31.1.11
Esta prosa de José António Saraiva merece ser lida pelo seu elevado valor humorístico não intencional. Não me parece difícil concordar com a ideia de que existe uma certa ambiguidade no conceito de "trabalho infantil" quando opomos uma qualquer profissão aos clássicos "jogar à bola" ou à participação em "concursos de talentos" ou de moda; mas chegar desse ponto à ideia de que o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO) que, em última análise, foi o "responsável" (sei que não é a expressão mais adequada, desculpem) por o acto hediondo que teve lugar naquele hotel de Nova Iorque vai um salto argumentativo que passa uma vez pela indigência intelectual e dá três voltas ao disparate puro, e isto sem passar pela casa de partida e sem receber dois contos. É uma ideia que não me passaria pela cabeça nem após meia garrafa de Famous Grouse, desculpem. Para além da desculpabilização de alguém que, aparentemente, cometeu um crime violentíssimo, digno de figurar num episódio de CSI, ou até de Dexter: a desculpa é a homossexualidade de Carlos Castro, esse predador sexual [sic]? Por favor - bem sei que não há limite para o delírio, mas um bocadinho de bom senso e de decência nunca fizeram mal a ninguém.
E já que se fala do SMO: não houve, de facto, qualquer debate público sobre o fim do dito, que me lembre. E pergunto-me: que debate devia ter havido? Existe alguma coisa que, numa nação democrática e supostamente desenvolvida, justifique a obrigatoriedade de jovens de dezoito anos terem de passar três ou quatro meses (ou mais) no Exército? Da minha parte, que faço parte da geração que viu o SMO abolido, digo: não, nada o justifica; ainda bem que foi abolido. Não tenho absolutamente nada contra o Exército (mais um disclaimer irritante, para além de óbvio), não tenho absolutamente nada contra quem opta por seguir carreira militar, ou simplesmente por fazer o Serviço Militar e passar lá uma temporada - cada um sabe de si. Já teria muita coisa contra o obrigarem-me a fazê-lo. É muito melhor assim: quem quer, vai (e conheço muita gente a alistar-se); quem não quer, segue a sua vidinha. Mas já vi que tenho de me por a pau: de acordo com o arquitecto Saraiva, isto de não ter ido à tropa mais dia menos dia ainda me dá a volta ao miolo e me faz matar e capar alguém, ou pior, concorrer ao Ídolos. Por via das dúvidas, peço aos colegas do Jardim que escondam os saca-rolhas. E se me ouvirem a trautear uma canção pop, por favor avisem-me. Sempre me poupam ao ridículo.
john
Da Democracia #2
Não será certamente displicente pensar que talvez não fosse má ideia mudar a maneira como se organiza o sistema político em Portugal. Até, porventura mais avisado, a forma distante e paternalista como o Português encara a nação, o colectivo. Vemos isso, com particular incidência, na forma como se encaram os poderes políticos, o seu carácter democrático e universal e, sobretudo, a fiscalidade. No fundo, no fundo, esta aldeia não passa de dez milhões de nações atómicas; fragmentadamente unidas por quatro-ou-cinco termos vernáculos, sete-ou-oito jogos da selecção A e três-ou-quatro Sagres-mini. No mais, somos individualmente insignificantes e desunidos.
jtf
28.1.11
24.1.11
Amena Cavaqueira
Resultados Eleitorais das Presidenciais de 2011:
Abstenção: 53,37%
Aníbal Cavaco Silva: 28,44%
Manuel Alegre: 10,61%
Fernando Nobre: 7,58%
Francisco Lopes: 3,84%
José Manuel Coelho: 2,42%
Defensor Moura: 0,84%
A Abstenção é a verdadeira Chefe-deste-Estado.
jtf
A miséria #1
Estranho que nenhuma blogoesfera fale hoje do discurso mais miserável, arrogante e ordinário a que a democracia portuguesa assistiu em 35 anos.
jtf
23.1.11
Hail to the king, baby!
