30.4.09

Nunca me senti tão contente com o regresso de um chato





fs

Engrenagens.

Num país civilizado, mesmo um irresponsável como eu não teria de perder imenso tempo a recolher toda a tralha, cada papelinho, que terei de colocar nos impressos do IRS - nem estando muito certo de toda aquela papelada vir a ter alguma utilidade. Aliás, num país civilizado, eu nem teria de perder uma noite a preencher os formulários. Assim de repente ocorre-me, sei lá, a Noruega, que não será o país com mais qualidade de vida do mundo por acaso: dizem-me amigos de lá que os contribuintes apenas têm de, quando recebem os impressos, confirmar se está tudo correcto. Se estiver, tudo muito bem. Se houver alguma falha ou alguma coisa a acrescentar, o contribuinte comunica isso ao equivalente norueguês das Finanças. Lá, como cá, o Estado cobra um absurdo em impostos. Lá, ao contrário de cá, as coisas funcionam. Existe um retorno, digamos assim, dos impostos pagos - e a máquina estatal ainda poupa trabalho ao cidadão/contribuinte, tratando-o com um mínimo de dignidade. Aqui, a perra máquina burocrática do Estado-papão não só nos rouba quase metade do produto do nosso trabalho sem nos dar grande coisa em troca, como ainda nos submete a um processo de tortura rocambolesco (waterboarding? deixem-me rir) no momento de preencher o IRS - e ai de nós se não o fizermos: a máquina burocrática foi apenas oleada na parte em que pune (mais ainda) os cidadãos que sejam malandros e tentem escapar às malhas, ou os incautos que se esqueçam de alguma coisa.

No resto das engrenagens, o Estado meteu areia. Puta que o pariu.

john

Santinho.

Gripe suína. Certo. Faz todo o sentido: depois de as vacas terem tentado enlouquecer a humanidade, e de as galinhas terem tentado extinguir a raça humana com espirros, chega a vez de os porcos arriscarem também. Euforia mediática. Nunca o título "o triunfo dos porcos" foi tão batido, apesar de a obra-prima de Orwell já estar traduzida por cá com aquele título há imenso tempo. Isto passa. Agora os media promovem o alarme global, os sinos tocam a rebate, a malta espirra e a tensão sobe, as urgências dos hospitais entopem, a OMS entra em frenesim. Um ou dois ministros da saúde por esse mundo fora hão-de cair. Deve haver pelo menos uma empresa farmacêutica que vai facturar - e bem - com isto - e note-se que esta afirmação não entra em teorias da conspiração. Até no mercado negro, entre haxixe e dois dvds pirateados, se comprarão medicamentos para a praga. O turismo do México e arredores cai a pique - não há Cancun para ninguém neste Verão. Mas, repito: isto passa. Esquecemo-nos todos do caso, os espirros do dia-a-dia passam a ser apenas sinal de uma corrente-de-ar ou de um simples resfriado provocado pelas mudanças bruscas de temperatura (o tempo tem andado completamente doido, repararam?).

Até que um dia destes as ovelhas...

john

29.4.09

Parece que este ano lá terei de ir à Feira do Livro.

No Da Literatura: Novidade absoluta é uma barraca com 900 títulos da Penguin Books, da responsabilidade da Tinta da China, com descontos até 30%. Parece-me muito bem. Abre amanhã, dizem-me.

john

27.4.09

...

Se são fumadores, nunca usem uma lata de Coca-Cola como cinzeiro na vossa secretária. Mais cedo ou mais tarde, distrair-se-ão o suficiente para a tentarem beber.

john

Estrangeiros

Este texto do Lourenço fez-me lembrar de um episódio curioso que ocorreu ontem no Intercidades entre Lisboa e Faro (no qual eu voltei para a capital após o 25 de Abril na terrinha - tenho um texto na calha sobre isso, acho eu). Não sei se os caros leitores sabem, mas a "racionalização de custos " levada a cabo pela CP (e pela Refer?) fez com que muitas estações de comboio fossem encerradas. Ou seja, os comboios até param lá, mas a estação encontra-se vazia, com a bilheteira encerrada e sem qualquer funcionário que diga a que horas é o próximo comboio ou que indique onde é a casa de banho. Na linha do Sul, a situação acontece, se não me engano, em Alcácer do Sal, em Grândola, na Funcheira e em Messines-Alte (só para falar das paragens do Intercidades). O que os passageiros - como eu - fazem é entrar no comboio, apanhar um lugar disponível e esperar que o revisor passe para adquirirem um bilhete.

