Grandolar — o novo verbo da língua portuguesa
Como se enuncia o verbo Grandolar?
Eu grandolo
Tu grandolas
Ele grandola
Nós grandolamos
Vós grandolais
Eles grandolam.
O que é certo é que a vacuidade de Grandolar me parece absoluta.
Achei interessante — bonito, mesmo — um grupo de manifestantes terem interrompido o Primeiro Ministro no Parlamento ao som da canção de Zeca Afonso. Achei que essa interrupção estava imbuída de uma carga simbólica relevante. Foi sinal de descontentamento. Foi uma revisitação das origens do processo revolucionário que, confusões do quente Verão de 75 à parte, nos colocou a todos no caminho democrático que gerou uma sociedade mais justa e mais livre. Sim, porque apesar das injustiças, desigualdades e opressões que vivemos hoje neste Portugal democraticamente sem rumo, o período anterior foi de penumbra e de opressão que a minha geração só pode conhecer de ouvir dizer foi muito mais injusto e opressivo.
Mas depois de se ter Grandolado o Primeiro Ministro começou uma vaga de Grandolações (Grandolamentos? Grandolâncias? Grandolaminações?) a todos os Ministros ou Secretários de Estado que aparecessem em público. Miguel Relvas vai à frente com duas Grandolaminagens no currículo. Paulo Macedo, Vítor Gaspar, Franquelim Alves — enfim: qualquer um é passível de ser Grandolizado.
Grandolar não serve propósito algum — comentadores e jornalistas já o disseram em plataformas de maior visibilidade que esta. Mas os Grandoleiros (que não são os habitantes da Vila de Grândola) acham que cantar a canção de Zeca Afonso é uma acção de luta que, só por si, fará cair o Governo de Pedro Passos Coelho. Não só não fará cair o governo como não mete medo aos governantes. Tal como a Grândola Vila Morena nas ondas hertzianas na madrugada de 25 de Abril de 1974 não meteu medo ao Governo de Marcello Caetano. Porquê? Porque é apenas uma canção... e não passa daí.
É a história que se segue — o facto de a canção ter sido um sinal para os militares, que nos quartéis se preparavam para descer sobre Lisboa com o fito de derrubar o regime, se colocassem em marcha — que dá à canção de Zeca Afonso o seu peso simbólico. Antes da Grândola foi o E Depois do Adeus. Mas e se em vez dessas canções tivessem sido escolhidas outras? Sei lá... o equivalente à música do Noddy. Teria sido diferente?
Seguramente que não. Mas a Grândola Vila Morena tem um poema que lhe subjaz e que é mais forte— encapsula em si os rudimentos da democracia. O povo ordena e decide. Mas para o povo ordenar e decidir tem que saber o que quer e para onde quer ir.
Cantar a Grândola — ou Grandolar — reflecte uma profunda incoerência. Se se quer fazer uso da canção como arma, só deve ser cantada uma vez: como sinal, como toque de sino a rebate, como chamamento a uma descida sobre Lisboa para derrubar o Governo. Se se canta a Grândola Vila Morena em tom de clarim, só se canta uma vez: alto e bom som e depois parte-se a cara a quem de direito. De outro modo teremos sempre o Miguel Relvas a juntar-se ao coro e a estragar a musicalidade daquela segunda voz lá em cima, em lugar de discante.
Zizek tem razão: as pessoas querem revoluções sem revoluções. Querem uma revolução na casa de outras pessoas. Uma nova ordem, mais justa, mais honesta e mais transparente: mas sem que seja necessária a barbárie da revolução. Ou seja: as pessoas querem revolução, mas só os seus resultados. O processo revolucionário é sujo e as pessoas sabem-no bem. Por isso, em vez de deitarem mãos às armas (ou exortarem os militares para o fazerem como em 74) cantam: cantam na esperança de que a revolução se faça por si como deus ex-maquina que resolve tudo no final sem que ninguém sofra ou se aborreça.
Grandolar políticos é idiota. É vazio. É inútil. É bonito... mas pouco mais serve do que ridicularizar quem canta a bela canção de Zeca Afonso. O resultado está à vista: depois de tantas Grandolagens, a gandulagem continua. E continuará.
fp
Eu grandolo
Tu grandolas
Ele grandola
Nós grandolamos
Vós grandolais
Eles grandolam.
