29.1.09

A nova época de caça


e parece ser deveras interessante





fs

espelhos e reflexos #12

É de admitir a conflitualidade inerente a todos os nomes. Não carregam uma infinitésima parte do que somos. Os piores adornos com que poderíamos ter decorado a nossa existência. E ainda haver pessoas a pensar que essas palavras nos definem.
Somem todos os nomes dos homens à face da terra que o seu resultado só poderá ser um.
Deus.


fs

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28.1.09

No fundo, isto é uma conspiração para me fazerem voltar a comprar CDs.

Avisem quando isto estiver disponível na Fnac, sff.

john

Chop Suey!

Parece que há chapelada em curso nas votações para o Festival da Canção. E parece que quem está a beneficiar com isso é a inefável Luciana Abreu. Não quero com isto dizer que a menina seja responsável por isso, atenção. Mas coisas destas promovidas por votações telefónicas/electrónicas tem sempre um resultado: não ganha o melhor candidato, mas sim aquele que consegue reúnir mais gente idiota ao ponto de estorrar rios de dinheiro em telefone ou sms para votar. Adiante. Portugal corre o risco de se fazer representar no Festival da Canção com a Luciana Abreu. Isto é dramático, quase tão dramático como Sócrates voltar a ter a maioria absoluta. Não que o festival tenha alguma importância, porque não tem - excepto, claro para Eládio Clímaco, o mítico apresentador com nome de medicamento, que assim faz a sua aparição anual na televisão. Não lhe basta o nome, e ainda tem de torcer pela "Lucy"? Pergunto-me o que terá o senhor feito na vida anterior.

Humildemente, acho que devíamos mandar os Moonspell. Sem brincadeiras. Para já, porque são mais conhecidos no Leste Europeu e na Escandinávia do que por cá, o que, com sorte, faria com que muita malta daquelas paragens votasse em nós (a França, claro, não votaria, mas os sacanas dos franceses nunca votam em nós de qualquer maneira). E depois porque, no meio das músiquinhas típicas de Eurovisão, ao menos ficaríamos na memória do público europeu pelo contraste. Se fosse para uma participação que não fugisse tanto á regra, podíamos enviar, sei lá, a Rita Redshoes, que a moça certamente se saíria bem. Alternativamente, os Blasted Mechanism ou os Primitive Reason garantir-nos-iam um espectáculo diferente e cheio de energia. Mas os Moonspell seriam, de longe, os melhores candidatos. Com o Fernando Ribeiro e os seus companheiros, atrevo-me a dizer que o prémio seria ganho tranquilamente (lembram-se dos Lordi, em 1996? Pois. O heavy-metal mandou a taça para a Finlândia).

De resto, há rumores de que a Arménia vai concorrer com os System of a Down. Sim, os System of a Down. Acham mesmo que a Luciana, com as suas cançõezinhas da *acrescentar adjectivo adequado*, tem alguma hipótese contra os autores de músicas como Chop Suey! ou Toxicity? Ganhem juízo, e dêem ao público português a oportunidade de vermos o Eládio Clímaco a vestir uma camisola dos Moonspell enquanto abana o capacete em directo.

john

27.1.09

Abrir buracos.

É sempre divertido quando acontece: estamos a conversar com alguém, e a conversa salta, sem que o nosso interlocutor saiba, para algo que nos é querido. Qualquer coisa. Começa-se a falar de música, de cinema, de profissões, marcas de chocolate, enfim, estão a perceber a ideia. E a pessoa com quem falamos começa subitamente a falar do tal subtópico que nos é querido. A nossa banda preferida. O nosso filme preferido. A profissão da nossa mãe ou do nosso pai (ou mesmo a nossa). Vêm-me à memória dois casos. Um em que uma grande amiga minha começou numa autêntica killing spree verbal contra a profissão do meu pai. Com um entusiasmo extraordinário. Tratou-os a todos de cabrões para baixo. E eu ouvi, e sorria pacificamente. Quando ela finalmente parou para recuperar o fôlego, disse-lhe apenas "o meu pai é ....". A cara da pobre rapariga foi inesquecível - estivéssemos nós num campo de terra, e ela teria escavado um buraco até à Nova Zelândia com as mãos. O outro caso foi numa conversa com uma amiga sobre música, quando ela disse, de forma um pouco mais brusca, que só atrasados mentais poderiam gostar da música da minha banda preferida. Ao que respondi "são a minha banda preferida sabes". E fez-se um silêncio extremamente embaraçoso para ela, e extremamente divertido para mim. E assim se aprende uma lição: cuidado antes de dizer mal de alguma coisa. Às vezes essa coisa vinga-se mesmo sem o saber.

john

A actriz e a gaja boa

Imensa gente está agora rendida à actriz Angelina Jolie, por oposição à gaja boa Angelina Jolie, devido ao seu desempenho no filme The Changeling (A Troca), de Clint Eastwood. Mas foi preciso chegarmos a 2009 para lhe dar crédito enquanto actriz? A sério, nunca ninguém viu o Girl, Interrupted (Vidas Interrompidas)?