Naturalmente que esta solução é problemática, sobretudo em dias em que o comboio está demasiado cheio - a lotação não é controlada (porque se as estações não emitem bilhetes o comboio não está esgotado), o que faz com que, por vezes, até haja gente sentada nas casas de banho. Pessoalmente, já perdi a conta do número de viagens que fiz sentado naqueles banquinhos altos do bar, a beber cerveja - ao menos o bar do Intercidades do Sul ainda funciona. Outro problema - para a CP, naturalmente - deriva do facto de que os revisores são, afinal, humanos, e incapazes de controlar todos os passageiros que entram em cada estação. Acontece assim que, por vezes, quem entra na Funcheira - como eu - consiga chegar a Sete Rios sem ver o revisor e, portanto, sem pagar bilhete. Ou acontece o revisor simplesmente não reparar num passageiro, e o passageiro, cioso da sua carteira, também não chama o revisor. Já disse até a um revisor que tinha entrado no comboio em Alcácer do Sal, quando tinha na verdade entrado na Funcheira - e ele sabia que eu o estava a aldrabar, era óbvio, mas não podia fazer nada.

Mas dizia eu no início que o texto do Lourenço me fez pensar num episódio que aconteceu ontem. Exacto, exacto. Já lá vamos. A rapariga que estava sentada dois lugares a seguir ao meu tinha também entrado na Funcheira e era obviamente estrangeira - não por causa dos longos cabelos loiros, dos (lindíssimos) olhos azuis, da roupa nitidamente turista (leia-se desleixada), das sandálias ou da grande mochila que carregava com ela. Mas porque, quando o revisor passou por ela sem se lhe dirigir para cobrar bilhete, ela abriu a carteira, retirou uma nota de vinte euros e foi atrás dele, para comprar o tal bilhete.

Eu quase senti vontade de dizer que da outra vez afinal não tinha entrado em Alcácer, mas na Funcheira, mas decidi ficar calado. Bastou-me a lição de civismo que aquela menina de olhos azuis me deu sem querer.

john

24.4.09

Deus volta a Portugal em Julho.


jtf

23.4.09

espelhos e reflexos #18

- O que espera ter na vida?
- Nada. Tendo em conta que ela me usurpou ao vazio, posso apenas ficar receptivo aos caminhos que me revele.
- Pretende, então, que a vida o coloque na ordem natural das coisas?
- Não conheço qualquer ordem ou desordem. À vida só me é permitido exigir uma justificação plausível para tudo isto. Sabe, acaba por não existir qualquer morte. A morte de que é usual falar é a vida a considerar, por algum modo desconhecido - provavelmente tão aleatório como o seu começo - , que podemos regressar ao vazio. É como se a vida encerrasse em nós um Deus pigmeu.
- Acha que alguma dessas considerações faz sentido?
- Não, nenhum.
- E consegue viver assim?
- Estou aqui, não estou?





fs

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Caros micro-colegas deste jardim,

Manoel de Oliveira

Cruzei-me há dias com Manoel de Oliveira. Esse mesmo. Nunca prestei muita atenção aos seus filmes, pelo que sobre eles não me pronunciarei. Direi apenas que é impossível encontrar Manoel de Oliveira e não ficar impressionado com o homem: com o homem que aos cem anos continua a fazer filmes, e que aos cem anos mantém uma forma física invejável. A bengala? A bengala é para o estilo: deviam vê-lo a andar. É como se levitasse, tal é a sua graciosidade, a sua agilidade, a sua determinação. O meu corpinho, que nem tem um quarto da idade do senhor, não pode sequer ser comparado. que diabo: cem anos de idade e Manoel de Oliveira parece mais novo do que eu, tanto em corpo como em mente. Note-se que isto não é inveja. Talvez um pouco, certo, mas não é isso que importa: eu fiquei apenas impressionado. E senti-me pequenino por comparação.

