19.4.13

"Gertrude" (ou Como olhar para Hamlet com outros óculos)

Há uma providência especial até na queda de um pardal 

A partir de Hamlet, Simão do Vale adapta a obra de William Shakespeare (sem nunca a ferir) e cria um espectáculo onde o foco é Gertrude, a mãe do príncipe da Dinamarca. 

Tudo nesta peça é orgânico; os figurinos (Bernardo Monteiro) – fraques e casacos forrados a penas de pássaro pretas – fascinam, amedrontam e, quando movimentados pelos actores, fazem sons de animal furtivo. Corvos? 

A cenografia (Bernardo Monteiro) é hipnotizante. O cenário, composto por uma teia de patchwork de tecidos ricos, veludos, damascos, é o fundo do palco e também o chão. Dá-nos a sensação de uma ostentação decadente, aquilo que já foi e já não é. Um reino de trapos e farrapos. É neste clima de despojos que Hamlet (Simão do Vale) e a sua mãe, Gertrude (Fiammetta Bellone) se movem. Caminham sobre os restos, os restos de uma tragédia cujos estilhaços todos atingiu, e que antecipam algo de muito pior. 

O desenho de luz (Rui Simão), de uma simplicidade aparente, é sangue, é luxúria, é medo. É tantas vezes morte. 

A sonoplastia do espectáculo (Francisco Pessanha de Meneses) acompanha a narrativa como algo endógeno, que faz parte. 

O jogo teatral é usado com mestria e engenho, permitindo que os dois únicos actores em palco se desmultipliquem em diferentes personagens, e que o público compreenda o que está a acontecer. 

Ainda sobre o carácter orgânico, Fiammetta Bellone, que encarna Gertrude, (este personagem que na obra original deixa tanto espaço em aberto) prende-nos não só pelas suas escolhas de interpretação, mas também pela sua postura em palco – a precisão dos seus gestos é notável. 

A interpretação de Simão do Vale está repleta de vida. Quando o ouvimos, para além das palavras, sentimos as intenções e as dores do seu Hamlet. 

O que resulta da comunhão de todos estes factores é um espectáculo repleto de simbolismo e imagens, tornando-o muito generoso para o espectador – a peça vai directa ao coração. Faz-nos reapaixonar pelo teatro. 

Entrevista com Simão do Vale, actor e encenador de “Gertrude” 

O actor e encenador, natural de Viseu, formou-se em psicologia pela Universidade do Porto e estudou representação na Scuola di Recitazione del Teatro Stabile di Genova, em Itália, País onde vive actualmente. Já encenou vários projectos, do qual destaca “3 IN 1″, espectáculo composto por três peças de um acto, de Luigi Pirandello – “O homem da flor na boca”; “La patente” e “Cecè”. 

Foi no seu camarim, no Teatro Carlos Alberto, que conversámos com ele. Em “Gertrude”, para Simão do Vale, que tem vindo a trabalhar neste projecto desde há dois anos e meio, a curiosidade por este personagem prende-se com o facto de ser um personagem “muito pequeno, do qual se sabe muito pouca coisa”. Assim nasceu a vontade de “pegar no texto (Hamlet) e enriquecer o personagem (Gertrude) aos olhos do espectador”. Considera que os dois factores estruturais para a adaptação de “Hamlet” de William Shakespeare foram “manter a linha narrativa do texto original e dar prioridade ao personagem da mãe”, uma mulher que vive um dilema irresolúvel. “Esta mulher está completamente dividida; dividida entre amor pelo marido, amor pelo filho, e pela memória do falecido rei”, para além de querer proteger os interesses políticos do seu Estado. Para acentuar esta condição de divisa, Simão que quis explorar a ideia de destino – “ela deixa-se levar pelo destino”, incapaz de lidar com estes dilemas incompatíveis entre si, conduzindo à “inevitabilidade da tragédia”. “Há uma providência especial até na queda de um pardal”, sublinha, citando uma frase que em “Gertrude” é proferida pela própria. 

Acrescenta que contou com uma equipa “generosa” que ofereceu “outros planos de leitura à peça”, realçando-se, assim, não só o “plano textual” mas também o “plano simbólico” dos acontecimentos. 

“Este é um espetáculo sobre a condição feminina”, diz-nos o autor, que considera que “Gertrude” “tem este lado actual” da mulher que desempenha uma série de papéis diferentes, em conflito entre si, conduzindo por vezes à “cisão da pessoa em face dos seus vários papéis”. 

Sobre o facto de serem apenas dois actores em palco, Simão diz-nos que, se por um lado se está num momento “em que há muito poucos recursos”, por outro era um “desafio adaptar o texto para só dois actores”. A escolha da actriz italiana Fiammetta Bellon, que o actor considera “uma intérprete extraordinária”, surge do facto de ambos já terem trabalhado juntos, e de se terem deparado com inúmeras questões relativas ao personagem de Gertrude. Questões a que queriam dar resposta. Assim surge Gertrude – “Uma rainha estrangeira numa corte portuguesa”. 

O italiano aparece naturalmente, uma vez que Simão está habituado a representar nesta língua, pela qual se apaixonou desde que foi estudar para Itália. Tinha sobretudo curiosidade em perceber “se era viável ter as duas línguas juntas” e também criar uma ponte entre o seu trabalho em Itália e o seu trabalho em Portugal. 