Desculpem os leitores por não escrever aqui nada hoje sobre as presidenciais (já botei o voto, chega), sobre a barracada do cada vez mais inútil Cartão do Cidadão (ainda tenho o meu velhinho cartão de eleitor), sobre a abstenção, sobre o frio, sobre a crise ou outras coisas da actualidade. Este fim-de-semana recebi, através do melhor site de notícias de tecnologia e de ciência do mundo, a melhor das notícias que um geek como eu poderia receber neste gélido início de ano: Duke Nukem Forever vai sair em Maio. Para quem não sabe quem é ou o que é Duke Nukem, eu explico: é um dos melhores personagens da história dos videojogos, um misto de Ash (do filme Evil Dead) com Exterminador Implacável e com mais qualquer coisa que neste momento não em ocorre. O famosíssimo shooter Duke Nukem 3D saiu em 1995, com armas fantásticas, explosões q.b., vilões realmente maus, strippers e as mais famosas deixas do mundo dos videojogos. Após mais de doze anos no development hell, o aguardado Duke Nukem Forever ganhou o estatuto de piada entre quem gosta destas coisas, mas este ano a piada acaba. Maio vai ser um mês glorioso.
(sim, isto é tudo entusiasmo. Geek, mas entusiasmo)
john
22.1.11
Delito de Opinião
Hoje fui convidado para escrever no distinto blogue 'Delito de Opinião'. Que fortes reis façam forte a fraca gente, é o título do post. Fica aqui feito o meu agradecimento pelo convite ao Pedro Correia, ilustre blogger, e ao meu amigo João Campos.
jtf
20.1.11
Presidenciais
Nada de muito relevante haverá para dizer sobre estas Presidenciais que não seja assinalar que mesmo com opositores tão pouco consistentes, mesmo assim, Cavaco está a ver a coisa preta. Bom seria que algum dos candidatos entendesse verdadeiramente os limites do poder constitucional do Presidente. Não seria pior se, pelo menos, soubesse as diferenças entre um poder fundamentalmente representativo e o poder executivo. Mas enfim. Aliás, era interessante se alguém discutisse a construção do regime semi-presidencial que temos. Era interessante porque implica, como tem implicado desde 76, que os Presidente da República façam campanhas reclamando mudanças e definindo rumos de orientação que em tudo estão confinados ao poder executivo, o mesmo é dizer, ao Governo. Isto é, existe aqui um problema tanto na redacção da Constituição que possibilita que os limites do poder Presidencial não sejam claros e, também, permite que quem exerce esse poder não entenda verdadeiramente quais são as suas fronteiras. Esta discussão não teve lugar, e é pena. Nesta campanha, de entre várias coisas, observamos um Presidente-candidato dizer sistematicamente que tem um excelente pé-esquerdo para jogar futebol. Fá-lo todos os dias e a todas as horas. Todavia, todos sabemos que ele vai entrar num jogo de andebol. De nada adianta o seu pé-esquerdo.
E esquerdo aqui não é desprovido de simbolismo.
jtf
19.1.11
The Lord of the Rings, releitura #3 (II)
Só Tolkien conseguia elaborar anexos para os seus livros que conseguem ser tão interessantes - e que são lidos com o mesmo entusiasmo - como a história em si.
john
This one time, at the band camp
João, Portishead, The Strokes e Beirut chegam-te para meteres três dias de férias e irmos acampar para o Meco em Julho?
john
Pouca terra, pouca terra
Convém de facto recordamos, João, que foi durante os anos de Cavaco no Governo que, em nome do asfaltamento do país, se começou a desmantelar a ferrovia nacional. Falas, e bem, do caso da linha de Viseu, que para todos os efeitos é paradigmático: uma cidade como Viseu, provavelmente a mais desenvolvida do interior do país e há vários anos considerada uma das cidades de Portugal com mais qualidade de vida, não está servida pela ferrovia, quando em tempos esteve. Essa ligação acabou durante os anos de Cavaco, em troca de quê? Das belas rotundas da cidade?
