24.10.12
Portugal; substantivo masculino. Rota-de-colisão em forma de país; pequeno ex-libris de um passado longinquamente enlevado em grandezas de tenente-coronel.
Relato: salva-se um banco da falência que custou, sabe-se hoje, para cima de um dinheirão. Põe-se num tacho (podia ser uma panela) um chairman caseiro; e amamenta-se o dito à força de uma teta que debite umas quarenta e cinco mil patacas por mês. Corta-se (como se faz às galinhas) trinta por cento do rendimento dos funcionários públicos que, como toda a gente sabe, são os culpados pelo Holocausto e pelo sismo na península de Tiburon. Aumenta-se o IVA aos pobres e aos remediados. Aumenta-se o IRS aos pobres e aos remediados. Aumenta-se o imposto de circulação aos pobres e aos remediados que, depois das continhas todas feitas, ainda conseguirem possuir veículo de locomoção motorizado. Aumentam democraticamente tudo o que se assemelha vagamente a uma taxa, uma taxinha e uma taxona aos pobres e aos remediados. Aumenta-se o IMI, o IMT e a electricidade com que assistimos, na têvê, à marcha fúnebre de um país em crise. Diminui-se o subsídio de desemprego desses burgueses que ganham quatrocentos euros por mês, não fossem eles gastar tudo em caviar.
Ao que me parece, mas posso estar enganado, o mais fácil era pegar fogo a este palheiro todo e começar tudo do início. Ao menos, matavam-se as figuras, as figurinhas e os figurões.
jtf
21.10.12
Manuel António Pina (1943 - 2012)
Dizem por aí que morreu um dos maiores poetas portugueses. Corrijo, um dos maiores portugueses. Uma das pessoas que eu mais admirava; e admiro. Não só no que a poesia representa, mas na forma como se opta viver: convicto, livre e mestre sublime da arte da inquietude. Secretamente, sempre pretendi que o universo do Pina fosse o meu universo. É difícil continuar a acreditar em tudo isto. É difícil. Manuel António Pina, onde quer que esteja, eu sei que a poesia vai acabar, e que os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não acabarem). Um senhor míope atendia devagar ao balcão; perguntou: «que fez algum poeta por este senhor?». Eu respondo-lhe: tudo, fez tudo.
Estamos cada vez mais sozinhos.
19.10.12
A Livre Locomoção
Daqui a pouco mais de cinco meses, mais coisa menos coisa, cá estaremos para ver até que ponto se conseguiu ensinar o cavalo a falar dinamarquês. Porém, no entretanto, a tribo vai sofrendo, carece de arroz, de açucares e de horizontes que permitam a livre locomoção. A punição é infernal e só terminará quando já nada houver mais que tributar. Aí, todos sairemos à rua numa manhã de nevoeiro, e partiremos tudo o que houver para partir. Utilizaremos cocktails e bombas de mau-cheiro. Não sei se a escaramuça é solução para alguma coisa, mas uma coisa é certa: não se trata a obesidade com cianeto.
jtf
O povo saiu à rua num dia assim.
18.10.12
17.10.12
Palavras de sabedoria IV
"Se estás num túnel e não vês luz ao fundo... volta para trás, palerma! Estás numa caverna!"
Anónimo
(Estas palavras de sabedoria são dedicadas ao Primeiro Ministro de Portugal e ao seu Ministro das Finanças.)
fp
12.10.12
Voodoo Economics - Edição Gaspar/Portas/Coelho
A ver se percebi bem: apenas dias depois de o FMI ter assumido o seu erro crasso (em todo o caso, louve-se o facto de terem acordado para o erro, coisa que os incompetentes (ou corruptos) da Comissão Europeia se continuam a mostrar incapazes de fazer) o governo decide antecipar cortes de 800 milhões de Euros, garantindo o agravar da recessão. Basicamente, é isto, não é?
Vale a pena ler a auto-crítica do FMI:
"In line with these assumptions, earlier analysis by the IMF staff suggests that, on average, fiscal multipliers were near 0.5 in advanced economies during the three decades leading up to 2009. If the multipliers underlying the growth forecasts were about 0.5, as this informal evidence suggests, our results indicate that multipliers have actually been in the 0.9 to 1.7 range since the Great Recession. This finding is consistent with research suggesting that in today’s environment of substantial economic slack, monetary policy constrained by the zero lower bound, and synchronized fiscal adjustment across numerous economies, multipliers may be well above 1"
Alguém faz o favor de pôr o Governo inteiro ao canto da sala, com orelhas de burro, e de os obrigar a ler este excerto o número de vezes que for preciso até eles perceberem as implicações do que ali está? Sim, teriam de o ler inúmeras vezes, certamente. Mas serem confrontados com a sua própria estupidez (ou com o falhanço da sua ideologia) não é um castigo especialmente penoso, tendo em conta o que esta trupe anda a fazer.
