31.12.10
2010 foi o ano em que eu finalmente decidi começar a ler boa parte dos livros que já devia ter lido. A Ayn Rand, Bram Stoker, Isaac Asimov, Frank Herbert, Ursula Le Guin, Arthur C. Clarke, Robert Heinlein e Philip K. Dick, agradeço o facto de me terem proporcionado os melhores momentos de um ano para todos os efeitos miserável. Certamente continuarei em tão boa companhia durante 2011.
john
24.12.10
Se o conceito não serve, eliminamos o conceito
Tarde e a más horas, João, a réplica:
1. Tudo o que dizes sobre demagogia está muito certo - mas estando certo, teremos de erradicar o conceito. Porque à luz dessa lógica, segundo a qual "se esse exercício (apelidado de) demagógico de empolar paixões e sentimentos resulta, é porque a população o quer, porque vota nele. Logo, é o País que o legitima democraticamente" (cito-te), então nada é passível de ser considerado demagógico porque, enfim, tudo é político e, em última análise, desde que vá a votos tudo é democrático (ideia muito perigosa). Ou seja: quando Passos Coelho diz que não vai dar prendas às filhas mais velhas por causa da crise, ele não está a ser demagógico - está apenas a empolar paixões e sentimentos. A ser político, em suma. Ou quando Nobre vem com a história da galinha, do miúdo e do papo-seco. Nada é demagogia, portanto. Repara que eu não tenho nada contra esse princípio - sou perfeitamente a favor do "vale-tudo", desde que essa regra seja perfeitamente clara desde o primeiro momento.
1.1. Nota que eu não disse que a atitude de César era correcta - tenho, aliás, muitas dúvidas de que o seja. Passou ontem na Assembleia Regional dos Açores, mas, como decerto também saberás, isso não torna algo certo por si só. Disse, sim, que o facto de uma atitude poder ser correcta em teoria não significa que ela não seja demagógica na prática. Exemplo real: na campanha das últimas autárquicas, o programa Nós Por Cá entrevistou o então presidente da câmara de Odemira a propósito da instalação da rede eléctrica em alguns montes mais isolados. O presidente lá estava, todo contente, no monte, a gabar-se do seu grande feito. Até que pergunta a jornalista: se o senhor é presidente há doze anos, porquê só agora? Engasgou-se, o senhor presidente. Repara que ele fez o correcto ao levar a electricidade àquelas pessoas. Fazê-lo apenas naquele momento e procurar obter, no caso para o partido, dividendos políticos à custa dessa acção é que configura - ou devia configurar - a prática demagógica.
1.2. A legitimidade existe. Não é isso que questiono - era, sim, a intenção manifestamente demagógica. Mas já erradicámos o conceito de demagogia no ponto anterior, pelo que a questão não se coloca mais. Sobre o restante despesismo, concordo em absoluto.
2. O problema é onde termina o plano pessoal e onde começa o plano de Presidente da República, e vice-versa. Daí eu entender que o importante não é o gostar, é o fazer (algo)por ser esse o dever institucional do cargo que ocupa. Quanto a isso de Cavaco saber ou não quantos cantos têm os Lusíadas, bom, perguntas-lhe tu ou pergunto-lhe eu?
2.1. O mesmo se pode aplicar no caso Saramago. Concordo contigo em parte, pois acho que ambas as partes têm razão, e que nenhuma a tem - como aliás a própria Pilar demonstrou ao "agradecer" a Cavaco ele não ter ido ao funeral. Uma vez mais, não creio ser clara a fronteira entre Cavaco Silva, cidadão, e Cavaco Silva, Presidente (a menos que entremos na esquizofrenia de Sócrates, do "conhecimento oficial" e do "conhecimento não oficial"). Aliás, duvido que o próprio Saramago fizesse tal distinção. Fica por decidir se a ausência de Cavaco nas cerimónias fúnebres configuram uma falta de respeito para com o escritor, ou, pelo contrário e não sem ironia, um respeito assinalável por tudo o que os separou em vida. Cada um que escolha. Para mim, o tema é um tema menor.
3. Não sei o que é o "mínimo admissível". Quem o define, e com base em que critérios? É difícil definir esse mínimo, João - aliás, se o fosses colocar, provavelmente eliminarias os cinco actuais candidatos (sim, o Alegre também). Não que daí viesse mal ao mundo, que os cinco candidatos juntos não valem um. Mas eliminarias também 80 por cento da população portuguesa, mais coisa menos coisa e arredondando para baixo. Eu, olha, perdia o meu sonho de um dia ser Presidente com "P" maiúsculo!