Um dos grandes erros da governação recente do país, a meu ver, remonta a essa época: o desinvestimento nos caminhos-de-ferro, em troca de um super-investimento em auto-estradas (note-se que no interior as estadas municipais e as nacionais continuam em muitos casos ao abandono). É evidente que o erro nunca foi corrigido, e os governos da última década mostraram especial empenho em desmantelar o que falta. Recordo que quando deixei a aldeia e vim para Lisboa, era possível apanhar um comboio no Barreiro - a ligação da ponte ainda não estava concluída para lá de Coina - e viajar sem mudanças, com paragem em todas as estações e apeadeiros, até Vila Real de Santo António. Hoje, quem quiser chegar do Barreiro a Vila Real de Santo António, precisa de apanhar três comboios, pelo menos (dois se sair de Lisboa - o Alfa Pendular não compensa o que se perdeu). Quem queria um serviço mais rápido, optava pelo Intercidades,que não ficava em Faro, como hoje - seguia até Vila Real de Santo António, com paragem em Olhão e Tavira. Estou a falar apenas do que conheci bem. Sei que, no interior, o ramal Beja - Moura também foi desactivado; e que se avançarmos para Norte, muitas mais linhas destruídas ao longo dos últimos 25 anos iremos encontrar. Os casos mais recentes da linha da Lousã, com movimento, ou da linha do Tua, com potencial turístico, são paradigmáticos de uma certa maneira enviesada de os nossos governantes encararem o País.
Por mim, acabava-se a hipocrisia. Somos dez milhões de habitantes: era só o Governo encaixar cinco milhões na "Grande Lisboa", quatro milhões e meio entre Gaia/Porto e Braga, duzentas e cinquenta mil na Madeira e duzentas e cinquenta mil no Algarve, pelo menos durante os meses de Verão. O resto do país vendia-se. Aposto que alemães, ingleses, holandeses e chineses não se importariam nada de comprar bocados do Alentejo, da Beira, de Trás-os-Montes; o país, rebaptizado "República Litoral Portuguesa", mantinha a sua "vocação marítima"; e com jeitinho e habilidade para o negócio, ainda dava para pagar a dívida, baixar o IVA em um por cento, pagar o BPN e o BPP, uma cana de pesca nova para o Armando Vara, e, para não se dizer que o país é forreta, um par de Purdeys para Alegre.
john
A ética e a isenção jornalistica
«Futebol é a arma secreta de grupo pró-PS: Rui Pedro Soares e Emídio Rangel associam-se aespanhóis da Mediapro para lançarem novo semanário, canal de televisão e rádio de inspiração socialista.»
É engraçada a isenção deste título, a forma factual como se transmite uma notícia. Mais do que isso, é curioso que o Expresso saiba o sexo da criança antes da criança nascer, e os pais não terem querido fazer a radiografia antes do parto.
jtf
Da coerência
«Tinham uma linha desde 1906 e agora não têm nada. É algo, muito, muito esquisito e eu compreendo as vossas preocupações» Aníbal Cavaco Silva 18-01-2011.
A 18 de Novembro de 1989, pela mão do Governo de Cavaco Silva, é encerrada a 'linha do dão' e Viseu passou a ser a maior cidade da europa sem comboio.
jtf
18.1.11
Bloquear
«Considero importante que crianças, jovens, pais e professores venham para a rua para defender a sua escola. É um sinal de vitalidade da nossa sociedade civil» Aníbal Cavaco Silva.