P.S. Sobre o mea culpa do FMI e as implicações que daí decorrem, vale a pena, como de costume, ler Paul Krugman: 1, 2, e 3.
sp
Vale a pena ler a auto-crítica do FMI:
"In line with these assumptions, earlier analysis by the IMF staff suggests that, on average, fiscal multipliers were near 0.5 in advanced economies during the three decades leading up to 2009. If the multipliers underlying the growth forecasts were about 0.5, as this informal evidence suggests, our results indicate that multipliers have actually been in the 0.9 to 1.7 range since the Great Recession. This finding is consistent with research suggesting that in today’s environment of substantial economic slack, monetary policy constrained by the zero lower bound, and synchronized fiscal adjustment across numerous economies, multipliers may be well above 1"
Alguém faz o favor de pôr o Governo inteiro ao canto da sala, com orelhas de burro, e de os obrigar a ler este excerto o número de vezes que for preciso até eles perceberem as implicações do que ali está? Sim, teriam de o ler inúmeras vezes, certamente. Mas serem confrontados com a sua própria estupidez (ou com o falhanço da sua ideologia) não é um castigo especialmente penoso, tendo em conta o que esta trupe anda a fazer.
P.S. Sobre o mea culpa do FMI e as implicações que daí decorrem, vale a pena, como de costume, ler Paul Krugman: 1, 2, e 3.
sp
7.10.12
A Europa e a Consciência do Vazio II
A velha Europa cristaliza-se. Imobiliza-se na inércia genética daqueles que querem conservar as coisas conforme foram paridas; imutáveis ou, em rigor, mutantes apenas ao ritmo dos pequenos passos. Tão pequenos que se revelam demasiadamente lentos para fugir à tempestade. A questão central é saber até que ponto poderão fazer parte do mesmo clube membros de tão desigual tez. A resposta é ambígua e aparentemente difícil. Há quem ache, como Groucho, que não faz sentido «pertencer a um clube que nos aceite como sócio». No entanto, a teoria do «euro purificado», decantado dos elementos mais coxos, esbarra nos dilemas típicos da teoria-dos-jogos e da medicação para a hipertensão: efeitos secundários. Mas, como tudo isto é um jogo de soma-zero, a divisão entre uns e outros prejudicaria tanto «uns» como «outros»; e em magnitudes só ao alcance dos deuses mais poderosos. Paralelamente, há dificuldades práticas por debelar: onde começar e onde parar o casting. Ora, mesmo rejeitando a cisão, é fundamental saber se é possível ter uma união monetária federal mantendo políticas fiscais/orçamentais estaduais e atómicas; mesmo com mecanismos supra-nacionais de fiscalização e monitorização. Dificilmente se concluirá pelo sim ou pelo não; a dúvida é sistemática. Surgem, de igual modo, dificuldades de ordem conceptual no funcionamento da união, e que põem o problema de saber como é que mecanismos de supervisão orçamental inter-governamentais, operam sobre o instrumento mais importante dos intentos federalizantes como é a moeda única. Mecanismos estes, em que a opção pelo tónus inter-governamental é veementemente enfatizada pelas mais proeminentes vozes bávaras, em especial o ministro Schäuble.
Aqui chegados, a Europa cristaliza-se e paralisa de movimentos. Move-se em paralelas e pouco avança. Imobiliza-se com a inércia empedernida dos acidentados.
Está na hora da Europa dos grandes passos.
jtf
1.10.12
Manifesto Anti-Borges
Basta pum basta. O Borges é um cigano! O Borges é meio cigano! O Borges saberá modelos, saberá equações, saberá de blackjack, saberá fazer roadshows p'ra investidores, saberá tudo menos economia-real que é a única coisa que ele faz! O Borges pesca tanto disso que até faz pequenos-almoços com entranhas-de-proletário! O Borges especula e inocula os bem-nutridos! O Borges é Borges! O Borges é António! O Borges é um produto-financeiro dele-próprio! O Borges em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum. O Borges nu é horroroso! O Borges cheira mal da boca!
