27.2.12

Krug

Muito houve quem se tivesse rejubilado com postas-de-pescada que, descontextualizadas e lidas por putos de cinco anos, até parecem fazer de um keynesiano um neo-liberal de fato-e-gravata Hermès. O que Krugman diz é que: já que a Europa parece querer assumir a austeridade como rumo então o melhor é fazer as coisas à homem e  descer os salários portugueses 30%. O problema é que muitos dos rejubilados se esquecem da parte em que se diz que a desvalorização é em termos relativos face ao nível salarial alemão. O mesmo é dizer que, caso a Europa quisesse mesmo resolver os desequilíbrios inter e intra-estaduais dentro da zona euro, uma combinação de um certo expansionismo salarial alemão combinado com uma necessária contração nos estados desequilibrados possibilitaria um deslizar benigno na recessão para todo o conjunto da união. Do ponto de vista da teoria dos jogos, assumir uma política unilateralista e atomizada, implica que se caia num típico dilema do prisioneiro, em que o equilíbrio não é aquele que maximiza o retorno individual de cada agente.

Por outro lado,  uma união monetária óptima pressupõe respostas coordenadas que possibilitem fazer face aos choques assimétricos como são os desta crise (ou destas crises). Porém, ao contrário do que seria desejável, a Alemanha, enquanto incumbente, tem-se furtado a assumir o papel de distribuidora da massa monetária dos lugares onde ela abunda, expatriando-a para aqueles em que escasseia. Não o fazer implica desestruturar todo o processo de união monetária, forçando a que os ditos choques assimétricos sejam corrigidos como se corrigem os canhotos que à força se obriga a serem destros.

Outra das falácias que Krugman refuta na entrevista desta noite à RTPi é a de se dizer que o aumento ciclópico dos juros da dívida portuguesa é consequência da megalomania do Estado Social português. Basta, convocando um ligeiro esforço de concentração nalgumas mentes menos expeditas, olhar para o peso das prestações sociais em países como a Suécia para concluir que metade dos posts que se publicam sobre estes assuntos na blogoesfera portuguesa são escritos com os pés.

Referências: «European Crisis Realities»; «WWS 594E, Economics of the Welfare State: Class # 3».













jtf    

26.2.12

O Bom Aluno


















Do ponto de vista estratégico nunca é bom ir contra as evidências. É, neste momento, relativamente consensual que, como consequência desta aplicação autista da receita austera, Portugal não conseguirá reerguer-se condignamente a tempo de em 2013 ir estender a mão à praça financeira internacional. O mesmo é dizer: haverá segundo plano de resgate que garanta o financiamento que a economia aí necessitar.

Por outro lado, muito do que possibilitou que Passos Coelho vencesse as eleições de Junho foi um certo discurso de limpeza-moral, uma ressurreição purificadora dos tempos em que a política (e a governação)  alegadamente esteve submersa na dualidade realidade-discurso, em que o anterior primeiro-ministro serviria de ex libris, no qual se concentravam não só todos os defeitos do político enquanto agente da vida pública, mas também todas as fraquezas do ser humano em geral. Mesmo num exercício pouco ético como o que TVI protagonizou em Bruxelas, o certo é que o episódio serviu para demonstrar que a dualidade continua e continuará porque a estirpe é a mesma, mesmo que muito se diga para entreter o pagode. 

Ora, esta dualidade realidade-discurso impossibilitará irremediavelmente a inversão da narrativa quando em 2013 Angela Merkel for a votos e o aluno ficar sem professor.

jtf

24.2.12

Não devia ter faltado à aula de omnipresença

Ter um festival onde o alinhamento para uma das noites inclui Radiohead no palco principal e The Kills no palco secundário é uma notícia tão mas tão boa que se pode afirmar com 99 por cento de certeza que ambas as bandas vão actuar ao mesmo tempo.

john

Zoologia













João Salavisa ganhou um urso de Berlim pelo seu novo filme «Rafa». Porém, Pedro Passos Coelho também está de parabéns, já que é o urso favorito de Berlim.

jtf

23.2.12

O Diabo

Não é irrelevante considerar que o destino que as coisas têm é circunstância filha do que se fez, mas também do que não se fez. Muito há quem queira discutir a situação com os olhos do unilateralismo, baias temporais e um ou outro vernáculo de casas-de-pasto menos recomendáveis. Como diria Régio: não vou por aí. 

A Economia, tantas vezes esquecida como ciência social que é, nunca se coloca à consciência humana como um ser ou não ser polarizado, interpelador e dual. Coloca-se sim, como um ser muito ou ser pouco. Isto é dizer: o diabo está no grau. Deste modo, a questão verdadeiramente relevante não é a de saber se países externamente desequilibrados como Portugal devem ou não ser apedrejados pela tão nomeada austeridade; é, isso sim, saber determinar com precisão o ponto a partir do qual o remédio mata o doente. E isso é, precisamente, o confronto democrático em estado puro.

Ora, encher a boca com a doutrina de bairro que diz que tudo é inevitável, para além de consubstanciar uma contradição nos próprios termos, já que é impossível conviver em habitat democrático plural com políticas inevitáveis e inescapáveis; é, também, a redução da economia (e bem assim da própria sociedade onde os agentes daquela se movem) ao diminuído estado de opção medicinal sem que se lhe meça a dose. Quando, no fundo, a ciência está na quantidade e na combinação.

jtf

Ainda sobre as estatísticas, uma citação:

Statistics are like bikins. What they reveal is suggestive, but what they conceal is vital.

- Aaron Levenstein (via Frederik Pohl)

john

21.2.12

A Reserva Mental

Os silogismos nunca foram o forte dos liberais de paróquia:

1. Suprimiu-se 14% do rendimento anual dos funcionários públicos de 2012 com a justificação de que estes aufeririam, em média, mais 15% do que no privado (saltemos o primarismo intelectual) e teriam o emprego garantido;
2. Meses depois, no âmbito deste novo projecto de mobilidade na Administração Pública, diz-se que se quer aproximar o regime ao do sector privado, em que a dispensa de serviços é expedita e fácil, caso o trabalhador não aceite uma mobilidade aparentemente forçada;
3. Ora, sendo a primeira preposição condicionada à não-verificação da segunda, cumprindo-se a aplicação da segunda revoga-se a fundamentação que sustentou a primeira. 

Isto, claro, se tudo isto fosse projecto de gente confiável e sem reservas mentais.

jtf

Re: Exoplanetas - Take II

(...) durante os últimos seis anos - que, goste-se ou não, determinaram em larga medida o estado onde chegámos.

