30.10.09

Misery

A M80 está a passar André Sardet. Alguém me dê um tiro, por favor. Ou, como se diz em inglês numa magnífica expressão, please, someone put me out of my misery.

john

29.10.09

Discos pedidos

Ou quase. Um leitor pede uma "análise" ao novo executivo de José Sócrates. Falando em meu nome, e apenas em meu nome - os restantes micróbios terão as suas próprias visões da coisa -, o novo executivo de José Sócrates é, após uma cuidada análise efectuada por mim, o executivo de José Sócrates. E por isso, jamais poderá ser bom. De resto, o Benfica massacra, o tempo está óptimo, e a gastronomia alentejana continua a recomendar-se, seja em Beja ou em Grândola. Ou seja, apesar do executivo de José Sócrates, eu até poderia ser uma pessoa razoavelmente feliz se vivesse em Beja ou na vila morena, se tivesse tempo para aproveitar o tempo, ou se conseguisse vibrar verdadeiramente com o futebol. A compensação é que vivo com dois sportinguistas.

john

Oitenta o tanas

O meu leitor de mp3 avariou. Ou antes, avariaram-se os auscultadores, mais uma vez. Há qualquer coisa nos meus bolsos, no fundo da minha mochila, não sei, que tende a rebentar com os fios - também eles frágeis - do bicho. Respondendo (novamente) a uma pergunta curiosa, sim, eu faço parte do vasto grupo que se passeia por essas ruas e por esses transportes públicos com os ouvidos bloqueados ao som exterior. Até pode ser um disparate, e devo dizer que por vezes acho que é. Eu devia arranjar um telemóvel com som catita, e fazer como faz tanto canalha por aí: onde quer que tivesse, passar a minha música com o som bem alto, para toda a gente ouvir. Claro que eu jamais poderia fazer tal coisa, pois - modéstia à parte - o meu gosto musical até é bem razoável (e há-de melhorar, espero), e, como toda a gente sabe, quem anda a passar música para toda a gente no metro e no autocarro - ou mesmo no rádio do carro com o som em elevado volume - tem um péssimo gosto, que por norma se resume a uma kizomba rasca, um techno/trance sofrível, um forró inqualificável ou, se nos afastarmos da grande cidade, a um pimba de estoirar tímpanos. Ou, pior, Buraka Som Sistema. É sintomático: desafio até os caríssimos leitores a repararem nesta coincidência cósmica. Ninguém exibe uns Smiths, uns Joy Division, uns Magazine, um Leonard Cohen. Ou uns Beatles. Ou, para falar de coisas mais recentes, uns Radiohead, uns Vampire Weekend, uma A Fine Frenzy (para não sair do meu moribundo leitor de mp3). Nem os amantes de música electrónica optam por coisas decentes, como Prodigy ou Underworld, por exemplo. E música clássica, como é bom de ver, não anda - infelizmente - no leitor de mp3 de ninguém. Não: para ouvir música alta em espaços públicos, é fundamental que a música seja rasca.

Há qualquer coisa de alienação nesta escolha de andar de headphones nos ouvidos, bem sei. É uma forma de distracção, uma que agora me faz muita falta. Acabam-se - temporariamente, que eu resolvo o problema no mês que vem - as minhas manhãs de 742 a ouvir música enquanto o autocarro balouça ao ritmo do trânsito até ao centro da cidade. Mantém-se a leitura, claro, mas essa é menos prática naquelas manhãs em que o autocarro amarelo da Carris está tão cheio que parece uma lata de sardinhas, e em que um lugar sentado é uma miragem. E há um problema mais grave, um que me tem atormentado nos últimos dias: os Backstreet Boys vêm "actuar" a Lisboa nestes dias, e a M80, emissora dedicada à nobre missão de desenterrar o pior da música das décadas de 70, 80 e 90, desenterrou os "êxitos" (adoro a expressão) daqueles rapazes que fizeram furor entre as raparigas que, na década de 90, eram adolescentes. Esgotados os filões de Abba e Michael Jackson, era tempo de dar continuidade à piroseira no éter. O problema é que, tal como acontece com a música dos Abba (não tanto com a de Michael Jackson), a música dos Backstreet Boys é pegajosa: cola-se à cera dos ouvidos com uma facilidade tremenda, e tirá-la de lá é uma coisa complicada. Sucede que no escritório, a rádio online tem paragem obrigatória na M80, o que, graças aos rapazes da rua de trás, tem tornado estas minhas tardes de São Martinho antecipado num calvário. E agora, nem o bom do Thom Yorke a cantar a Reckoner me salva. Como é bom de ver, o meu Outono está a ser muito triste.