jtf
16.1.11
O movimento inútil (2)
Esporadicamente, surgem por aí (hoje em dia na Internet, na forma de grupos no facebook ou de petições irrelevantes) movimentos que pretendem "salvar" algo. Algo, alguma coisa, sei lá - movimentos muito nobres e virtuosos que visam preservar o edifício X, a instituição Y ou outra coisa qualquer. Isto surgiu-me a propósito de um movimento para "salvar" (sic) o Cineclube do Porto, que conta já com mais de três centenas de "membros" e que, no seu respectivo perfil, exibe os comentários da praxe. O meu preferido é o "vamos lutar", nas suas diversas variantes, com mais ou menos sinónimos, com ou sem ponto de exclamação. Ora sucede que não conheço o Cineclube do Porto, como aliás não conheço o Porto (infelizmente), mas não me parece que seja com "causas" no facebook ou com exaltados apelos à "luta" que a coisa vá lá. Lutar contra quem, afinal? Se tivesse de adivinhar, diria que é lutar contra alguma entidade pública (provavelmente uma câmara municipal, como é costume), por não financiar devidamente a instituição. Note-se que nada me move contra o dito cineclube, que, de resto, não conheço. Mas nunca deixarei de me surpreender por ver tanta gente a "lutar" sem ser capaz de, na belíssima expressão de língua inglesa "put your money where your mouth is" e contribuir para o financiamento daquilo que gostariam de preservar, ao invés de esperarem que alguma entidade pública faça alguma coisa (já que o sector privado deste país, como se sabe, é muito avesso a coisas destas).
john
15.1.11
O título
Há um romance de Arthur C. Clarke intitulado The City and the Stars, de 1965. Não, ainda não o li, ando a ver se entro no mundo das compras online e o encomendo um dia destes. Diz-me a minha boa amiga Wikipedia que The City and the Stars é a versão revista e alargada de Clarke de um conto seu, intitulado Against the Fall of Night. Acho tudo muito bem, mas tenho dúvidas quanto ao título que Clarke escolheu para a versão alargada. Não é por nada, mas Against the Fall of Night é apenas o melhor título que alguma vez li.
john
14.1.11
Sete palmos
João,
que Cavaco seja vizinho de Oliveira e Costa, diria ser é irrelevante, puro fait divers. Pelo menos à partida (ainda ninguém é suspeito de morar ao lado de quem quer que seja). Como seria irrelevante se Sócrates fosse vizinho de Armando Vara (eu já vivi no Rato e nem por isso voto no PS). Já o resto da notícia, que recria a versão cavaquista do "Caso da Casa da Castilho" de Sócrates, parece-me ser mais preocupante, e deverá - terá - ser esclarecida rápida e devidamente. A não o ser, alguma coisa está mesmo muito errada com Cavaco.
No entanto, deixo-te o reparo de que o que dizes - sem por isso deixares de ter toda a razão - é facilmente reversível. Também se pode dizer com propriedade que quem agora levanta a lebre com Cavaco ficou quietinho, quando não defendeu acerrimamente Sócrates, encolhendo os ombros enquanto dizia, da licenciatura e da casa, que "eram coisas insignificantes". Ou dizendo que, nos casos da Cova da Beira e do Freeport, "não foi nada provado", como se a existência de ética dependesse das boas graças do poder judicial. Esse é o verdadeiro e perene legado de Sócrates: a indiferença (que ele não começou, concedo, mas ao qual soube dar volume). Da mesma forma que dizes (uma vez mais, com razão) que quem acusava Sócrates fica agora calado, quem durante anos ficou calado com Sócrates está agora de dedo em riste. No fundo, o que demonstras não é que Sócrates ou Cavaco são pouco recomendáveis, mas que toda a gente tem afinal telhados de vidro; e que a credibilidade da classe política está sete palmos debaixo de terra. De Sócrates não adianta falar agora, que curiosamente o homem até tem estado discreto, certamente à espera dos despojos; Cavaco tem à perna este caso, mais o BPN/SNL; Alegre perdeu-se por um par de espingardas, por um cheque de mil e quinhentos euros e por uma declaração de rendimentos, ou falta dela, e isto se não formos também vasculhar os arquivos da PIDE. Os outros candidatos são irrelevantes. A seguir temos os Varas e os Dias Loureiros do regime, mais os Lacões e os Relvas da vida, "sempre-em-pé" como Portas, anacronismos como Jerónimo e demagogos como Louçã. Em Inglaterra, diz-se que Guy Fawkes foi o único homem que algum dia entrou no Parlamento com intenções honestas, e ele foi lá para rebentar com aquilo. Em Portugal, ainda estamos para ter o nosso cinco de Novembro. Por mim, que venha a pólvora.
john
13.1.11
10.1.11
As releituras
A propósito deste comentário do Mr. Brown.