Sobre este tópico, e dado que o João Teago já referiu os outros pontos que me pareciam relevantes, queria apenas focar-me nesta questão, por representar um ponto de vista que é frequentemente difundido (em Portugal e não só), e que tendem a servir depois de trampolim a afirmações do tipo "a crise resulta da descontrolo da despesa estatal", abrindo caminho à legitimação de remédios à base de austeridade infinita (ainda que, no caso do John, esta sucessão não esteja presente).

Longe de mim querer defender o Sócrates, mas parece-me que esta focalização nos últimos 6 anos deixa passar em claro a hipótese de a crise que enfrentamos ter a sua raiz na Zona Euro (mais precisamente, numa união monetária disfuncional) e, com isso, leva-nos a um diagnóstico errado - de onde decorre que as soluções definidas dificilmente produzirão resultados.

A razão principal para achar que a crise muito pouco tem a ver com descontrolos estatais chama-se Espanha (clicar nos gráficos para aumentar):

Como estes 2 gráficos evidenciam, a Espanha estava claramente no grupo dos bons alunos (em termos de disciplina orçamental), chegando ao final de 2007 com uma dívida pública bruta* de apenas cerca de 36% do PIB (face a cerca de 65% da Alemanha), após um longo e sustentado processo de redução do peso da dívida pública, a descer consecutivamente desde 1996 - mesmo em 2011, a dívida pública representará cerca de 68% do PIB, claramente abaixo dos 81% da Alemanha. Em paralelo com isto, a Espanha entrou na crise com superavits orçamentais (1,9% do PIB em 2007) consideravelmente superiores aos da Alemanha (0,2% do PIB). Sim, os défices aumentaram enormemente a partir desse ano, mas isso corresponde exactamente ao que seria de esperar relativamente a um país que enfrenta uma forte recessão causada pelo rebentamento de uma bolha no sector do imobiliário (que, não é demais referir, foi causada pelo sector privado).

O resultado da crise, agravado pela austeridade? Bem, além de os juros relativos à dívida pública terem aumentado consideravelmente (bem como os spreads em relação à dívida pública alemã), uma das consequências foi esta:

Desemprego galopante (21,6% no final de 2011), acompanhado por uma quebra substancial do PIB (decresceu em 2009 e 2010, bem como no último trimestre de 2011).


* Dados relativos à dívida pública líquida poderiam ser preferíveis, mas não os consegui encontrar.

sp

20.2.12

Re: Exoplanetas

Camarada, eu pela parte que me toca não desculpo o corso anterior para culpar o actual. Cada um tem as responsabilidades e os vermes de estimação com que se entretêm mutuamente. Mas, convenhamos, o facto desta trupe passista ter chegado ao pote com a arrogância moral de se dizer o deus que destrona o diabo, dá uma dimensão de hipocrisia que faz qualquer um vomitar pus. E andaram todos festivos a esfregar isso na cara da malta, com uma alegria de se lhe tirar o chapéu.

Não quero com isto defender (ou tentar) o Eduardo Pitta mas convém sublinhar uma frase do post ao qual ligaste o teu: «Tudo isto representa um derrapagem de 38,5% face a 2010», sendo que 2010 ainda foi ano de governação Sócrates.

Mas que há muita malta que vê o mundo a preto-e-branco, aí tens toda a razão. 

jtf

Exoplanetas

É excelente ver tanta gente empenhada em escrutinar o actual Governo, apontando o dedo aos seus sucessivos falhanços ou a uma suposta falta de rapidez na resolução de muitos dos nossos problemas. Sem ironia: qualquer Governo deve ser escrutinado com atenção, e as suas falhas devem ser identificadas - se o exercício não servir para mudar o rumo ou, pelo menos, fazer alguns ajustamentos ao longo do percurso, servirá certamente para um voto mais esclarecido e consciente.

No entanto, seria muito interessante saber por onde andou esta gente toda durante os últimos seis anos - que, goste-se ou não, determinaram em larga medida o estado onde chegámos. Andaram de férias, certamente. Ou a acompanhar as sondas da NASA na busca de exoplanetas. É giro hoje ler coisas como esta. Não é que não tenha razão - está tudo mais do que certo, e as contas do dito sector empresarial do Estado são uma vergonha nacional. Mas só o são desde Junho?

Este é um exemplo entre muitos. Não pretendo defender a tese de que todos os disparates do actual Governo se devem aos desmandos do Governo anterior (há quem faça esse exercício com mais lata do que eu). Simplesmente não me parece sério - aliás, parece-me desonesto - acusar um Governo de em nove meses não resolver a crise enquanto se ignora convenientemente os seis anos que antecederam as eleições (e aos anos anteriores, também, que os intervalos de tempo prestam-se a tudo), como se só em Junho tivéssemos passado de cavalo para burro. O Governo de Passos Coelho até pode estar a cavar a sepultura do país - mas convém não esquecer que quando ele pegou na pá as escavações já iam bem adiantadas (e, na melhor tradição portuguesa, com um orçamento completamente descontrolado).

john

Medeiros Ferreira, O Superlativo Absoluto












Fico a saber pelo João Gonçalves que o Prof. Medeiros Ferreira completa hoje setenta anos de idade. Gostava, nesta ocasião, e mesmo sabendo que esta mensagem nunca chegará ao conhecimento do pretendido receptor, de felicitá-lo pela argúcia, pela acutilância, pela suprema inteligência, as convicções profundas, a ética, o fino-humor, o benfiquismo (pois claro); no fundo, pela superior forma como intervém na vida pública portuguesa. Por tudo isso, e porque por ele sempre nutri um quasi-adolescente deslumbramento intelectual (todos os temos!) e ideológico, os meus sinceros Parabéns. 

jtf

17.2.12

Ferreira Gullar e a Verdade Sobre a Existência



jtf

16.2.12

Os Putos, Ai Os Putos II




















Parece hoje relativamente sólida a doutrina que diz que desinfectar Portugal da infecção que são portugueses (os que ainda cá sobejam) é a melhor forma de facilitar a vida aos que dele se ocupam governando-o. Desinfectem, pá! A valsa principiou com Alexandre Mestre exortando os desempregados a deixarem a sua refastelada «zona de conforto», os James Martins, iPads, iPods, os Audis em cabriole e darem corda aos sapatinhos; depois o próprio capitão-do-bote apontou o dedo indicador para Belém-do-Pará e para as margens do Zambeze; agora, talvez devido ao frio, um dos quatro jotas-mais-jotas-que-há brinda a assistência com um número de equilibrismo de uma bola com a ponta do nariz: Quem não quer servir de mercadoria, que zarpe da Administração Pública, proclama o paquiderme naquela voz que só os paquidermes têm. Apesar da espécie é um paquiderme jovem, 35 sorridentes aninhos, 25,571% dos quais como deputado da nação e mais umas dezenas de meses a dar a facada final ao moribundo Belenenses Futebol Clube. «Está bonita a festa, pá».

jtf

Os Putos, Ai Os Putos

Portugal Is Doing Everyhing Asked, Result is Recession: MP



jtf

15.2.12

A Dama de Ferro


Muito campo haveria para desbastar numa película vagamente biográfico-histórica como esta, mas, para lamento dos cinéfilos, pouco há de verdadeiramente notável. Apenas (e não é pouco) o assombro do desempenho de Meryl Streep dá a este The Iron Lady o interesse que naturalmente nunca poderia vir a ter. 