john

Das conversas na web 2.0

Não consigo compreender porque as conversas pela internet - mais concretamente, através de aplicações de instant messaging como o MSN Messenger, o Google Talk, o Windows Live, etc. - não seguem as mesmas regras que regem as conversas presenciais e conversas mediadas por outras tecnologias (como o telefone ou o telemóvel). Abrimos uma janela de conversação e começamos a falar com alguém - ou alguém começa a falar connosco. Isto é (ou devia ser) o equivalente a um olá, como estás? na rua, ou a um estou sim? ao telefone. E, até certo ponto, é. A diferença surge, sim, no fim da conversa, que em instant messaging é muitas vezes imperceptível. Quero com isto dizer o seguinte: se estamos a falar presencialmente com alguém, não viramos costas num momento e vamos embora, em silêncio, deixando o nosso interlocutor sozinho. Se tivermos de ir embora, despedimo-nos - mesmo que tenhamos de inventar uma desculpa (a mentira é, afinal, uma necessidade da vida social). Se a conversa for por telefone, não desligamos o telefone na cara da pessoa com quem falamos. Despedimo-nos. Por mais curta e apressada que seja a despedida, ela existe. Num caso e noutro. E porquê? Porque se alguém abdica disso, nós, enquanto interlocutores, sentimos que isso é grosseiro, uma falta de respeito, de educação. Mas damo-nos ao luxo de abandonar conversas pela Internet por motivo nenhum. Deixamos o computador, e não nos dignamos de dizer um simples tenho de ir, falamos depois. E é tão simples fazê-lo, e não deixar assim a pessoa com quem falamos suspensa numa janela de conversação, à espera de uma resposta que não vai chegar. Não compreendo. Juro que não compreendo porque é que esta prática está tão banalizada. Mas qualquer dia começarei a fazer o mesmo em conversas presenciais, ou por telefone. Só porque posso.

john

Fala quem sabe

E foi curioso descobrir este pequeno texto de J.K. Rowling no seu site oficial. A tradução é minha.

Não é segredo que, na minha opinião, o melhor sítio para se escrever é um café: não temos de fazer o nosso próprio café, não nos sentimos demasiado solitários enquanto trabalhamos e, quando a inspiração falha, podemos sair, dar uma volta e ir até ao próximo café enquanto as nossas baterias recarregam. Para mim, o melhor café para se escrever é aquele que tem gente suficiente para que nos consigamos misturar e passar desapercebidos, mas não com demasiada gente, ou acabaremos a dividir a mesa com alguém que tentará ler o capítulo 20 ao contrário. Também é importante que o café tenha empregados que não nos olhem com desdém se por lá ficarmos muito tempo (hoje em dia, porém, posso dar-me ao luxo de estar constantemente a pedir cafés, ainda que não os beba, pelo que isso deixou de ser problema), e que não tenha música demasiado alta. Esse é mesmo o único ruído que me incomoda enquanto escrevo.

Assino por baixo. E creio ser tempo de tentar descobrir um café simpático onde possa passar as minhas tardes de fim-de-semana a produzir qualquer coisinha. Aceitam-se sugestões. 

john

26.1.09

Projecto a curto, médio e longo prazo

Humanos, Quero é Viver, ao vivo no Coliseu dos Recreios





fs

Eu não sou eu, sou o outro

Aprendi que olhar bem para os olhos de outra pessoa poderá ser uma acção arriscada para indivíduos menos prevenidos como eu. Há dias, enquanto falava com uma das mulheres mais interessantes que já conheci, atrevi-me a inspeccionar os seus olhos. Mal meu que deveria ter ficado quieto, não pela revelação óbvia que me assomou ao estacar-me naqueles olhos de mel, mas porque poderia assim evitar mais uns anos (quem sabe?) a realidade inadiável, seriam mais uns anos de ilusão tão benéfica para inibir a minha cada vez maior visão misantrópica do que me rodeia e que me tem agoniado socialmente.
O que eu vi naqueles olhos de mel? Tão-somente a confirmação de que nunca me vou sentir realizado, de que a minha acérrima posição relativista e desenquadramento perante os cânones de vida sociável me levará a um sufoco existencial de bradar aos céus, mais ainda porque já envelheci totalmente, não o avanço do tempo no corpo (o aumento da entropia não nos deixará escapar) mas a ideia de mim. Tenho a límpida noção que envelheci totalmente aos quinze anos, altura em que novas leituras e filosofias me fizeram nascer (ou morrer) para o mundo.


Hoje tive um exame da faculdade que me correu bem. Em contraste com os sorrisos dos meus colegas, eu dificilmente resisto em manifestar o meu generalizado desânimo perante a universidade, apesar de estar num curso que me completa e agrada. Olho para eles e sorrio da minha figura. Pobres deles que não sabem o velho que sou.


fs

Dos dilemas morais.

E poucas coisas são tão difíceis como um dilema moral. Como esta em que me encontro, por exemplo: durante mais tempo do que devia, alguém andou, passe a expressão, a foder-me o juízo. Por inércia, note-se. Mas eis que numa manhã de Inverno acordo com a solução perfeita desenhada na minha mente. Problema resolvido: acabam-se os dias de frio negrume. Com essa solução, porém, surge também a oportunidade de vingança, de concretizar - também por inércia, que a ironia ainda é o que era - uma retribuição não de todo desmerecida. Mas eis que surge a dúvida: aproveitar a oportunidade para uma pequena vendetta, ou mostrar o carácter que durante tanto tempo andou em falta noutras paragens?

...