john

26.10.09

Da literatura

Não deixa de ser curioso ver o que o marketing moderno faz pela literatura. (Chamemos-lhe assim). Escaparate da Bertrand a que fui cheirar no Sábado, antes do Almodovár: Caim, A Fórmula de Deus, Bíblia edição Circulo de Leitores. A rendição ao capitalismo. Blasfémia.

jtf

Não percebo

Quando penso que não é possível afundar mais, engano-me. E a prova do engano surge num outdoor onde um banco bem conhecido apresenta um cartão multibanco... da Hello Kitty. Sim, daquela marca com a gata irritante e infantil que, de há uns anos a esta parte, virou moda entre as adolescentes e, para meu espanto, entre mulheres adultas, ou que deviam ser adultas. Ou o mundo perdeu completamente o juízo, ou sou eu que estou a ficar velho. Apesar de a segunda hipótese também ser verdade, inclino-me mais seriamente para a primeira.

john

23.10.09

Infantaria

Augusto Santos Silva já não precisa de "malhar na direita". Agora pode mandar avançar a infantaria. Literalmente.

john

22.10.09

O factor "C"

Amiguismo, compadrio, nepotismo - chamem-lhe o que quiserem. O país há anos que vive do "factor C". "C" de cunha, claro está, aquele familiar ou amigo que pode dar o emprego de que tanto se precisa, arranjar o alvará, conseguir a licença. Ou, pelo menos, poderá falar com as pessoas certas, poderá colocar o currículo X no topo da pilha com um pequeno post-it amarelo a destacar. Todos conhecemos alguém que chegou onde chegou não por mérito, mas por cunha. Serve para o sector público e para o sector privado. Afinal, para quê contratar alguém desconhecido quando fulano nos recomenda sicrano, que é bom moço, tem estudos e precisa de um emprego? É possível que haja melhor que ele, mas, que diabo, só o tempo e a maçada que se poupam no processo de selecção compensa. Para além de que dá sempre jeito ter alguém a dever um favor - nunca se sabe quando será necessário cobrar.

Esta cultura, claro, tem vários problemas. Durante anos, e com descaramento, o país funcionou assim (ainda funciona). Toda a gente sabe, toda a gente escarnece, mas ninguém liga. Ou parece ligar. Isto, naturalmente, tem efeitos perversos. Por vezes, aparece de facto um familiar, um amigo, um conhecido, que tem realmente as qualificações para aquele lugar, que será uma pessoa extremamente habilitada àquela função. Passa nas entrevistas e consegue o emprego. Já se sabe o que se seguirá - as suas qualificações serão irrelevantes, no seio da emprega e no mundo que gira à sua volta. Não conseguiu o emprego por ser bom para aquele trabalho, mas sim por conhecer fulano. É a filha da putice instalada.

john

21.10.09

O condicionamento clássico

As reacções às mais recentes declarações de Saramago, a propósito do seu novo livro, são invariavelmente pavlovianas. Não sei como ainda há quem ligue ao que o senhor diz, sobretudo quando decide passar um atestado de ignorância a si mesmo. Também não sei como há quem consiga comparar o incomparável - como as imbecis declarações daquele deputado do PSD ao tristemente célebre caso dos cartoons dinamarqueses. Há pessoas que nunca vão entender que a relação com Deus que a generalidade dos católicos tem não é igual à dos islâmicos (tanto do ponto de vista do indivíduo como do ponto de vista do Estado). Que eu saiba, ninguém ainda, e muito menos alguém da Igreja, ameaçou ir à ilhota de Saramago fazer a folha ao Nobel.