4.
4.1. Não gosto de arte contemporânea nem que dêem M&Ms vermelhos à entrada; no entanto, nada contra ela, desde que não montem uma "instalação" à porta de casa (se o fizerem, eu mostrarei como se faz uma "performance"). É perfeitamente possível que o problema seja meu, campónio irremediável com tanta sensibilidade artística como um chaparro, mas quanto a isso nada há a fazer. Não me choca por aí além que o Estado subsidie as "artes"; choca-me, sim, que os ditos "artistas" não saibam viver de outra forma que não de mão estendida (eu não sou "artista" e não me posso dar a esse luxo), e que neste país se não for o nosso "Estado-Paizinho" a fazer algo (leia-se a pagar), não se passe nada para além de festivais de música (normalmente muito bons, felizmente). Gostaria de ver muito mais iniciativa, não só privada, mas também associativa/comunitária. Mas, lá está: se aqui os habitantes de um bairro nem são capazes de se reunir e apanhar as folhas das árvores caídas no chão por acharem que isso é trabalho da Câmara ou da Junta, iriam juntar-se para organizarem um sarau?
4.1.1. Também concordas que o Estado subsidie touradas, já agora?
4.2. Por mim, a Educação devia funcionar por cheque ensino, financiando os alunos e não as escolas - o que resolveria imensos problemas, a começar pela intocável falta de autonomia dos encarregados de educação (e nesse sentido, sim, o que temos actualmente é educação de qualidade sofrível a ser subsidiada). De resto, sem uma Educação de qualidade, não vais ter quem aprecie a arte (a boa e a má) e quem valorize a Cultura, pelo que é mais fácil entender a Educação como um investimento - até porque o é, antes de mais, para as famílias.
4.3. Concordo com o que dizes da RTP se te restringires à 2. A RTP 1 é uma cópia fraca de algo que os privados (SIC, TVI) já fazem (e fá-lo de forma desleal, convém dizer, pois acumula receitas públicas com publicidade), pelo que não compreendo o "serviço público" aqui; o mesmo se aplica à RTPN face à SIC Notícias e à TVI 24. E para cópia fraca, é demasiado cara.
5. Estava precisamente a pensar em ti. Daí (também) eu considerar a tal ideia ridícula. A Cultura é universal, não é pertença de uma barricada (barracada?) política.
5.1. Desculpa lá, mas no nono ano, com quinze anos, as hormonas a ferver e as moças da turma a ganharem formas espectaculares (para a idade), os Lusíadas são uma seca. Claro que são também a obra maior da poesia portuguesa; mas naquela altura, "as armas e os barões assinalados" não têm hipóteses perante as maminhas da miúda mais gira da turma. Nem as armas, nem os barões, nem nós, aliás.
Abraço e bom Natal,
john
21.12.10
Dez cantos
João,
#1 Confesso que tenho alguma dificuldade em conjugar o facto de determinado acto ser correcto e, ao mesmo tempo, ser demagógico. É verdade o que dizes, mas não deixa de ser interessante pensarmos que o discurso e a acção política pressupõem convencer a maioria que determinado caminho é o certo. Ou, pelo menos, de que esse caminho é preferido por esta. Se isso é feito de forma fácil ou difícil, não sei. De qualquer forma, apelar aos sentimentos e às paixões da população é, por definição, a Política. Porque, dizendo que se exacerba a paixão e os sentimentos do povo, manipulando-os para daí ganhar eleições, estamos a atropelar a circunstância de que a maioria da população as aprova, votando nelas. E a isso chama-se Democracia. Isto é, se esse exercício (apelidado de) demagógico de empolar paixões e sentimentos resulta, é porque a população o quer, porque vota nele. Logo, é o País que o legitima democraticamente.