Morra o Borges, morra! Pim!
jtf
Este País
Este país não é para velhos. Este país não é para novos. Este país não é para doentes. Este país não é para fumadores, nem é para condutores. Este país não é para trabalhadores. Não é para empresários. Este país não é para agricultores. Este país não é para empreendedores. Este país não é para professores. Este país não é para enfermeiros.Nem é para dentistas. Este país não é para criativos. Nem tão-pouco para encenadores, actores e escultores. Este país não é para optimistas. Nem mesmo para pessimistas. Este país não é para uns. Nem chega verdadeiramente a ser para outros. Este país não chega bem a ser um «país». Um problema que temos connosco mesmos.
jtf
Para que os portugueses
mostrassem ter os colhões que os espanhóis exibiem descomplexadamente na praça neptuno, era preciso que o governo anunciasse que ia cortar uma mão a cada contribuinte para vender nos mercados.
jtf
jtf
Filhos em tempo de crise
Sempre falámos de ter filhos. Conversávamos sobre isso e fazíamos contas à dimensão da ninhada de miúdos que queríamos: a minha mulher dizia dois ou três; eu era mais ambicioso — queria quatro, para ter um quarteto de cordas em casa, talvez mais para poder fazer uma pequena orquestra de câmara (nunca fui de futebol e a ideia de ter onze filhos, para ter uma equipa de futebol, francamente, deprime-me...). Acabámos por decidir que dois, ou três seria suficiente. Mas dois ou três começa sempre por um...
E a vida foi avançando. Mas foi avançando rapidamente e para lado nenhum. A falta de perspectivas de emprego ou trabalho em Portugal, a riqueza de um país desbaratada em asfalto e monumentos nacionais em forma de derrapagem orçamental e a “crise”, tudo isso nos foi — lentamente — roubando o sonho de sermos pais, nem que fosse de um pequeno solista, já nem pedia o meu trio de clarinete, piano e violoncelo.
Um dia a minha mulher disse-me que estava grávida. Sem planos, sem perspectivas, munidos de um apurado sentido de improviso decidimos avançar, decidimos ser pais. Afinal, a decisão estava tomada e, enfim, materializara-se.
Hoje, o nosso pequenote tem três meses e é a maravilha mais perfeita que existe. A vida mudou radicalmente e o lento resvalar para a “Angst” de quem não tem nada para fazer e está à espera que aconteça alguma coisa (não obstante os melhores esforços para ser pro-activo) parece ser uma coisa do nosso passado. Lutar nunca me pareceu tão material e humano, nunca me pareceu tão concreto. Quem diria que uns bracinhos tão pequenos e umas mãozinhas tão frágeis poderiam dar um empurrão tão forte?
Muita gente diz — amigos e conhecidos da nossa geração — que não se aventura a ter filhos nesta altura por causa da crise, pela falta de dinheiro, pela distância dos seus pais. Dizem que precisam de ter boas condições financeiras e um emprego estável para poder pensar em ter filhos. Mas num tempo em que um emprego estável e boas condições financeiras são uma memória do passado e uma utopia do futuro, num país onde a “nata da nata” é exortada a emigrar para deixar vagos os espaços para os ladrões, esperar por um emprego estável e bem pago para ter filhos é decidir de antemão que os genes não serão passados para novas gerações. Porque, se assim, for — e duvido que seja — só daqui a vinte anos é que veremos um incremento na taxa de natalidade; e os pais desses bebés terão todos cinquenta anos. Não — não aceito esses argumentos: o motivo real que subjaz à decisão de não ter filhos é a incapacidade que uma geração a quem nada faltou, que nunca teve medo de nada e por nada teve que lutar, tem de abdicar do seu pequeno conforto e de avançar com a sua própria vida e fazer aquilo que os seus pais fizeram com menos dez anos de idade: criar as suas próprias famílias.
A nossa vida não estava, de todo, organizada. Cheios de qualificações académicas obtidas em Universidades de qualidade e vontade para trabalhar — mas sem trabalho algum, nem tampouco perspectiva de o obter em breve —, íamos andando, cada um em casa de seus pais, a namorar aqui e acolá como no tempo do Liceu. E, um dia, a vida começou a andar e o relógio a fazer tique-taque. Dentro de poucos meses seríamos pais. Tudo aconteceu rapidamente porque a fúria com que nos deitámos à vida não tinha precedentes. Parecia que tudo o que fizéramos antes não era nada.
