23.11.08

espelhos e reflexos #7

A parte mais feliz de mim é a minha sombra. Habituada está a ouvir e ver todas as misérias que digo ou faço. O melhor espelho que já tive. Pobre dela, condenada a arrastar-se atrás do pedaço de eternidade que o meu corpo me permitirá viver. É que eu não me recomendaria a ninguém. Acaba por ser o preço a pagar para assistir às minhas misérias que, (in)felizmente, não escasseiam.
Olho para trás. Lá estás tu do chão a sorrir para mim.


fs

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O amigo gay

fs

22.11.08

The One Thing We All Agree On



jtf

21.11.08

the smell of fresh oil still on my fingers

I retired. To mend cars. Probably for the rest of my life. As I see it, part of the art of being a hero is knowing when you don't need to be one anymore, realizing that the game has changed and that the stakes are different and that there isn't necessarily a place for you in this strange new pantheon of extraordinary people. The world has moved on, and I'm content to watch it from my armchair with a beer by my side and the smell of fresh oil still on my fingers.

Hollis Mason, Under the Hood // por Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen

Esta parece-me uma citação tão boa como outra qualquer para assinalar o meu regresso ao mundo dos vivos. É retirada da biografia de um super-herói reformado - Nite Owl - cujo nome por detrás da máscara é Hollis Mason. A biografia fictícia de um herói fictício, ambos pertencendo ao mundo de Watchmen, a graphic novel escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons para a DC Comics em 1987. Watchmen não é banda desenhada. Não é literatura. Não é, por aquilo que já li (ainda não acabei), uma graphic novel no sentido convencional do termo, como o são, por exemplo, The Sandman, V for Vendetta ou Hellblazer. Nem tão-pouco é uma história de super-heróis, como aquelas que a Marvel ou mesmo a DC habituaram milhões de leitores. Watchmen é, não uma história de super-heróis, mas uma história sobre o conceito de super-heróis menos os super-poderes. De seres humanos perfeitamente normais, com os seus vícios e as suas virtudes, que, mascarando-se, encarnaram uma personagem para combater o crime nas cidades norte-americanas. De uma América onde a realidade e a ficção do período da Guerra-Fria se cruzam de forma espantosamente verosímil. Narrada de forma não-sequencial, com os vários capítulos daquilo que para simplificar chamarei (erradamente, reconheço) de banda desenhada divididos por aquilo a que (mais uma vez, erradamente para simplificar) chamarei de prosa.

A crítica recebeu Watchmen com surpresa - e com um enorme aplauso. A revista Time definiu Watchmen como "one of Time Magazine's 100 best novels" - feito inédito para algo que a esmagadora maioria das pessoas classificaria, simples e erradamente, de banda desenhada. Venceu, no ano da sua publicação, o prémio Hugo (um dos mais conceituados prémios de ficção científica). E as recensões que se seguiram elogiaram-lhe o estilo, as personagens, a densidade da narrativa (que deixa muitos romances de autores consagrados a milhas). Sem dúvida, leitura recomendada (e eu mesmo ainda não acabei de ler).

E fica a pergunta, tão adequada aos dias de hoje: who watches the watchmen?

jc 

20.11.08

E, mais uma vez, eu metido no meio



Prospekt's March EP, Coldplay, 2008


"Life In Technicolor II"
"Postcards From Far Away"
"Glass Of Water"
"Rainy Day"
"Prospekt's March/Poppyfields"
"Lost+"
"Lovers In Japan [Osaka Sun mix]"
"Now My Feet Won't Touch The Ground"



(quem desejar ouvir um pouco deste EP pode fazê-lo aqui)




fs

14.11.08

Auto-retrato #3



Na vida também um míope.
Nem tudo se consegue ver nítido.



fs

10.11.08

Com um zumbido nos ouvidos tocamos incessantemente


(como te invejo Amigo pf, como te invejo)




fs

9.11.08

The war is over, Greg.


