23.12.12

Um jornalista de excelência

Os indicadores que normalmente se utilizam para medir a mobilidade social costumam valorizar os Estados Unidos. Há aí mais possibilidade de gente fora do sistema evoluir e chegar ao topo. Tivemos bons exemplos disso: o Bush que vem de uma família aristocrática, mas também tivemos o Clinton e o Obama que são de famílias disfuncionais. Essa mobilidade ajuda à ascensão, mas isso não tem a ver com desigualdades, a sociedade americana é muito desigual mas não é fechada.
José Manuel Fernandes, em entrevista ao i (via Jugular).

OCDE, Economic Policy Reforms: Going for Growth 2010 (Capítulo 5): "Intergenerational earning, wage and educational mobility vary widely across OECD countries. Mobility in earnings, wages and education across generations is relatively low in France, southern European countries, the United Kingdom and the United States. By contrast, such mobility tends to be higher in Australia, Canada and the Nordic countries."

Mas tornemos este post mais ilustrativo, para que mesmo alguém como José Manuel Fernandes (o mesmo que garantia a existência de ADM's no Iraque) consiga compreendê-lo (clicar no gráfico para aumentar a imagem):

Como será fácil de perceber (porventura até para José Manuel Fernandes), quanto maior a elasticidade intergeracional de rendimentos, maior a importância que o rendimento dos pais adquire no futuro rendimento dos filhos, e menor será a mobilidade social. Quais são os 3 países ali encostados à direita, com menor mobilidade social? Pois é: Estados Unidos, Itália, e Reino Unido. É verdade que "mobilidade social" pode estar a ser usado num sentido um pouco diferente de "mobilidade social intergeracional" (por exemplo, poderia estar a referir-se às oscilações de rendimento de um indivíduo ao longo da sua vida, e à forma como vai pertencendo a diferentes percentis de rendimento, embora eu nunca tenho visto dados que indiquem que os resultados obtidos em tal caso fossem diferentes destes). No entanto, alguém mais está vagamente curioso para saber quais os "indicadores de mobilidade social" em que José Manuel Fernandes se baseou para efectuar a sua categórica afirmação?

Mas continuemos pelo Capítulo 5 do referido relatório da ODCE para outras medidas de mobilidade, desta vez restringindo-nos a países europeus. Usando como medida alternativa a diferença entre os rendimentos de indivíduos (entre 35 e 44 anos) cujo pai obteve diferentes graus de educação (ensino superior vs. algum ensino secundário), e diferenciando por género, a OCDE indica os seguintes gráficos:
Pois é, liderança sólida para Portugal. Continuando mais um pouco, a OCDE nota que uma menor mobilidade intergeracional, não surpreendentemente, está associada a um maior nível de desigualdade:
De forma igualmente não surpreendente (excepto eventualmente para a gente da área política de José Manuel Fernandes), programas sociais e regimes fiscais mais progressivos parecem estar associados a uma menor influência do rendimento dos pais no futuro rendimento dos filhos (portanto, maior mobilidade intergeracional):

Passos Coelho, corta aí mais umas despesas sociais! Claramente, o caminho para os amanhãs que cantam passa por aí. E a retoma da economia está mesmo, mesmo ao virar da esquina...

sp

21.12.12

Novos Valores

Esta semana, a Leya deu um prémio-escaparate-pingo-doce qualquer. Fui investigar, porque convém saber os possíveis excrementos que não se devem pisar. Encontrei pérolas, lagartas e outros bichos-de-estante. Exemplo: «e olhas o espelho do que pareço ser/sem um riso, sem que digas afinal que/o dia é breve e há outros céus onde voar». Outro exemplo: «É difícil ser a gente, não é?/Com esta dor aprumada ao peito/Com tantos pés sem uma dança/E muita terra comidos nos olhos/E muita carne escondida na pele». Poderia fingir que não tinha lido isto, e continuar a minha vida como se nada fosse. Mas opto por voltar-me para vós, audiência, e perguntar-vos com o «imenso respeito» tão português: mas que merda vem a ser esta?! A minha mãe tem alunos no quarto ano que escrevem frases com um português melhor que este, pá! 
Sejam, pois, bem-vindos ao mundo dos «novos valores» (negativos, por certo) da literatura portuguesa. 
Amén.

jtf

17.12.12

A derrota do Perpétuo














O que começa por ser um exercício quasi-quotidiano de dissecação das pequenas rotinas e das grandes respirações, passa imediatamente a ser uma espécie de repositório único de tudo quanto, por simplicidade, continuamos a chamar vida. Tudo aqui é matéria poética, realística, perfurante. Tudo é matéria feita de consanguinidades e de atributos comuns ao mundo dos vivos. O cinema gelado de Haneke não faz mais do que servir, no seu estado mais puro, tudo quanto é incontornavelmente íntimo, dramático e existencial, aos humanos. Amour é uma máquina-de-filmar a derrota do perpétuo e a vitória do cúmplice. Nunca como aqui se conseguiu chegar tão próximo do dilema da consciência, do mais íntimo dos sentimentos. Existir. Sucumbir.

Amour é a vitória da cumplicidade sobre a finitude.

jtf

14.12.12

Parece que a frequência do Ensino Superior é um "bem de Giffen"...

... ou pelo menos aparenta ser nessa direcção que aponta a notícia surgida no Público (via Spectrum):
"A introdução de propinas no ensino superior, em 1997, teve um impacto positivo para o país, permitindo um aumento do número de estudantes e garantindo um retorno para o Estado. 
(...)
Este trabalho foi encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos ao Centro de Estudos de Gestão e Economia Aplicada da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa (UCP)."

Enfim, até pode ser que as conclusões do estudo sejam mais complexas do que a notícia do Público dá a entender, ou que isto seja apenas mais um casos, dos vários em que o jornalismo português é prodigo, em que um(a) jornalista distorce por completo (intencionalmente ou por incompetência) as afirmações de um economista (já aconteceu com citações de textos Krugman, e por mais de uma vez).

Alternativamente, e para os mais cínicos, pode ser que a expressão-chave seja mesmo "encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos".

Em todo o caso, adorava ler os pressupostos em em que os autores se basearam (infelizmente, não consegui encontrar o estudo online).

sp

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5.12.12

Como se Nada Fosse

Ao que parece, para Passos Coelho a carga fiscal é insuportável mas, ao mesmo tempo, os portugueses podem suportá-la. É, digamos, um ser que desafia com bravura e com «estoicismo» a sinonímia. O contacto com a Terra é feito por meio de um space-shuttle com carreiras pouco regulares. Lá, num lugar com pavões, o ar é rarefeito e tudo está desenhado para que se permaneça irrepreensivelmente isolado de contactos com humanos de carne e osso; em especial os que se servem da sopa dos pobres no Saldanha e os que pernoitam nas escadas do Éden, nos Restauradores. Todo o contacto é garantido por antigos articulistas e um ou outro ex-director de jornal em processo de despedimento colectivo. As caravanas oficiais não param para ver a miséria em que se vive; porque, se parassem, rapidamente perceberiam que o importante não é o «ajustamento dos desequilíbrios» mas sim evitar que o desequilíbrio se apodere do ajustamento. 

Talvez um dia, quando nada mais houver que ajustar e tudo permanecer ajustado ao mínimo, se perceba que tudo isto não passou de um assalto.

jtf