Que Saramago diga que a Bíblia é a maldade em forma de livro, é lá com ele. Que a Igreja se amofine, é lá com ela. E, no fundo, cada comentador e cada opinador de serviço - e hoje, com blogues, fórums radiofónicos e televisivos, twitter e, enfim, a Internet em geral, todos opinamos sobre tudo - dirá o que bem entender sobre o assunto, por mais disparatada que a opinião seja. A Bíblia, para alguém como eu, que não liga aos assuntos da transcendência, é um interessante livro de histórias (que, falha minha, ainda não li na íntegra). Saramago, para alguém como eu, que não leu nada do senhor (sou, felizmente, do tempo em que no Secundário ainda se lia a Aparição), é apenas mais um escritor. O que me choca - e daí considerar as declarações do homem um disparate - é a incapacidade de o Saramago escritor, sendo ateu, ser incapaz de olhar para a Bíblia a partir de uma perspectiva puramente literária. Dê-se o desconto: Saramago, porventura graças ao Nobel e nada mais, virou vaca sagrada. Isso deu-lhe o direito de dizer disparates como este, e até de destornar Vergílio Ferreira dos programas de Português do Secundário. E dá-lhe também o direito de ser incoerente (no fundo, todos o temos). O exemplo estafado dos "crimes" da Igreja Católica - as cruzadas, a Inquisição - serve também para o comunismo, afinal: uma ideologia muito bem intencionada (fiquemo-nos pelo lugar-comum) que, passe a expressão, deu merda. Pormenores, pormenores.

john

20.10.09

O western não está morto.

Nem a ficção científica. É certo que o filme já tem quatro anos, e que a série na qual se baseia (Firefly) falhou na televisão para se tornar numa série de culto da era da Internet. Falo, naturalmente, de Serenity.

Na edição do ano passado do Fórum Fantástico, uma das apresentações dedicou-se às influências do género Western na construção do universo de Firefly/Serenity. Agora que vi o filme, concluo que aquela apresentação, à qual assisti, poderia ter sido mesmo muito interessante, não fosse a inabilidade do orador - um tipo cujo nome me escapa - para falar em público. Convenhamos: não é a melhor das ideias para uma palestra o orador sentar-se numa secretária colocada no palco, iluminada apenas por um pequeno candeeeiro de mesa, e falar - ou antes, ler as suas notas - durante mais de meia hora num auditório escuro. A fraca qualidade de imagem dos trechos da série e do filme que ia mostrando ao longo da exposição também não ajudou. Enfim, para esquecer.

Dentro do género ficção científica, Serenity afasta-se da corrente de filmes mais "filosófica", digamos assim, que marcou alguns dos melhores filmes do género (2001: A Space Odyssey, Blade Runner, Matrix) para se centrar numa história sólida com personagens bem definidas, muita acção e um toque de humor invulgarmente bem colocado. Nada falha: o filme flui perfeitamente, as personagens evoluem, as piadas são colocadas com precisão cirúrgica. A história segue a tripulação da nave Serenity, comandada por um veterano de guerra (Malcolm Reynolds) que, nas suas deambulações por aquele sistema solar, acaba por resgatar uma jovem rapariga (River) que tem poderes psíquicos e guarda na sua mente um segredo terrível, cuja revelação pode mudar o rumo da civilização humana naquele canto da galáxia. E a Serenity embarca numa (inicialmente) relutante aventura pelos mundos desolados da periferia do sistema solar, perseguida pelo poder hegemónico da Aliança e pelo terror dos Reavers. E mais não conto: recomendo que vejam.

john

19.10.09

O medo de existir #1

Não será difícil imaginar que o próximo governo sentirá dificuldades em trabalhar com o mínimo de tranquilidade. Tranquilidade será utopia. Pura. Estou certo. Impossível. No entanto, afigurar-se-ia indispensável que isso sucedesse, face às moribundas circunstâncias actuais. Neste panorama de oposição imberbe, um BE absolutamente deprimente e constrangedor, antevejo uma legislatura mirrada. Um ano e meio, dois. No máximo. Não sei se merecemos melhor. Provavelmente não. Estou quase quase certo que não merecemos melhor. Aqui o aforismo aplica-se com propriedade. Cada um tem o que merece. Basta, para isso, constatar a febre que a selecção nacional de futebol continua a causar nestas encolhidas almas lusas.