Isto é bem capaz de ir lá com moeda-ao-ar.

john

25.1.09

Dos génios: Joana Vasconcelos


Dorathy 2007

jtf

23.1.09

Humor

João, se puderes (e se não te opuseres, claro!), acrescenta os blogues Aurea Mediocritas e Sinusite Crónica ali à nossa lista de links. E, claro, dá (dêem) uma vista de olhos a ambos, que valem bem a pena.

john

22.1.09

Corrente

Esta é uma daquelas correntes que agora anda na moda na blogosfera. Como o nosso jardim é muito pouco conhecido na bloga nacional (apesar de termos link no sempre interessante Combustões - João, quando puderes... link ali ao lado, sff), não posso estar à espera que uma coisa destas cá chegue para nos entretermos, pelo que me aproprio descaradamente de uma.


Uma banda? Muse
1 - Homem ou mulher? Knight(s) of Cydonia.
2 - Descreve-te: Citizen erased.
3 - O que pensam de mim?
Megalomania.
4 - Como descreves o teu último relacionamento? Showbiz.
5 - Descreve o estado actual da tua relação: Uno.
6 - Onde querias estar agora? City of delusion.
7 - O que pensas do amor? Supermassive black hole.
8 - Como é a tua vida?
Time is running out.
9 - O que pedirias se pudesses ter só um desejo?
Apocalypse please.
10 - Escreve uma frase sábia:
Hate this and I'll love you.


Nota: era para ter feito com os Radiohead, mas, que diabo, os títulos de Muse parecem ter sido feitos mesmo à medida.


Passo o desafio aos camaradas de blogue João e Fábio, à Nomyia e à menina Chatterley. Vá lá, surpreendam-me.


john

A/C de quem quiser passar a controlar aquilo que comemos:

No fim de semana fui à terra. Três horas de viagem no regional que sai do Barreiro rumo a Faro para duas noites de sono sem pressa e refeições que, por mais apressadas que sejam, são sempre fabulosas. Voltei para Lisboa no domingo e, entre a bagagem, vinha o seguinte:

Uma linguiça e um chouriço, feitos artesanalmente pelos meus pais com as entranhas, a carne e o sangue do porco que eles compraram numa criação lá da zona, e que mataram eles mesmos;

Um tupperware (adoro esta palavra, como se traduz? taparuéro?) cheio de piques de carne do mesmo porco, devidamente conservados naquela banha cor de laranja deliciosa quando barrada no pão;

Outro tupperware, este mais pequeno, cheio de púcaras fritas. Tradução: um cogumelo que aparece lá na zona no Outono/Inverno, e que é uma delícia frito.

Um pão alentejano, de domingo, e que ao dia de hoje, quinta-feira, continua melhor do que qualquer pão feito nesta cidade. E deve ter mais sal que massa.

Como fazer um banquete: fatias de pão alentejano barradas com a banha de porco, acompanhadas por chouriço cru, linguiça assada em aguardente (ou em etanol), púcaras fritas e piques de carne. Junte um bom vinho tinto, desde que seja alentejano (qualquer coisa de Pias cai ali que nem ginjas, mas um Borba tinto tem uma relação qualidade-preço muito boa). Se arranjar máquina fotográfica, deixar-vos-ei aqui fotografias. Só não mostrem aos burocratas de S. Bento, nem a um nutricionista. Não quero matar ninguém de susto.

john

A educação portuguesa devia incluir um estágio em Inglaterra.

Sim, um estágio. De Inverno. Em Londres, Manchester, Leeds, Bristol, enfim, em qualquer cidade britânica. A cada português seria dado apenas um guarda-chuva. O objectivo do estágio seria andar a pé pela cidade durante alguns dias, enquanto chovesse. Caso conseguisse não ser linchado em praça pública, então ser-lhe-ia concedida a cidadania nacional.

Digo isto porque é evidente que os portugueses - ou pelo menos os lisboetas - não sabem utilizar um guarda-chuva. Para o português, é simples: chega-se à ombreira da porta do prédio e está a chover, logo, abre-se o guarda-chuva sem qualquer cuidado por quem possa estar naquele momento a passar. E esse guarda chuva, como é bom de ver, tem necessariamente de ter algumas características especiais. Em primeiro lugar, tem de ser grande, tão grande quanto possível - de tamanho suficiente para caber lá debaixo uma turma inteira das Novas Oportunidades e, claro para ocupar o passeio desde o limite do prédio ao limite dos carros estacionados (por norma também em cima do passeio). E depois, convém que o guarda-chuva tenha varetas salientes nas extremidades. E nada de protecções plásticas: metal é que se quer, e quando mais aguçado e ferrugento, melhor. Porque assim serve dois propósitos: pode pinga água para cima de toda a gente que passa e, com jeitinho, ainda coloca o sacana daquele transeunte que não se desviou como devia a sangrar, ou à procura do olho na calha do passeio.

Durante a caminhada à chuva, qualquer português conhece as regras básicas: nunca desviar o guarda-chuva para cima ou para os lados, para permitir que outra pessoa com guarda-chuva passe; parar exactamente no meio do passeio, de preferência com o dito guarda-chuva aberto e inclinado, de forma a impedir a visão de quem passa - pois assim essa pessoa tem de espremer, ou contra goteiras e algerozes, ou contra a estrada propriamente dita, onde se arrisca a levar um banho dos carros que passam; se vir alguém a caminhar na mesma direcção, mas sem guarda-chuva (portanto, a molhar-se), há que abrandar o passo e colocar-se exactamente ao centro do passeio, para dificultar a passagem tanto quanto possível.

Como é que se safam os ingleses lá nas ilhas Britânicas? Acreditem que gostava mesmo muito de saber.

john

Mas desde quando é que em Portugal alguém se responsabiliza por alguma coisa?