Sempre fiz releituras. Muitas releituras. Talvez isso possa ser explicado por o meu passado. Em criança/adolescente, nunca os meus pais deixaram de me comprar um livro que eu pedisse, por considerarem que num livro, ou mesmo num álbum de banda desenhada, não estariam a desperdiçar dinheiro, mas a comprar-me algo que me permitiria aprender alguma coisa, e que ficaria sempre. Mas com tudo o que de bom tem - e tem muito, acreditem -, a vida no campo, no interior do Alentejo, tem também algumas desvantagens, e uma delas era a quase impossibilidade de comprar livros. Só a espaços, de passagem por alguma cidade com uma grande superfície, podia comprar livros. Aprendi a ler muito cedo, e, excluindo o período da parvoeira, perdão, da adolescência (15-18), sempre li muito. Mas na falta de livros novos para ler, tinha de me dedicar a reler o que já conhecia. O que explica o facto de eu conhecer metade dos álbuns de Astérix de cor.
O hábito ficou. Hoje, mesmo comprando livros com frequência (talvez com demasiada frequência), dou por mim a fazer releituras. Não considero que seja tempo perdido: diz-se que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes, mas creio que o perigo, no que aos livros diz respeito, é mínimo. Um bom livro merece a releitura. Um livro como The Catcher in the Rye (releitura anual), sendo relativamente curto, delicia sempre pela linguagem e pela narrativa. Obras mais densas, como The Fountainhead ou The Lord of the Rings, presenteiam-nos a cada releitura com algo que nos tinha escapado da primeira vez, com uma nova interpretação, com um novo traço numa personagem, que a faz ganhar toda uma nova luz e toda uma dimensão da qual não nos tínhamos apercebido. Foi na primeira releitura que fiz de A Irmandade do Anel que percebi que, da obra de Tolkien, as minhas personagens preferidas são também as mais invulgares: Tom Bombadil e Treebeard. Por exemplo, foi na primeira releitura que fiz de Os Maias, já longe do décimo-segundo ano (quando tive de ler por obrigação, apesar de mesmo aí ter gostado imenso do livro), que percebi quão importante é aquela longa passagem inicial, tão detestada entre os estudantes, da descrição do Ramalhete: sem ela, o final do romance é insípido, pois só ela, por contraste, nos dá a verdadeira dimensão da tragédia que se abateu sobre a família Maia. E, por exemplo, só quando reli Psion, de Joan D. Vinge, é que percebi que afinal aquele livro não ficava a dever muito à obra-prima da autora, The Snow Queen. A primeira leitura não me deu a devida dimensão do que tinha em mãos.
Mas aviso-o, caro Mr. Brown: reler alguns capítulos preferidos de Tolkien é frequentemente uma armadilha. Da última vez que o fiz, por vontade de ler n'As Duas Torres a passagem da "Última Marcha dos Ents" (a minha parte preferida tanto no livro como no filme), acabei por reler tudo daí para a frente, incluindo O Regresso do Rei e respectivos (e longos!) anexos. E que belas horas passei eu!
