espelhos e reflexos #7
Olho para trás. Lá estás tu do chão a sorrir para mim.
fs
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Micróbio/substantivo masculino/ser vivo/animal ou vegetal/de dimensões tão pequenas que só pode ser visto com o auxílio do microscópio/microrganismo susceptível de provocar uma doença/do gr. mikróbios «micróbio de vida curta». Um blogue sobre a vida-curta.
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I retired. To mend cars. Probably for the rest of my life. As I see it, part of the art of being a hero is knowing when you don't need to be one anymore, realizing that the game has changed and that the stakes are different and that there isn't necessarily a place for you in this strange new pantheon of extraordinary people. The world has moved on, and I'm content to watch it from my armchair with a beer by my side and the smell of fresh oil still on my fingers.
Hollis Mason, Under the Hood // por Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen
Esta parece-me uma citação tão boa como outra qualquer para assinalar o meu regresso ao mundo dos vivos. É retirada da biografia de um super-herói reformado - Nite Owl - cujo nome por detrás da máscara é Hollis Mason. A biografia fictícia de um herói fictício, ambos pertencendo ao mundo de Watchmen, a graphic novel escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons para a DC Comics em 1987. Watchmen não é banda desenhada. Não é literatura. Não é, por aquilo que já li (ainda não acabei), uma graphic novel no sentido convencional do termo, como o são, por exemplo, The Sandman, V for Vendetta ou Hellblazer. Nem tão-pouco é uma história de super-heróis, como aquelas que a Marvel ou mesmo a DC habituaram milhões de leitores. Watchmen é, não uma história de super-heróis, mas uma história sobre o conceito de super-heróis menos os super-poderes. De seres humanos perfeitamente normais, com os seus vícios e as suas virtudes, que, mascarando-se, encarnaram uma personagem para combater o crime nas cidades norte-americanas. De uma América onde a realidade e a ficção do período da Guerra-Fria se cruzam de forma espantosamente verosímil. Narrada de forma não-sequencial, com os vários capítulos daquilo que para simplificar chamarei (erradamente, reconheço) de banda desenhada divididos por aquilo a que (mais uma vez, erradamente para simplificar) chamarei de prosa.
A crítica recebeu Watchmen com surpresa - e com um enorme aplauso. A revista Time definiu Watchmen como "one of Time Magazine's 100 best novels" - feito inédito para algo que a esmagadora maioria das pessoas classificaria, simples e erradamente, de banda desenhada. Venceu, no ano da sua publicação, o prémio Hugo (um dos mais conceituados prémios de ficção científica). E as recensões que se seguiram elogiaram-lhe o estilo, as personagens, a densidade da narrativa (que deixa muitos romances de autores consagrados a milhas). Sem dúvida, leitura recomendada (e eu mesmo ainda não acabei de ler).
E fica a pergunta, tão adequada aos dias de hoje: who watches the watchmen?
jc

Na sexta-feira houve um protesto no Bairro Alto. Dezenas (centenas?) de pessoas de apito na boca decidiram fazer uma barulheira tremenda a partir das duas da manhã, hora a que todos os estabelecimentos comerciais (leia-se bares) têm agora de encerrar. É o novo Bairro Alto, com mais polícia e segurança (o que acho bem), menos riscos nas paredes (o que acho muito bem) e com um horário de funcionamento absolutamente ridículo. Fechar os bares do Bairro às duas da manhã é um perfeito disparate. Dizem-me que não faz diferença, porque "o bairro não é sítio para ir e estar lá, é mais sítio para se estar enquanto não se vai para outro lado". Até posso dizer que sim, que realmente o Bairro cumpre essa função, e recordar as noites em que às quatro da manhã se descia a Rua do Alecrim rumo ao MusicBox, por exemplo (ou, mais frequentemente, às roulottes de cachorros e pitas de Santos, enquanto o comboio não acorda). Mas duas da manhã é demasiado cedo para o que quer que seja, e nem toda a gente tem paciência para o Lux ou para as discotecas pseudo-chiques das docas de Alcântara (em breve a funcionar em contentores). Nos últimos cinco anos, o Bairro Alto nunca foi um sítio de passagem, mas um sítio de destino - onde se encontram amigos e inimigos, onde se conversa na rua, onde se senta num bar a conversar e a ouvir rock, techno ou pimba brasileiro, e onde às duas e meia se ruma à padaria da Rua da Rosa, aquela perto da farmácia, para comer um croissant com chocolate acabadinho de sair do forno. E se desce a rua, a comer, para beber mais uma ou duas cervejas e ir para casa. Passo bem sem charros nas ruas, gente a mijar ou a vomitar em cada esquina, fachadas completamente vandalizadas (chamar aos riscos do Bairro "grafitti" é uma estupidez) ,ou o receio de naquela rua ver reluzir a lâmina de uma navalha. Mas não estaria disposto a trocar isso por ver as minhas noites acabarem às duas da manhã.