jtf

Bairro Alto

Na sexta-feira houve um protesto no Bairro Alto. Dezenas (centenas?) de pessoas de apito na boca decidiram fazer uma barulheira tremenda a partir das duas da manhã, hora a que todos os estabelecimentos comerciais (leia-se bares) têm agora de encerrar. É o novo Bairro Alto, com mais polícia e segurança (o que acho bem), menos riscos nas paredes (o que acho muito bem) e com um horário de funcionamento absolutamente ridículo. Fechar os bares do Bairro às duas da manhã é um perfeito disparate. Dizem-me que não faz diferença, porque "o bairro não é sítio para ir e estar lá, é mais sítio para se estar enquanto não se vai para outro lado". Até posso dizer que sim, que realmente o Bairro cumpre essa função, e recordar as noites em que às quatro da manhã se descia a Rua do Alecrim rumo ao MusicBox, por exemplo (ou, mais frequentemente, às roulottes de cachorros e pitas de Santos, enquanto o comboio não acorda). Mas duas da manhã é demasiado cedo para o que quer que seja, e nem toda a gente tem paciência para o Lux ou para as discotecas pseudo-chiques das docas de Alcântara (em breve a funcionar em contentores). Nos últimos cinco anos, o Bairro Alto nunca foi um sítio de passagem, mas um sítio de destino - onde se encontram amigos e inimigos, onde se conversa na rua, onde se senta num bar a conversar e a ouvir rock, techno ou pimba brasileiro, e onde às duas e meia se ruma à padaria da Rua da Rosa, aquela perto da farmácia, para comer um croissant com chocolate acabadinho de sair do forno. E se desce a rua, a comer, para beber mais uma ou duas cervejas e ir para casa. Passo bem sem charros nas ruas, gente a mijar ou a vomitar em cada esquina, fachadas completamente vandalizadas (chamar aos riscos do Bairro "grafitti" é uma estupidez) ,ou o receio de naquela rua ver reluzir a lâmina de uma navalha. Mas não estaria disposto a trocar isso por ver as minhas noites acabarem às duas da manhã.

Na sexta, a minha acabou às três e meia. O bar onde estava - um espaço pequenino, vagamente familiar, fora do circuito habitual onde me habituei a ir - permaneceu semi-aberto, indiferente aos assobios. Foi encerrado naquela noite pela polícia. Quem vai ganhar com isto nem são os moradores do Bairro, mas as discotecas da moda.

jc

7.11.08

espelhos e reflexos #6

Imagino Hari Seldon a formular as leis da Psico-História. Segundo diz ele, é possível prever o futuro de uma sociedade, em probabilidades, se se conhecer com precisão a história dos movimentos dessa mesma sociedade no passado, sujeita a diferentes pressões sociais, económicas e afins. Ora, isto apenas se pode aplicar ao Homem enquanto Homem-Massa, pois prever por cada indivíduo seria entrar no caos. Acontece que o senhor Isaac Asimov, enquanto colocava estas palavras na boca de Seldon e dava vida a uns dos melhores livros de ficção científica de sempre, esqueceu-se, inevitavelmente, que eu sou muitos. Uma sociedade complexa que vive dentro de mim. Talvez estabelecer a minha Psico-História. Vou fazer os cálculos. Afinal, o caos é uma ordem por decifrar.


fs

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5.11.08

E para mim, neste momento...

... mais relevante do que as eleições americanas é a polémica em redor do porto de lisboa. E nesta área, inclino-me mais para a posição de Tomás Vasques, tão bem exposta neste texto que passo a citar:

Eu leio-os, como quem lê epitáfios. E em cada leitura, cada vez mais, «há, nos olhos meus, ironias e cansaços». Eles «não sabem, nem sonham» como há 40 anos, ali, na Rocha de Conde Óbidos, o cais fervilhava de gente de trabalho e a actividade portuária e a reparação naval eram as únicas actividades por aquelas bandas. Um quiosque madrugador servia o «pequeno-almoço» aos operários do estaleiro naval e aos estivadores e marinheiros, entre as 7 e as 8, ainda «eles» dormiam a sono solto. E os barcos aportavam uns atrás dos outros. E os guindastes se perfilavam atarefados nas cargas e descargas. E os sacos eram alombados por homens de trabalho. O porto – o Porto de Lisboa – como diziam as placas em letras negras em fundo branco, era (e é, ainda) o modo de vida de milhares de pessoas. Era um tempo em que eu, com 18 anos, de fato-macaco, palmilhava a zona, à hora de almoço, à procura da refeição mais barata. E por lá nunca encontrei as outras «pessoas», aquelas que , hoje, não querem que os contentores lhes ofusquem as vistas . E, muitos deles, têm a minha idade. Os cais, os guindastes, as gaivotas, as tascas, o rio e o cheiro a maresia eram só «nossos». Naquele tempo, aquelas «pessoas», que hoje querem contemplar as vistas, não se queriam misturar com operários a cheirar a nafta e estivadores a cheirar a suor. Mas, hoje, Lisboa já é das «pessoas», como é de bom tom e democraticamente aceite. É de quem contempla as vistas, de quem almoça em restaurantes caros, de quem escreve nos jornais. Não é de quem trabalha no porto; de quem tem de levar o salário para casa para sustentar a família, mas de quem quer contemplar as vistas. Para ser rigoroso, no entendimento dessas «pessoas», o porto de Lisboa deve ser de quem tem casa no Alentejo, escreve nos jornais, bota palavra nas televisões e, para descontrair de tanta azáfama, quer vistas largas sobre o rio. Isso de operários, contentores, trabalho, produção, e outras merdas desse tipo só lhe atrapalha a vida e cheira mal. Sobretudo a suor, o que «eles» detestam. Eles, com o dinheiro que ganham por andar nestas andanças da «opinião», gostam mais de passarinhos!