Timothy Geithner, antigo presidente da Reserva Federal de Nova Iorque e agora Secretário do Tesouro da administração Obama, entrou no seu cargo com um pedido de desculpas públicas. Motivo? Uma dívida à Segurança Social e ao Medicare no valor aproximado de trinta e quatro mil dólares. Já tinha lido isto algures, mas o que cito é do blogue Da Literatura, onde Eduardo Pitta pergunta como seria se isto tivesse acontecido a um ministro de Sócrates.

Muito simples: não se passaria nada. Não haveria desculpas públicas, nem sequer um esclarecimento oficial. Muito provavelmente, nem a Assembleia da República pediria esclarecimentos sobre o caso (a bancada parlamentar do PS certamente que não o faria). Como se viu, por exemplo, no célebre episódio da licenciatura, o caso acabaria por cair no esquecimento, abafado por uma cortina de fumo e, na sombra, por alguma pressão aos jornais que divulgassem o caso. Alternativamente, teríamos a oportunidade de ver mais uma sessão de humilhação pública como a de Mário Lino aquando da decisão de Alcochete para o futuro aeroporto. Ou seja, veríamos o ministro incumpridor sentado ao lado de Sócrates como um aluno da primária de castigo, enquanto o nosso primeiro desvalorizaria, na sua linguagem técnica. De qualquer maneira, o caso morria ali. Disso não tenho grandes dúvidas.

john

Existem em mim cada vez mais dias plenos de alçapões

(e aí nem os placebos me salvam, camarada João)



fs

21.1.09

E assim se consomem placebos para a tesão há milénios.

As coisas que se aprendem quando se tem de fazer uma peça de duas páginas sobre o dia dos namorados. E note-se aqui a ironia da coisa: eu a escrever sobre o dia dos namorados. Cinco mil caracteres. Parece fácil, não parece? Dentro da área na qual trabalho, o tema esgota-se, vá, em dois mil, três mil com muitos floreados, quatro mil com um enchimento de chouriços absolutamente descarado. Adiante. Escrever sobre um tema que se detesta pode ser um pincel desgraçado, mas tem também algumas vantagens. É uma óptima fonte de lamentações. Permite meter conversa com as pessoas mais improváveis, na (muitas vezes vã) esperança de que elas nos possam dar uma ideia brilhante. E obriga a (mais) pesquisa. Como hoje em dia as pesquisas passam invariavelmente pela Internet (hello, Google), e como as pesquisas na Internet dão milhares de resultados com poucas coisas realmente importantes para o trabalho em causa, acaba-se sempre por se ler um monte de coisas inúteis - e por vezes, muito divertidas. Por exemplo, descobri algumas coisas curiosas sobre o movimento antivalentine (pesquisar na Wikipedia ou no Google, para começar, que estou preguiçoso para encaixar aqui hiperligações). E aprendi (?) que, aparentemente, não existe um consenso quanto às supostas qualidades afrodisíacas de alguns alimentos. Dito de outra forma: é possível que os alimentos vulgarmente considerados afrodisíacos, fontes de líbido ingerível, afinal não aumentam o desejo ou o desejo sexual - quando muito, mandam o colesterol para a estratosfera, e isto se formos com sorte. Gostaria de mais esclarecimentos sobre a matéria, a título de curiosidade. Mas diverte-me pensar que séculos e séculos de alimentos mágicos para a tusa possam ser simples placebos. A mente humana é uma coisa prodigiosa.

john

Espanque-se o Pessoa, evidentemente.

O problema de Fernando Pessoa, poeta indiscutivelmente genial, é que a sua genialidade se banalizou. Não que haja qualquer problema em se reconhecer amplamente que fulano é genial se, de facto, fulano for genial. Torna-se maçador, porém, quando essa genialidade é tomada por empréstimo por toda a gente para ilustrar os cartões de visita. Não vejo ninguém, por exemplo, confessar-se admirador de Einstein por causa da teoria da relatividade, ou da fórmula e=mc2 (não sei meter o dois lá em cima, que merda). Mas mesmo na literatura, que a ciência não é para todos, nem para mim: Edgar Allan Poe, de quem o próprio Pessoa era fã confesso (até fez uma tradução muito boa do célebre poema The Raven), não fica bem numa apresentação. Ou Dostoievsky. Ou Salinger. Tolkien ou K. Dick, então, só mesmo em convenções de nerds - se eu estiver a falar com uma rapariga e referir O Senhor dos Anéis, só tenho sorte se ela for fã de Tolkien (nem digo do género literário fantástico, porque enfim, o velho John não é para todos). Mas Pessoa fica sempre bem. "Adoro Fernando Pessoa, acho-o genial." Muita gente lê isto e pensa "uau, eis aqui alguém culto, com bom gosto." Cinco anos de blogues e muitos perfis de social networking (para o português médio, leia-se hi5) depois, esta afirmação pregada na porta do nosso quartinho virtual faz-me pensar "ora aqui está alguém que só leu A Mensagem porque foi obrigada no décimo-segundo ano - nem vou mencionar Os Lusíadas -, que jamais lerá Whitman ("oh captain, my captain"), e não faz a mais pequena ideia do que significa "estoicismo", apesar de ter sublinhado a caneta florescente verde o conceito no manual de Português A ou B". Isto, atenção, não coloca em causa a genialidade de Pessoa, mas ilustra a teoria de que os bons exemplos podem ser muito mal aproveitados.