Por outro lado, parece-me simplista colocar a questão de que a autonomia só serve para gastar e nunca para receber. Portugal é um país uno administrativamente. As receitas por via de impostos são arrecadadas em todas as regiões do país de forma relativamente semelhante (com excepção da Madeira, curiosamente). Daí resulta um bolo de receita para afectar a regiões e sectores diversos, e os Açores recebem a sua parte. Não me parece legítimo dizer que no caso dos Açores existe maior ou menor legitimidade para afectar os recursos desta forma subsidiária. Mais, o que me choca é que em Vila Nova de Gaia ou em Viseu ou no Cartaxo se gastam milhões de euros em obra pública sem que ninguém questione (e bem) a afectação de recursos, ao passo que quando Cesár o faz é acusado de falta de solidariedade. Vejamos: a Autarquia x decide gastar €3M na construção de uma via rápida ou de um pavilhão multiusos - o que acontece todos os dias por todo o País - e ninguém se sente no direito de dizer que há falta da solidariedade com o esforço nacional de combate ao défice. Porque, e bem, se entende que é uma questão de delegação de competências sufragada eleitoralmente. Já no caso das compensações salariais nos Açores não se usa o mesmo referencial. Com a agravante de que no caso Açoriano estamos a falar de Regiões Autónomas, com um grau de independência executiva bastante maior do que qualquer autarquia.
#2 Eu acredito que Cavaco não soubesse quantos cantos têm Os Lusíadas. Respondo ao teu repto: 1) Deve ser colocada, não de forma eliminatória, mas de forma a que o eleitorado conheça o candidato e o seu perfil para o cargo; 2) Pessoalmente é legítimo, como PR não. O problema está aí (já nem falo do caso Saramago).
#3 Um PR pode representar a Nação sem gostar de toda a cultura Portuguesa. Concordo. Mas o problema é que saber quantos cantos têm Os Lusíadas (ou mesmo sabendo-o - admito essa remota hipótese - mas não o ter sabido dizer naquele momento é grave para um PR) não é gostar da cultura Portuguesa, João. É saber o mínimo admissível. O problema está precisamente aí.
#4 Eu acho que quase toda a arte contemporânea feita em Portugal é de excelente qualidade. Acho que o Estado deve continuar a apoiar (nunca percebi por que é que no ensino se chama investir e na cultura se diz subsidiar, mas isso era mais outra conversa) a actividade artística. Acho que o Estado tem obrigação de aumentar o investimento na cultura. Acho que a produção artística em Portugal, desde o teatro, a pintura, as artes plásticas, o cinema (eu vejo e nunca estou sozinho na sala), a música etc, são de tanta qualidade como em qualquer outro país Europeu como triplo do investimento público. Acho que a RTP, no seu conjunto, cumpre na perfeição a função de serviço público.
#5 «Esta visão dá quase a entender que um "economista" não pode ser "culto" ou "gostar de cultura", e é no mínimo ridícula.» Sou Economia e, como se vê, gosto muito de Cultura. Os Lusíadas têm dez cantos.
Um Abraço,
jtf
19.12.10
A Scanner Darkly
Confirma-se tudo o que disse aqui, e mais. A Scanner Darkly, de Philip K. Dick, é mesmo um dos melhores livros de ficção científica (e não só) que tive oportunidade de ler - e as leituras têm sido todas de extrema qualidade. 20 em 20. E recomenda-se muito, claro.
john
18.12.10
Olé
João,
1) O facto de uma medida estar fundamentalmente certa (não sei se é constitucional ou não) não impede que ela seja demagógica. No dicionário, uma das definições possíveis de demagogia é "Discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político." Parece-me claro como a água que a atitude de César encaixa aqui na perfeição, e não é muito diferente do que Jardim já fez vezes sem conta, com mais ou menos espalhafato. Não será certamente por acaso que é sucessivamente reeleito. E quem diz Jardim ou César diz praticamente todos o políticos no activo. No entanto, a tua resposta convenceu-me: vou candidatar-me à Câmara de Beja e declarar uma "independência assim-assim" para o Alentejo, para ver se passo a ser português de primeira. É que ter autonomia para gastar, mas não para receber, é uma maravilha. E pelo caminho, pode ser que pelo menos assim eu volte a ter médico de família, o que daria imenso jeito para conseguir fazer umas análises.
2) Nem eu falava de Pollock ou de César Monteiro. Falava de Camões. Não acreditando que Cavaco não soubesse quantos cantos têm os Lusíadas, deixo duas perguntas:
1) Deve a pergunta "quantos cantos têm os Lusíadas" ser colocada, com natureza eliminatória, a cada potencial candidato à Presidência?
2) É ou não legítimo ter um Presidente que, pessoalmente, considere os Lusíadas uma estopada monumental?
