31.10.11

Apagar a luz

Foi noticia na semana passada a ideia do Governo em matéria de transportes: encerrar o Metro de Lisboa às 23h, com algumas estações - nomeadamente as estações periféricas - a encerrar às 21h, e desactivar a Rede da Madrugada da Carris. Sobre a imbecilidade de tal sugestão já dissertei aqui; no entanto, e na qualidade de cidadão e contribuinte, quero aproveitar esta tribuna para deixar algumas sugestões ao Álvaro com vista à redução do nosso défice:

1) Não havendo transportes públicos, não há necessidade de manter comércio aberto após o horário de encerramento de autocarros e metro. Encerrem-se, pois, centros comerciais, restaurantes, cafés e bares - até porque as pessoas que lá trabalham certamente não terão transportes para regressar a casa.

2) Não havendo transportes ou comércio a funcionar após as 23h, é mais prático instituir desde logo um recolher obrigatório a partir dessa hora, ou, vá lá, a partir da meia-noite, para dar algum tempo de tolerância na eventualidade de atrasos. Esta medida tem a vantagem imediata de tornar as ruas mais seguras para os transeuntes porque, enfim, deixa de haver transeuntes. Deixa também de ser necessário o pagamento por horas nocturnas a tantos polícias, o que é excelente: pode ser que assim o Estado lhes dê uma ajudinha na compra das fardas.

3) Não havendo transportes, comércio e pessoas a partir das 23h (vá lá, da meia-noite), não há qualquer necessidade de a iluminação das ruas se manter ligada a noite toda, com claro desperdício energético e aumento da factura à EDP. Desliguem-se, pois, os candeeiros e os semáforos de todas as ruas.

E pronto. Ficamos com um país poupadinho e racional, a funcionar como um relógio das nove da manhã às seis da tarde.

john

Nicola moment

Nos últimos tempos, a rejeição de certas ciências tem sido o desporto-do-dia, praticado com afinco por todos quantos por elas se sentiram rejeitados. Somos, assim, bombardeados por dúvidas de constitucionalidade a cada passo governativo e, por cada um deles, vários princípios jurídicos vão sendo atropelados, com alegria e muito desprezo. Se por um lado são atropelados direitos remuneratórios adquiridos legitimamente, por outro direitos contratuais menos legítimos são respeitados com uma intransigência bulímica e obsequiosa. Vejam-se os casos das PPPs e outros. Até porque, tipicamente, os direitos do trabalho - ligados à pessoa humana e, bem assim, aos direitos fundamentais -, sempre tiveram a primazia. Inaugura-se, pois, a era em que mais facilmente se cortam 2000 euros por ano a quem ganha 1000 euros por mês, do que se re-estabelecem rendas imorais numa qualquer auto-estrada scut ou num qualquer hospital mal negociado. Há um copo que é enchido todos os dias com 1ml de água. Uns dias com mais, outros dias com menos. Um dia o copo enche tanto que transborda. Um dia será o dia.

jtf

27.10.11

Da moral Luterana

sta europa foi enxertada a partir de um puzzle-por-fazer, tornou-se um puzzle mais ou menos feito, para voltar a estar por fazer uns escassos anos depois. E começa a confrontar-se com a globalização, conceito etéreo e desfocado propositada ou despropositadamente. Até agora só foram afectadas as indústrias de pouca densidade tecnológica, os sapatos e o vinho-a-pataco. O verdadeiro problema será quando a inundação chegar às máquinas de raio-x da Siemens, aos aviões da Airbus ou aos motores da VW. O que nos separa da Alemanha é tempo. Se nada for feito entretanto, nós, os periféricos, seremos uma espécie de máquina-do-futuro para eles, os moralistas.

jtf

21.10.11

Ministério da Inexistência

Álvaro Santos Pereira parece-me bom tipo. Era bem capaz de lhe comprar um carro, ou de lhe apresentar uma prima distante em idade casadoira. Tem o tipo de postura bonacheirona e agradavelmente inconsequente que apraz ter por perto naquelas jantaradas que se prolongam noite dentro, e que acabam invariavelmente em dolorosas ressacas. Álvaro - acho que o posso tratar assim - está para qualquer governo como aqueles jogadores de futebol sem o mínimo de talento para a coisa, que nos fazem invariavelmente pensar que, com um pouco mais de sorte, também nós podíamos pisar um relvado. O mesmo é dizer: Álvaro é um de nós. Percebe pouco de governação e não tem qualquer pose de estado. Em compensação, tem sempre uma palavra amiga. Sabe que não há dinheiro, mas acredita em novas auto-estradas e investimentos públicos. Sabe que o Estado se vai retirar da economia, mas sempre se hão de arranjar uns subsídios para umas "cenas". Por tudo isto, Álvaro merecia mais que a mera "pasta da inexistência". Criem - finalmente - o ministério do nacional porreirismo, e entreguem-no a este homem. Se caminhamos para o abismo, ao menos que seja a rir!