Quando entrei na bloga, a moda nem era Pessoa, era Espanca. Florbela, entenda-se (os espancamentos virtuais continuam na moda, sobretudo em caixas de comentários). Na altura, eu andava sobretudo pela "blogosfera adolescente", sítio de onde aliás nunca me desliguei completamente (como é óbvio). E qualquer estado de espírito dava um soneto da senhora. Irritava devido à falta de originalidade, já que prefiro frequentar um blogue mal escrito mas que aquilo que lá se escreve seja da autoria do próprio autor do blogue (que frase de merda), do que andar a passear por blogues onde nada mais se faz para além de copy-paste de coisas que já existem. E irritava-me ainda mais por - e isto é pessoal, claro - sempre ter tido alguma aversão a Espanca. Okay, não é má enquanto poeta (poetisa?). Mas se falamos de sonetos, então desculpem lá qualquer coisinha: Antero é de longe mais interessante. E nem vou para Camões.

O chato é que Camões nunca é genial nas nossas apresentações. Nem Cesário. Que diabo: nem Eça. Eça, pelo amor de Deus (e estou apenas no banal, porque as minhas leituras também não são nada de extraordinário). Não se cita Poe, Whitman, Plath. Pessoa e Espanca são, passe a expressão, pau para toda a obra. E que tal diversificarmos um bocadinho?*

john

*com a devida vénia a uma ou duas pessoas que conheço, que evidentemente ficam de fora desta minha incoerente generalização.

Obama já está na Casa Branca

E o Jon Stewart, que nos últimos anos dedicou o seu Daily Show quase exclusivamente à nobre tarefa de malhar em George W. Bush (e John McCain, e Sarah Palin), já está a receber o fundo de desemprego?

john

Crónicas de viagem desenterradas

Vocês sabem do que estou a falar: quando temos uma viagem longa para fazer, seja de autocarro, de comboio ou de avião, a única alternativa aceitável a uma boa companhia é... não ter qualquer companhia, e deixar que uma boa música ou um bom livro nos façam perder a noção do tempo. Por motivos vários, porém, nem sempre temos tanta sorte - e a única coisa que nos resta é mesmo uma má companhia. Foi o que aconteceu naquela fatídica tarde de domingo, quando fui apanhar o comboio para voltar da terrinha para lisboa: os planos de ocupar as minhas três horas e meia de viagem a ler um livro foram violentamente destruídos pelo M..

E antes de continuar a história, permitam-me que vos apresente o M., singular personagem de uma terra de personagens singulares como é a minha. M. foi meu colega na escola primária. A coisa prolongou-se até ao sétimo, altura em que ele decidiu "renovar o contrato" (a expressão não é dele, mas serve aqui) enquanto eu optei seguir para o oitavo ano. Em miúdos tinhamos uma relação cordial, como eu aliás tinha com todos os miúdos da minha geração - ou seja, jogávamos às escondidas, roubávamos laranjas, andávamos de carrinho de rolamentos, enfim, essas coisas. Nunca fomos inseparáveis, mas também nunca declarámos guerra um ao outro. Claro que a puberdade muda muita coisa, e a adolescência tende a complicar tudo. Adiante. A melhor forma de vos apresentar o M., e de vos mostrar como eu e ele estamos irremediavelmente em trincheiras diferentes, é através de um episódio que aconteceu tinha eu dezasseis anos. Estava no café com M. e com C., indubitavelmente o tipo mais idiota, convencido e detestável que a minha aldeia viu nascer em largos anos. A conversa acabou por cair no tema "raparigas", o que me fez remeter ao silêncio. Não discuto relações amorosas em público, e muito menos com gajos. Claro que esta regra apenas se aplica a mim - jamais a eles. E então gerou-se um momento muito interessante, em que um tipo de 17 anos (o M.) e um de 15 (o C.) começaram numa espécie de pingue-pongue frenético a debater as suas (ilusórias) conquistas sexuais. Até que, enfim, lembraram-se de que eu estava lá também. E pergunta, à queima-roupa, o C.:

"Olha lá, João, mas tu e a S., vocês já foderam, não já?" (a S. era a minha namorada da altura, estávamos juntos havia largos meses)

Ao que não tive tempo de responder, pois o bom do M. respondeu por mim:

"Oh, mas isso pergunta-se? Claro que já!" E retomou o debate. Eu continuei calado.

Retomando aqui a viagem de comboio que iria fazer anos depois, é bom de ver quie três horas e meia num comboio com o M. - ainda que os dezasseis anos já tivessem ficado há muito para trás - não era propriamente a minha perspectiva mais entusiasmante. Lá está: encontramos um conhecido num terminal de transportes e só se formos para destinos diferentes é que conseguimos escapar. Okay, o M. não vinha para Lisboa. Ia para Almada. Três horas e dez minutos na sua companhia seriam portanto inevitáveis. Sem fumar. Sentamo-nos em frente um ao outro, e após a conversa mole sobre o tempo e sobre a aldeia, pego num livro e tento ser óbvio no gesto: apetece-me ler, cala-te um bocadinho. O meu mal, claro, é ser uma pessoa bem educada. Um tipo bem educado normalmente tenta fazer passar uma mensagem desagradável de forma subtil. O problema é que os idiotas nunca percebem a subtileza. E M. nem me deixou chegar ao primeiro paragrafo da página, interrompendo a minha hipótese de fuga da seguinte forma:

"Então e gajas, João?"