Que o senhor continue com saúde. Eu agora vou ver se começo a seguir os seus filmes.

john

Ironia desportiva

Encontro um amigo, jogador de futebol americano. Aguenta noventa minutos no campo a levar pancada e a dar pancada. Sai do campo amassado, mas normalmente com energia e disponibilidade física para irmos beber uns copos a seguir aos jogos (normalmente vou assistir aos jogos da equipa). Encontro-o, e vejo-o com um grande lenho na cabeça. Pergunto-lhe se se lesionou no último jogo da equipa, em Barcelona (onde esmagaram os espanhóis por uns expressivos 2-49). E ele responde-me que não, que nem chegou a ir a Espanha por ter partido a cabeça uns dias antes durante... um jogo de futebol normal. Não consigo deixar de pensar na ironia.

(as rápidas melhoras ao meu amigo, já agora.)

john

19.4.09

O Manicómio

Os líderes parlamentares, em gesto de intocável beleza moral, resolveram nunca mais usar a palavra ‘autista’ para se sovarem na Assembleia. O ‘autismo’ é uma doença séria e o uso da palavra é um insulto para os ‘autistas’ e respectivas famílias. 

Nada a opor. O problema é que os delírios do pensamento politicamente correcto, quando começam, nunca mais acabam. E não se percebe como vão agir os nossos tribunos sempre que, no calor do debate, pretendam rebater intervenções ‘histéricas’, leis ‘cegas’ ou medidas governamentais ‘sem pernas para andar’.Eu, em nome da higiene verbal, evitava qualquer metáfora. E, em homenagem aos surdos-mudos, aconselhava os senhores deputados a trocarem a linguagem oral pela gestual, desde que isso não seja ofensivo para os manetas.

Por João Pereira Coutinho (evidentemente), no Correio da Manhã, numa crónica que é simplesmente impossível não citar (via Blasfémias).

john

Haja boas notícias:

Os Guano Apes reuniram-se novamente. E parece que o primeiro concerto que vão dar juntos vai ser... em Portugal - mais concretamente em Braga, nos festejos do Enterro da Gata a 10 de Maio. E voltam cá a 17 de Julho para o festival Marés Vivas, em Gaia. 

john

17.4.09

Más notícias:

O Origem das Espécies foi encerrado (e sem aviso; afinal que se passa? férias? obras? exílio?) e o Sinusite Crónica fechou portas definitivamente. É verdade que, felizmente, não faltam coisas interessantes para ler na Internet em geral e na blogosfera em particular, mas tanto um como outro vão fazer falta.

Enfim. Vamos lá ver até quando vou eu continuar a ir a cada um dos blogues apenas por hábito.

john

Conversas de táxi (I)

Não sei há quantos anos não ouvia a expressão camisa de vénus dita de forma absolutamente genuína. E convenhamos: é uma bela expressão que está claramente subvalorizada. Sobretudo na frase isto de a igreja ser contra a camisa de vénus é uma vergonha.

john

Quem não deve não teme?

Espero não viver para ver o dia em que os portugueses se arrependerão amargamente de ter um dia defendido esta ideia - ainda que por uma causa aparentemente tão bem intencionada como o combate à evasão fiscal...

john

16.4.09

A gargalhada do dia

Patrocinada, como não podia deixar de ser, pelo Aurea Mediocritas, com este post tão simples. A ler, e sem esquecer os comentários (podem saltar o meu, claro, que não acrescenta nada).

john

15.4.09

Os leitores e os colegas que me perdoem a linguagem, mas...