john
O voto
"Eu vou votar nas Eleições Presidenciais. E tu?" Não, isto não é um apelo ao voto. É um evento marcado no facebook. Talvez vá votar. Sempre são 250 quilómetros para cada lado. Custa, sobretudo quando olho para os seus candidatos e vejo que nenhum deles merece sequer que me deslocasse à Junta de Freguesia de Alcântara, entre a minha casa e o café onde compro cigarros ao domingo, para lhes confiar o meu voto. Quanto mais ir ao Alentejo para o fazer. É decidir no momento: ou vai nulo, ou vai Cavaco, que com todos os seus defeitos (não me refiro à lama recente) ainda consegue ser o mal menor. Alegre é incompetente, para não dizer ridículo. Nobre não parece ter bem noção do que é ser Presidente da República (aliás, tirando Cavaco, que bem ou mal já lá esteve, nenhum deles parece), e a demagogia da galinha afastou-me definitivamente. Defensor Moura deu início à modalidade de "atirar merda para a ventoinha", pelo que merece ser recambiado para Viana, ainda que Viana, como boa terra que é, mereça melhor do que ele. Lopes é comunista, e a comunistas não dou voto. E Coelho, enfim, é Coelho. Sobra o mal menor. Como sempre. Triste sina de um povo, que em sucessivas eleições tem de escolher não o melhor candidato, mas o menos mau. Mas também é possível que o povo - todos nós - tenha exactamente aquilo que merece.
O acto eleitoral tem já o seu rol de disparates próprio. Um engraçado, sobre o voto branco ou nulo é o de "ah e tal, se não gostas de nenhum e achas que fazias melhor, porque não te candidatas?" É engraçado e estúpido. Levado à letra, este "argumento" implicaria, por exemplo, que quando eu não gostasse de uma refeição num restaurante, fosse para lá cozinhar; que quando eu não gostasse de uma exibição do Benfica, fosse para o lugar do Jesus, ou do Aimar; que quando... enfim, já perceberam a ideia. Temos seis candidatos, mas é perfeitamente possível que haja imensa gente a quem nenhum deles agrade. Adiante. Há um outro disparate da época que diz que "votar é um dever de democracia", ou algo de significado idêntico. Impressiona-me sempre a facilidade com que se confunde "dever" com "direito". Mas o meu disparate eleitoral preferido, que surge frequentemente associado ao do dever, é aquele argumento brilhante que diz "por respeito a quem sofreu e morreu para que eu pudesse votar, vou votar". Brilhante. E errado. A liberdade de voto implica também a liberdade de não votar. E surpreende-me sempre ver um povo tão pouco amigo das liberdades - basta pensar em toda a gente que defende ardentemente a máxima "quem não deve não teme" - a querer de repente ajoelhar-se no altar e prestar homenagem a uma liberdade que, pelos vistos, não entende tão bem quanto isso.
Vale-me o facto de a ida à terra não servir apenas para votar, mas também para cortar o cabelo, recuperar um bocadinho de sono numa cama decente, encontrar cerveja e whisky a preços anti-crise, ver um amigo e quebrar um bocado a solidão de Lisboa, e voltar para Lisboa carregadinho de comida caseira e de pão alentejano. Isso, sim, vale o meu voto.
john
9.1.11
The Lord of the Rings, releitura #3
Entre as 17h de Sábado e as 02h de Domingo, reli os últimos capítulos de The Fellowship of the Ring (desde a partida de Lothlórien até ao final) e toda a primeira parte de The Two Towers. Uma bela maratona. Tolkien, um dos maiores escritores do século XX (isto não é discutível), consegue ser simultaneamente uma inspiração e uma desmotivação para qualquer pessoa que queira escrever fantasia. Inspiração porque The Lord of the Rings é uma obra monumental, é a fundação da fantasia moderna enquanto género literário, e é um rasgo de imaginação raríssimo, aliado a uma incrível capacidade de criação de mundos e a talentos linguísticos e narrativos ímpares. Desmotivação porque qualquer coisa escrita que se lhe aproxime ficará sempre na sua sombra, destinada a perder por comparação. Isto não faz do género de high fantasy refém do velho professor, atenção; felizmente, há variedade suficiente para surgirem histórias com Elfos, Anões e Orcs muito boas (ler The Brothers War, de Jeff Grubb), e ainda há espaço para se criar fantasia muito original (ler a trilogia His Dark Materials, de Philip Pullman). Mas Tolkien fundou um género, estabeleceu um cânone, e colocou a fasquia num patamar praticamente inacessível. Quem vier a seguir terá de se contentar com a sombra.
