31.12.11

Um excelente ano de 2012 para as pessoas comuns



jtf

29.12.11

Melancholia

Mais ou menos desde o Tratado da União Europeia -Maastricht '92- que o continente vive a ilusão de conceitos tão gasosos como "união dos povos" ou, pior, "união de nações plenamente soberanas". Talvez, até aqui, a única parte verdadeiramente exagerada tenha sido o "plenamente". Contudo, desde o reumático subprime até aos dias de hoje, a nações passaram a ter de "soberanas" tão pouco que o conceito se tem tornando uma miragem a que muito dificilmente voltarão. Ora, se por um lado os povos nunca foram verdadeiramente unidos; por outro, neste cenário, começaram por não ser verdadeiramente soberanos e, alguns, deixaram de ser nações sequer. Curiosamente, todo este jogo global de interacção económica e de afectação "livre" dos recursos cada vez mais limitados às necessidades potencialmente infinitas -a que muita gente chama, por simplificação, capitalismo- começa, aos poucos, e à semelhança dos destroços de regimes totalitários não muito longínquos, a abdicar da democracia como sua forma de controlo. Retirando, assim, o tapete ao princípio básico da representatividade. Sem que aparentemente ninguém se mexa.

jtf

27.12.11

A música do ano:


She says:
"It's just the white wind when it whimpers.
It's just the black rain when it squalls.
It's just white meat whistling a waltz.
It's just nine hands wiping a white shadow off of the walls."

Okkervil River, White Shadow Waltz (I Am Very Far, 2011)

john

Hitch

Muito se foi dizendo a respeito da galopante capacidade de Hitchens para transformar a discussão num desporto, numa corrida. O poder da premissa, a ligação e o clímax, muito semelhante a outros universos bem menos partilháveis mas igualmente galopantes. Porém, do nosso escasso contacto, confesso que aquilo que mais me impressionava era o nível da fluência. A qualidade com que corria. Espontaneamente. Sem que nada o parasse.

jtf

26.12.11

Deste lado do Mundo

Conta-se que quando perguntaram a Clemenceau o que é que imaginava que a história contaria sobre o início da Guerra, altivo e convicto, respondeu: "não dirão que a Bélgica invadiu a Alemanha". Sobre os dias que vão correndo deste lado do mundo, é difícil dizer melhor.

jtf

21.12.11

Boas-vindas

Gostaria de dar as boas-vindas ao Francisco Pessanha, que passará a fazer parte do Jardim. O Francisco irá, com a qualidade da sua escrita, o seu rigoroso olhar sobre as coisas, condimentar este blogue com especiarias vindas de outros meridianos. Da música à política, do racinal ao emotivo. Um abraço, Francisco.

jtf

Chicken Run



Tem alguns antecedentes históricos esta inclinação irresistível para a diáspora. A parte inaudita é aquela a que poderíamos, com uma certa simpatia, designar de «empurrão». Portugal tem um certo historial no que toca à emissão de humanidade para o mundo. Começando no sec. XIX e passando pelo sec. XX da primeira República e o Estado Novo das porteiras e dos padeiros. Curiosamente ou não, os itinerários repetem-se: Brasil e América Latina no sec. XIX; Europa central e África em meados do sec XX. Contudo, em qualquer um destes momentos históricos nunca a ordem para emigrar se verbalizou. E o ter-se sido não é um pormenor.

jtf

16.12.11

Pessoa '11

De forma grosseira, Portugal tem-se tornado um infiel e errático depositário das mentes que fizeram o passado, das que fazem o presente e das que farão o futuro que ainda nos restar em sorte. Com relativa frequência nos apagamos das memórias e da memória, sem que isso implique o mínimo de ardor, comichão ou o mais módico dos pudores. Justa e injustamente, elevamos passados longínquos, relegando para enésimo plano alguns dos que, por fortuna dos deuses, connosco partilham a contemporaneidade. Este labirinto da saudade é, por si só, um mapa orográfico da portugalidade, da utopia-constante, do medo de existir. É justo que nos verguemos perante Eduardo Lourenço e tudo quanto inscreveu, a giz, na História de Portugal. E não apenas do pensamento e da literatura portuguesa. De São Pedro do Rio Seco para a eternidade.

jtf

15.12.11

Da Reforma

Como forma de fazer jus ao epíteto de «reformista» - que não «reformador», porque daí viria algo diferente -, este Governo resolve bater em tudo o que mexe, mesmo naquilo que se mexe bem (merengue, salsa e dança-jazz) e se recomenda, tornando-se exemplo para companhias menos expeditas. Bastaria, até, durante um qualquer Conselho de Ministros, domingueiro que fosse, requisitar o actual Ministro da Saúde para que este iluminasse os espíritos mais monocórdicos e impedisse esta volúpia siamesa de S. Bento. Juntar ao Fisco as Alfândegas e a DGITA pode muito bem fazer com que três coisas que funcionavam bem passem a uma que não funciona de todo. Porque a lei das economias de escala, como todos nós sabemos, tem limites.