O actor revela que foi uma “escolha do Nuno Carinhas apadrinhar este projecto”. Quando questionado em relação ao futuro desta peça, mostra interesse em levá-la, não só pelo País, na próxima temporada, mas também a Itália. 

No Teatro Carlos Alberto, de 5 a 14 de Abril 
Dramaturgia e encenação: Simão do Vale 
Interpretação: Simão do Vale e Fiammetta Bellone 
Cenografia e figurinos: Bernardo Monteiro 
Sonoplastia: Francisco Pessanha de Menezes 
Desenho de luz: Rui Simão 
Coreografia: Né barros

Fonte: http://www.ruadebaixo.com/gertrude-teatro-carlos-alberto-simao-do-vale-11-04-2013.html

jtf

Mitos

Este post foi principalmente motivado por uma série de erros (e afirmações tão absurdas que eu nem sei como classificar) debitadas por um indivíduo no Facebook, com quem aparentemente tenho amigos em comum. Como bónus, refira-se que tal  personagem começou o seu longo comentário com um "Santo Deus, quanta ignorância", o que torna uma resposta à letra particularmente mais adequada. De qualquer forma, é também útil para responder a alguns mitos, uns bastante comuns, outros bastante específicos da confusão mental do tal indivíduo, além de servir igualmente para memória futura.

Mito 1 - Não há austeridade a sério em Portugal (a sério, foi na Alemanha pós-reunificação)
O indivíduo já referido afirma, com a certeza própria de quem não faz a menor ideia do que está a dizer, que "[os alemães] recuperaram de uma crise monstruosa de dívida recorrendo a disciplina orçamental, sem manipulações monetárias".
Não faço ideia do que seja a pretensa crise monstruosa de dívida (presumivelmente pública) que a Alemanha enfrentou - aliás, ao olhar para os números, percebe-se que tal "crise" só existe na mente muito criativa do já referido senhor. De facto, a dívida pública, em percentagem do PIB, não apresenta qualquer decréscimo relevante desde a reunificação. Especificamente, passou de 39,5% em 1991, para 61,3% em 2001, 65,4% em 2007 (na véspera da crise), chegando em 2012 aos 82.0% (ver gráfico em baixo - clicar para aumentar a imagem; a fonte vem da base de dados do WEO de Abril de 2013 do FMI).

E que dizer da ainda mais extraordinária proclamação de que eles, depois de 1998/1999, tiveram "austeridade à séria", por oposição à nossa "brincadeira de austeridade"? Bem, não surpreendentemente é mais um erro factual resultante de uma enorme ignorância misturada com preguiça intelectual.
A "austeridade" a que um país é submetido pode ser inferida a partir da evolução da despesa governamental (embora, para ser mais preciso, fosse melhor considerar apenas consumo e investimento correntes, de forma a que transferências automáticas dependentes do ciclo económico, como os subsídio de desemprego, não aparecessem aqui; neste caso vou simplificar e ignorar este efeito que, presumivelmente, apenas tornaria ainda mais evidente o efeito do gráfico que se segue).
O que se observa desde 1998 é que houve apenas 3 anos (nenhum deles consecutivo) em que este valor diminuiu, tendo o maior decréscimo sido registado em 2000 (-4,3%), embora este ano tenha sido precedido e sucedido por aumentos dos gastos do estado. Relativamente a Portugal (como já tinha sido referido pela Priscila Rêgo, uma das pessoas inteligentes de direita que vale sempre a pena ler), o conjunto dos últimos 2 anos representou uma diminuição da despesa do estado de 15,3%, mais do triplo do verificado na Alemanha. A Grécia foi ainda mais longe e, nos últimos 3 anos, reduziu a despesa do Estado em 23,2% (ver gráfico em baixo; a fonte vem da base de dados AMECO, da Comissão Europeia). Obviamente, apenas por ignorância (na melhor das hipóteses) é que afirmações como a acima referida podem ser efectuadas.


Mito 2 - A Argentina, após a bancarrota, teve uma recuperação muito difícil
Num excelente artigo sobre a recuperação da Argentina depois da bancarrota, o Center for Economic and Policy Research ilustra o percurso do país desde 2002. Os sucessos são múltiplos, começando por uma clara recuperação, que começou a seguir ao primeiro trimestre de 2002 (em que houve uma forte contracção do PIB), e que levou a que, entre 2002 e 2011, a Argentina tenha crescido, em termos de PIB per capita real, mais de 75%, um desempenho melhor que o de qualquer outro país do continente. Simultaneamente, a taxa de desemprego desceu de 22,5% em 2002 para 7,2% em 2011 (dados do WEO 2013, tal como anteriormente), enquanto as despesas sociais triplicaram em termos reais e passaram de 10,3% para 14,2% do PIB. Em paralelo, a taxa de pobreza passou de 45,5% em 2002 para 14,3% em 2011, enquanto a pobreza extrema, que afectava 29,2% da população em 2002, desceu para 6,6% em 2011.

Mas há alguém que, no seu perfeito juízo, possa negar que isto é um enorme sucesso? Sim, é verdade que a Argentina partiu de um patamar muito baixo em 2002, depois de 4 anos consecutivos de recessão que lhes custaram 21,5% do PIB. Mas convém lembrar que, além de terem perdido a possibilidade de usar políticas monetárias, eles estavam a usar exactamente o mesmo tipo de políticas orçamentais pró-cíclicas (e contraccionárias) que os países do Sul da Europa também estão a ser obrigados a tomar, e que só em 2002 houve uma ruptura com as políticas dos anos anteriores.

sp

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