john
A Democracia, a democracia
João, só algumas ligeiríssimas notas:
1. Percebo o que dizes e confesso que talvez não me tenha expressado como deveria. Confesso, igualmente, que o meu argumentário poderá induzir no leitor a ideia de que, assim sendo, elimino o conceito de demagogia da cena política. Não é exactamente essa a minha ideia. Explico melhor: o actor político, quando usa o discurso prepositadamente exaltador de paixões e sentimentos está a fazê-lo como forma de chegar ao eleitor e condicionar a sua decisão (de voto). Assim, o facto desse mesmo decisor político se recandidatar a uma qualquer eleição e voltar a ser eleito, torna o acto demagógico como profundamente democrático. No fundo, torna-o legítimado democraticamente, se entendermos (como entendemos) que é a população a fonte do direito, da moral e da política. E acho que este facto deveria dar que pensar a quem estuda estes assuntos de ciência política.
2. O meu ponto não é o facto da família de Saramago também não apreciar a ida de Cavaco Silva. O meu ponto é que o Presidente da República deveria estar no funeral do único Prémio Nobel da Literatura de Língua Portuguesa. Especialmente num país como Portugal, um país onde o maior património cultural e económico é a Língua, e o seu poder de disseminação.
3. João, esse 'mínimo admissível' é cada cidadão que o define, obviamente. Eu definirei o meu 'conceito' de Presidente da República, tu definirás o teu e cada um definirá o seu. Aliás, a CRP dá uma liberdade muitíssimo grande (demasiado grande mesmo) para interpretações tremendamente divergentes.
4. Eu gosto bastante de arte contemporânea. Desde a música, ao teatro, à dança, ao cinema e às artes plásticas. A minha grande divergência contigo é quando dizes que os artistas vivem de 'mão estendida' ao Estado. Ora, na minha visão esse contexto de 'mão estendida' é olhar para a arte segundo um prisma errado. A Cultura é uma forma de afirmação dos povos e uma forma de tornar a massa humana de um País melhor e mais qualificada. É uma forma de projectar um Povo (enquanto entidade Constitucional) na cena internacional, afirmando-o como identitariamente diverso dos seus demais. Ora, isso é um valor económico em si mesmo. É vendável e é importante. Assim, coloco no mesmo plano o investimento em Ensino Básico com o investimento em Cultura Básica. Toda a gente diz que os artistas andam de 'mão estendida', mas ninguém diz que os professores universitários andam de 'mão estendida' quando lhes pagam os salários. É esse o meu ponto.
4.1 Quanto às tuas considerações sobre a inércia idiossincrática da comunidade, assino por baixo. Concordo plenamente contigo.
5. Isto dava uma longa conversa (prometo voltar a ela num post autónomo), mas quando digo que acho que a rtp cumpre o serviço público falo de toda a rtp. Contudo, tenho só que fazer uma nota. Dizes que a rtp faz concorrência desleal porque tem receitas públicas, mas há que dizer que para além de ter muito menos minutos por hora de publicidade do que os canais privados (imposto por lei), apenas um dos canais do universo rtp tem publicidade.
6. Quanto ao teu ponto 5.1, acho que tens razão.
Um Abraço,
jtf
1. Percebo o que dizes e confesso que talvez não me tenha expressado como deveria. Confesso, igualmente, que o meu argumentário poderá induzir no leitor a ideia de que, assim sendo, elimino o conceito de demagogia da cena política. Não é exactamente essa a minha ideia. Explico melhor: o actor político, quando usa o discurso prepositadamente exaltador de paixões e sentimentos está a fazê-lo como forma de chegar ao eleitor e condicionar a sua decisão (de voto). Assim, o facto desse mesmo decisor político se recandidatar a uma qualquer eleição e voltar a ser eleito, torna o acto demagógico como profundamente democrático. No fundo, torna-o legítimado democraticamente, se entendermos (como entendemos) que é a população a fonte do direito, da moral e da política. E acho que este facto deveria dar que pensar a quem estuda estes assuntos de ciência política.