jtf

Götterdämmerung

O mais difícil para mim quando escrevo é dar um título aos textos. Durante o curso, vi o melhor trabalho jornalístico que fiz até hoje ficar-se pelo 16 por uma péssima escolha de título. Durante os dois anos e meio de jornalismo que já levo, muitas foram as vezes em que os meus editores disseram, com mais ou menos tacto, "João, que caralho de título é este?" Na ficção o caso é delirante. Os melhores títulos que arranjei surgiram-me na mente antes de saber que, na realidade, esses títulos já existiam, ou que existiam títulos tão próximos que alguém, mais cedo ou mais tarde, falaria de plágio. O curioso é que é perfeitamente possível que duas pessoas separadas por décadas - séculos, mesmo - terem a mesma ideia sem saberem da existência uma da outra, ou, pelo menos, sem que a pessoa do presente (quando quer que seja esse presente) saiba da existência passada da pessoa do passado (ufa) ou da sua obra. Dir-me-ão que o trabalho do passado acabou por influenciar uma série de obras ao longo dos anos, sendo por isso natural que alguém chegue àquela ideia sem saber a sua origem. É possível, de facto. Mas o contrário também é possível. Tolkien, por exemplo, rejeitou sempre a tese de que O Senhor dos Anéis era inspirado na obra de Wagner O Anel dos Nibelungos. As semelhanças são óbvias, bem mais do que o facto de "ser um anel e ser redondo" com que o velho professor britânico comentou o caso, mas creio ser possível isso acontecer, apesar de duvidar que Tolkien, um estudioso das mitologias nórdicas, desconhecesse um trabalho com a dimensão da ópera de Wagner, também ele inspirado por essas mitologias. De resto, nem há mal nenhum em um escritor reconhecer que se inspirou noutro - entre a inspiração e o plágio vai um longo, longo caminho, afinal. Isto tudo era para dizer que o melhor conto que já escrevi, há mais ou menos cinco anos atrás, tem o título de O Crepúsculo dos Deuses, título adaptado da expressão do norueguês antigo Ragnarök, após eu ter lido um breve trecho da mitologia escandinava. Ragnarök, li na altura, não significa exactamente "crepúsculo dos deuses" - seria algo mais do género "o apocalipse dos deuses", algo nesta linha. Mas O Crepúsculo dos Deuses é sem dúvida mais poético, e foi esta a tradução que pegou. E agora, apesar da mitologia e de Wagner, raios me partam se mudo o título ao conto.

john

A coerência.

Existe apenas uma diferença entre a horda de pitas a acampar à porta da Bela Vista à espera do concerto dos Tokio Hotel e os milhares de criaturas de bom gosto que ontem invadiram os postos de venda e esgotaram em seis horas os bilhetes para o concerto de U2 que se realizará em Coimbra daqui a um ano (sim, daqui a um ano): as miúdas têm a desculpa da idade. Fã por fã, prefiro ver duas gaiatas de dezassete anos a chorar compulsivamente agarradas às grades do recinto enquanto vêem aqueles putos alemães a ver uma mãe arrastar os filhos para uma fila de uma loja. Há coisas que roçam o obsceno.

Em jeito de disclaimer (e para evitar confusões com uma ou duas pessoas que me são próximas e que são fãs de U2), nada me move contra o grupo irlandês, apesar de considerar Bono um hipócrita. Desculpa lá, rapaz, mas nos últimos anos Bill Gates - esse imundo capitalista - fez mais por África que todas as tuas palavrinhas melosas e concertos. De resto, eu também me permito a algumas maluqueiras de vez em quando, tal como ir com alguma antecedência no dia 29 de Novembro para o Parque das Nações esperar pelo concerto de Muse, a melhor banda ao vivo da actualidade (descansem que não passo lá a noite); e também correrei o que tiver de correr para conseguir bilhetes para o concerto da melhor banda do mundo em Portugal, seja ele quando for. A melhor banda do mundo, como é evidente, são os Radiohead. Mas descansem que já arranjei babysitter para os miúdos, caso já tenha algum quando o Thom Yorke e os seus amigos decidirem vir a estes lados, hipótese que não é de descartar dado que eles cá não vêm desde a tour do Amnesiac. Ou do Hail to the Thief, não me lembro agora - infelizmente, não vi esse concerto, mas lembro-me de algumas revistas da especialidade o terem descrito como "o concerto do ano".

