31.3.12

Ainda poderia ser pior...

A quem é que um cidadão honesto e empenhado apresenta uma lista alternativa de governantes com vista a uma remodelação governamental, baseado no princípio de que as coisas ainda poderiam ser piores?
Proponho o seguinte: o presente governo não é suficientemente mau. Temos que ter um ainda pior para podermos chegar depressa ao fundo do poço e, aí, motivados por um sentido de desespero reconfortante por sabermos que não é possível irmos mais longe... e a partir daí poderemos começar a reconstrução. Para reconstruir - vejamos o exemplo da Alemanha - é preciso começar do nada, do totalmente obliterado para haver uma referência da não-coisa.

Assim, apresento o seguinte executivo alternativo para nos servir nesta tarefa de destruição da pátria para ver se depois chegamos a algum lado.

PRIMEIRO MINISTRO: João Vale e Azevedo
MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS: Manuel Machado
MINISTRO DAS FINANÇAS: Oliveira e Costa
MINISTRO DA ECONOMIA: José Sócrates
MINISTRO DA CULTURA: Felipe La Féria
MINISTRO DA DEFESA: Otelo Saraiva de Carvalho
MINISTRO DA AGRICULTURA E PESCAS: Cavaco Silva
MINISTRO DA JUSTIÇA: Duarte Lima
MINISTRO DA EDUCAÇÃO E ENSINO SUPERIOR: pasta suprimida por ser desnecessária
MINISTRO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA: Alberto João Jardim
MINSITRO DA SAÚDE: Armando Vara

Aceito sugestões de outros ministérios e outros ministros... devemos apontar para o pior que conseguirmos.

fp

Portugal: morada do paradoxo

Dificilmente encontraremos um país mais paradoxal do que Portugal.

Pessoas no limiar na pobreza - mas com um parque automóvel carregado de viaturas novas e reluzentes...
Milhares de jovens licenciados - mas sem conseguirem encontrar emprego nas suas áreas de qualificação...
Políticos a apelarem a sacrifícios e a esforços de conjunto - mas que incitam os jovens mais capacitados a abandonarem o país e a procurarem no estrangeiro as oportunidades que aqui lhes são vedadas...
Um país que foi dos primeiros a abandonar a prática da escravatura - mas que a reinventou sob a égide do estágio profissional não remunerado...
Um país que defende as tecnologias e o imperativo de uma "agenda digital" - mas que ainda conta com uma taxa de analfabetismo alarmante...
Um país que defende a renovação e a convergência da língua portuguesa com um novo acordo ortográfico - mas que não estimula a indústria livreira e trata mal os autores de língua portuguesa...
Um país que se arroga de uma cultura vasta e diversa - mas que não fomenta ou estimula a produção cultural...
Uma república que se diz justa e meritocrática por ser república - mas que num debate (não tão antigo assim) em que se colocaram em evidência as diferenças ideológicas entre o sistema republicano e monárquico se fez representar por um grão-mestre de uma ordem maçónica...
Um país que se diz democrático e de primeiro mundo, no qual os valores da justiça são cimeiros - mas onde os mais ricos se escapam do juízo do tribunal quando são constituídos arguidos...
Um país que diz ter dado novos mundos ao mundo - mas que se isola na sua mundividência salazarenta...
Um país que tem tudo para ser perfeito (gente boa, clima bom, potencial criativo e produtivo) - mas que resvala para a corruptibilidade e retrocesso civilizacional...

Um país que poderia ser algo de magnífico - mas que por causa da sua má gestão, da falta de instrução das pessoas, da falta de valor dado à cultura como um todo se encontra, hoje, num lugar triste e sem rumo. Mas à espera da concretização de um ideal messiânico e sebastianista que sabe ser uma ilusão. Mas espera sempre - porque não tem mais nada que fazer porque todos dizem que não há nada que fazer.

fp

Season 5

























jtf

28.3.12

"Jornalismo" segundo o Expresso

Para o caso de não ser suficiente a publicação de notícias manifestamente falsas sobre a manifestação do passado dia 22 de Março (que, tanto quanto sei, não foram corrigidas), o Expresso aparenta continuar apostado em publicitar uma espécie peculiar de "jornalismo", assente em jornalistas claramente incompetentes (sim, esta é a hipótese mais caridosa que se pode colocar no caso das jornalistas Rosa Pedroso Lima e Liliana Coelho).