jtf

14.12.11

Pirotecnia


A grande duplicidade que a figura de Marinho e Pinto causa nas almas dos mortais é que quando estamos de acordo com ele, tudo nos parece um alívio fisiológico prolongado. Um quasi-prazer «chicoteante». O problema é quando o inverso se dá e o ricochete nos tritura. Ontem insurgiu-se (e bem) contra esta alma ministrial de confundir as «árvores» com as «florestas». Porém, tudo o que Marinho tem de acutilante, reforça-se, a espaços, em inconsistência e pitadas adequadas de demagogia para manter o paladar-a-gosto. Basta pensar que no caso daquela hipérbole chamada «copianço no cej» não perdeu tempo com futilidades como sejam distinguir as «árvores» e as «florestas», porque com isso perder-se-ia todo o efeito pirotécnico que só Marinho e Pinto consegue produzir.

jtf

12.12.11

Da moral Luterana II


Aquela ideia fora de moda da «Europa dos pequenos passos» só aparentemente deixou de se usar. Recauchotou-se. Criou-se uma espécie de dupla-personalidade. Se, por um lado, os passos são pequenos e tímidos no sentido do mútuo europeu, maior solidariedade, um plano a longo-prazo que corrija alguns comportamentos desviantes; por outro, os passos agigantam-se quando em cima da mesa está a repressão às democracias nacionais, em todas as suas metamorfoses. Para não falar nesse Deutsch wahn de constitucionalizar a política orçamental. Ou, propriamente dita: a Política itself. Que mais não é do que misturar nabiças com batatas, ilegalizando - para gáudio de alguns - o Keynesianismo pela raíz.

jtf

10.12.11

Da interacção

Não consigo compreender as pessoas que dizem que concerto X foi mau porque o artista Y ou a banda Z "não interagiu com o público". Se a ideia é interacção, então mais vale fazer-se uma sessão de autógrafos - há menos barulho, e com jeitinho a banda arranja um ou dois minutos para cada pessoa. O objectivo de um concerto é ouvir ao vivo as músicas de um artista ou de uma banda - como tal, o que se pede é que a banda toque as músicas que tem para tocar, e que as toque tão bem quanto possível. Há concertos, claro, em que a interacção com o público torna a coisa muito interessante - assim de repente, lembro-me de um concerto de Audioslave há alguns anos, no qual Chris Cornell fartou-se de falar com o público, e depois tocou uma excelente versão acústica da Black Hole Sun, da sua antiga banda Soundgarden. Mas também me lembro de um extraordinário concerto de Tool, que estará sem dúvida no meu top 5 de concertos, no qual não houve (que me lembre) qualquer interacção - o vocalista, aliás, até estava no fundo do palco. Por outro lado, o que não falta por aí é concertos nos quais os artistas ou as bandas são simpatiquíssimos mas o resultado musical - que, em última análise, é o que verdadeiramente interessa num concerto - fica muito distante das expectativas.

Há muita gente com as prioridades trocadas, é o que é.

john

8.12.11

Com custos para o utilizador

As últimas SCUT deixam de o ser hoje, passando a ser auto-estradas como as outras, com portagens. O problema das SCUT não é passarem agora a ter portagens - é não as terem desde o dia da inauguração.

john

Tolerância

6.12.11

Lei de Bases da Decência

O famigerado «excedente» - a que as pessoas fora de Massamá (sem ofensa) também chamam «folga» - de dois mil milhões de euros encontrado no Orçamento do Estado de 2011, quer dizer duas coisas: (i) o Primeiro-Ministro mentiu. Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes; e (ii) se, como já foi avançado, se vai utilizar esse «excedente» para saldar dívidas e honrar os compromissos do Estado, podem começar por honrar os compromissos com os trabalhadores, repondo a metade do subsídio que (nos) devem.

jtf

5.12.11

Sempre à mão

Andam para aí plebe, reis e alguns duques entretidos com o velho medo dos Governos controlarem a informação do canal público de televisão. Há uns dias, Mário Crespo "entrevistou" Maria João Avillez, para que esta discorresse sobre o homem invulgar de Massamá. Todo este anúncio publicitário ao Passismo ocorreu num canal dito privado e ninguém se preocupa com este tipo de futilidades. Para quê controlar a RTP se se pode ter um Mário Crespo sempre à mão? Torna tudo muito mais fácil.

jtf