Evidentemente que, a partir deste ponto, não passei do primeiro parágrafo. A pergunta era um pretexto para soltar a língua, e as três horas que se seguiram foram passadas a ouvir as conquistas sexuais de M. Ou antes, as aldrabices sexuais de M. (note-se a subtileza). Indianas, segundo ele, são muito boas na cama. Conta-me a história do bico que a tal indiana lhe terá em sonhos feito. Passa para as chinesas. Umas malucas, fazem tudo, diz ele. Mas as pretas, amigo, essas é que têm fogo. Suspiro: faltam ainda duas horas. Contra-ataco: mas olha lá, ó M., tu não tens namorada? Tem, claro que tem. Mas vive longe. Não sei como se conheceram. Não creio que ele o saiba. Mas namoram. Claro que namoram. E fodem, olá se fodem. Quando se vêem, claro. Hora e meia. Retomamos as glórias passadas. Murphy, o bom Murphy, tinha razão: cinco minutos podem demorar um minuto ou uma hora a passar. Depende de que lado da porta da casa de banho estás. Neste caso, depende da companhia que se nos impõe para três horas e meia de viagem.

Há muito tempo que não falo com o M., já agora. Cruzei-me com ele há meses na aldeia, mas trocámos apenas um telegráfico "olá-tudo-bem". Não sei se mantém a namorada de longe, assim como o score invejável de indianas, africanas e asiáticas a renderem-se aos seus encantos. Mas espero não o encontrar em comboio algum para descobrir.

john

19.1.09

E após quase dois anos de trabalho de jornalista, é isto que tenho para dizer sobre o ensino da profissão:

Devia haver uma cadeira em todos os cursos de Jornalismo, Comunicação Social ou Ciências da Comunicação intitulada "Atelier de Encher Chouriços". Ou algo do género. Fundamental.

john

18.1.09

A infância do Bruno Aleixo

Ser emigrante em Coimbra.
Ou como falar muito sem dizer nada.



fs

14.1.09

Listas

No final ou início de cada, ano fazem-se as listas do ano que está a terminar ou que terminou. Nem me vou dar ao trabalho de colocar links. Digo apenas que 2008 foi um ano tão fraquinho que o melhor filme e o melhor disco são de 2007, vejam lá. E falo, evidentemente, do filme Control, de Anton Corbjin, e do álbum "In Rainbows", dos Radiohead. Relativamente a livros, então, o cenário é ainda mais deprimente: ainda vi alguns filmes e ouvi alguns álbuns de 2008, mas não li absolutamente nenhum livro de 2008. Destaco por isso - e ciente da crucificação que se seguirá - a série Harry Potter, que li (duas vezes...), e que me prendeu à leitura como poucas coisas conseguiram.

Isto de nunca andar a par das novidades tem estes inconvenientes. Em 2009 tenciono continuar no mesmo registo. Já estou a preparar a encomenda da Amazon britânica, agora que a taxa de câmbio está sorridente para a Europa continental.

john

Os segundos nomes

Tenho para mim que os segundos nomes têm uma única função: indicar que, enquanto filhos, pisámos o risco com os nossos pais. Já pensei nisto várias vezes, e não consigo encontrar qualquer outra explicação. Um nome apenas é suficiente. A esmagadora maioria dos meus amigos tem dois nomes, mas eu trato-os apenas pelo primeiro - João, Ana , Liliana, etc - e em muitos casos desconheço por completo o seu segundo nome. Aliás, agora que penso nisso, nem me consigo lembrar do segundo nome de uma das minhas ex-namoradas, e a coisa não foi há tanto tempo quanto isso. Da mesma forma, estou em crer que muitos dos meus amigos não fazem ideia qual é o meu segundo nome. Até porque nem assino com ele - "João Campos" serve perfeitamente, até para documentos oficiais com a indicação "assinar conforme o B.I.". Nunca ninguém se queixou.

Por vezes acontece até o segundo nome substituir o primeiro. Ana, por exemplo, é um nome giro, mas terrivelmente banal. Conheço várias Anas que são conhecidas simplesmente pelo segundo nome - Rita, Raquel, Sofia, só para dar alguns exemplos que de repente me ocorrem. Só quando elas me deram os seus endereços de correio electrónico é que fiquei a saber que elas, afinal, chamavam-se Ana Rita, Ana Raquel e Ana Sofia. Acontece também muito com as Marias. João, por outro lado, é igualmente comum, mas sobrevive por si só - e muito raramente fica colado ao segundo nome.

Pior ainda é quando os dois nomes pertencem a géneros diferentes. Como José Maria ou Maria João. Dá ideia de que os pais não estão completamente convencidos do sexo - ou da futura sexualidade - dos filhos e, jogando pelo seguro, improvisam um nome que dá para os dois lados. Faz sentido, mas, como muitas coisas neste mundo que fazem sentido, é estúpido.

Com os pais, porém, a coisa é diferente. Neste campo, o segundo nome tem realmente uma função: indicar os níveis de fúria deles para connosco. Conheço vários casos, e dou mesmo o meu como exemplo: tanto o meu pai como a minha mãe sempre me trataram apenas por "Joã0". Alternativamente, por "filho". Quando em conversa salta um "João Pedro", pronto, está o caldo entornado, ou fiz merda ou alguém a fez por mim e eu de alguma forma devo estar envolvido ou mesmo incriminado. É impossível chamar alguém pelos seus dois nomes de forma agradável: ou se está declaradamente a gozar com a Cátia Vanessa (exemplo clássico, desculpem), ou se está irritado, furioso, capaz de estrangular. Lá em casa, "João Pedro" é sinónimo de sarilhos, fumo que indica fogo, nuvens de borrasca no céu - ou no tecto da sala, vá. É como as sirenes que indicam bombardeamentos em Bagdade - marcam a hora de recolher aos abrigos e contar as latinhas de atum que nos vão alimentar ao longo dos próximos dias.