O dinheiro continua a ser (e certamente será durante ainda muito tempo) um bem escasso — mas demos a volta, estamos a dar a volta. Compramos roupinhas e outras coisas em segunda-mão. Os amigos e a família dão as ajudas que podem. A casa onde vivemos é emprestada por familiares (uma casa que a crise não ajuda a vender). Fazemos contas, somos frugais e retirámos das nossas vidas o supérfluo para nos concentrarmos no essencial. A minha mulher está dedicada a ser a melhor mãe do mundo. Eu estou, finalmente, a trabalhar naquilo que me move e apaixona profissionalmente. Ganhamos pouco, vivemos com uma certa magreza — mas nada falta ao nosso pequenote. Somos felizes. Quem julga que os bebés se criam com dinheiro está enganado: os bebés criam-se como se fazem — com amor. Se se começar por aí, a luta, a força e a coragem que um pequenote nos vai buscar às tripas há-de encontrar algures tudo o mais que for necessário.
E a vida foi avançando. Mas foi avançando rapidamente e para lado nenhum. A falta de perspectivas de emprego ou trabalho em Portugal, a riqueza de um país desbaratada em asfalto e monumentos nacionais em forma de derrapagem orçamental e a “crise”, tudo isso nos foi — lentamente — roubando o sonho de sermos pais, nem que fosse de um pequeno solista, já nem pedia o meu trio de clarinete, piano e violoncelo.
Um dia a minha mulher disse-me que estava grávida. Sem planos, sem perspectivas, munidos de um apurado sentido de improviso decidimos avançar, decidimos ser pais. Afinal, a decisão estava tomada e, enfim, materializara-se.
Hoje, o nosso pequenote tem três meses e é a maravilha mais perfeita que existe. A vida mudou radicalmente e o lento resvalar para a “Angst” de quem não tem nada para fazer e está à espera que aconteça alguma coisa (não obstante os melhores esforços para ser pro-activo) parece ser uma coisa do nosso passado. Lutar nunca me pareceu tão material e humano, nunca me pareceu tão concreto. Quem diria que uns bracinhos tão pequenos e umas mãozinhas tão frágeis poderiam dar um empurrão tão forte?
Muita gente diz — amigos e conhecidos da nossa geração — que não se aventura a ter filhos nesta altura por causa da crise, pela falta de dinheiro, pela distância dos seus pais. Dizem que precisam de ter boas condições financeiras e um emprego estável para poder pensar em ter filhos. Mas num tempo em que um emprego estável e boas condições financeiras são uma memória do passado e uma utopia do futuro, num país onde a “nata da nata” é exortada a emigrar para deixar vagos os espaços para os ladrões, esperar por um emprego estável e bem pago para ter filhos é decidir de antemão que os genes não serão passados para novas gerações. Porque, se assim, for — e duvido que seja — só daqui a vinte anos é que veremos um incremento na taxa de natalidade; e os pais desses bebés terão todos cinquenta anos. Não — não aceito esses argumentos: o motivo real que subjaz à decisão de não ter filhos é a incapacidade que uma geração a quem nada faltou, que nunca teve medo de nada e por nada teve que lutar, tem de abdicar do seu pequeno conforto e de avançar com a sua própria vida e fazer aquilo que os seus pais fizeram com menos dez anos de idade: criar as suas próprias famílias.
A nossa vida não estava, de todo, organizada. Cheios de qualificações académicas obtidas em Universidades de qualidade e vontade para trabalhar — mas sem trabalho algum, nem tampouco perspectiva de o obter em breve —, íamos andando, cada um em casa de seus pais, a namorar aqui e acolá como no tempo do Liceu. E, um dia, a vida começou a andar e o relógio a fazer tique-taque. Dentro de poucos meses seríamos pais. Tudo aconteceu rapidamente porque a fúria com que nos deitámos à vida não tinha precedentes. Parecia que tudo o que fizéramos antes não era nada.
O dinheiro continua a ser (e certamente será durante ainda muito tempo) um bem escasso — mas demos a volta, estamos a dar a volta. Compramos roupinhas e outras coisas em segunda-mão. Os amigos e a família dão as ajudas que podem. A casa onde vivemos é emprestada por familiares (uma casa que a crise não ajuda a vender). Fazemos contas, somos frugais e retirámos das nossas vidas o supérfluo para nos concentrarmos no essencial. A minha mulher está dedicada a ser a melhor mãe do mundo. Eu estou, finalmente, a trabalhar naquilo que me move e apaixona profissionalmente. Ganhamos pouco, vivemos com uma certa magreza — mas nada falta ao nosso pequenote. Somos felizes. Quem julga que os bebés se criam com dinheiro está enganado: os bebés criam-se como se fazem — com amor. Se se começar por aí, a luta, a força e a coragem que um pequenote nos vai buscar às tripas há-de encontrar algures tudo o mais que for necessário.
fp