A verdade é que em Lisboa, o rio já é das pessoas. De Algés a Belém. No Parque das Nações. Sê-lo-à em breve (se não é já, não vou muito para aqueles lados) entre a Baixa e Santa Apolónia. Um porto de grandes dimensões, mais do que uma necessidade económica, é algo que faz todo o sentido numa cidade como Lisboa - não me parece que tenha sido fundada pela beleza das suas sete colinas, ou pelo café da Brasileira. 

O que me parece relevante nesta história toda é, por um lado, o facto de a concessão do porto ter sido feita sem concurso público, e por outro, o tresandar a politiquice rasteira que por ali anda. 

jc

4.11.08

US


Não é impossível conseguir imaginar-me a apoiar McCain. Ao mesmo tempo é-me impossível imaginar que Palin desempenhe funções mais relevantes do que chefe de escuteiros. Só por isso apoiaria Obama. Contudo Obama representa muito mais e muito melhor. Vestiria a camisola de Obama em qualquer circunstância, sempre que isso implicasse derrotar uma candidata a vice-presidente que, com dificuldade, conjuga verbos. Engraçado é observar que Obama congrega aquela esquerda artística Chapitô e aquela direita que não suporta peixeiradas à lá Palin. As entrevistas da senhora à televisão nos últimos meses são a prova do quadro mental da espécie. Tenho muito medo de consensos. Nunca é de mais recordar que as sondagens sempre inflacionaram os democratas, basta reler a história para o confirmar. Prefiro Obama a McCain. Para mim é uma opção clara. Mas acho que muitos dos agora apoiantes fervorosos de Obama se desiludirão profundamente no futuro. Desde o Afeganistão ao Sistema Nacional de Saúde. Aguardaremos pelas duas da manhã. (de assinalar que o Governo Sombra da TSF irá fazer emissão especial pela noite dentro).

jtf

É do frio

Durante uma semana, passo mais tempo em Espanha (Madrid e Barcelona) do que em Lisboa, e mais tempo em aviões do que no comboio da linha de Cascais. Em trabalho, sempre em trabalho; mas com tempo para umas voltinhas de cariz meramente antropológico. Uma conclusão interessante que retiro da minha estadia em Madrid é que as raparigas espanholas se vestem melhor do que as portuguesas, e que não é o frio que as impede de mostrarem as pernas. Diria, sem exagero, qeu se vêem mais mini-saias na praça central de Madrid (cujo nome me escapa) numa terça-feira às dez e meia da noite do que sexta à meia-noite no Bairro Alto,na rua da Tasca do Chico ou do Lábios de Vinho. Por outro lado - e esta conclusão retiro-a de Barcelona, após passar duas horinhas ramblando à noite - as putas portuguesas são menos friorentas do que as espanholas. Nem estava muito frio ontem à noite; no entanto, não vi, nas Ramblas, uma puta de mini-saia. Nem sequer com aqueles calçõeinhos minúsculos que agora são moda. Nada. A que me abordou e perguntou "me quieres?" - e nem era feia, a miúda - vestia uma camisola de gola alta (juro!), um casaco, umas calças e sapatos de salto alto. Não havia um decotezinho, umas ligas ordinárias, nada. Não fosse a pergunta, dela, ou a posição na rua, das outras, e um observador estranho, como eu, pensaria que eram meras raparigas à espera de alguém, como qualquer outra pessoa. Vivi um ano no Conde Redondo, e Lisboa, e que diabo: até a fauna local é mais provocante à vista.

jc

Somos todos muito cool

Numa conferência internacional em Barcelona, conversa entre dois portugueses atrás de mim após uma apresentação:

Português 1: Então, o que é que achaste?

Português 2: Pá, muita "bulchite" (ler exactamente assim: "bulchite").

jc

3.11.08


pf