Resumindo, o Expresso decidiu publicar (na versão online, pelo menos) uma notícia intitulada "Desta vez Angela Merkel tem razão", acompanhada do seguinte resumo/subtítulo/o-que-quer-que-se-queira-chamar-a-isto: "O chanceler Angela Merkel disse que a saída da Grécia do euro seria um "enorme erro" com consequências catástroficas. Especialistas não têm dúvidas que seria esse o cenário." Sim, a frase tem erros evidentes, mas é assim que é apresentada e, em todo o caso, isso é perfeitamente secundário para o tema do post.

Continuando a ler o texto, percebe-se que os "especialistas", afinal, são apenas dois - supõe-se que, na perspectiva da jornalista Liliana Coelho, constituirão uma amostra extremamente representativa, claro. E são eles:

1) João Duque, Presidente do ISEG, possivelmente mais famoso pela sua visão sui generis do papel que deve ser assignado à RTP que pela sua carreira académica - neste ranking (sim, se são bons para propagandear as virtudes da escola privada presumo que também o sejam para ilustrar a qualidade de certos "especialistas") de economistas portugueses divulgado pela Universidade do Minho, o nosso ilustre expert, presença assídua em inúmeros programas televisivos aparece em 387° lugar. Para se ter uma ideia, o Louçã aparece em 94° lugar. Provavelmente, os restantes 386 "especialistas" não estavam disponíveis.

2) Luís Nazaré, apresentado como "professor de economia" e "consultor". Uma pesquisa rápida no Google levou-me até à Wikipedia, onde se indica que o tal "professor de economia" era, afinal, licenciado e mestrado em Gestão de Empresas, estando ligado ao ISEG e ao IDEFE. Posto isto, fui procurar o perfil/CV/seja-o-que-for-que-esteja-disponível-sobre-o-senhor nas páginas das respectivas instituições. No IDEFE encontrei apenas referência a uma Pós-Graduação em que o mencionado "professor de economia" seria o docente das cadeiras/módulos de "Gestão Estratégica e Decisão" e "Strategy Lab - Concepção e Gestão de um Plano Estratégico / Mudança Estratégica", sendo que na sua página (que, por razões que me escapam, também o apresenta como Prof. Dr.) não é especificada a sua área de docência, sendo a única formação académica apresentada a de "Mestre em Gestão de Empresas". No ISEG, encontrei-o na lista de docentes, e cheguei a uma elucidativa página em branco. De onde se conclui que "especialista" não será certamente (até eu serei mais qualificado que o senhor em economia e certamente que ninguém com dois dedos de testa se lembraria de me referir como "especialista"). E "professor de economia", ao que parece, também não; e, diga-se, seria estranho que o fosse, tendo em conta as habilitações académicas.

É a comunicação social amestrada a que temos direito, paraíso de incompetentes e vozes do dono.

sp

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25.3.12

Tristano Morre












Uma casa de campo algures na Toscana. Um poema recitado. Narrativas interiores.
Estamos cada vez mais sozinhos.

jtf

22.3.12

Vergonha


Estivessemos nós perante uma qualquer outra forma de dissecação e poder-se-ia dizer que a biopsia era ainda mais material, ainda mais substantiva. Este exercício pluri-interospectivo, visceral e intestino já McQueen o tinha feito com assombro que bastasse em Hunger. Aqui, Shame, o exercício como que se translada e se amplifica para outros domínios do íntimo; ou, se quisermos, para o íntimo ele mesmo, personagem central da condição do vivo. Na verdade, McQueen faz, pelos gestos e pelas expressões de Fassbender, acrobacias só ao alcance de ginastas treinados. A arte do contra-plano, do plano-fixo, do movimento corpóreo, os pequenos quotidianos interiores. Porém, com a mesma subtileza, surgem pequenos frames que transportam para o imediatismo inerente à condição. New York New York. 