Toda a construção física, bélica, expressiva e impressiva de Streep transporta esta M.T. para um patamar extra-representativo; como que construindo uma  Thatcher  para lá da própria Thatcher; um espelho para lá do próprio reflexo.

Do ponto de vista do confronto narrativo (e, por que não?, ideológico), o conteúdo é pobre, demasiadamente despido de contraplanos, unidireccional e menos estimulante do que a dialéctica política impele qualquer cidadão consciente e verdadeiro a colocar a si próprio. Dá-se-lhe um ar de evangelização-das-massas que me faz, por momentos, desacreditar na interpeladora missão da arte. Tudo isto pintalgado com fraseologia populista, redonda, oca e nauseante que baste. Este enquadramento doutrinador de um certo conservadorismo britânico, ilhéu, liberal, amante deslumbrado do free market; ignora, com a glória só ao alcance de certos orgulhos solitários, o papel  da desregulação na actual crise, fim de uma longa viagem; da constante alienação do problema das desigualdades sociais do qual o Reino Unido ainda hoje padece; da demissão de um Estado Social essencial à coesão e à prossecução da igualdade como trilho; do orgulho nacionalista pago a litros de RH positivo alheio; da auctoritas servida a puxões de cassetete e a galopes de cavalaria; entre muitas outras minudências às quais só as classes operárias se prestam verdadeiramente. 

Phyllida Lloyd não conseguiu escapar à armadilha da atabalhoada analepse-prolepse-analepse que serve os interesses de uma biografia insular pouco estimulante e enfartada. Nesse sentido, como que se opera uma redução do volume interpretativo e se ignora o evidente confronto principal que é o interior, em que se medem as forças entre o ser-individual e o ser-colectivo: a Margaret  Roberts e a Margaret Thatcher, a mulher pequeno-burguesa e a líder política do Reino Unido de 79 a 90. 

jtf

O Estado da Arte

Compor o painel de análise à entrevista a Pinto Monteiro com Eduardo Dâmaso, Paulo Saragoça da Matta e Carlos Anjos mostra o quanto a SicN valoriza os conceitos da «pluralidade» e do «contraditório».

jtf

Algum jornalismo precisa de um Plano de Resgate











jtf

As Rendas II

Tanto quanto me é dado perceber, o resultado do esforço português no processo de reconversão energética não é totalmente em vão. Obviamente que também acho que nenhum sistema de incentivos é perfeito e, provavelmente, o sistema actual é pouco robusto e muito permeável a lobbies. Mas daí até dizer-se que toda a política «das renováveis» é um erro, que não passa de uma forma obscura de transferir recursos do consumidor (que também é, normalmente, contribuinte) para as famílias de Padrinhos que tudo controlam, vai uma diferença que, na generalidade, não subscrevo. 

Reconheço-te razão quando dizes que muitas daquelas figuras são os receptores das falhas nos incentivos e no seu controlo, mas eu temo que a tutela faça -como tem feito em muitas outras áreas- a política do tudo ou nada; branco ou preto. E passemos de um sistema ineficiente e caro mas que caminha no sentido certo; para uma situação em que não há sistema algum.

jtf

O quinto elemento

Em primeiro lugar, e já com alguns dias de atraso, tenho de agradecer ao João o convite que me fez para estar aqui presente, bem como as simpáticas palavras com que me apresentou, e que, para lá da generosidade dele, resumem o principal. Esquerdista irremediável (simpatizante daquela esquerda muito sujeita a adjectivações folclóricas, que vão do “trotsquista” e “radical” até ao “caviar”), com alguma ligação a economia, e correntemente emigrado por terras do tio Sam (antecipei-me por uns meses à ‘inteligente’ exortação do nosso governo, pródigo em soluções brilhantes para problemas complicados). Só faltou dizer que sou do Sporting – o que também implica que, pelo menos nos tempos mais próximos, este será o primeiro e único post em que falo de futebol.

Previsivelmente, grande parte do que eu venha a escrever deverá estar relacionado com a crise actual e com a persistência com que, em Portugal e no resto da Europa, se continua a insistir em tentar abrir uma porta à cabeçada, em vez de usar a maçaneta. Aqui e ali, também deverei usar um pouco da minha bílis sobre algumas das principais fontes de irritação sempre que ligava a televisão e logo ouvia um dos ‘especialistas’ do costume (Medina Carreira, João Duque, Cantigas Esteves, et al.) a debitar a habitual ladainha sobre “viver acima das possibilidades” e de como o Estado é a fonte de todos os problemas (surpreendentemente, ou talvez não, os EUA têm bastante gente do mesmo calibre a quem é dado considerável tempo de antena – a diferença é que também o dão ao Krugman e afins, o que acaba por implicar, pelo menos em relação à situação actual, que a diversidade de opiniões que fazem parte do mainstream é bastante maior que a nossa). E, tendo em conta que grande parte dos meus dias é actualmente passado a tentar acompanhar reading lists intermináveis para as várias cadeiras, deverei divagar uma vez ou outra sobre Políticas Públicas e Desenvolvimento Internacional.
Enfim, o principal está dito e o resto do caminho faz-se caminhando. É provável que venha a estar frequentemente em desacordo com o resto das pessoas do blogue, mas sempre achei que o debate e o contraditório são fontes de melhoria e aprendizagem. Reitero o meu obrigado pela oportunidade e até já!

sp

14.2.12

Notas para um estudo de viabilidade da restauração da Monarquia Constitucional em Portugal