Nota, João, que um Presidente representar a cultura da sua Nação não tem necessariamente que implicar gostar dela toda; se assim fosse, o Presidente teria de gostar de fado, de touradas (sim, de touradas), de Camões, de Pessoa, de cozido à portuguesa, teria de fazer férias em Quarteira ou na Praia da Rocha, teria de manter uma unhaca no dedo mindinho bem polida e teria de usar sempre a camisa aberta até ao umbigo. A Cultura, como bem dizes, é isto tudo. Mas para mim, tudo isto é irrelevante; Cavaco pode preferir ouvir os Sepultura a ouvir a Amália (eu prefiro), pode preferir ir ao Campo Pequeno ver um concerto a ver uma tourada (também prefiro), pode não apreciar Camões ou Pessoa (não sou fã de Camões, e muito menos de Pessoa), e pode preferir um Big Mac a um cozido à portuguesa (prefiro um Big Mac a um cozido, e não gosto de MacDonalds). O que importa é que o Presidente saiba defender e mesmo promover o fado, as touradas (este argumento é delirante), o Camões, o Pessoa e o cozido quando tal for necessário ou oportuno. Se ele gosta ou não disso? Se ele sabe apreciar o verso de Camões? É irrelevante para as suas funções, que não passam por gostar ou deixar de gostar do que quer que seja.
Uma última nota, João: o preconceito cultural existe de facto quando se fala de Cavaco, e não é normalmente na forma que mencionas (correctamente), mas na forma que eu menciono - na forma snob, elitista e ignorante que afirma, desdenhosa, "é claro que Cavaco não gosta de Pollack ou de Saramago". Basta ouvir quem enche a boca para falar disso - o espectáculo é ainda pior que o célebre momento do bolo rei, uma vez que este, ao contrário daquele, sempre tem um relativo valor cómico. Há sempre o velho contraponto entre presidentes como Soares e Sampaio, considerados "cultos" (o Sampaio, por Deus!), e o "economista" Cavaco - um preconceito que chegou até Manuela Ferreira Leite, essa "merceeira" e "inimiga da cultura", como bem sabes. Aliás, diria que o preconceito irá estender-se a qualquer candidato mais próximo de Direita, pois como se sabe, neste triste país a Esquerda tem o monopólio da Cultura: a malta de Esquerda, sempre na vanguarda de qualquer coisa mesmo que não saiba muito bem do quê, gosta das "artes", das "mensagens", dos "significados", das "instalações", do "caralho que os foda"; a malta de Direita, pobre de espírito, só quer saber dos números, e, marota que é, está sempre de tesoura na mão para cortar os subsídios aos artistas, coitadinhos*. Esta visão dá quase a entender que um "economista" não pode ser "culto" ou "gostar de cultura", e é no mínimo ridícula.
*Há ainda aquela conversa antiga do "artista" e dos subsídios. Neste país, "arte" é fazer uma banheira em forma de Portugal e metê-la no Terreiro do Paço; é pendurar pneus velhos em dois ferros e metê-los em frente aos Jerónimos; é fazer filmes que ninguém vê (provavelmente nem o realizador). É merda desta, e orgias respectivas, que se subsidia; só estou à espera de que estas tretas sejam também incluídas na factura da luz, junto a eólicas paradas e fotovoltaicas frias. Assim como assim, nessa conta também se inclui o Preço Certo em Euros e restante lixo, perdão, programação da RTP1.
john
14.12.10
Demagogia é uma palavra bonita & O preconceito cultural II
#1 Ao contrário de Jorge Miranda (e nunca percebi por que razão existe um "pai" da Constituição. Se era para ter um "pai", como que apropriando-a - à semelhança do que faz Filomena Mónica com o Eça ou o Pulido Valente com a História Portuquesa do séc. XIX - então que se chamasse Constituição-Jorge-Miranda) entendo a medida de compensação salarial como vergonhosamente constitucional. Em primeiro lugar, porque é Política. E a política é, e sempre foi, a escolha de recursos escassos face a necessidades ilimitadas. Carlos César escolheu afectar os recursos que existem às necessidades ilimitadas que tem. Escolheu - e bem - não descer salários, em vez de afectar esses mesmos recursos a obra pública. E a Política é isso mesmo. As escolhas. Ora, se no passado quisemos chamar Regiões Autónomas à Madeira e aos Açores, por certas razões, temos que assumir o significado da sua autonomia para tudo. Ser autónomo não é mera denominação. Autonomia, neste contexto, significa ter um poder legislativo e executivo autónomos. É precisamente a exercê-lo que está César. Mais, tal como eu achava justo, no Continente: (i) cancelar obra pública; (ii) tributar dividendos antecipados de empresas; (iii) etc; como forma de evitar cortes salariais em massa - com todas as consequências sociais -, sou forçado a achar o mesmo para os Açores. Com a diferença que Carlos César o fez de factum. Ao passo que o Governo da República não o pode fazer por razões de aritmética parlamentar e outras.
