23.9.12
No início éramos cinco e parecíamos ser demasiadamente poucos para consumar o assalto ao armazém de pesticidas e de sementes. Depois, com o decorrer dos dias e por consanguinidades várias, foram-se aproximando mais grupos, daqui e dali, até formarmos uma multidão digna de causar mossa. Organizámo-nos e marcámos encontros; fizemos a nossa parte. Não se sabe ao certo o que será de tudo isto depois. Pior não será. Ao menos, por uma questão de decência, não fizemos o papel de parvos. Já é qualquer coisa.
jtf
19.9.12
Obrigado, João
Camarada, é com alguma pena que recebo as tua despedida. No entanto, compreendo inteiramente a tua decisão e a tua escolha. Resta-me, em meu nome e em nome de quem nos lê, agradecer todos estes cinco anos de Jardim. Estás comigo neste blogue desde o seu início e sempre o pensei tendo-te como parte desta narrativa. A tua escrita sempre foi o toque especial disto; não só na qualidade mas também no contraponto e no contraditório.
Agradeço-te, aqui e publicamente, por estes cinco anos. E, claro, terás aqui um espaço que está sempre disponível para receber os teus textos. Naturalmente, continuarei a ler-te no Delito de Opinião e no Andrómeda, projecto tão inovador e tão bem feito.
Um Abraço,
jtf
16.9.12
oh my God, it's full of stars!*
Para não perder muito tempo com os clichés do costume: a minha participação no Jardim de Micróbios termina hoje, quase cinco anos volvidos desde o convite do João Teago para este blogue. E, digo-o sem rodeios, foram cinco excelentes anos de bloga aqui neste canto, que agora deixo pelo mais banal dos motivos: o tempo, ou a falta dele. Neste momento tenho um outro projecto em curso, que me dá imenso prazer, mas que também me ocupa muito do meu (escasso) tempo livre. Para além de ocupar um dos meus temas mais recorrentes. Não gostaria de ver a minha actividade num blogue reduzida à reprodução daquilo que escrevo noutro (ou, pior ainda, à auto-citação), como não gosto de estar num blogue onde verdadeiramente não posso estar.
Dito isto, resta-me agradecer ao João o convite (uma vez mais) e os estimulantes debates, aos restantes colegas a companhia blogosférica, e aos leitores as visitas. Continuarei a dedicar-me quase diariamente (ou assim espero) ao Fantástico aqui, e a assuntos mais terra-a-terra (ou não) aqui. E, claro, permanecerei neste Jardim como leitor assíduo e comentador ocasional.
john/João Campos
* Frase retirada de 2001: A Space Odyssey, de Arthur C. Clarke. Dadas as circunstâncias, parece-me uma citação acertada.
O povo unido jamais será vencido...
Mas só um bocadinho... porque isto de lutar é uma trabalheira e depois vem o domingo e eu mereço o meu descanso. Se calhar até está sol e calor e eu vou à praia porque mereço e porque gritei um bocadinho ontem.
Eis os interstícios da indignação dos portugueses — daqueles 600 mil que inundaram ruas e praças com palavras de ordem; daqueles 600 mil que ontem tiveram a força humana para derrubar a República podre e não o fizeram...
Hoje, os políticos dizem que é normal e aceitável que as pessoas se manifestem: faz parte do jogo democrático. E fica tudo na mesma. Continua o autismo governamental, continua a cruzada insana do Ministro das Finanças e a sujeição de um Primeiro Ministro — eleito pelos portugueses — à vontade e aos mandamentos de entidades privadas e interesses pessoais mascarados de legítimas entidades extra-governamentais.
Basta! digo eu. Mas basta de austeridade e governo para enriquecer os que já são muito ricos (género Robin dos Bosques ao contrário) ou basta de dizer basta e nada fazer?
Desagrada-me e entristece-me ver (como ontem à noite) imagens de gente a ameaçar galgar as escadas do Parlamento e não o fazer.
Significa que ainda não dói o suficiente, significa que ainda há ampla margem de manobra para o Governo impor as mais delicadas sevícias às gentes comuns deste país. Porque — lá diz o Povo — "enquanto o pau vai e vem, folgam as costas"...
A nossa indolência haverá de nos custar bem caro.
fp
Eis os interstícios da indignação dos portugueses — daqueles 600 mil que inundaram ruas e praças com palavras de ordem; daqueles 600 mil que ontem tiveram a força humana para derrubar a República podre e não o fizeram...
Hoje, os políticos dizem que é normal e aceitável que as pessoas se manifestem: faz parte do jogo democrático. E fica tudo na mesma. Continua o autismo governamental, continua a cruzada insana do Ministro das Finanças e a sujeição de um Primeiro Ministro — eleito pelos portugueses — à vontade e aos mandamentos de entidades privadas e interesses pessoais mascarados de legítimas entidades extra-governamentais.
Basta! digo eu. Mas basta de austeridade e governo para enriquecer os que já são muito ricos (género Robin dos Bosques ao contrário) ou basta de dizer basta e nada fazer?