Claro que uma película introspectiva, profanadora do casulo íntimo, vive simultaneamente de um conflito inter-pessoal e inter-relacional; um conflito de sangue, que tantas vezes é mais íntimo do que a própria intimidade. De um chapéu vintage até uma langerie vintage vão pequenos passos, pequenos saltos. Isto é, de uma certa forma, Brandon gere uma interligação vivencial entre intimidade-de-sangue e uma intimidade-de-momento; um íntimo congénito e um íntimo pervertido, quase sempre perverso.

Shame é um filme sobre o ser-se.

jtf

21.3.12

Ayrton Senna















jtf

19.3.12

I know I’m gonna survive the December cold



jtf

Santos Pereira a fazer pontaria aos próprios pés

Título redundante e post escrito relativamente à pressa, dado que a personagem que o fundamenta também não merece que se perca muito tempo sobre ele. Ao que parece, o Ministro da Economia e do Emprego decidiu perorar sobre dívida e a consequente ‘necessidade’ de austeridade. Nada como entrar à matador, puxar dos galões, e garantir que, apesar de se “dizer que o crescimento económico" não "tem a ver com as finanças públicas, que há demasiadas finanças e pouca economia", a verdade é que "quem diz isso, não percebe de economia".

Não contente com isso, avança para a estafada (e inteiramente errada e enganadora, ainda que devidamente desmistificada) analogia entre a dívida das famílias e as dívidas dos estados. Sobre este ponto, acho que basta repescar o que diz Paul Krugman sobre o assunto:
“Deficit-worriers portray a future in which we’re impoverished by the need to pay back money we’ve been borrowing. They see America as being like a family that took out too large a mortgage, and will have a hard time making the monthly payments.
This is, however, a really bad analogy in at least two ways.
First, families have to pay back their debt. Governments don’t — all they need to do is ensure that debt grows more slowly than their tax base. The debt from World War II was never repaid; it just became increasingly irrelevant as the U.S. economy grew, and with it the income subject to taxation.
Second — and this is the point almost nobody seems to get — an over-borrowed family owes money to someone else; U.S. debt is, to a large extent, money we owe to ourselves.”
Em conclusão, diz ele, “The general point is that the analogy with a family that owes too much is all wrong. Unfortunately, this dumb analogy dominates our national discourse”. A resposta do nada dumb Santos Pereira adivinha-se pronta: “Esse Krugman é um merdas que não percebe nada de Economia”.

Segue-se o diagnóstico para que Portugal regresse aos amanhãs que cantam: “conseguir crescer -- que significa criar emprego -- é baixar a dívida, é a consolidação orçamental". Para não deixar dúvidas, o caríssimo Santos Pereira refere mesmo que "é por isso que a austeridade é tão importante”. Uma olhadela rápida para a evolução das dívidas públicas dos países sujeitas a austeridades curativas impostas pelos Gapares e Santos Pereiras por essa Europa fora é ilustrativa qb (clicar para aumentar):
Não só se projecta que Portugal tenha uma dívida pública, no final de 2016, superior à que detinha no final de 2011 (forma curiosa de baixar a dívida), como se observa que estes 4 países, seguramente entre os que mais medidas de austeridade aplicaram na zona euro, chegam a 2016 com uma dívida largamente superior à que detinham no final de 2009 (sim, poder-se-ia descontar o efeito entre 2009 e 2010 na Irlanda, cujo aumento se deve principalmente razões não relacionadas com a austeridade, mas em nada influencia o conteúdo do post). Enfim, talvez alguém devesse mostrar ao Santos Pereira a base de dados do World Economic Outlook, do FMI, de onde aqueles dados foram retirados. Mas, dado que a razão aparenta ser algo que não assiste o Ministro, também é discutível que isso viesse a ter algum efeito.