O que é certo é que a vacuidade de Grandolar me parece absoluta.
Achei interessante — bonito, mesmo — um grupo de manifestantes terem interrompido o Primeiro Ministro no Parlamento ao som da canção de Zeca Afonso. Achei que essa interrupção estava imbuída de uma carga simbólica relevante. Foi sinal de descontentamento. Foi uma revisitação das origens do processo revolucionário que, confusões do quente Verão de 75 à parte, nos colocou a todos no caminho democrático que gerou uma sociedade mais justa e mais livre. Sim, porque apesar das injustiças, desigualdades e opressões que vivemos hoje neste Portugal democraticamente sem rumo, o período anterior foi de penumbra e de opressão que a minha geração só pode conhecer de ouvir dizer foi muito mais injusto e opressivo.
Mas depois de se ter Grandolado o Primeiro Ministro começou uma vaga de Grandolações (Grandolamentos? Grandolâncias? Grandolaminações?) a todos os Ministros ou Secretários de Estado que aparecessem em público. Miguel Relvas vai à frente com duas Grandolaminagens no currículo. Paulo Macedo, Vítor Gaspar, Franquelim Alves — enfim: qualquer um é passível de ser Grandolizado.
Grandolar não serve propósito algum — comentadores e jornalistas já o disseram em plataformas de maior visibilidade que esta. Mas os Grandoleiros (que não são os habitantes da Vila de Grândola) acham que cantar a canção de Zeca Afonso é uma acção de luta que, só por si, fará cair o Governo de Pedro Passos Coelho. Não só não fará cair o governo como não mete medo aos governantes. Tal como a Grândola Vila Morena nas ondas hertzianas na madrugada de 25 de Abril de 1974 não meteu medo ao Governo de Marcello Caetano. Porquê? Porque é apenas uma canção... e não passa daí.
É a história que se segue — o facto de a canção ter sido um sinal para os militares, que nos quartéis se preparavam para descer sobre Lisboa com o fito de derrubar o regime, se colocassem em marcha — que dá à canção de Zeca Afonso o seu peso simbólico. Antes da Grândola foi o E Depois do Adeus. Mas e se em vez dessas canções tivessem sido escolhidas outras? Sei lá... o equivalente à música do Noddy. Teria sido diferente?
Seguramente que não. Mas a Grândola Vila Morena tem um poema que lhe subjaz e que é mais forte— encapsula em si os rudimentos da democracia. O povo ordena e decide. Mas para o povo ordenar e decidir tem que saber o que quer e para onde quer ir.
Cantar a Grândola — ou Grandolar — reflecte uma profunda incoerência. Se se quer fazer uso da canção como arma, só deve ser cantada uma vez: como sinal, como toque de sino a rebate, como chamamento a uma descida sobre Lisboa para derrubar o Governo. Se se canta a Grândola Vila Morena em tom de clarim, só se canta uma vez: alto e bom som e depois parte-se a cara a quem de direito. De outro modo teremos sempre o Miguel Relvas a juntar-se ao coro e a estragar a musicalidade daquela segunda voz lá em cima, em lugar de discante.
Zizek tem razão: as pessoas querem revoluções sem revoluções. Querem uma revolução na casa de outras pessoas. Uma nova ordem, mais justa, mais honesta e mais transparente: mas sem que seja necessária a barbárie da revolução. Ou seja: as pessoas querem revolução, mas só os seus resultados. O processo revolucionário é sujo e as pessoas sabem-no bem. Por isso, em vez de deitarem mãos às armas (ou exortarem os militares para o fazerem como em 74) cantam: cantam na esperança de que a revolução se faça por si como deus ex-maquina que resolve tudo no final sem que ninguém sofra ou se aborreça.
Grandolar políticos é idiota. É vazio. É inútil. É bonito... mas pouco mais serve do que ridicularizar quem canta a bela canção de Zeca Afonso. O resultado está à vista: depois de tantas Grandolagens, a gandulagem continua. E continuará.
fp













