19.3.13

The Economist, a escrever parvoíces há 165 anos

Via Paul Krugman, cheguei a um texto de Stephen Halliday sobre a Great Stink de Londres que, entre outras coisas, tem uma passagem especialmente deliciosa da Economist (escrita em 1848) sobre a péssima ideia que seria construir um sistema de saneamento na cidade (página 6 do pdf). Eis o sofisticadíssimo argumento:

Suffering and evil are nature’s admonitions; they cannot be got rid of; and the impatient efforts of benevolence to banish them from the world by legislation, before benevolence has learned their object and their end, have always been more productive of evil than good.

Parece que o fascínio com o laissez faire tem uma longa, longa tradição por aqueles lados. Mas é verdadeiramente extraordinário ver o quão pouco aprenderam ao longo de mais de século e meio.

sp

A polícia que temos

aliás, toda a comunicação da psp, tal como tem sido veiculada pelos media, é um prodígio de estupidez, de contradição e mistificação (para não variar do costume). se os tiros foram para o ar, como sustentam, por que motivo fazem questão de dizer que foram de balas de borracha -- como se, de resto, balas de borracha não matassem e ferissem e, se atingindo alguém de mota, não determinassem decerto um acidente? e se o motivo de mandar parar o rapaz era não ter capacete, por que já falam agora da 'hipótese' de a mota ser roubada (outro clássico das versões policiais: não tarda o rapaz passa a suspeito de assaltar velhinhas e de ter 'um longo cadastro')? e se o mandaram parar por ser perigoso para ele andar sem capacete, por que motivo de repente acharam que a melhor forma de lhe proteger a vida e a integridade física era persegui-lo e disparar tiros 'de intimidação'? e ainda: fariam o que fizeram se em vez de estarem na bela vista estivessem na avenida de roma ou na lapa?, por Fernanda Câncio, no jugular.

Tal como já tinha acontecido em casos anteriores sobre temas relacionados com violência (e/ou estupidez) policial injustificada (e injustificável), a Fernanda Câncio escreveu o post que melhor traduz o que eu próprio sinto em relação a este episódio. E, claro, a conclusão também é perfeitamente adequada: esta história, e a reacção a ela, diz muito sobre o país que somos e as instituições que temos. e o que diz é muito muito mau.

sp 

14.3.13

O Peregrino

Bento XVI era diferente, pela sua carreira, pela sua acção intelectual, como teólogo, pela sua acção como jovem consultor dos bispos alemães que organizaram no Vaticano II a resistência ao poder da Cúria Romana, assim como, mais tarde, como alto responsável na hierarquia da Igreja na defesa da ortodoxia da doutrina. Este último papel colocou-o na mira dos "progressistas" que o tinham como adversário capaz e duro, elevando o debate intelectual, teológico, a níveis que apenas poucos, como era o caso de Hans Kung, eram capazes de aceder. Mas Bento XVI, quer como Joseph Ratzinger, quer como Papa, sabia muito bem que para defrontar a competição com a descrença no mundo contemporâneo, era preciso resistir ao "progressismo" que descaracterizava a Igreja, a tornava numa variante profética do marxismo na "teologia da libertação", abrindo-a de forma perversa a um mundo que se tinha feito contra ela e sem ela, e que acabaria por a dissolver no "século" sem diferença. A resistência à "modernidade", e foi o próprio Ratzinger que o lembrou, é mais moderna e interpela mais a descrença, do que a contínua cedência ao "mundo" secular, aos seus hábitos e costumes. E foi também por isso que, ao associar o seu acto prosaico de renúncia ao papado a uma "peregrinação" mística e de intensa religiosidade, apelou aos incréus, seus pares na mesma tradição greco-latina da cultura ocidental que tanto prezava, e fez muito mais pela "propaganda da fé" do que alguns dos seus pares mais modernizadores reconhecem.

José Pacheco Pereira, Abrupto.

jtf