Por fim, gostaria de perceber de que forma é que um país com desemprego galopante, sucessivos cortes salariais, e austeridade infinita, consegue reduzir a dúvida privada – que era, no início da crise, em Portugal e na generalidade da Europa (com a possível excepção da Grécia), o principal problema com que se debatiam as diversas economias. Santos Pereira, lamentavelmente, não faz uso da sua profunda sapiência para explicar isso a todos nós, que “não percebemos nada de economia”.

sp

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12.3.12

Da Interpretação Selectiva














Não ponho em causa, embora até pudesse, a versão do Presidente da República em que este confessa que o anterior Primeiro-Ministro violou o artigo 201 da Constituição da República. Porém, ao fazê-lo, o Presidente confessa que também ele a violara.

O artigo 127 é «transparente como água» e vincula o Presidente, no acto da posse, não só ao cumprimento do texto constitucional, mas também obriga este a garantir o seu cumprimento pelos demais órgãos de soberania; costuma chamar-se-lhe até o «Guardião da Constituição».

Ora, a sua omissão aquando da pretensa violação do art. 201, configura uma violação do art. 127. Perante a violação do artigo 201 por parte do ex-Primeiro-Ministro, a única forma do Presidente escapar à violação do 127 era demiti-lo de imediato.

Adenda: Como forma de sustentação documental e doutrinária, socorro-me do Tomo II de «Constituição Portuguesa Anotada», Miranda e Medeiros, que, a páginas 359, dispõe o seguinte: «Jurando a constituição, o Presidente da República compromete-se não só a cumpri-la mas igualmente a fazê-la cumprir, maxime, através do exercício da iniciativa de fiscalização da constitucionalidade (art. 278 nº 1, 281 nº2 alínea a) e 283)».

jtf

9.3.12

Long-run

No meio deste cenário imediatista em que temos vivido nos últimos anos: austeridade pela goela abaixo, políticas-inevitáveis, não-há-alternativas party parade, etc e tal; o curto-prazo impera. O banalizado John Keynes dizia que «the long-run is a misleading guide to current affairs. In the long-run we are all dead». E isso ganha agora toda uma nova dimensão.

jtf

8.3.12

Os Inconvenientes da Finitude
















Não estou certo de que se tenha olhado de boa-fé para este circunstancial excesso de dívida dos países periféricos Europeus. Já que estes têm, em diversas praças, sido mascarados de seres humanos finitos, com todas as características desagradáveis que deles decorrem: adoecem, perdem os sentidos, um dia morrem e nada restará deles para além de ténues recordações. Obviamente que, do ponto de vista da reacção dos agentes económicos aos incentivos com que são confrontados, um Estado é diferente de um indivíduo. O Estado é um organismo infindo e ilimitado; um ser humano, não. E é-o não só no que respeita ao carrossel de dívida («Elementar, meu caro Watson!»), como também na imperatividade que a decisão pública transporta desde a raiz; o ius imperium.

Se, por um lado, um ser humano tem um limitado número de períodos para o cumprimento de um contrato; para um Estado a estafeta passa de uns para outros diluindo-se a titularidade; sem que isso ponha em causa o cumprimento do acordado previamente. Não é, portanto, legítimo decalcar directamente raciocínios com aplicação limitada a agentes-finitos (aquelas tretas da «dona-de-casa responsável», com que o Dr. Medina enche sempre a boca) para agentes-infinitos, esperando que daí resultem conclusões dignas e iluminadas. Cada macaco no seu galho, já dizia o Sr. António do talho.

Vivemos, num certo sentido, numa sociedade pós-democrática, vagamente arraçada de irreverente, mutante para uma qualquer coisa que ainda não o é verdadeiramente. A uma certa ideia de conjunto esparso de países vizinhos no pós-guerra, construiu-se uma união política e uma sub-união para-monetária. Nunca se chegou a acertar as pontas para a limpar definitivamente do «para» com que nasceu e manteve-se imperfeita até aos dias de hoje. Infelizmente, muitos são os que ao invés de manterem a cabeça fria e acoplarem o que sempre houve para acoplar, preferem deitar o castelo de areia todo ao chão e não construir nenhum outro no seu lugar. São opções.

jtf  

7.3.12

Krug III

Income Inequality


jtf

6.3.12

A Multiplicação dos Indivíduos












O Prós-e-Contras de ontem foi uma espécie de ex-libris de um certo situacionismo ululante, reavivado ainda antes das legislativas, e que tem como seu principal pregador o próprio Primeiro-Ministro, secundado por toda a sua prole. É o paradigma segundo o qual «só é pobre quem quer». A sociedade é um somatório de indivíduos, portanto: «trata de ti e os outros que se desimerdem».