#2 João, a CRP dispõe que «O Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas». Ora, no meu entender, no espírito do disposto está a função representativa da Pátria, e não apenas do Povo. Representação das pessoas, dos seus valores, da sua História, do Passado e do Futuro, do Povo que foi e daquele que ainda será. Não vejo que seja possível representar condignamente a História de um Povo sem que se represente a sua Cultura. Clássica, Moderna e Contemporânea. Os factores de afirmação das Nações na História são os que permitem que estas se distingam umas das outras. E isso é a Cultura. Saber quantos cantos têm «Os Lusíadas» insere-se nesta função de representação e, sendo o mínimo exigível ao cidadão médio, por maioria de razão é indispensável àquele que foi escolhido para nos/os representar.
Compreendo quando falas dessa visão snob, contudo aqui entendo a "Cultura" como a forma como os Povos se afirmam como tal perante os outros. Não é de Pollock ou de João César Monteiro que estou a falar. Apesar de também isso dar uma boa conversa.
jtf
13.12.10
O preconceito cultural
Agora que reli este post, dei por mim a pensar: Alegre exagera, claro - o número de cantos dos Lusíadas não é cultura no sentido "elitista" da coisa, passe a expressão, é cultura geral. Coisa que boa parte das pessoas sabe, quanto mais não seja por ter estudado a obra de Camões durante os tempos de escola. Mas a verdade - e isto, atenção, não é uma defesa de Cavaco - é que o preconceito cultural contra Cavaco existe, é muito generalizado e, sobretudo, injustificado. Se Cavaco respondesse a Alegre, muito diplomaticamente, "os Lusíadas têm dez cantos, um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez, mas muito sinceramente, e reconhecendo-lhe todo o valor enquanto obra maior da literatura portuguesa, não está entre as minhas leituras preferidas", viria daí algum mal ao mundo? Ou mesmo que ele dissesse que não aprecia poesia de todo? Ou ficção? Seria por isso mais ignorante que os demais? Passaria a ser pior candidato por isso? A resposta a estas perguntas, como é bom de ver, é negativa - significaria apenas que Cavaco teria apenas um gosto próprio que não incluiria Camões, poetas ou, sei lá, Saramago ou Sousa Tavares. Quem quiser atacar Cavaco, tem muito por onde fazê-lo - o homem foi primeiro-ministro durante imensos anos, já fez um mandato presidencial, e, que diabo, até pelo bolo-rei a coisa ainda se traga. Pela "questão cultural", ou pelo valor que ele dá à a essa coisa vagamente transcendente (e, na boca de muito boa gente, francamente snob) que é a "cultura", parece-me despropositado, quando não mesquinho.
john
Demagogia é uma palavra bonita
João: tens razão, e muita graça na forma como colocas o tema, mas para ser franco, o facto de o Alberto João Jardim também ser demagógico não lhe retira a razão neste caso. Quanto muito, torna a coisa num argumento de autoridade: afinal, se alguém neste país sabe o que é a demagogia, é precisamente Jardim. Ou, se quisermos rebuscar um tiro no pé, perdão, um argumento antigo de Frei Louçã, podemos dizer que, àquela criança - a demagogia -, Jardim conhece muito bem o sorriso.