2. O meu ponto não é o facto da família de Saramago também não apreciar a ida de Cavaco Silva. O meu ponto é que o Presidente da República deveria estar no funeral do único Prémio Nobel da Literatura de Língua Portuguesa. Especialmente num país como Portugal, um país onde o maior património cultural e económico é a Língua, e o seu poder de disseminação.
3. João, esse 'mínimo admissível' é cada cidadão que o define, obviamente. Eu definirei o meu 'conceito' de Presidente da República, tu definirás o teu e cada um definirá o seu. Aliás, a CRP dá uma liberdade muitíssimo grande (demasiado grande mesmo) para interpretações tremendamente divergentes.
4. Eu gosto bastante de arte contemporânea. Desde a música, ao teatro, à dança, ao cinema e às artes plásticas. A minha grande divergência contigo é quando dizes que os artistas vivem de 'mão estendida' ao Estado. Ora, na minha visão esse contexto de 'mão estendida' é olhar para a arte segundo um prisma errado. A Cultura é uma forma de afirmação dos povos e uma forma de tornar a massa humana de um País melhor e mais qualificada. É uma forma de projectar um Povo (enquanto entidade Constitucional) na cena internacional, afirmando-o como identitariamente diverso dos seus demais. Ora, isso é um valor económico em si mesmo. É vendável e é importante. Assim, coloco no mesmo plano o investimento em Ensino Básico com o investimento em Cultura Básica. Toda a gente diz que os artistas andam de 'mão estendida', mas ninguém diz que os professores universitários andam de 'mão estendida' quando lhes pagam os salários. É esse o meu ponto.
4.1 Quanto às tuas considerações sobre a inércia idiossincrática da comunidade, assino por baixo. Concordo plenamente contigo.
5. Isto dava uma longa conversa (prometo voltar a ela num post autónomo), mas quando digo que acho que a rtp cumpre o serviço público falo de toda a rtp. Contudo, tenho só que fazer uma nota. Dizes que a rtp faz concorrência desleal porque tem receitas públicas, mas há que dizer que para além de ter muito menos minutos por hora de publicidade do que os canais privados (imposto por lei), apenas um dos canais do universo rtp tem publicidade.
6. Quanto ao teu ponto 5.1, acho que tens razão.
Um Abraço,
jtf
6.1.11
O movimento inútil
Parece que surgiu no facebook um "movimento" intitulado "Redução dos preços dos combustíveis". E já conta com quase 84 mil pessoas. O facebook é muito bom para alimentar tolices, de facto, mas daí a obter resultados vai uma grande diferença. Sobretudo neste caso: diria que a mesma malta que adere à causa no facebook é, em termos gerais, a malta que usa o carro diariamente, por necessidade ou por mera conveniência. Ou seja: por muito que protestem, têm de pagar. É isso ou bater com os costados nos transportes públicos. Boa sorte.
(entretanto, podem ler este post de Nuno Branco no sempre recomendável O Insurgente, e decidir para que lado dá mais jeito protestar)
john
Círculos
O facto de alguém se auto-proclamar honesto sem demonstrar por que razão o é, é uma desonestidade.
jtf
5.1.11
Possibilidades
4.1.11
No fundo, é isto:
Achar que a Passagem de Ano é sinónimo de mudança é absurdo. O ano passa, de facto, mas tudo o resto fica. A roupa suja à espera na máquina, o óleo do carro em baixo e o seu infame mau-feitio pela manhã. Que não se espere do Calendário Gregoriano grandes milagres. Por Pedro Duarte Bento, no já clássico Vontade Indómita. Bom ano.
john