john

18.10.09

O caos continua

Aqui. Quatro anos a enquadrar devaneios. E sendo os devaneios a objectividade daquilo que nos apetece, aquilo tudo que anda ali deve ser uma espécie de vida. Talvez a dele, talvez a nossa, talvez uma ficcionada, talvez uma mistura. Mas anda ali. Com prolongamentos para os seus leitores (está para chegar). Quatro anos do jardim caótico do mr. john.
We live in a rainbow of chaos. And we like it.




fs

Sunday

(é para continuar, sim)



fs

17.10.09

No ano passado esquecemo-nos, mas neste ano eu faço questão de me lembrar: O Jardim de Micróbios celebra hoje o segundo aniversário. Sei que isto de assinalar aniversários de bloga é vagamente idiota, mas isso não me demove: há dois anos que andamos aqui a escrever juntos, com mais ou menos disponibilidade, com mais ou menos debate, com mais ou menos inspiração. Continuamos a ser micróbios neste mundo que é a blogosfera, mas ao menos temos o nosso jardim, e para mim tem sido muito bom andar por aqui. É, portanto, para continuar.

john

16.10.09

Mito urbano

Existe por aí um mito urbano engraçado. Diz esse mito que o governo PS "governou à direita". Mais ainda: por ter "governado à direita", o PS "roubou espaço" ao PSD. Eu sou um leigo no que à política diz respeito, mas gostaria muito que alguém me explicasse onde foi que o PS governou "à direita".

john

Sexta-feira

A sexta-feira é o cúmulo da falta de produtividade. Cheira demasiado a fim-de-semana. Mesmo que aquilo que o fim-de-semana nos vá trazer seja tão excitante como arrumar um quarto caótico, montar uma estante do IKEA (preciso de um martelo, alguém me empresta um?), comprar detergente para a roupa e, com sorte, procurar um sítio decente para tomar uma bica depois de almoço (ainda não encontrei nenhum sítio minimamente interessante naquela zona da Ajuda). Um mau fim-de-semana é, por norma, melhor do que um bom dia de trabalho. Mas é cosmicamente impossível uma sexta-feira ser um bom dia de trabalho, naturalmente; como era cosmicamente impossível uma sexta-feira ser, noutros tempos, um bom dia de aulas. Aliás, nenhum dia é um bom dia de aulas, mas divago. Enfim, posso dar-me a esse luxo: esta sexta-feira está quase no fim, e para além das compras, da montagem de móveis e das limpezas, acho que ainda vai haver algures um jogo de futebol americano. Mais,precisamente, em Vila Franca de Xira, no domingo, mas logo direi mais qualquer coisa sobre isso. Apareçam, que podem ver dezoito gajos à pancada (é sempre giro) e, se tiverem muito azar, beber uma cerveja comigo.

john

15.10.09

Primatas

Isto, a ser verdade, comprova a tese do circo. Maitê, estás perdoada.

john
Existe uma grande diferença entre estar à espera da morte e morrer. Todos os dias são bons para nos lembrarmos desta lição tão simples - nunca estamos preparados -, mas há dias em que, infelizmente, essa lição se impõe.

john

AM/FM

Eu, que nem me excito particularmente com futebol, descobri como funciona a funcionalidade de rádio do meu leitor de mp3 graças ao jogo de hoje da selecção. Isto porque no 42 estava um tipo com um rádio colado ao ouvido, seguindo atentamente o relato do jogo, e não resisti a testar. Cinco minutos depois tinha a TSF sintonizada para chegar a esta brilhante conclusão: os comentários de futebol em rádio têm necessariamente de ser feitos em directo de um manicómio.

john

14.10.09

Heróis do mar...