De qualquer maneira, o segundo nome é inútil. Filhos meus - a existir donzela demente q.b. para querer ter filhos meus - dispensarão isso. Eles que sejam espertos e adivinhem a fúria pelo tom. Ou que, em alternativa, vivam num constante sobressalto. Há que dar algumas surpresas à vida, não?

john

13.1.09

espelhos e reflexos #11

No lar estavam todos os idosos a escutar o ruído da televisão. O companheiro dos dias. Restava-lhes a esperança e esperança não se deveria chamar pois o desfecho está tão bem delineado na conjura do tempo que deixa de ser algo a que nos podemos agarrar para ser algo que nos arrasta, qualquer que seja a vontade. Como suster a ténue esperança de jamais sepultar os corações debaixo da terra? Como enganar o corpo à vontade da morte?
O Senhor Riquinho ajeitou a gravata por cima do pijama carregado de nódoas. Que o seu apelido tem razão de ser. Rodou a moeda de ouro pelos dedos trémulos enquanto o fio de saliva lhe caía pelo queixo caído. Virou-se no seu ar aristocrático para a senhora ao lado:
- Não faz agora um ano que o seu homem morreu?
- Faz sim senhor. Que Deus o tenha no seu merecido descanso.
O Senhor Riquinho fez um trejeito de desconhecimento pela entidade omnipotente mencionada, um esgar de censura de olhos semicerrados. Prosseguiu:
- Sabe, ontem sonhei com ele.
A senhora agitou-se na cadeira.
- E ele disse-lhe alguma coisa?
O senhor Riquinho esfregou as mãos trémulas na medida do possível.
- Apareceu à entrada do meu quarto e começou a sorrir. Perguntei-lhe logo: vens-me buscar?Olha que este ainda não é o meu dia.
Ao lado da minha avó vislumbrei o ar triunfante daquela nobreza de espírito. E a moeda a brilhar nas suas mãos.
Esperança?
Esperança é o que o Senhor Riquinho tem. Não a espera certa da morte. Apenas a soma dos dias que a venceu.



fs

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6.1.09

Refugiada

Agora que tanto se fala dos prisioneiros de Guantánamo de que os americanos se querem livrar como puderem - Portugal vai aceitar alguns, ao que parece; os australianos, aliados mas com cabecinha própria, parece que não -, lembrei-me de que também eu estou a oferecer asilo político. Não a prisioneiros de Guantánamo, que até podem ser uns mártires (no bom sentido) e umas jóias de pessoa. Enfim, coisas de que me lembro a ver o E Deus Criou a Mulher: aqui por estes lados dá-se abrigo à refugiada Omer Goldman, se ela não estiver mesmo interessada nem em lutar por Israel nem em queimar estes belos aninhos da sua vida no xilindró (viva o acordo ortográfico). Como sou cavalheiro, até lhe dou a escolher entre o abrigo de Algés e o covil de Odemira, onde duvido que a Mossad a conseguisse encontrar. Não, pelo menos, sem pedir indicações (para um pouco da história da rapariga, consultar isto).

E já agora, dão-se alvíssaras (eventualmente pagarei um café, ou partilharei uma tablete de chocolate preto) a quem me disser o nome da menina que agora figura no cabeçalho do dito blogue, e em alguns mupis espalhados por a capital. Obrigado.

john


Isto já me tinha ocorrido há tempos, mas voltou-me ao miolo ontem, quando lá fui, e há alguns minutos, quando falava sobre isso com uma das pessoas citadas duas entradas abaixo. E descansem - apesar da imagem ali acima, não virei devoto do café da Starbucks. Gosto, confesso, sobretudo dos copos e sobretudo no Inverno (o café americano da Starbucks, a escaldar no copo, é o melhor amigo do fumador que tem de ir matar o vício ao frio e quer manter as mãos quentinhas). E gosto da cultura americana, claro. No entanto, é difícil converter-me em absoluto ao café americano quando temos o mais saboroso café que já provei - e, felizmente, já tive a oportunidade de beber café em vários países europeus.

Há, no entanto, que tirar o chapéu aos senhores da Starbucks e reconhecer-lhes o apuradíssimo olho para o negócio - ou não fosse a marca americana. Porque colocar um estabelecimento cuja imagem de marca consiste em café - e derivados - servido em recipientes próprios para beber em movimento, na rua, ao lado da fábrica dos pastéis de belém e em frente aos amplos relvados de belém é simplesmente genial. Agora está frio, ainda; mas a partir de Março, será ver a canalha a sentar-se na relva, com as famosas caixinhas hexagonais dos pastéis numa mão e o copinho da Starbucks na outra. 

Nós passamos a vida a dizer que os americanos são burros porque pensam que Portugal é uma província espanhola. Mas eles sabem o que fazem. E mais: nem precisam de inventar a roda. A verdade é que nós, tendo o café fantástico que temos, não produzimos uma alma que se lembrasse de o vender para beber na rua, em frente aos sacanas dos pastéis, quando o conceito até já foi inventado. Enfim.

john

5.1.09

Há dias vi, finalmente, o filme 21 gramas. É tão bom, ou mesmo melhor, do que todas as entusiásticas descrições que me fizeram do filme. Tem imagens poderosíssimas - a improvável redenção de Jack, o acesso de loucura de Paul quando dispara sobre o próprio peito. Mas imagem de Christina - Naomi Watts - semi-nua é algo que não me vai sair da cabeça tão cedo.

john 

Milagre termodinâmico.