Lá apareceram os «empreendedores» do costume, emaranhados nos seis-ou-sete anglicismos que conhecem e nos quatro-ou-cinco lugares-comuns que costumam sacar do bolso. Todos confrangedoramente amaricanizados no pior da América. Ora, noções básicas de sociologia e de economia bastam para entender que o todo é muito maior do que a mera soma das partes. A ideia Thatcheriana de que «não há sociedade, há indivíduos» (e, quanto muito, famílias) é a mesma que procura resolver um problema colectivo (como o desemprego) com soluções individualistas (como a emigração). Mas, felizmente, estava em estúdio Jorge Bateira que refutou tudo o que havia para refutar. Não estou certo de que todos o tenham entendido verdadeiramente.

jtf

2.3.12

Krug II

Back to Basics
A sociedade portuguesa tem laborado emaranhada num vício que só se manifesta verdadeiramente nos territórios pouco férteis, pouco aráveis e sem cultivo relevante. Paul Krugman está, para lamento dos economhipsters, transformado num objecto de arremesso de longo-alcance, o que impossibilita que a dialéctica económica se faça de forma séria e objectiva. Até porque, a robustez da argumentação que dele provém mereceria melhor tratamento e mais atenção; se o país fosse outro e se o investimento na educação tivesse produzido os resultados relevantes que dele sempre se esperaram.

Do ponto de vista dos grandes agregados, tomemos a chamada identidade fundamental da macroeconomia como medida dos impactos de opções de política económica e orçamental num estado j membro de uma comunidade monetária z:

yj=cj+ij+gj+xj-mj

, sendo que y é o produto, c o consumo, i o investimento, g os gastos públicos, x as exportações e y as importações.

Com a política europeia actual, agigantada aqui no burgo, aplica-se aos países deficitários a tal ideia da desvalorização interna, comprimindo-se as variáveis c, i, g e m. Simultaneamente parece acreditar-se que o crescimento das exportações (x) pode compensar todas as quebras; mas não será difícil antever que a magnitude das variações aborta todo o entusiasmo que ainda pudesse subsistir. Se por um lado o discurso oficial enfatiza a ideia de que a compressão orçamental em 2011/2012 possibilita convencer os mercados financeiros a retomar a concessão de crédito; por outro argumenta que a causa da situação é eles o terem feito no passado. Isto é, a causa acaba por ser o objectivo; e vice-versa. Nesta medida, fugir a uma abordagem keynesiana parece difícil, sobretudo no caso do crescimento económico ser encarado como uma condição e não como uma variável.

Por outro lado, numa zona monetária unificada, a aplicação simultânea de políticas restritivas impõe que os impactos sejam sempre exponencialmente restritivos; e nunca se contrabalancem. Basta pensar que, no caso em que países superavitários optam por políticas expansionistas, possibilita-se uma efectiva estabilização automática da economia pela via da redestribuição eficiente da massa monetária. O mesmo é dizer que os aumentos de consumo (c), de investimento (i), das importações (m) e dos gastos públicos (g) dos países onde a massa monetária repousa; transformar-se-iam nos incrementos contrabalançadores nas exportações (x), no investimento directo estrangeiro (i) e no consumo (c) dos países com escassez de moeda. Possibilitar-se-ia deste modo, que a equação fundamental da macroeconomia consolidada da Zona Euro se equilibrasse, por obra e graça da divindade.