ha

Ética para um polícia

Não gosto de polícias. Nem mais altos, nem mais baixos, nem mais magros ou mais gordos. Nem dos azuis escuros, e nem dos azuis claros. Não tanto pelo que são - alguns até podem ser uma jóia de pessoa -mas pelo tipo de autoridade que habitualmente personificam: serôdia. Que quando não é risível, é um drama. Uma das principais - e irritantes - manifestações do bacoquismo das nossas autoridades consiste na tendência irreprimível para se colarem à letra da(s) lei(s), como se os comandos normativos fossem gizados por empreiteiros e devessem ser lidos com a frieza de ânimo de um manual de instruções do IKEA. Assim, é sem surpresa que leio que para o comando da PSP, os 800 euros mensais extra que o sr. director nacional vem auferindo há 1 ano, no uso de uma regra cuja aplicação nega aos seus subordinados - quebrando a proverbial solidariedade de caserna que vigora nestas instituições - configuram (e cito...) a mera "aplicação da lei, literalmente". Pois, literalmente falando, é bom saber que também na psp há mais dinheiro que bom senso...

ha

20.10.11

A Esquerda unida jamais será vencida...

19.10.11

Os Media

«Fernando Ulrich disse - e na minha opinião, bem - ....», disse Mário Crespo ontem no seu jornaleco das nove. Mas que merda é esta? É urgente a desinfestação da informação em Portugal. Muita da raiz do nosso subdesenvolvimento está na qualidade de alguns media. Particularmente no Crespo, nas Cabritas e em Fátima.

jtf

Quatro olhos

Já me devia ter habituado, mas fico sempre surpreendido quando vejo alguém usar aqueles óculos enormes de armação escura de massa - modelos quase retro se não fossem ridículos. Felizmente só precisei usar óculos aos 20 anos, pois sendo ainda jovem, sou também do tempo em que usar óculos em criança ainda era motivo mais do que suficiente para uma série de chalaças e alcunhas mais ou menos inofensivas e humilhantes (que hoje seriam designadas por bullying, abrir um noticiário da TVI ou da RTP com directos e entrevistas aos pais, e convocar psicólogos para os estúdios, encabeçados pelo Dr. Sampaio - o psicólogo, não o Jorge-Há-Vida-Para-Além-Do-Défice). Sobretudo porque naquele tempo uns óculos com armações minimamente discretas eram extremamente caros, e a única alternativa disponível eram os famosos "fundos de garrafa" em horríveis armações de tamanho XXL que envergonhavam qualquer miúdo. Que a moda é, mais do que fútil, uma coisa profundamente estúpida, eu já sabia; nunca, porém, me passou pela cabeça que fosse desenterrar aqueles autênticos instrumentos de tortura que fizeram de qualquer miúdo com duas ou três dioptrias num infeliz nerd em potência para meter tanta miúda gira e tanto idiota encartado a usá-los. A malta que usa esses óculos, como é bom de ver, não faz a mais pequena ideia do que é ser chamado "quatro-olhos", e em nome da moda prestam-se a triste figura. Talvez fosse bom alguém relembrar a lição perdida.

john

18.10.11

Hermenêutica...2

Desobediência civil, segundo o OE 2012:

Taxista: "Deseja factura ou recibo?"

Eu: "Não, obrigado".

ha

Hermenêutica...

Este não é um orçamento político. É um orçamento apocalíptico.

ha

Manual-de-como-transformar-o-teatro-Camões-no-merdado-do-Bolhão III

Não pude deixar de anotar o detalhe irónico com que o realizador do prós-e-contras de ontem resolveu presentar os espectadores-contribuintes. A determinada altura, o Padre Vaz Pinto, inquire retoricamente: você acha normal haver pessoas na rtp a ganhar mais de dez mil euros por mês? Nesse instante a emissão faz um grande-plano da pálida - em todos os sentidos possíveis e imaginários - face da Fátima Campos Ferreira. Ironia de fino quilate.

jtf

O supérfluo problema da existência

O Ministro Vitor Gaspar diz-nos que este é o único caminho para a redenção patriótica, em honra dos powerpoints que o Moedas trouxe dos States e dos livros de economia para tótós que germinam na Fomentinvest. Acrescenta que essa é a única forma de assegurar o financiamento da economia. Pergunto: alguma vez viram alguém financiar uma coisa que não existe?

jtf

OG(R)E

Para combater o "monstro", o Governo lança o OG(R)E. Não me parece má ideia. Mas, por mim, tínhamos atiçado os Gormiti à Troika...

ha

Guilty displeasure...