Os últimos meses, para mim, têm sido marcados por uma sensação crescente de desilusão política. Ao mesmo tempo, têm sido marcados por um crescimento de consciência política que tende a confundir-se com Angst e conspiratory mentality. Lamento... é assim mesmo. Observo o meu mundo e reajo.
Os nossos governos têm-se mostrado - no passado e no presente - totalmente irresponsáveis e incompetentes: conheça-se o despesismo, o clientelismo, o triunfo dos amigos-do-alheio e da roubalheira institucional e institucionalizada que agora é exímiamente representada pelo Ministro Miguel Relvas (para cujo gabinete este blogue, aparentemente, não foi convidado...). Não parece haver forma de se instituir uma governação idónea, alheia às características de corruptibilidade que hoje são essenciais para uma carreira política nos partidos do "arco do poder".
O sistema político-partidário falhou na medida em os partidos já não cumprem a sua função primária que é, essencialmente, a de dar voz e materialidade a eixos ideológicos diversos (cuja existência e convivência são, justamente, o garante da própria democracia moderna) que as pessoas, dotadas das suas consciências ideológicas, escolhem para governar num sistema de governo em que a maioria governa - e a democracia é isso mesmo...
Os partidos tornaram-se indistintos entre si. Muda a embalagem, mas o produto é, essencialmente, o mesmo. E o resultado da ingestão de qualquer um destes produtos é, para nós, o mesmo: gastrite política. Que é o mesmo que corrupção, desdém pelo sofrimento das populações, desrespeito pelo esforço dos trabalhadores, sistema judicial em que quem tem muito dinheiro está isento de julgamento - quando muito monta-se uma peça de teatro televisionada...
Hoje, o Governo da República é isso mesmo: a defesa do Estado para preservar a máquina do Estado em detrimento das populações que, essas sim, são o Estado; austeridade como panaceia para todos os males; onerar quem pode menos pagar para defender os balancetes de contas de grandes magnatas disto e daquilo... Não sinto nesta governação qualquer devir democrático. Não me sinto, nesta minha oposição (uma oposição leal ao meu país, note-se), parte de uma minoria ideológica que não está representada nos órgãos jurisdicionais da República. Se fosse diria que a Democracia é mesmo assim... mas não é assim, nem tem que ser assim, parafraseando Francisco Sá Carneiro.
Sinto que sou parte de uma maioria silenciosa que se sente traída pela governação de qualquer governo das últimas décadas. Mais ainda agora que temos um governo neoliberal de linha dura que só se preocupa com dinheiro, esquecendo que o dinheiro é riqueza gerada por pessoas que trabalham - pessoas essas que se sentem injustamente oneradas por causa dos erros cometidos, precisamente, pelas governações neoliberais (disfarçadas de centro-esquerda ou de centro-direita) do passado.
Portugal tem solução - mas esta não é, nem pode ser a solução... Não é possível disciplinar as finanças públicas através de vergastadas com a vara da austeridade, obrigando ao pagamento de impostos injustos e mal distribuidos enquanto as elites financeiras (que são também as elites políticas na sombra) escapam ilesas, alegres e contentes, às suas responsabilidades. Isto não é uma democracia: é uma plutocracia...
O problema é estrutural. Como tal, é grave. Não é uma questão de princípio democrático. Eu acredito na democracia. Mas como homem de bem, não posso acreditar nesta democracia em particular...
Algo se passa no sistema. Algo está errado. Porque os Portugueses não são uma nação de mafiosos. Temos a mania do "Chico esperto", temos a mania de que somos desenrascados - e somos, de facto: ao longo do tempo a nossa esperteza-saloia foi nos servindo bem. Seremos indisciplinados e um pouco arruaceiros. Somos a Aldeia do Astérix... mas dominada pelos Romanos. Não somos, como povo, aldrabões ou vigaristas ou gente de más intenções. Porém, esta regra é derrotada no Parlamento, no Governo, nos Tribunais, nas autoridades locais... O motivo é simples: os lugares de poder tornaram-se carreiras e, como tal, acessíveis apenas àqueles que os querem porque ambicionam o poder - o pequeno poder, ou o grande poder... - desses lugares. À política já não corresponde um exercício de dever, de serviço, de responsabilidade pública ou vontade de trabalhar para melhorar as condições de vida dos cidadãos que lhes confiaram os seus desejos e a defesa dos seus interesses. É uma questão de exercício de poder: o eventual progresso do país é um subproduto do exercício do poder, dos clientelismos e dos dinheiros públicos que são distribuídos a prestadores de serviços e construtores civis... Vivemos num sistema político em que aquilo que é público é visto como não sendo de ninguém, quando na realidade é de todos. E, se não é de ninguém... it is there for the taking!
Resulta, então, que os Senhores do Poder não respeitam a coisa pública e fazem dela o melhor lhes enche os bolsos e os egos. A lista de exemplos é longa.
Eis a questão: a coisa pública não é respeitada - a "res publica" não é respeitada. O devir da República e de sermos uma República neste país já não serve, perdeu o seu objectivo igualitário e, justamente, republicano. A República falhou no passado e falhou novamente: é a terceira vez que falha em cem anos de história. Podemos continuar a ser uma República?
O objectivo de uma República é promover a igualdade entre todos os cidadãos e promover a mobilidade social através do trabalho e do mérito, excluindo o berço como factor de estatuto social. Isso significa que aquele que for mais capaz e trabalhador, em princípio, pode chegar aos mais elevados lugares do Estado e ser Governante ou Chefe de Estado. Significa que os melhores, a nata da nata do regime republicano, aqueles que prestaram as mais duras provas e passaram ascendem aos lugares de responsabilidade e defesa dos seus cidadãos.
Mas a sedução do poder e do seu exercício é grande e as lutas políticas instalam-se. A excelência pessoal que a República pretende promover esgota-se rapidamente. Assim foi na crise da Primeira República. Assim foi no pós-25 de Abril. Assim é agora... A República promove quem é vira-casacas, quem atraiçoa o outro que é melhor que o medíocre que ambiociona mais o poder que o seu concorrente. O sistema é assim mesmo: debaixo da coberta de um funcionamento ideologicamente idóneo e legítimo esconde-se a corrupção que o mesmo permite por definição...
Guerra Junqueiro, homem da República, disse: "a República é um bacanal de percevejos num colchão podre." Décadas passaram sobre esta frase amarga. E o bacanal, depois do ascetismo de mentes-curtas do Estado Novo, recomeçou, aumentou de intensidade e o ruído tornou-se insuportável.
Assim, existe para mim um imperativo político: é necessário mudar o sistema. É necessário reconhecer o fiasco da República e reformar o Estado como o conhecemos. Num século de República não se conheceu mais do que caos institucional, ditadura, saque político, usura financeira e degeneração da moral do Estado. Tivémos bons momentos - mas nenhum de glória civilizacional.
Sou justo: é certo que os primeiros anos da República fizeram muito pela escolarização da Nação e para introduzir a nossa incipiente mentalidade democrática. Mas a República não soube ser República e limitou-se a sanear a Monarquia.
O país está pobre. As pessoas estão desmoralizadas. Sobretudo, as pessoas não se revêm nos seus representantes porque fantoches dos interesses corporativos não podem representar populações, eixos ideológicos.
Eu não sou Monárquico - digo-o claramente. Mas não posso ser Republicano. Não acredito que um Presidente da República possa representar uma Nação como um todo. Representa o seu partido. É, por isso, uma Figura Política e não uma Figura de Estado como é seu dever institucional. Um Rei ou Rainha - um Monarca Constitucional como no Reino Unido, Bélgica, Holanda, Luxemburgo (tecnicamente é um Grão-Duque...), Dinamarca, Suécia, Noruega e Espanha - pelo contrário, não são políticos. Não têm outro interesse que não o bem-estar objectivo dos seus súbditos. Podem, por vezes, falhar. Mas todos falhamos. Mais: o facto de ocuparem o lugar cimeiro do Estado e, sobretudo, da Nação a título vitalício dá-lhes a experiência como conselheiros que nunhum Presidente pode ter. Mais ainda: um Monarca é preparado para as suas funções de Estado desde jovem, o que faz com que conheça intimamente o tecido político e social do país. Numa República como a nossa, a preparação dos Governantes faz-se nas Juventudes Políticas que pouco mais são do que campos de treino de pirataria política com amplas sessões de prática na arte da facada-nas-costas...
Um Rei é rei não porque quer, porque ambiciona o poder, mas porque tradição e sucessão dinástica assim o determinam. Isso pode parecer ruinoso, mas há diversos mecanismos que impedem um mau Rei de reinar, garantindo a integridade da soberania do seu povo.
(Por exemplo, Eduardo VIII de Inglaterra não foi forçado a abdicar por causa do seu amor por uma mulher americana divorciada... isso é o conto de fadas. O Parlamento forçou a abdicação porque sabia que, se houvesse guerra (como se sabia que haveria) com a Alemanha Nazi, daria jeito ter um Rei que não fosse simpatizante da causa Nazi e que não defendesse um armistício à primeira oportunidade.)
Um Rei não representa apenas um povo, mas um Estado-Nação soberano, pertencendo a todos os cidadãos por igual e não apenas a um número restrito de eleitores partidariamente alinhados e que se dão ao trabalho de ir votar. Assim, o facto de o lugar estar indisponível para quem o queira é, em última análise, um garante democrático - o que parece ser um paradoxo. E, como paradoxo, é difícil de explicar... Mas as Monarquias Constitucionais, onde as encontramos, são símbolo de uma coisa única: estabilidade democrática e institucional e, sobretudo, um símbolo de dignidade - um pouco afectada e snob, mas sempre impecável, sempre... proper.
Em última análise, uma Monarquia Constitucional, promove a cultura democrática ao mais alto nível: porque existe sempre um lugar e uma pessoa que não é corruptível porque não responde a nenhum interesse que não ao interesse das gentes que se fazem ouvir pela sua Constituição.
Temo bem que tenha de ser realista. A Restauração da Monarquia em Portugal não é mais do que uma utopia. Mas se ao menos, face ao falhanço da República na sua prática neste país, pudéssemos experimentar dez anos de Monarquia Constitucional, só para ver se funciona. Talvez funcionasse... sobretudo se com a Restauração da Coroa viesse a tão necessária restauração da idoneidade, da honra, da palavra, do dever de bom serviço político... Não acho que seja possível a segunda sem a restauração da primeira.