Não deixa de ser curioso que apenas brasileiros consigam estimular o sentimento de patriotismo no povo português. Scolari fê-lo na Selecção Nacional, e conseguiu que cada janela deste país ostentasse uma bandeira portuguesa durante o verão de 2004. Maitê Proença fê-lo agora (ou há dois anos; as coisas demoram a atravessar o Atlântico) com um vídeo onde se ri da sua ignorância, e conseguiu acordar a fúria dos portugueses, tão insultados que ficaram com o dito vídeo. Tudo muito giro. Agora que a senhora até já pediu desculpa, podemos voltar à nossa vidinha nacional, onde cuspimos para o chão (e pior), e onde ininterruptamente dizemos mal deste país?

john

Adenda: "O que impressiona mesmo é verificar como, num país que nem se respeita nem se dá ao respeito, se indignam facilmente com palhaçadas alheias quando vivem permanentemente numa tenda de circo vai para trinta e seis anos", por João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos. Exactamente.

12.10.09

Micro-plano de contigência

Em tempo de alarmismos, repugnância por tudo o que é ser microscópico, potes de gel desinfectante, pseudo-espirros suspeitos, lenços-mais-que-as-mães, calor um tanto ou quanto estival, tamiflus e ribau bau bau pardais ao ninho, convém que não digam que frequentam um jardim de micróbios. Convém.




fs

Autárquicas

Tinha esperança de que Santana Lopes vencesse as eleições à Câmara de Lisboa, por mérito da boa campanha e do bom projecto que tinha para a cidade - e também devido à péssima campanha de António Costa. Não aconteceu; perde Lisboa, que será nos próximos quatro anos uma sucursal do Governo. No Porto, Rio ganhou, obviamente. Votos de boa viagem a Elisa Ferreira.

O que mais me interessa: em Beja, os comunistas perderam a câmara para o PS. Odemira mantém-se PS, previsivelmente, apesar de ter sido surpreendido por haver, a concorrer à câmara, listas da coligação PSD-CDS e do Bloco de Esquerda. Estes conseguiram um resultado mínimo. Aqueles ficaram-se pelos dez por cento de votos. A colorir o mapa vermelho-e-cor-de-rosa do meu distrito ficam a junta de freguesia de Vila Nova de Milfontes e a Câmara Municipal de Almodôvar, ambas laranja.

Um jornal da minha região andou há duas semanas pelas aldeias de Odemira a organizar debates entre os candidatos às juntas de freguesia. Excelente iniciativa. Espero que se repita.

john

9.10.09

Nobel

Surpresa à parte (ou talvez não), nem é exactamente mau Barack Obama receber o Prémio Nobel da Paz. Ao menos desta vez não se premiou um hipócrita alarmista, como Al Gore, ou um terrorista, como Yasser Arafat - premiou-se apenas um tipo vazio com muitas promessas e palavras giras. Há coisas piores.

john

8.10.09

espelhos e reflexos #29

Há dias estive para morrer. Na mesma semana em que a minha mulher fugira, na calada da noite e deixando-me um bilhete na mesa-de-cabeceira, com o coveiro da aldeia. Esfaquearam-me de lado no peito, na rua escura da taberna onde, numa propulsão de álcool, os amigos imaginários respondiam ao apelo. Estive para morrer e só me ocorria que, à custa da minha maldita mulher, não teria pelo menos uma cova feita pelo homem que ao retirar a terra fresca me enfeitava os cornos secos. Sozinho pasmei vários minutos aguardando que o corpo por fim se imobilizasse. Até que vozes trespassadas e distantes juntamente com o barulho difuso de uma ambulância me arranharam a consciência. Raciocinei, na medida do possível, que apenas uma morte ridícula seria uma singela justificação para a relatividade de uma vida equiparada a uma vindima sem cachos de uva. A minha morte seria ridícula o bastante. Na maior das contemplações principiei a rir a bom som. À medida que me enfiavam na ambulância, no preciso momento em que se preparavam para fechar a porta, através das minhas gargalhadas, reparei em dois homens no lado de fora observando-me. Um velho de cabelos brancos a fumar e um jovem de colete-de-forças mordendo na boca um frasco de vidro. Num sussurro rouco, o homem de cabelos brancos abordou-me:
- You are welcome...
- ...to Elsinore - gritei sem para de rir num estrondo de histeria.
O homem de cabelos brancos sorriu-me. De brilho nos olhos virou-se para o jovem de colete-de-forças e ordenou:
- Sá-Carneiro, larga o raio do frasco!
O jovem anuiu e o velho retirou-lhe da boca o frasco cor de caramelo, atirando-o para longe, ouvindo-se um estilhaço de cacos de vidro no alcatrão.
- Lá se foi a minha estricnina - lamentou o jovem de risco ao meio no cabelo, em tom tremido.
Contemplámo-nos os três - não me recordo de qualquer enfermeiro ou médico. Em olhos reveladores rebentámos numa erupção efusiva e estridente de risos convulsos.
Alguém fechou a porta. A ambulância agitou-se. Para lá dela irrompia a voz do jovem de colete-de-forças cantarolando:

" -Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa
E eu quero por força ir de burro..."


Não sei se cheguei a morrer. Ainda assim, continuo a vaguear em peregrinação, todas as noites, à taberna onde faço amigos. Quanto à minha mulher e ao coveiro - dizem as más-línguas -, mudaram-se para o norte e vivem muito felizes.




fs

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Os cartazes

Gostava que houvesse uma lei - já há tantas, e inúteis, que mais esta não faria mal nenhum - que obrigasse os partidos políticos a remover os cartazes das campanhas eleitorais das ruas no máximo até duas semanas após as eleições.

john

É impressão minha,

ou a Carris anda a recrutar meninas cada vez mais giras para os eléctricos? Eu hoje nem tinha vontade de sair do 18, juro.

john

A Maria Pia

Há recordes que são difíceis de bater. Não sendo obviamente bom no desporto, ou em qualquer outra coisa, eu julgava que o meu recorde de há três anos de duas horas no percurso Benfica – Alameda na carreira 16 era uma coisa singular e evidentemente inultrapassável. Enganei-me, naturalmente; e quero por isso redimir-me, e pedir ao caríssimo leitor que, da próxima vez que eu pense – que eu pense, apenas – em apanhar o 42 na Duque de Loulé (ou no que resta da Duque de Loulé após o Metro) com destino à Ajuda numa tarde de chuva, o caríssimo leitor seja solidário e que, não podendo dar-me boleia, me dê um par de estalos. Um dia de chuva, com ou sem hora de ponta, com ou sem rotunda do Marquês (apesar de tanto a hora de ponta como a rotunda do Marquês tornarem a coisa mais interessante) é perfeito para se constatar uma verdade tão elementar que nem precisa de um estudo científico para a demonstrar: mais de metade das pessoas que conduz automóveis em Lisboa não devia sequer conduzir uma bicicleta, quanto mais um carro. O trânsito na Marquês da Fronteira era lento e caótico. Nas Amoreiras, caótico e lento. Mas na Maria Pia falham-me os adjectivos que passem aquela ideia de lentidão. Digo-lhe apenas o seguinte, caro leitor: apostaria as minhas poupanças (não são grandes) em como o Eustáquio, o meu digníssimo cágado, teria descido a Maria Pia (salvo seja) pelo passeio mais rapidamente do que aquela carreira 42. Deu para – imagine-se! – sair numa paragem, acender um cigarro, e caminhar até à paragem seguinte antes de o autocarro chegar. Claro que não voltei a entrar no autocarro; entretanto um gajo chega a Alcântara, e aí há um velhinho eléctrico que sobe à Ajuda. Abençoado seja.

Claro que descer a Maria Pia (salvo seja) é sempre uma experiência interessante, sobretudo por causa das zonas pitorescas que atravessa – com nomes tão curiosos como Cruz das Almas ou Meia Laranja. Acho Meia Laranja um nome interessantíssimo, uma toponímia a merecer investigação urgente. Há nomes em Lisboa que se explicam a si mesmos, como Desterro. Outros são injustos, como o Calvário, pois não é necessariamente um calvário chegar ao Calvário, apesar de por vezes ser um calvário chegar à Ajuda. Trocadilho fácil, bem sei. Adiante; Há nomes que necessitam de revisão, pois já não se aplicam à sua situação actual. Como exemplo dou as Amoreiras, que se devia chamar de “’Tá todo lá dentro”, o Terreiro do Paço, que devia ter o nome de "Largo das Obras Públicas", ou mesmo o Campo Pequeno, que, em abono da verdade, nem é tão pequeno como isso. Podia também falar do Largo do Rato e de um edifício cor-de-rosa que lá há, mas não quero tornar este texto num texto político. E gosto de ratos, vejam lá (não daqueles). Há nomes que deviam voltar ao original, e digo isto porque há seis anos que vivo cheio de pena do Duque da Terceira, que tem uma estátua esquecida por todos, menos pelos pombos, naquela praça vulgarmente designada por Cais do Sodré.