No resto, todo este episódio só prova (se tal ainda fosse necessário) como o nosso César insular não fica a dever nada a Jardim no que à baixa política diz respeito. Mas, lá está: entre a cópia e o original, o original é sempre melhor. Sobretudo neste caso, já que o original sempre é muito melhor a organizar carnavais e fins-de-ano. Quanto a César, que se não me falha a memória já tinha mostrado o carácter (ou falta dele, cada um que decida) aquando da história do Estatuto dos Açores, conseguiu fazer este Cozido das Furnas tão bem que até o chefe se engasgou. É de homem!
john
Notas
1. Na semana passada a medida de compensação salarial de Carlos César foi classificada como demagógica por Alberto João Jardim. É o mesmo que Vale e Azevedo dizer: Aquele Alves dos Reis era um bocado aldrabão;
2. Cavaco Silva continua a papaguear a cantiga de que é a pessoa mais bem preparada em matérias económicas, nesta altura da vida Portuguesa. É quase como quando vamos a um karaoke, cantamos mal e depois dizemos: eu sou muito bom é a dançar.
jtf
11.12.10
Já contar até dez é capaz de ser mais difícil
Cavaco agradece. Com adversários deste grau (de alcoolemia?), uma campanha eleitoral faz-se praticamente sem mexer uma palha.
john
10.12.10
Contraditório
Na eventualidade do tal putativo novo semanário chegar às bancas e sendo ele Socrático (como a direita gosta de dizer), não passará da aplicação do contraditório ao jornalismo escrito. Afinal, temos o Henrique Monteiro e o Mário Crespo há anos a opinar.
jtf
Do Jornalismo
Título: "PSD mantém avanço sobre o PS"
Lá dentro: "Os sociais-democratas obtém 36,2% das intenções de voto (uma quebra de sete décimas face a Novembro), enquanto os socialistas sobem três décimas, para os 30,3%."
Naturalmente, é sempre tudo uma questão de pontos de vista. Politicamente falando, claro.
jtf
9.12.10
A natureza da credibilidade
Querem ver que afinal este Governo ainda consegue descer o consumo público? E as importações?
Alô, está aí alguém?
jtf
Alô, está aí alguém?
jtf
PISA e OCDE
8.12.10
A Scanner Darkly
Sobre A Scanner Darkly, o livro que estou a ler de momento (está ali na coluna do lado), escrevi assim no Delito de Opinião:
(...) hoje vou abrir uma excepção e falar de um livro que ainda estou a ler: A Scanner Darkly, de Philip K. Dick. Sobretudo por um motivo: A Scanner Darkly, com a sua escrita alucinada e uma narrativa tão psicadélica como as drogas de que fala, pode muito bem ser o exemplo perfeito de um livro de ficção científica que, por si só, devia afastar qualquer preconceito de género. Houve alguns livros sci-fi que pularam a cerca, passe a expressão, e se impuseram como referências na literatura mundial, talvez não por serem obras de ficção científica, mas apesar de serem obras de ficção científica - como bons exemplos, poderia apresentar Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Clockwork Orange, de Anthony Burgess, ou, claro, Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. A Scanner Darkly não fica atrás de nenhum destes - é, muito justamente, considerado uma das obras maiores de Philip K. Dick, ele mesmo considerado por muitos um dos maiores escritores de ficção científica de sempre.
O resto pode ser lido no aqui.
john
Adenda: ao longo dos últimos meses, tenho publicado no Delito de Opinião várias recensões a livros de ficção científica que vou lendo, e que normalmente aparecem ali na coluna do lado. Nunca publiquei os textos integralmente aqui no Jardim por não gostar da ideia da repetição de conteúdos entre blogues diferentes. De qualquer maneira, e no caso de entre os leitores haver interessados neste género literário (nunca se sabe), deixo aqui as hiperligações para os textos já publicados:
02.11.10: The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, de Douglas Adams
21.10.10: The Left Hand of Darkness, de Ursula K. Le Guin
15.10.10: The Moon Is a Harsh Mistress, de Robert A. Heinlein
20.09.10: Neuromancer, de William Gibson
27.08.10: Rendezvous With Rama, de Arthur C. Clarke
24.08.10: Nightfall, de Isaac Asimov e Robert Silverberg
20.08.10: Starship Troopers, de Robert A. Heinlein
15.08.10: The Dispossessed, de Ursula K. Le Guin
12.07.10: Dune, de Frank Herbert
Em breve (espero), e na mesma linha, escreverei sobre Foundation, de Isaac Asimov, The Man in the High Castle, de Philip K. Dick, e A Clockwork Orange, de Anthony Burgess.
