28.4.10

The Economist

a. atenção especial para o anos a seguir a 1980;
b. relembrem-se quem era primeiro-ministro;
c. é importante que se tenha memória quando se tomam certas pessoas como inquesionavelmente competentes em certas áreas;
d. de relembrar, também, que nessa altura existiam instrumentos de política monetária disponíveis.
e. estou mesmo a falar de Aníbal Cavaco Silva, estou.

jtf

15.4.10

O cidadão

Hoje voltei à Loja do Cidadão.

A contragosto, entenda-se; a Loja do Cidadão não tem como propósito "simplificar" (palavra tão na moda), ou facilitar a vida ao "cidadão". Qualquer que seja o seu objectivo, a única coisa que consegue é torturar (meço bem a expressão) os "utentes" (outra expressão na moda). Não falo dos balcões da EDP ou da companhia do gás (esses, pela minha experiência, funcionam bem), mas sim dos serviços públicos: Finanças (ou lá como se designa) e Segurança Social (nunca experimentei os da "Justiça"). Como se, durante a formação, os funcionários do atendimento daqueles lugares fossem instruídos, com especial atenção, para:

1) não sorrirem (jamais, em circunstância alguma);
2) não serem simpáticos;
3) manterem um ar de enfado permanente, como se nos estivessem a fazer um tremendo favor, e como se não fossem pagos (por todos nós, já agora) para aquilo;
4) não serem claros nos esclarecimentos que lhes pedimos;
5) terem a frase "é consultar a legislação" na ponta da língua, pronta a disparar.

Hoje, cheguei à Loja do Cidadão às dez e um quarto da manhã. Tirei a senha número 111; a fila, num balcão de atendimento que abre (ou devia abrir) às oito e meia, ia na senha 31. Guardei a senha e fui para o trabalho. Saí na hora de almoço, cheguei aos Restauradores à uma: a fila ia no 109, e tive de esperar apenas dez minutos. A pessoa que me atendeu passou pelas cinco etapas acima descritas. Como de costume, saí da loja igualmente confuso, e com uma vaga vontade de demolir o local. Enfim. Cheira-me que daqui a dias tenho de lá voltar; e ainda que não tenha, em finais de Maio terei por mim de me render às evidências: o meu BI expira, e tenho de fazer o maldito "Cartão do Cidadão". Dizem-me que esse processo também é um valente pincel. Deve ser boa ideia começar já a juntar paciência.

john

14.4.10

Do Atlas Shrugged

Deus sabe quão difícil tem sido evitar ir à Wikipedia para encontrar a resposta à pergunta who is John Galt. Mas eu conseguirei (portanto não digam).

john

9.4.10

Lendo os outros

Este será, de longe, o post mais engraçado do ano. Eu ainda não consegui parar de rir. Ah, o humor é tão bom quando é involuntário.

john

6.4.10

Ouvido algures

"Há muita gente que se ganhasse o euromilhões dava a volta ao mundo, eu comprava uma loja da adidas".

jtf

5.4.10

Também devia viver num buraco

Sei que devo parar a breve releitura de O Senhor dos Anéis quando, num texto, dou por mim a escrever "hobbit" em vez de "hobbies".

john

A páscoa na terra*

Por vezes, acontece falar da minha terra - uma aldeia perdida algures no interior daquilo a que se convencionou chamar de "Alentejo Litoral" - de tal forma que os meus amigos perguntam se eu odeio a aldeia assim tanto. Não odeio a minha terra; na verdade, até gosto bastante dela, e, a espaços, até sinto saudades de lá ir. Afinal, vivi lá até aos dezoito anos. Conheço praticamente toda a gente que lá vive, e ainda tenho por lá um ou dois amigos (nunca fui muito popular). Mas há momentos em que abomino a aldeia. Ou, para ser mais preciso: abomino as pessoas que lá vivem, que por vezes tornam a aldeia mais pequena do que aquilo que ela normalmente é. Por exemplo: quando escrevi no meu moleskine este caderno, corria o meu segundo dia de "fim-de-semana de Páscoa", era noite, e eu estava sentado na única esplanada da aldeia, a beber um café e um whisky; e, na mesa do lado, um merdoso cocaínado e alcoolizado espancava metodicamente um cão enquanto proferia disparates. No dia em que cheguei, queimei uma hora da minha tarde a ver dois rapazes da terra, que conheço bem, a jogarem snooker no clube lá da aldeia; e dois idiotas, um da terra e outro do raio que o parta, a "dar palpites" durante todo o jogo, a gozar sempre que um dos rapazes falhava uma tabela (eles, que falhavam na língua portuguesa em toda a linha). Enfim, os perfeitos treinadores de bancada: burgessos, iletrados, peneirentos. Fico a saber mais tarde que o desconhecido é um dos novos elementos da GNR em serviço na aldeia. Mais um a dar mau nome à Guarda. Enfim, o snooker e respectivos palpites devem ter durado mais de uma hora; acho que aguentei pouco mais de meia. Aquelas vozes irritantes, a cuspir palavras com uma pretensa sabedoria que não existe, deu-me a volta ao miolo; fosse eu que estivesse a jogar, e um par de berros tinha-se feito ouvir. Mas não era, e por isso optei por sair. O idiota da terra sai também, senta-se no parapeito da janela do clube. Dois rapazes mais novos que ele (e que eu) saem também. O idiota enceta uma conversa orgulhosa sobre a "ida às putas" na "outra noite". Fujo. Conheço demasiado bem as conversas sobre as "idas às putas", a única forma de imbecis daquele calibre (e na aldeia há muitos, considerando a população total da freguesia) saberem o que é "foder". Aquelas conversas sempre me aborreceram: em parte pelo orgulho aparente com que surgem, em parte por ser incapaz de compreender esse orgulho (e a necessidade por trás dele). É frequente, tanto quanto sei, os rapazes da aldeia "irem às putas", logo desde tenra idade. Tive em tempos um vizinho que sempre que queria ir parava no café e ofeceria boleia - abalava sempre com o carro cheio. A mim, nunca ninguém me convidou para ir. Foi o maior elogio que a minha geração da aldeia alguma vez me fez.

john