Desagrada-me e entristece-me ver (como ontem à noite) imagens de gente a ameaçar galgar as escadas do Parlamento e não o fazer.
Significa que ainda não dói o suficiente, significa que ainda há ampla margem de manobra para o Governo impor as mais delicadas sevícias às gentes comuns deste país. Porque — lá diz o Povo — "enquanto o pau vai e vem, folgam as costas"...
A nossa indolência haverá de nos custar bem caro.
fp
15.9.12
Também podemos ter um SYRIZA em Portugal?
Isto já vai com algum atraso, mas de qualquer forma queria apenas assinalar o quanto me parece extraordinário que, perante uma receita que falha com estrondo, se ache que o melhor caminho é apostar a dobrar no mesmo. É particularmente extraordinário que, 4 anos depois do início da crise na Europa e com toda a acumulação de provas de que a aplicação de austeridade numa economia em profunda recessão é um desastre, se continue com a conversa do "não há alternativa" ou do "este é o melhor caminho".
Tenho algum medo de estar a sobrestimar a inteligência dos membros deste governo, mas acho que nem eles serão suficientemente estúpidos para acreditar no que dizem (afinal, o próprio FMI emite estudos a apontar (surpresa!) os efeitos contracionários da austeridade). Sobra a parte da corrupção (governo meramente ao serviço de interesses privados que pretendem aumentar as assimetrias de poder e aplicar uma redistribuição regressiva do rendimento) e da vontade de aplicar uma visão moralista em que a dívida pública, o défice e, genericamente, toda e qualquer acção governamental representa o mal (que é basicamente a visão apresentada por um insurgente nos comentários a este post). Mas, como Krugman diz (e deveria ser óbvio), economics is not a morality play.
É por isso que, tendo Portugal sido, nos últimos anos, uma espécie de Grécia em câmara lenta, é tempo de, como refere o Daniel Oliveira, hoje começar a ser a vez da nossa voz. E, já que imitamos tão bem a Grécia na parte do desastre económico e regressão social, podemos também ser agraciados com uma Esquerda que produza um SYRIZA?
sp
10.9.12
E tudo o Vento Levou IV
É hoje razoavelmente unânime a opinião de que a medida ontem anunciada enferma (talvez ainda em maior grau) de inconstitucionalidade. Basta ouvir Bacelar Gouveia (insuspeito de radicalismos de esquerda) ou, mesmo, o incontornável Jorge Miranda. Na altura em que a declaração de inconstitucionalidade foi produzida, muitos foram os habituais sacerdotes do situacionismo que se insurgiram contra as simples e esclarecedoras declarações de Rui Moura Ramos que, já naquela altura, se esforçou por resgatar a discussão do delírio redutor e ignorante que de quando em quando pinta este desgraçado rectângulo. Bastava pedir a alguém medianamente formado (mesmo que fosse já produto do ensino vocacional do Doutor Crato) para ler isto em voz alta:
"Ora, nenhuma das imposições de sacrifícios descritas tem equivalente para a generalidade dos outros cidadãos que auferem rendimentos provenientes de outras fontes, independentemente dos seus montantes.
A diferença de tratamento é de tal modo acentuada e significativa que as razões de eficácia da medida adotada na prossecução do objetivo da redução do défice público para os valores apontados nos memorandos de entendimento não tem uma valia suficiente para justificar a dimensão de tal diferença" ACÓRDÃO N.º 353/2012
Ora, facilmente se vê que todas as imposições de sacrifícios decretadas ontem são um fuzilamento exclusivo de um tipo de rendimento específico e delimitado: o do trabalho. Mais, ao contrário do que a declaração de inconstitucionalidade sugere, desonera-se a carga sobre os titulares de rendimentos de capital, já que os custos unitários do trabalho diminuirão sete por cento. Neste sentido, o princípio da igualdade proporcional entre cidadãos é agravado. Acentua-se a diferença entre os cidadãos que auferem rendimentos provenientes da fonte trabalho, face àqueles que os obtêm por outras vias.
Ao contrário da intoxicação feita aquando da decisão, o acórdão não fundamenta o juízo de inconstitucionalidade na violação do princípio da igualdade proporcional entre trabalhadores que auferem rendimentos e prestações sociais pagas por verbas públicas daqueles que os alcançam por verbas privadas. Ao invés, considera que é violado o princípio da igualdade proporcional entre titulares de rendimento tout court; independentemente das suas fontes, origens ou periodicidade.
jtf
E tudo o Vento Levou III
É muito engraçado ver todos os comentadores que ontem eram liberais de direita e agora são de esquerda e contra os programas de ajustamento à pobreza. Desde Gomes Ferreira e Caiado Guerreiro, passando também pelo António Costa do jornalismo-de-petições. A razão é simples: hoje também lhes foram ao bolso. É que isto enquanto é no quintal dos outros está tudo bem, quando passa para o nosso é que é uma merda.
jtf
E tudo o Vento Levou II
O que é ainda mais revoltante é que, com esta política de dizimação das expectativas das pessoas, dos jovens e das famílias; quando chegar a altura da minha reforma, o sistema vai estão tão mas tão falido, a nossa pirâmide etária vai estar tão mas tão invertida, que não terei direito a nada.
jtf
E tudo o Vento Levou I
Acontece quase sempre nas casas em que já não há pão, vergastados seremos mais uma vez pela filha-da-puta da austeridade. Mas desta feita, ao contrário de «antes», não poderemos contar com o ornamento dos malabaristas de pacotilha que vociferavam, cuspindo fogo pelos bofes, comunicações solenes em intervalos de jogos de bola. Agora estão todos submersos e orientados por cordelinhos de marioneta.