Mais interessante ainda do que a toponímia de Lisboa serão os nomes que as pessoas dão aos seus estabelecimentos, sejam eles de que natureza for. Ali na Maria Pia, por exemplo, deparei-me com um café chamado “Vamos ao Amadeu” – e, mais abaixo, com outro já fechado com um toldo gasto a dizer “Vamos à Mila”. O que me leva a crer que a vizinhança "vai" mais frequentemente ao Amadeu que à Mila. O caríssimo leitor que pense o que quiser disto. Mas se for à zona não de deixe enganar: posso dizer-lhe que em princípio valerá mais a pena ir ao Amadeu do que ao “Happy Café”, pois este era o café com ar mais triste e desolado que alguma vez vi pela janela de um autocarro entupido no trânsito. A menos, claro, que o caríssimo leitor seja uma pessoa dada a trocadilhos, coisa para a qual eu tenho tanto jeito como para desporto, o que aliás é bem visível a qualquer pessoa que se dedique à leitura desta prosa.

E levei mais de duas horas do trabalho até casa, já agora.

john

7.10.09

Agenda:

A dez de Março, o Campo Pequeno (Lisboa) vai receber estes irlandeses. Algum dos micróbios, ou dos leitores, quererá ir comigo ouvir a Zombie e a Linger?

john

Gases, diz ele.

Mudanças concluídas (pela sexta vez em seis anos), e findo o pequeno acidente de percurso que me fez passar a tarde nas urgências do Hospital de São José, já posso voltar à rotina aqui no blogue, agora que também eu ando a fazer rotinas novas - de transportes para o trabalho, por exemplo. Há outras que são mais chatas de fazer, mas dessas não vou falar aqui. Adiante, portanto. A nova casinha é simpática, se ignorarmos a fachada degradada e, claro, a vizinha do rés-do-chão, que na primeira noite nos deu as boas-vindas com um par de berros e um acesso de histeria por estarmos a arrastar móveis às onze da noite. Mas há um quintal porreiro, e um belo fogareiro para o churrasco - cabrão do luxo, que até churrasco podemos fazer em Lisboa, até parece que estou na aldeia. A vizinhança é também simpática, tão simpática que no domingo até houve uma sessão de pancadaria na rua, uma que envolveu quatro carros-patrulha da PSP e uma carrinha da polícia de intervenção. Enfim, uma animação, a Ajuda.

john

2.10.09

Postcards from far away


A senhora Ardipithecus Ramidus ou, se a intimidade ancestral me permite, a caríssima Ardi.




fs

1.10.09

O mercado

Rita, como bem sabes eu não sou um fã do Twitter (mas não vou entrar em considerações sobre o meio), e leio o teu apenas por isso mesmo - porque é teu. E por isso vou responder à tua pergunta: o choque deve-se apenas à falta de cultura de mercado deste país. Lembra-te de que vivemos num país onde metade das empresas vive à sombra do estado, de mãozinha estendida, à espera das migalhas, de uma bênção, de um favorzinho de um amigo que tem um primo (perdão, um filho de um tio) num alto cargo. A outra metade, (sobre)vive como pode, ou fecha portas e manda gente para as filas dos centros de emprego. Não temos cultura de mercado - temos a cultura das empresas públicas e das golden shares, bonita expressão inglesa para tacho e para o estado meter a colher em sopa alheia. Por isso uma OPA é tão estranha. Eu sou um analfabruto (técnico, provavelmente) no que diz respeito à Economia (como também sabes), mas isto parece-me a mim evidente.

john

Deus nos livre e guarde.