenes sobre o "sofrimento mais moderado" de Portugal. Mas, ainda pior que a diferença de quase 10 pontos percentuais, é o facto de a taxa de desemprego islandesa já estar a descer há dois anos, enquanto a portuguesa segue imparável, em subida contínua, desde 2008.

Passemos a mais um gráfico:

É igualmente claríssimo que a Islândia está (e esteve sempre, ao longo desta crise) bem melhor que Portugal no que toca à taxa de população em risco de pobreza. Convém referir ainda que, dado que esta percentagem é calculada a partir do rendimento mediano de cada país após transferências sociais, um islandês que esteja incluído neste grupo de pessoas em risco de pobreza estará, muito provavelmente, em condições materiais bem melhores que as do seu homólogo português, dada a enorme diferença em termos de rendimento mediano em ambos os países.

Para o fim deixei o indicador em que a diferença é ainda mais gritante: percentagem de pessoas severamente desprovidas.
Sofrimento mais moderado, não é?

P.S. Não que o Daniel Oliveira não tenha textos infelizes, como este, em que, em vez de cingir a sua crítica (acertada, na minha opinião) às declarações do Ministro das Finanças japonês, envereda por generalizações inacreditáveis sobre o que considera ser a "cultura nipónica", ao melhor estilo do Arménio Carlos.

P.P.S. Obviamente, estou a escrever num teclado sem acentos. Quando puder, corrijo o texto. Corrigido!

sp