Confesso que o meu principal defeito - ou única virtude, dependendo da perspectiva... - é a tolerância! No meu caso, ser tolerante não é tanto uma convicção humanista, mas um luxo social: com tantos mentecaptos por aí, a intolerância ter-me ia custado uma adolescência (ainda mais...) infeliz, com a previsível amputação - irreversível... - do meu círculo social... Assim, à boleia de amigos "facebookianos" e dos infindáveis "feeds", dou por mim a mergulhar nas águas profundas (e habitualmente turvas...) do 31 da Armada. À luz dos últimos "posts", sugiro àquela rapaziada uma mudança (calma! bem sei o quanto são avessos a isso...): "Os Amigos do Gaspar". E, camaradas, esta dica (ainda...) não paga IVA...

ha

17.10.11

Odisseia no Espaço (Alternativo)

Trinta de agosto de 2015, trinta graus e mais alguns pós. Alentejo profundo. Cruzo a fronteira do Reino de Odemira no meu Ford Capri verde alface, vidros abertos, óculos Ray-Ban sem o serem, t-shirt preta dos Smiths. O cheiro a queimado e o deserto impossibilita o respirar e soluça as sensações. Em Lisboa, bem no centro do terreiro do paço, junto do cais das colunas, um homem já com as vestes queimadas e rodeado de defuntos ergue um papel onde diz ao mundo: três por cento de défice. Longe da barafunda, no Reino do Alentejo, João Campos I, o Estupendo, e o seu competente governo (do qual faço parte), mantém a paz e a prosperidade no que resta dos destroços da República Portuguesa, com um chaparro forte*, contas públicas equilibradas e a economia, assente na sopa de cação, nas migas com entrecosto, na carne de porco à alentejana, no turismo, na praia e na elevada taxa sobre rastas, pulgas, falta de higiene pessoal e urinar na rua da Zambujeira do Mar durante os dias do Festival Sudoeste. Vou tomar posse como Ministro das Finanças pelo segundo mandato.

Com a devida vénia, camarada, gosto mais desta versão.

john

*chaparro: moeda do Reino do Alentejo. Estima-se que até 2050 seja a moeda de eleição para as transacções internacionais, destronando o domínio do dólar, ultrapassado o Euro pela esquerda e a moeda chinesa pela direita, isto passando por cima de um traço contínuo à entrada de uma curva sem visibilidade.

Odisseia no espaço

Trinta de agosto de 2015, trinta graus e mais alguns pós. Cruzo a fronteira de Vilar Formoso no meu Ford Capri verde alface, vidros abertos, óculos Ray-Ban sem o serem, t-shirt preta dos Smiths. O cheiro a queimado e o deserto impossibilitam o respirar e soluçam as sensações. Em Lisboa, bem no centro do terreiro do paço, junto do cais das colunas, um homem já com as vestes queimadas e rodeado de defuntos ergue um papel onde diz ao mundo: três por cento de défice.

jtf

16.10.11

Cerveja

Dois meses depois, consegui finalmente ir passar um fim-de-semana à terra, no Alentejo. Perdi uma boa oportunidade de ganhar dinheiro a vender cerveja inflacionada na manifestação, ou nem por isso?

john

14.10.11

Caixa de Comentários

Este comentário foi posto na caixa de comentários ao link do meu post anterios. Pela mestria, simplicidade, emocionalidade, sinceridade e pela extrema e tocante injustiça que ele encerra, resolvi colocá-lo aqui. O texto é assinado por Zélia Parreira.

«Sou funcionária pública desde os 17 anos, tenho agora 41. No próximo ano completarei 25 anos de serviço público. Desde o meu primeiro dia de trabalho procurei sempre dar o meu melhor.

Foi o meu salário de funcionária pública que me permitiu pagar os estudos, frequentar a universidade, tirar a licenciatura, a pós-graduação, iniciar o mestrado e agora o doutoramento que tenho de repensar porque provavelmente não vou conseguir pagar as propinas.