fp

Aviso: celeuma política adiante!

O próximo texto que aqui vou escrever poderá gerar alguma celeuma.
O argumento que pretendo apresentar não se encontra verdadeiramente desenvolvido. Trata-se de uma amálgama sentimentos políticos e, consequentemente, apelo à sensibilidade e sentido crítico dos leitores para que procurem entender - como tolerantes e inteligentes que são - o meu raciocínio.
O que poderá ser uma provocação "tongue in cheek" não o é relamente. Considero que em Democracia e Liberdade e no espaço plural e livre que a blogoesfera nos providencia, a tolerância deve ser assegurada pelos utilizadores.
Considerem-se avisados!

fp

Rendas

Mr. Brown, sem querer com esta pergunta revelar a minha opinião sobre a(s) política(s) energética(s), haverá alguma forma de induzir incentivos à produção e à geração de energias ditas alternativas que não seja pelo incentivo directo e/ou pela co-subsidiação? Sendo que, neste ponto, estamos perante um problema de círculo vicioso, uma vez que a importação de petróleo e gás é o principal detonador do crónico défice comercial?

jtf

Uma comenda para o Sporting

Como Benfiquista, gosto muito do Sá Pinto, naturalmente - afinal, o homem fez aquilo que todo o benfiquista deste mundo gostaria de ter feito um dia. Adiante. Não deixa de ser muito engraçado ver o Sporting contratar para treinador um ex-jogador que se notabilizou menos pela qualidade do seu trabalho e mais pela qualidade da carga de lenha que aviou... a um treinador. O potencial esquizofrénico é imenso, e o humorístico, esse, rebenta a escala. Enfim, sentido de humor é do que precisamos, que a vida está difícil, a crise aperta e uma boa gargalhada pode não encher a carteira, mas alivia um bocadinho. Na manifesta incapacidade de competir pelo título, o Sporting optou por colocar as fichas todas na nobre tarefa de fazer rir Portugal. Admitamos que nesta competição é muito mais bem sucedido do que naquele desporto com bola e duas equipas de onze jogadores. Fica o apelo ao Presidente da República para que não deixe cair no esquecimento tão nobre esforço pelo riso nacional, e que no próximo dez de Junho agracie os verdes e brancos com a comenda regulamentar, e tão merecida. Sempre era um troféu - não salvaria decerto a época,  e muito menos salvaria a tesouraria, mas estamos em crise e a cavalo dado não se olha o dente.

john

13.2.12

Do Patriotismo






Alguém sabe se o fabrico daqueles pins da bandeira nacional que todos os membros do Governo ostentam, incluindo os assessores mais subterrâneos, foi por ajuste directo, por concurso público ou é um amigo do Relvas em Luanda que tem uma fabriqueta familiar?

jtf

A Democracia Moderna













Parece hoje mais ou menos claro que o chamado «problema grego» é bem mais prolixo do que poderia parecer às vistas menos previdentes. Mesmo para os adeptos da economia dita de mercado (informação simétrica, pontos de equilíbrio e equilibrios de Nash), a coboiada tem limites. Até porque a separação higiénica entre populações e mercados é uma infantil ilusão de óptica. Na altura do segundo take do pacote-de-resgate pareceu-me que a ideia de impor aos gregos uma solução sem que deles viesse o necessário consentimento seria o mesmo que pôr vários carros à frente do mesmo boi. É certo que os bois entretanto multiplicaram-se, mas na altura achou-se prudente (palavra deliciosa) não atulhar os mercados com excesso de informação que reflectisse a insolente vontade das massas; pois poderiam sucumbir à surpresa e temia-se que não resistissem ao desapontamento. Se alguma coisa a História nos pode ensinar (e não é pouco) é que as massas, mais ano menos ano, impõem-se. Pelo menos para aqueles para quem a democracia é uma condição e não uma variável.