Rabisquei aqui sobre o suicídio. Não ando com ideias, descansem - escrever sobre o suicídio já causou um certo pânico uma vez. É simplesmente um tema a que volto recorrentemente. Há em mim uma certa atracção pelo abismo. Mas agora falarei sobre a vida - essa sacana que tanto nos ilude. Ocorreu-me isto hoje, enquanto era metodicamente esborrachado contra a porta do metro entre o Marquês de Pombal e os Restauradores (é prova do atraso português o facto de, em plena hora de ponta, o metro circular apenas de cinco em cinco minutos). A dada altura em Watchmen, Laurie faz o impassível Jon compreender quão extraordinária e única é a vida humana - um milagre termodinâmico, como Jon lhe chama, fruto de uma espiral infinita de acasos que originam algo único. Não sei porquê, mas o início da minha vida académica - nomeadamente, a minha semana de praxes - assaltou hoje a minha memória e fez-me pensar nisso, e no que foi a minha vida desde esses curiosos dias de outubro ano da graça de dois mil e três. Na altura, recordo-me (há provas em vídeo, para meu mal, mas não no youtube, porque naquele tempo já existia DVD, mas a VHS ainda tinha força - Deus é grande), tinha  uma escola inteira de desconhecidos a pedirem-me para fazer macacadas. Pedido ao qual, não sei porque carga de água, acedi de forma invulgarmente espontânea em mim (e tão espontaneamente como me soltei naqueles dias, retraí-me pouco tempo depois). Tivesse a minha atitude sido outra, e o que teria mudado? Provavelmente a A. seria minha amiga à mesma, e talvez agora estivesse tão chateada comigo como parece estar. Assim como a C. Talvez a L. tivesse sido minha namorada na mesma. Mas nunca a N., uma vez que dificilmente teria integrado a comissão de praxes dois anos depois, e a minha ex não seria hoje coisa rigorosamente nenhuma, nem uma memória. Da mesma forma, é provável que L. não fosse hoje a minha melhor amiga, como é provável que eu jamais tivesse descoberto que eu e a V. temos uma extraordinária sintonia no que respeita a livros. A A. passar-me-ia completamente ao lado, e consequentemente, nunca teria tido as excelentes conversas que tive (e tenho) com a R.. O P. seria um ilustre desconhecido, assim como o T. e o M.. É extraordinário como algo tão simples e idiota - a chinfrineira desgraçada que armei durante uma semana, até ficar afónico - foi determinante para eu me aproximar de 90% das pessoas que, para o bem ou para o mal (mas sobretudo para o bem, mesmo algumas daquelas que me feriram), foram imprescindíveis na minha vida ao longo dos últimos cinco anos - e decerto continuarão a sê-lo. Não me ocorre um termo melhor para definir esta teia insana que é a vida. Milagre termodinâmico parece-me tão adequado como qualquer outro.

Mais complexo ainda é pensar como teriam sido os mesmos cinco anos se, na altura, tivesse feito a escolha certa e tivesse ido estudar Psicologia em vez de Jornalismo. Meninas (vocês sabem quem são, se lerem isto), escusam de mo repetir: eu sei que ainda vou a tempo.

[se todas as pessoas que mencionei no texto lessem este texto, conseguiriam identificar-se - e identificar outras também. peço desculpa se aborreço alguém com a menção, mas não me parece que quem não saiba vá saber de quem estou a falar.]

john (fartei-me do JC)

E este ano não deu o Sozinho em Casa no dia de Natal, que chatice.

Andava a ver se fugia a isto, mas como nenhum dos camaradas de blogue decidiu abrir o novo ano de bloga, parece que essa tarefa vai ficar mesmo por minha conta. passados os desejos da praxe - bom ano novo e essas tretas todas - vou abrir o jardim em 2009 a falar (escrever) sobre aquela moda recorrente da blogocoisa por esta altura - as listas e os prémios. No Combustões o tema já foi meticulosamente desmontado, e não fica muito por dizer. Nem vou deixar mais hiperligações a colorir o texto: dê-se uma voltinha pelos blogues da praxe, e as listas aparecem. Os melhores bloggers do ano. Os melhores blogues. Os melhores artigos. Exercício fútil, serve apenas para entreter. Exactamente como as listas de livros/filmes/discos. De resto, uma lista que não coloque entre os três melhores, e não necessariamente por esta ordem, o Filipe Nunes Vicente, a Filigraana e o Pedro Duarte Bento (mais os respectivos blogues) não pode ser levada muito a sério. (Não falo do Pedro Mexia, do Francisco José Viegas e do maradona porque, enfim, torna-se desnecessário, não é?). A propósito, parece que o Estado Civil vai fechar portas. Isto é mau para a blogosfera intimista/confessional/pessoal (riscar a opção que não interessar), para aquela blogosfera de que Pacheco Pereira não gosta nada. Depois  d'A Coluna Infame, do Fora do Mundo e do Estado Civil, atrevo-me a dizer que o tempo de espera para o próximo blogue de Mexia será relativamente curto.

Resoluções de ano novo não há. Talvez para o ano.

JC