Tenho 3 filhos, com os quais vivo sozinha. Na minha casa só entra um ordenado, que é o meu. É pouco mais de mil euros, por isso tenho vindo a ser roubada ininterruptamente desde há alguns anos. A expressão "incentivos a famílias numerosas" tem a vaga conotação de piada de mau gosto. Até agora ainda tinha direito ao abono de família (caramba, sou mesmo pobre!!!), mas esse privilégio extraordinário deve estar a acabar.

A minha casa é só parcialmente minha. A esta altura devo ser a feliz proprietária da entrada, do corredor e talvez do quarto da minha filha mais velha. O resto ainda é do Banco. Quando pensava que ia começar a ser dona dos degraus das escadas, um a um, vejo-me confrontada com a hipótese de vir a perder os metros quadrados que já conquistei.

Em 10 anos, fui 4 vezes de férias. Normalmente, gasto esses dias a dar formação especializada proporcionada pelos meus conhecimentos académicos e enriquecida pela experiência do trabalho que desenvolvi ao longo destes 25 anos. É esse rendimento extra que me permite enfrentar batalhas como a do início do ano escolar ou das mudanças de estação.

No país dos funcionários públicos que ouvimos descrever nos meios de comunicação social, já estaria no topo da carreira. Não se iludam. Em 14 posições, estou na 5ª, e preciso de trabalhar talvez mais 100 anos para conseguir chegar ao topo.

Nos últimos 5 anos obtive a classificação de Muito Bom, mas este ano nem sequer vou ter avaliação, porque não me chegaram a ser atribuídos objectivos. Não me fez grande diferença, porque há um objectivo que me norteia desde miúda: dar o meu melhor todos os dias. E é isso que continuo a fazer, mesmo hoje, em que vejo os meus direitos serem roubados desta maneira. Mesmo hoje, quando vejo que, 25 anos e muito trabalho depois, provavelmente nem vou conseguir suportar as despesas inerentes a ter filhos na universidade e vou ter de engolir em seco milhões de vezes para arranjar coragem de lhes pedir que consigam o milagre de arranjar um trabalho para poderem estudar,como eu fiz. Só que eu fi-lo na convicção de que estava a lutar para poder dar um futuro melhor aos meus filhos, como o meu pai, que só tirou a 4ª classe mas é o homem mais íntegro que eu conheço, fez comigo. E agora, sou obrigada a reconhecer que não consegui.

Sou funcionária pública, não consigo fugir aos impostos nem às deduções, nem a nada. Sou funcionária pública e trabalho para o meu país, para a minha comunidade, imbuída dum espírito de missão que só quem o tem pode compreender.

Não me interpretem mal, mas não se atrevam a ter pena de mim. Sou uma pessoa muito forte. Tão forte que, mesmo sendo funcionária pública em Portugal, estou decidida a sobreviver.»

jtf

Vexata Quaestio

Pessoalmente, gostava que Portugal se tornasse nisto...



jtf

13.10.11

Os Senhores do Bolo

As velhas teorias marxistas voltarão a aparecer ao virar das esquinas que ainda há para virar. «De cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as suas necessidades». A cada qual, o seu. O processo de distribuição do que existe é substancialmente mais importante do que o processo da «existência»; essencialmente porque incorpora noções antiquadas - mas honradas - de equidade e de justiça. O liberalismo burguês sempre se centrou no tamanho do bolo; os outros preferem acertar no tamanho das fatias. São escolhas.

jtf

8.10.11

Menos um estereótipo

Estou a ver um documentário no canal História sobre a exploração espacial e a utilização de sondas e telescópios espaciais para desvendar os mistérios do Universo. Quando se fala do WISE (Wide-field Infrared Survey Explorer), os detalhes técnicos do aparelho são dados por uma física/astrónoma tão gira que faria qualquer modelo da Moda Lisboa corar de vergonha e cortar os pulsinhos até ao osso (coisa que se faria com um corta-unhas). Já sabia que havia miúdas giras na Astronomia, mas não imaginava nada assim.

john

6.10.11

Do ponto de vista do

exercício físico, da dança contemporânea e do canto lírico, as intervenções de Guilherme Silva em defesa de Alberto João Jardim são do melhor que tenho visto.

jtf

5.10.11

Coisas que não consigo compreender

A capacidade de assistir a um Prós e Contras na totalidade. Não o consigo fazer, mas conheço quem consiga (ou diga que consiga). Não sei se tal capacidade deverá ser admirada ou temida.

john