Na sexta, a minha acabou às três e meia. O bar onde estava - um espaço pequenino, vagamente familiar, fora do circuito habitual onde me habituei a ir - permaneceu semi-aberto, indiferente aos assobios. Foi encerrado naquela noite pela polícia. Quem vai ganhar com isto nem são os moradores do Bairro, mas as discotecas da moda.
jc
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... mais relevante do que as eleições americanas é a polémica em redor do porto de lisboa. E nesta área, inclino-me mais para a posição de Tomás Vasques, tão bem exposta neste texto que passo a citar:
A verdade é que em Lisboa, o rio já é das pessoas. De Algés a Belém. No Parque das Nações. Sê-lo-à em breve (se não é já, não vou muito para aqueles lados) entre a Baixa e Santa Apolónia. Um porto de grandes dimensões, mais do que uma necessidade económica, é algo que faz todo o sentido numa cidade como Lisboa - não me parece que tenha sido fundada pela beleza das suas sete colinas, ou pelo café da Brasileira.
O que me parece relevante nesta história toda é, por um lado, o facto de a concessão do porto ter sido feita sem concurso público, e por outro, o tresandar a politiquice rasteira que por ali anda.
jc
Durante uma semana, passo mais tempo em Espanha (Madrid e Barcelona) do que em Lisboa, e mais tempo em aviões do que no comboio da linha de Cascais. Em trabalho, sempre em trabalho; mas com tempo para umas voltinhas de cariz meramente antropológico. Uma conclusão interessante que retiro da minha estadia em Madrid é que as raparigas espanholas se vestem melhor do que as portuguesas, e que não é o frio que as impede de mostrarem as pernas. Diria, sem exagero, qeu se vêem mais mini-saias na praça central de Madrid (cujo nome me escapa) numa terça-feira às dez e meia da noite do que sexta à meia-noite no Bairro Alto,na rua da Tasca do Chico ou do Lábios de Vinho. Por outro lado - e esta conclusão retiro-a de Barcelona, após passar duas horinhas ramblando à noite - as putas portuguesas são menos friorentas do que as espanholas. Nem estava muito frio ontem à noite; no entanto, não vi, nas Ramblas, uma puta de mini-saia. Nem sequer com aqueles calçõeinhos minúsculos que agora são moda. Nada. A que me abordou e perguntou "me quieres?" - e nem era feia, a miúda - vestia uma camisola de gola alta (juro!), um casaco, umas calças e sapatos de salto alto. Não havia um decotezinho, umas ligas ordinárias, nada. Não fosse a pergunta, dela, ou a posição na rua, das outras, e um observador estranho, como eu, pensaria que eram meras raparigas à espera de alguém, como qualquer outra pessoa. Vivi um ano no Conde Redondo, e Lisboa, e que diabo: até a fauna local é mais provocante à vista.
jc
Numa conferência internacional em Barcelona, conversa entre dois portugueses atrás de mim após uma apresentação:
Português 1: Então, o que é que achaste?
Português 2: Pá, muita "bulchite" (ler exactamente assim: "bulchite").
jc