Por outro lado, muitos dos truões do status-quo ainda não conseguiram articular um discurso coerente que sustente que animais vergastados pela purificante austeridade podem, no dia seguinte, reerguer-se e crescer como crescem os potros de corrida. Aqui é que a porca torce o rabo. É relativamente inquestionável que, num contexto para-federal com livre circulação, o fortalecimento do mercado interno é condição necessária para o equilíbrio primeiro e para o crescimento depois. Nesta equação a ordem dos factores é importante e ter-se começado pelo equilíbrio orçamental à bruta foi uma opção, não foi uma inevitabilidade.

jtf

10.2.12

Lei de Godwin

Depois do último Prova dos 9, houve muito quem se tivesse entretido a comer caracóis nas trincheiras obscuras do situacionismo. Imprudentemente, alguns foliões derivaram a Lei de Godwin com o prazer dos deslumbrados de mãos, de olhos e de cheiros. Dizem que Mike Godwin postulou o seguinte em 1990: 

«À medida que cresce uma discussão online, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou nazismo aproxima-se de um (100%).»

Em Portugal, sobretudo antes de voltarmos a viver como vivem os histriões de corso, à medida que uma discussão sobre de tom, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo o Estado Novo e Salazar é igual à de um acontecimento certo.

jtf

Serviço Público



































jtf

Ângelo de Sousa (1938-2011)




















jtf

O Sol quando nasce não é para todos 2

9.2.12

Perĭplu-

7.2.12

Boas-vindas

Dou as boas-vindas ao Sérgio Pinto, que integrará o elenco do Jardim. O Sérgio é economista, de esquerda, e emigrante nos EUA onde estuda matérias relacionadas com o Desenvolvimento Internacional na Maryland School of Public Policy. O Sérgio, com o talento argumentativo que o caracteriza, vai dar ao Jardim ecletismo e combatividade. Um abraço, Sérgio.

jtf

Da vida iremos/Tranquilos



Fernando Pessoa: Plural como o universo, Fundação Calouste Gulbenkian a partir de 10 de Fevereiro.

jtf

Passo a Passo










Era enterrá-lo na praia da fonte-da-telha, só com a cabecinha de fora, todo o corpo submerso pelo areal. Depois pontapear-lhe a cabeça com o vigor que só está ao alcance de sublimes coices como eram os do Bynia. Até ficar em papa-ceralac. E, se ele se queixar muito, dir-lhe-emos: «deixa lá de ser piegas».

P.S.: «Há gente que devia ser largada sozinha na selva, só para os vermos cagar-se de medo até às orelhas.» 

Adenda: Todos insultámos Sócrates porque este mentia aos portugueses todos os dias, fazendo-os crer que eram os maiores e que tudo estava bem. Passos Coelho mente aos portugueses insultando-os, o que é apenas uma mudança na ordem dos factores.

jtf

6.2.12

O Jubileu de Diamante

Hoje começam as celebrações do Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II do Reino Unido.
Contam-se 60 anos de reinado que atravessa os governos de 12 Primeiros Ministros, incontáveis deputados e lordes nas duas câmaras do Parlamento, milhões de quilómetros em visitas oficiais e, certamente, centenas de quilómetros em passeios pelos jardins do palácio a ouvir e a aconselhar os governantes do reino.
Política e ideologia à parte, creio ser unânime a visão de Sua Majestade Britânica como uma figura de inegável estabilidade e "common sense", marcada pela dignidade silenciosa que a coroa e a educação própria lhe conferem. Certamente que cumpre bem as funções de representante do reino. Não se conhecem, pelo menos, quaisquer comentários em que ela tenha aludido ao facto de ter que fazer uso da reforma do Duque de Edimburgo para pagar as despesas... Não se conhece nenhum momento público em que as pessoas se tenham sentido genuinamente ofendidas ou gozadas num tempo de extrema necessidade.
Eu sou parcial... sou uma espécie de estranho cidadão que é feito não de tecidos humanos, mas de tweed e tabaco de cachimbo e paineis de mogno. Nas minhas veias não corre sangue, mas sim puro malte das terras altas. E se eu fosse um cão seria um Border Collie...
Por isso, se me permitem um pouco de heresia em contexto republicano... God save the Queen!

fp

5.2.12

Surpresas pouco surpreendentes

Parece que a indignação da semana é contra o fim da tolerância de ponto do Carnaval. Não percebo a surpresa. O Governo - bem ou mal, não é  isso que está aqui em causa - suspendeu quatro feriados nacionais, qualquer um deles bem mais relevante que o Entrudo; esperavam que o Carnaval - que nem feriado é - fosse poupado?

Decididamente, este país é de doidos.

john

Pequeno momento de publicidade

Ao Viagem a Andrómeda, o meu blogue sobre fantasia e ficção científica.

john

4.2.12

Este não sou eu!

Estava a fazer uma narcisística pesquisa Google com o meu nome e descobri um homónimo bloguista no Brasil. Para que não surjam confusões, informo que o autor deste blogue...

http://blogdofranciscopessanha.blogspot.com/


...não sou eu!