7.12.10
Kneel down, babe
Parece que vai sair para aí um jornal semanal de Rui Pedro Soares e Emídio Rangel. Aposto que este não vai ser um título, à luz da definição de Santos Silva, de jornalismo de sarjeta.
john
A quarta dimensão
1. Gatinhar dentro da área, pelos vistos, quando vestido de azul-e-branco, dá penalti; 2. "Elmano, faça assim, marque o penalti contra o Futebol Clube do Porto quando for mesmo escandaloso. Depois deixe o matreco marcar mas não apite mesmo que toda a gente perceba que está tudo preparado para o penalti. Se ele marcar golo, anule e diga que não apitou. É que a probabilidade de ele marcar na repetição é muito baixinha, sabe. Um abraço do Jorge Nuno".
jtf
6.12.10
A medida do Tempo
Não há nada mais alegórico do que a relação do português com a História. Vejo - pouco surpreso - todo o movimento sebastianista do último fim-de-semana. Nevoeiro, Alcácer-Quibir, e tal. Muitas vezes vejo repetida a ideia de que Sá Carneiro era um homem de coragem, destemido, arrojado. Até determinado. Vejo, vezes sem conta, insistir-se no argumento de que a coragem é a maior de todas as virtudes políticas. Constato que o mito se criou. E quando mais tempo passar maior se insufla o balão. Há qualidades que só vemos nos mortos, as mesmas qualidades nos vivos são defeitos. Determinação passa a teimosia, coragem a irresponsabilidade. Muitas vezes, estes dois pesos e duas medidas vêm da mesma boca. Do mesmo arguente. Repetiu-se, também, que se Soares Carneiro não tivesse ganho as eleições, Sá Carneiro se teria demitido imediatamente, argumento que é usado como prova da sua rectidão e do seu carácter. Espanto-me, quando vejo que as mesmas pessoas acharam cobarde e fugitivo António Guterres em 2002. Dois pesos e duas medidas.
jtf
2.12.10
Esclarecimento em forma de post, que dá imenso jeito para cumprir quotas de produção em tempos desinspirados:
João e Mr. Brown: no meu comentário, eu não estava a falar do caso em concreto, até porque é contra a minha religião ver o Prós e Contras - sobretudo, como disse noutro post, quando à mesma hora dá House. Desculpem qualquer coisa, mas o Hugh Laurie nos seus piores dias dá 55-0 à Fatinha e à malta que normalmente frequenta o programa. Mas divago. O que queria dizer é que, em muitas discussões mais ou menos recentes - no mau sentido da palavra - os rótulos de "keynesiano" e de "neoliberal" servem apenas de arma de arremesso que não quer dizer coisa alguma. Eu nem sei o que é o tal "neoliberalismo" - conheço alguma coisa do liberalismo, conheço (leio) imensa gente que se assume "liberal", mas o conceito de "neoliberal" é algo difuso, até por ter uma enorme carga negativa a ele associado (corrijam-me se estiver errado, mas a expressão cresceu em popularidade no tempo de Bush, não foi?).
Já agora, convém também não esquecermos que, para boa parte da população, sobretudo da população mais jovem, ser-se "liberal" não é defender a liberalização dos mercados, defender o indivíduo e a liberdade individual acima de tudo, ter sempre Ayn Rand na mesa de cabeceira, etc. - é, sim, defender coisas como o aborto, a eutanásia, as drogas, etc. Do dizer-se na gíria "sou muito liberal" a ser-se, de facto, política, económica e socialmente, muito liberal, vai uma distância como daqui a Antares. Dêem uma vista de olhos pelos perfis do Facebook, para não irem muito longe. Conheço muito boa gente que se afirma "liberal", ou mesmo "liberalíssima!" - assim, com ponto de exclamação e tudo -, que é do mais proto-comuna que se pode encontrar.
De resto, mais importante do que debater rótulos, autocolantes e pega-monstros, parece-me a mim interessante focar outro ponto, também abordado no teu texto, João: a impossibilidade de neste país haver uma discussão no bom sentido da palavra. Um debate a sério, com seriedade, passe a redundância. Isso tanto dá para o Prós e Contras, para os programas de "paineleiros" da televisão (grande expressão do João Gonçalves), para a Assembleia da República, ou para uma conversa de café. Como se tudo fosse, no fundo, o resumo de um jogo entre Benfica e Porto. E nesse aspecto, nem o Nogueira Leite nem o Daniel Oliveira me parecem, por norma (também têm os seus momentos de lucidez), dois grandes exemplos de elevação.
john








