O meu leitor de mp3 avariou. Ou antes, avariaram-se os auscultadores, mais uma vez. Há qualquer coisa nos meus bolsos, no fundo da minha mochila, não sei, que tende a rebentar com os fios - também eles frágeis - do bicho. Respondendo (novamente) a uma pergunta curiosa, sim, eu faço parte do vasto grupo que se passeia por essas ruas e por esses transportes públicos com os ouvidos bloqueados ao som exterior. Até pode ser um disparate, e devo dizer que por vezes acho que é. Eu devia arranjar um telemóvel com som catita, e fazer como faz tanto canalha por aí: onde quer que tivesse, passar a minha música com o som bem alto, para toda a gente ouvir. Claro que eu jamais poderia fazer tal coisa, pois - modéstia à parte - o meu gosto musical até é bem razoável (e há-de melhorar, espero), e, como toda a gente sabe, quem anda a passar música para toda a gente no metro e no autocarro - ou mesmo no rádio do carro com o som em elevado volume - tem um péssimo gosto, que por norma se resume a uma kizomba rasca, um techno/trance sofrível, um forró inqualificável ou, se nos afastarmos da grande cidade, a um pimba de estoirar tímpanos. Ou, pior, Buraka Som Sistema. É sintomático: desafio até os caríssimos leitores a repararem nesta coincidência cósmica. Ninguém exibe uns Smiths, uns Joy Division, uns Magazine, um Leonard Cohen. Ou uns Beatles. Ou, para falar de coisas mais recentes, uns Radiohead, uns Vampire Weekend, uma A Fine Frenzy (para não sair do meu moribundo leitor de mp3). Nem os amantes de música electrónica optam por coisas decentes, como Prodigy ou Underworld, por exemplo. E música clássica, como é bom de ver, não anda - infelizmente - no leitor de mp3 de ninguém. Não: para ouvir música alta em espaços públicos, é fundamental que a música seja rasca.
Há qualquer coisa de alienação nesta escolha de andar de headphones nos ouvidos, bem sei. É uma forma de distracção, uma que agora me faz muita falta. Acabam-se - temporariamente, que eu resolvo o problema no mês que vem - as minhas manhãs de 742 a ouvir música enquanto o autocarro balouça ao ritmo do trânsito até ao centro da cidade. Mantém-se a leitura, claro, mas essa é menos prática naquelas manhãs em que o autocarro amarelo da Carris está tão cheio que parece uma lata de sardinhas, e em que um lugar sentado é uma miragem. E há um problema mais grave, um que me tem atormentado nos últimos dias: os Backstreet Boys vêm "actuar" a Lisboa nestes dias, e a M80, emissora dedicada à nobre missão de desenterrar o pior da música das décadas de 70, 80 e 90, desenterrou os "êxitos" (adoro a expressão) daqueles rapazes que fizeram furor entre as raparigas que, na década de 90, eram adolescentes. Esgotados os filões de Abba e Michael Jackson, era tempo de dar continuidade à piroseira no éter. O problema é que, tal como acontece com a música dos Abba (não tanto com a de Michael Jackson), a música dos Backstreet Boys é pegajosa: cola-se à cera dos ouvidos com uma facilidade tremenda, e tirá-la de lá é uma coisa complicada. Sucede que no escritório, a rádio online tem paragem obrigatória na M80, o que, graças aos rapazes da rua de trás, tem tornado estas minhas tardes de São Martinho antecipado num calvário. E agora, nem o bom do Thom Yorke a cantar a Reckoner me salva. Como é bom de ver, o meu Outono está a ser muito triste.
john