Mas é uma extraordinária coincidência.

fp

3.2.12

Constatações (IV) - A minha Europa

Há cerca de um ano e pouco atrás eu estava a viver em Bruxelas; estava na recta final de um estágio INOV-Art promovido pela DG Artes e pelo, entretanto, extinto Ministério da Cultura. A sorte ditou que a minha companheira estivesse igualmente em Bruxelas a fazer um ano lectivo ao abrigo do Programa Erasmus.
Aproximava-se o Natal e um amigo nosso, na casa que partilhava com outros estudantes Erasmus, decidiu organizar um jantar de Natal e reunir amigos e conhecidos com os quais se haviam já partilhado  experiências, copos e noitadas de trabalho nos ateliers da Faculdade de Arquitectura.
Para a maioria dos presentes tratou-se de uma oportunidade de convívio, diversão e um copo a mais. Para mim foi uma autêntica epifania.
A minha cada vez mais aguda consciência política - e por política entendo a compreensão das necessidades e fenómenos da nossa sociedade - não permitiu que fosse outra coisa: uma epifania.
Fala-se por vezes daqueles “life changing events” como sendo coisas grandes, sérias, cataclísmicas. Fala-se desses acontecimentos como sendo, possivelmente, momentos de enorme felicidade pessoal. Mas são sempre coisas grandes nas suas proporções. Não são - pelo menos para mim. Esses momentos são o colocar simbólico, no seu lugar, de uma derradeira peça de um dos diversos puzzles que, com esforço e sacrifício, vamos completando ao longo do nosso tempo. E, para mim, essa noite foi um desses raros “life changing events”.
O que eu vi na apertada cozinha comunitária de uma casa perto da Place du Châtelain em Bruxelas foi extraordinário. Num mesmo espaço, numa mesma noite, espanhóis, belgas, franceses, alemães, portugueses, irlandeses, italianos e romenos. Todos da mesma idade. Todos a falar uma mesma língua franca que, no caso (e contrariamente ao habitual inglês) era o francês. Todos com os mesmos ensejos, angústias, medos futuros e esperanças. Todos com o mesmo desejo de um mundo melhor, mais justo e até mais simples. Todos a partilhar pequenos pedaços da sua cultura, a contar as suas tradições natalícias e a rir do quão insólito é verificar que fazemos todos as mesmas coisas nesta ocasião transversal aos nossos calendários e que atravessa as tradições religiosas particulares a cada Estado. Católico ou Protestante, o Natal existe porque é seminal da nossa tradição Cristã. Difere o que se come na ceia de Natal - mas cantamos o mesmo, rimos o mesmo, juntamos a família à mesa da mesma forma. Temos muito mais a unir-nos do que a separar-nos.
Foi aí que eu percebi a verdadeira dimensão do ideal Europeu concebido por Robert Schuman nos idos de 1950: criar uma comunidade de Europeus, unidos na diferença, empenhados na democracia e na cooperação, determinados a banir a guerra dos nossos horizontes políticos e sociais a tal ponto que a guerra seja não só impensável como materialmente impossível. O que Schuman não viu nesse jantar de Natal foi o verdadeiro sucesso das suas ideias no plano onde a política partidária se esfuma e torna irrelevante e a verdadeira política - aquela que vem de polis - se materializa. A minha geração é uma “Geração Europa” que tem a guerra como um pesadelo histórico tão distante que se tornou absurdo. A minha geração é - se nos permitirem - a geração que sedimentará a paz duradoura na Europa porque, entrincheirada nas lamas de uma batalha, se recusará a disparar para o outro lado. Porque um soldado não saberá, com certeza, que não estará a abater um amigo.
Porém, a minha geração não tem o poder na Europa. Somos peões quase sem valor e sem destino ou esperança e assistimos impotentes aos altos círculos de governança a decidir em função de interesses pessoais, partidários e económicos todos eles cartelizados e, como tal, alheios à realidade da vida de 500 milhões de cidadãos. A geração do poder não está a agir em função do bem comum de todos os cidadãos.
A geração do poder parece pouco preocupada com os interesses gerais dos cidadãos - é mais importante a sobrevivência de um banco do que a sobrevivência de uma família; é mais importante um Estado pagar as suas dívidas com juros astronómicos do que criar um sistema que impeça a necessidade de uma família se endividar para colocar o sustento na sua mesa... É mais importante que os lucros brutos se mantenham em níveis obscenos do que providenciar condições para que as pessoas consigam manter os seus direitos laborais ou, até mesmo, para que as pessoas consigam encontrar um emprego que esteja de acordo com os seus níveis de formação académica.
Os nossos representantes eleitos não estão minimamente preocupados com o bem-estar dos seus eleitores. Porque os cidadãos são isso mesmo: eleitores de vez em quando e contribuintes sempre... a noção de cidadania é um detalhe superfluo, é uma coisa de importância menor na democracia moderna. E na Europa - na Europa em que acredito - as ideias de defesa dos cidadãos, de paz duradoura, de sustentabilidade económica das nações, eo progresso das condições de vida e empregabilidade estão completamente obstruídas pela ganância dos interesses corporativos.
A ganância é um defeito muito grave. E se os contos infantis nos ensinam alguma coisa é isso mesmo... o ganancioso e o avarento pagam sempre a conta no final. Mas isso é nos contos infantis - na vida política a ganância, a avareza e a irresponsabilidade dos "players" dominantes oneram os inocentes e não os prevaricadores. E essa não é a minha Europa - nem tampouco a Europa de Robert Schuman.

A pergunta, enfim, é: como é que, partindo da visão de Schuman e passando pela situação que narrei (com contornos de epifania) chegámos a esta coisa extraordinária que é pouco mais que o triunfo da ganância, da avareza, da irresponsabilidade e da crueldade governativa. Como é que chegámos a este estado de coisas em que a incompetência e a irresponsabilidade são aplaudidas e premiadas e a competência e o trabalho são, se não efectivamente punidos, enxovalhados e desvalorizados?

fp

Resgate















Neste quadro incubatório, a importância dos conceitos e das palavras na política portuguesa ganha dimensões que não tinha desde o período revolucionário. O Governo tem repetido a várias vozes aquilo que só na aparência pode parecer descabido: não haverá «segundo pedido de resgate à República Portuguesa». Tem-se, nas diversas praças públicas, centrado a conversa à volta da sub-expressão «segundo resgate» quando, mais cedo que tarde, se verá que a palavra chave aqui é: «pedido». A República Portuguesa irá, sem margem para grandes tretas e sem gás lacrimogéneo pelo meio, ter um segundo plano de assistência económica e financeira em 2013, mas não seremos nós a pedi-lo. O que pode ser bom ou mau sinal; a-ver-vamos.

jtf

2.2.12

Um Ferrari sem combustível...