Somos terra de muito vento.
jtf
4.9.12
Os Donos da Bola
É engraçada a contradição dos novos tempos. Por um lado, é imperativo incrementar a competitividade das nossas empresas e das nossas instituições, porque, como no darwinismo, é no combate do mercado que vencem as espécies mais fortes. Mas esta lógica de selecção não é aplicada a todos os ramos da existência. Quando se trata do combate ideológico, a resposta dos defensores desta atamancada teoria evolucionista de mercado é o proteccionismo. É um monopólio em que não se aceitam combates ou contraditórios. O caminho é único, exclusivo e dogmático. O caminho é o deles.
jtf
Litanies du Feu et de la Mer
Morreu Emmanuel Nunes. Figura maior da música Europeia da segunda metade do século XX e dos primeiros anos do século presente. Extraordinário e brilhante, intelectual dotado de um sentido crítico e de uma abrangência manifestada através dos saltos entre temas artísticos, estéticos e políticos. Dificilmentent faço uso do epíteto "génio" — mas Nunes era, de facto, genial. Dotado de bom génio e de mau génio... pessoa de trato difícil compensado pelo rasgo de sombrio brilhantismo da sua música.
Marcou-me como pessoa e como compositor. É uma das minhas raízes e referências estéticas como escrevente de música. Disse-me um dia num dos seminários que frequentei: "se não te encaras como compositor não serás nunca compositor..." E, depois, dedicou quinze minutos a desfazer uma peça que lhe mostrei. Tempos depois mostrei-lhe outra — não disse muito... o que com Nunes era um excelente sinal.
Aprendi imenso com ele.
Não me recordo de alguma vez ter ficado sem fôlego ao ouvir música — excepto a música dele: "Litanies du Feu et de la Mer" para piano. Foi na altura em que me comecei a aproximar da música contemporâea. Estava na FNAC (na altura o dinheiro era mais abundante e o pouco que tinha da mesada de estudante dava para comer, beber e comprar livros e discos — parece outro tempo...). Peguei num disco dele e comecei a ouvir: eram as "Litanies" — as primeiras notas de abertura da primeira peça agarraram-me e convenceram-me de que aquilo que eu queria mesmo fazer era escrever música. Aquilo — aquele intervalo de 3ª Maior: si bemol, ré natural... Fiquei sem respirar.
Desde então todas as minhas peças têm encontrado forma de, de um modo ou outro, permitir que aquele intervalo se infiltre na minha música. E eu deixo — porque é a minha génese como compositor.
Das vezs que falei com Emmanuel Nunes não achei que deveria criar a oportunidade para lhe dizer "Mestre, aquela 3ª Maior é onde tudo começa, para mim..." Nunca achei próprio. Mas poderia — e deveria — tê-lo feito.
Marcou-me como pessoa e como compositor. É uma das minhas raízes e referências estéticas como escrevente de música. Disse-me um dia num dos seminários que frequentei: "se não te encaras como compositor não serás nunca compositor..." E, depois, dedicou quinze minutos a desfazer uma peça que lhe mostrei. Tempos depois mostrei-lhe outra — não disse muito... o que com Nunes era um excelente sinal.
Aprendi imenso com ele.
Não me recordo de alguma vez ter ficado sem fôlego ao ouvir música — excepto a música dele: "Litanies du Feu et de la Mer" para piano. Foi na altura em que me comecei a aproximar da música contemporâea. Estava na FNAC (na altura o dinheiro era mais abundante e o pouco que tinha da mesada de estudante dava para comer, beber e comprar livros e discos — parece outro tempo...). Peguei num disco dele e comecei a ouvir: eram as "Litanies" — as primeiras notas de abertura da primeira peça agarraram-me e convenceram-me de que aquilo que eu queria mesmo fazer era escrever música. Aquilo — aquele intervalo de 3ª Maior: si bemol, ré natural... Fiquei sem respirar.
Desde então todas as minhas peças têm encontrado forma de, de um modo ou outro, permitir que aquele intervalo se infiltre na minha música. E eu deixo — porque é a minha génese como compositor.
Das vezs que falei com Emmanuel Nunes não achei que deveria criar a oportunidade para lhe dizer "Mestre, aquela 3ª Maior é onde tudo começa, para mim..." Nunca achei próprio. Mas poderia — e deveria — tê-lo feito.









