29.1.13

Sector Público

Estive a ouvir o Prof. Lars Jonung apresentar, na conferência da Gulbenkian (com jornalistas, live stream e relatos em tempo real do Prof. Pita Barros), o sucesso estonteante da reforma do sector público sueco nos anos 90; dos instrumentos utilizados, das políticas de longo-prazo, dos orçamentos plurianuais, da importância de um conselho de finanças públicas verdadeiramente independente, etc. Há, porém, uma premissa da qual não poderemos nunca escapar: a Suécia tem Suecos.

jtf

21.1.13

Chatham House Rules

8.1.13

Não consegui pregar olho esta noite

António Botelho não sabe o que fazer à vida e pensa todos os dias em deixá-la, abandonada, num qualquer canto de hospital. Os pais, camponeses, migraram para a cidade e trabalharam toda a vida, aqui e ali, em serviços de sapataria e um ou outro trabalho de limpeza. Divorciaram-se quando ele tinha quarenta e oito anos. Nunca mais se entenderam e deixaram definitivamente de se falar no dia em que um deles saiu de casa e passou a pernoitar na pensão que então ocupava o número 17 da mesma Rua da Casa-do-Povo. Depois da separação, António fez aquilo que qualquer um faria: leu livros de auto-ajuda, bebeu aguardente velha, dormiu até entardecer e pendurou o amor-próprio num cabide longínquo e inacessível, bem ao fundo do corredor interior. Grande, tez rosada e pele negra, ficou desempregado do pequeno restaurante da Rua do Palmo-Grande em que trabalhava há mais de quarenta e dois anos. António trabalha hoje na apanha da azeitona perto de Lima, no Peru.

jtf

4.1.13

Esplanada

Deixemo-nos de coisas. Este país é um detector-de-metais que não detecta. Este país é um espremedor-de-frutas que não espreme. Este país é um gramofone com a agulha encravada há décadas. Este país é um micro-ondas com infinito temporizador. É um artesanal saca-rolhas que nada saca. Um terror. Este país é uma gaiola de enguias, de serpentes. Alegorias. Este país é uma arca congeladora de torrentes e correntes e muitas coisas mais. Este país é um anticiclone, particularmente ventoso e pluvioso. Este país é um MG Metro sem catalisador. É uma montanha íngreme por transpor. Este país é, com a beleza de todas as indefinições, um coiso. E está tudo dito. Andaram anos, coléricos, a reclamar o combate (atenção que é metafórico) à economia paralela, mas agora, quando o ringue está montado e o combate principia, queixam-se que «é muito papel». De facto, ser «cidadão» dá muito trabalho e requer espaço de arquivo. Não é para todos. Este país é uma brigada de máquinas-registadoras por usar. É uma bonita paisagem de algas, eucaliptos, retro-escavadoras e caminhos por andar. Como dantes.

jtf