Há uns meses atrás, quando estava a concluir a minha Pós-graduação em Estudos Europeus tive a oportunidade de travar conhecimento com um colega Brasileiro que tinha vindo para Portugal para fazer esse curso.
Enquanto esperávamos a nossa vez para sermos trucidados numa das provas orais da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra entabulámos alguma conversa. Falámos de Portugal e da sua situação financeira e económica, falámos do Brasil e da sua situação económica e financeira. Falámos das famosas "anedotas de Português" de que os Brasileiros tanto gostam por escarnecerem do seu antigo colonizador - este meu colega e amigo disse que abominava as anedotas de Português. Disse que eram injustas e que, pura e simplesmente, não tinham piada. É que para uma anedota ter piada tem que cumprir um de dois requisitos:
1) ser uma proposição absurda, "nonsensical" como dizem os nossos amigos anglo-saxónicos ou
2) ter um fundo de verdade, ter algo de concreto que possa ser alvo de escárnio - normalmente construtivo, para que o humor tenha sentido de humor...
Contou-me que, na altura da Páscoa, tinha regressado ao Brasil e que um amigo lhe pediu para, em trinta segundos e não mais, resumir Portugal. Ele disse que não precisava de tanto, que cinco segundos bastariam: "Portugal é um Ferrari sem combustível", disse ele.
E explicou: somos um país da Europa ocidental, culto, civilizado, com um património histórico e cultural notável. Temos estruturas básicas que na maior parte do Brasil não passam de um sonho. Somos gentis e educados, passando o tempo a dizer "com licença" e "desculpe" e "faz favor". Temos Universidades de grande nível na Europa. Temos um potencial económico notável e somos corajosos, hábeis, ordeiros e trabalhadores. Somos verdadeiramente civilizados.
Em suma: somos construídos à mão, somos vermelhos e estofados com o mais fino cabedal; debaixo do capot temos um motor V12 sofisticado e que faz um barulho que se assemelha mais a uma trombeta do juízo final do que a outra coisa. Mas não temos combustível...
A questão é: para onde foi esse combustível? Quem nos roubou a gasolina essencial para que consigamos fazer o nosso "grand tour"? E se queremos colocar de lado essas questões mesquinhas de querer saber quem foi... porque não conseguimos arranjar a gasolina de que precisamos?
Mas um Ferrari sem combustível, podemos argumentar, sempre tem o valor estético e intrínseco de ser uma obra de engenharia e arte.
O que está a acontecer é assustador: o Ferrari está a ser desmantelado e a ser vendido às peças para financiar os Ladas, os Yugos e os Simcas - enfim, veículos construídos de forma inferior e de qualidade duvidosa - que constituem os círculos de poder neste país. Ou garagem... já me perdi na metáfora.
A questão é simples: Portugal tem o potencial para ser um país fantástico. Mas o potencial está a ser desperdiçado. Mais que isso, o potencial está a ser e tem sido suprimido pela sucessão de Governos da República que temos tido desde há muito tempo.
É uma pena...

fp

1.2.12

O Relato de um País em Chamas

Estamos todos mais ou menos rotinados na definição de traços identitários a Portugal. Em cada um dos elementos deste limitado círculo de interlocução mora um sociólogo, que só não o é «em potência» porque já foi potenciado desde a partida do Gama no sec. XV. Invariavelmente os problemas da corrupção e do tráfico de influências deambulam pelas análises, opiniões, pela rua. Enchemos a boca com casos próximos e distantes, apontamos os dedos, zurzimos moralidade.
Eu, pecador, me confesso.
Nos auditórios das faculdades de direito evoca-se, usualmente, aquilo a que se convencionou chamar «fontes de direito» para definir a proveniência dos normativos. Subjacente está a definição daquilo que é «normal» por oposição à excepção; da maioria que arquitecta o cânone-de-comportamento e dos marginais pirómanos da paz social. Nós e os outros. Entre estas fontes conta-se o Costume, designado tradicionalmente como o conjunto de regras sociais resultantes de uma prática reiterada, perene, generalizada e prolongada que provém de uma certa convicção colectiva de obrigatoriedade, um imperativo tácito, de acordo com a cultura de cada sociedade e  de cada povo. Ora, a existência deste padrão moral tem implícita a origem numa maioria que se opõe à minoria desviante. Bem sei que não se pode falar propriamente no Costume (ou nos Costumes) como fonte imediata de incriminação, porque estar-se-ia desse modo a romper o princípio da representatividade política (e parlamentar) e a reserva da lei formal; mas, numa visão menos rigorosa e mais social-civilizacional, pensar no(s) Costume(s) como progenitor(es) do direito lato sensu, é pensar sobretudo numa fonte secundária dele próprio, como se convencionou chamar-lhe na academia. Assim, e no caso português, em crimes genericamente relacionados com a corrupção, este princípio geral de origem, aplicado aqui de forma grosseira, dissolve-se algures antes de tomar verdadeira forma. Em teoria, dever-se-ia conseguir identificar claramente um padrão moral maioritário que condenasse a delinquência geral e concreta de casos aqui enquadráveis. Algum empirismo desmente facilmente a existência deste padrão, no emaranhado de relações perversas entre os homens e o poder, público ou privado. Neste sentido, existe uma relativa artificialidade na essência de um ordenamento jurídico castrador desses comportamentos já que aquilo a que os juristas chamam «consciência da ilicitude» é aqui um conceito sem substância, sem enchimento, desprovido de matéria e de corpo. Há, digamos, um vício de concepção que aborta a eficácia dos imperativos, daquilo que se poderia entender como regular ou normal, prática que em contraste releva os comportamentos ditos marginais ou transgressores do contrato social. A realidade social portuguesa põe simultaneamente em causa o princípio da prevenção geral da teoria dos fins das penas*, segundo o qual uma das finalidades do direito penal é a dissuasão de ilícitos futuros, fazendo com que a sociedade pressinta a vigência efectiva da norma, medindo-lhe o nível de implacabilidade potencial, uma nuvem que paira e que condiciona a acção. Resumidamente, a cultura instalada de pequena-corrupção e de tráfico de influências quotidiano constitui-se como uma fonte latente de direito não-escrito e invertido, que subverte a aplicação sã da teoria da prevenção. Transforma-se, de uma certa e adulterada forma, um comportamento intrinsecamente contra-social numa prática quotidiana reiterada, constante e aconchegada nas idiossincrasias mais profundas; sem  que exista uma consciência colectiva de ilicitude material, revezando-se a pura relação entre uma maioria que origina o «Costume» e uma minoria que profana a moral abstracta consagrada.

jtf
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*«(...) prevenção positiva ou de integração, isto é, de reforço da consciência jurídica comunitária e do seu sentimento de segurança face à violação da norma ocorrida: em suma, como estabilização contrafáctica das expectativas comunitárias na validade e vigência da norma ‘infringida’» – cf. Figueiredo Dias, As Consequências Jurídicas do Crime;
(i) Quaisquer deficiências jurídicas são da responsabilidade do autor e devem-se ao arriscado exercício de meter a foice em seara alheia: a minha horta é outra. Agradecem-se, por isso, correcções.

«O inverno, ou o inferno, do nosso descontentamento».

Estado de Direito e Direitos adquiridos, por José Medeiros Ferreira no Córtex Frontal.

jtf