jtf

1.3.12

Krugman e Esquerda

Eu achava que, depois do post do João, que já diz o que é essencial sobre o Krugman, nada teria a acrescentar. Mas entretanto fui tropeçando nalguns textos que me ‘obrigam’ a acrescentar algumas coisas (aviso à navegação: este post vai ser longo).
Sobre as baboseiras que os Camilos Lourenços da vida vão regurgitando nem vale a pena perder muito mais tempo. Afinal, os Camilos (e os Medinas Carreiras, Pulidos Valentes, Raposos e afins) pertencem exactamente ao grupo de pessoas que, se em Portugal existisse a meritocracia a que por vezes gostam de apelar, seriam imediatamente despedidas (por serem notoriamente incompetentes/ignorantes e/ou por se prestarem meramente ao papel de “vozes do dono”).
O caso da Priscila Rêgo, d’A Douta Ignorância, por ser uma das pessoas de direita que vale a pena ler (e com quem muitas vezes discordo), é muito diferente. Mas como ela também se debruçou sobre a vinda do Krugman a Portugal e sobre a entrevista que ele deu ao Negócios, e como discordo largamente do que ela disse, aqui vai:
1) Em primeiro lugar, acho que é preciso ver que o Krugman baseia todas (ou quase) as respostas que dá num pressuposto base estático e pré-definido: aquele em que a posição da Alemanha e do BCE, por ele criticada e caracterizada como profundamente errada, é a actual e é imutável. É daqui que decorre que Portugal, preso ao euro, sem opções de política monetária, ‘cambial’, ou fiscal, está numa encruzilhada em que não tem opções. E é neste contexto que surge a referência à falta de alternativas de austeridade (embora também diga que não sabe o suficiente para dizer se a austeridade actual é excessiva ou não). Mas:
a) Refere claramente que a adesão ao euro foi um erro (embora difícil de desfazer, e é por isso que não avança para a saída como opção, para já);
b) Refere também que, se as metas traçadas com o plano de austeridade actual não forem atingidas, não se deve optar por mais austeridade. Tendo conta a posição da Alemanha/BCE em relação à solução para os problemas actuais, a implicação de tal decisão parece-me óbvia: default e saída do euro.
2) Quanto aos bodes expiatórios, não percebo. Ele diz, pela enésima vez, que o que a Alemanha/BCE estão a impor é errado e complica enormemente a situação dos países periféricos (além de, como referiu noutras ocasiões, ser um caminho para o fim do euro). Se isto não é apontar culpados, o que será?
3) Krugman como messias de uma economia sem matemática é algo que só poderia esperar alguém que nunca o leu – afinal, é o mesmo Krugman que nos anos 90 escreveu um artigo no ‘American Prospect’ precisamente a referir que essa componente matemática/quantitativa era fundamental. E, de caminho, esse pressuposto de que os economistas heterodoxos tendencialmente vistos como esquerdistas têm como ponto de partida uma oposição visceral à matemática é apenas isso: um pressuposto. E errado, como se pode ver por vários ‘papers’ oriundos de correntes heterodoxas (e de esquerda): aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui. Ou, de forma mais genérica, neste capítulo de Steve Keen ou neste ‘paper’ de David Colander.
4) Krugman como messias da Esquerda? Também não, e tendências messiânicas são mais típicas da direita. Apesar de, para um economista ‘mainstream’, estar bastante mais encostado à Esquerda que a média, qualquer pessoa que o leia sabe que ele não é propriamente o Louçã – tal como qualquer pessoa que fosse além da retórica saberia que o Obama estava longe de justificar o entusiasmo que suscitou em parte da Esquerda. Até porque é o próprio Krugman o primeiro a inserir-se na corrente New Keynesian, suficientemente diversa para também incluir economistas como Greg Mankiw (Presidente do Council of Economic Advisors da Administração do Bush II, que não era propriamente um socialista). E, ainda que acabe por chegar por diversas vezes a conclusões parecidas com correntes heterodoxas como a Post Keynesian, os pressupostos de que partem são diferentes. Agora, o que me parece extraordinário é dizer que a Esquerda que rejeita a austeridade está a fechar os olhos à realidade. Then again, muitos terão dito o mesmo quando a Argentina decidiu avançar para a recusa do pagamento da dívida – e, nos 10 anos que se seguiram, cresceram 90%, mais que qualquer outro país do continente…

sp