... juro que se vir mais uma merda de reportagem sobre o raio do cão do Obama e eu emigro para a Noruega. Para Svalbard, mais concretamente, na esperança de que lá não se ouça falar em cães de água portugueses, ou deste provincianismo ridículo.

john

14.4.09

Se aquilo chegava a Dezembro, poupava na árvore de Natal.

13.4.09

A ler:

O peso de ser magro, por Bruno Alves no Desesperada Esperança. Já eu, sei perfeitamente o que isso é [ser magro]. Soube-o toda a minha vida. E acreditem, preferia não o saber: o nosso peso é inversamente proporcional ao do preconceito que temos de enfrentar. A sociedade, embora obcecada em ser como nós, na realidade, odeia-nos. Enquanto os gordos são catalogados como pessoas bem-dispostas, nós, magros, somos vistos como uns “chatos”, incapazes de desfrutar dos prazeres da vida. Somos vistos, no fundo, como gente pouco apelativa (...). Como o compreendo, Bruno. Como o compreendo.

john

Eis a razão para a minha aldeia ser ainda um pouco atrasada

É que neste sítio nos subúrbios de Viseu, estimado leitor, a Páscoa é só à segunda-feira. O motivo oficial é que a paróquia é muito grande para se fazer a visita pascal toda no domingo. No entanto, na minha singela opinião, esta situação prende-se com o cansaço que invade a cruz. Compreenda-se que isto de um senhor pregado numa cruz a ser beijado por muitas pessoas deve cansar, e muito. Ainda para mais, não há por aqui interessantes festas pela noite dentro como em certos sítios.




fs

Isso seria uma excelente ideia.

Na Pitchfork media, via Blitz: Buraka Som Sistema querem apagar Tokio Hotel do mapa. Ideia interessante. Se me permitem a sugestão, organize-se já uma battle of bands entre os Buraka e os Tokio Hotel, mas literal, e num ringue como deve ser - como a arena do Campo Pequeno, por exemplo. Depois basta certificarem-se de que nenhuma das bandas sai de lá capaz de voltar a "tocar".

john

Sim, sou capaz de concordar com os BSS quando dizem que os Tokio Hotel são "uma coisa fabricada". Mas é sempre interessante ver nulidades a desancar nulidades. Entre ouvir uns e outros, eu preferia o silêncio. Não, nunca vi Tokio Hotel ao vivo. Sim, já vi BSS ao vivo - uma experiência mais aterradora do que Quim Barreiros. E chateia-me ver, como vi no ano passado na Semana Académica de Lisboa, uma banda fantástica como os Blasted Mechanism não ser cabeça de cartaz para figurar no topo algo como BSS.

A ler:

Da (in)utilidade.

Ter um português à frente da Comissão Europeia (no caso, Barroso) é, parece-me a mim, a mesma coisa que o melhor jogador de futebol do mundo (no caso, Cristiano Ronaldo) ter nacionalidade portuguesa. É sempre simpático ter um dos nossos nos lugares de topo, mas no fundo, não nos serve para grande coisa.

john

Páscoa na aldeia (II)

Caminhámos pela aldeia durante a noite. Passámos pelo recinto das escolas, da escola que frequentei nos primeiros anos da minha vida. Ainda me lembro dos edifícios antigos, do pátio fechado onde, durante os dias de chuva, jogávamos futebol ou patinávamos sobre a sola dos ténis. Da parede de pintura quebradiça, que se soltava de cada vez que a bola lhe acertava com mais força. Lembro-me dos grandes pinheiros-bravos - seis no total - que se viam ao longe, rodeando a escola. Eram iluminados no Natal pela junta de freguesia. A cada inverno, enchiam-se de ninhos brancos, carregados de lagartas cor-de-laranja - bichos-dos-pinheiros, como lhes chamávamos, que percorriam os muros do recinto em longos carreiros e espalhavam alergias. Lembro-me de uma ocasião - andava eu na quarta classe - em que derrubámos imensos ninhos, que empilhámos no pátio, regámos com gasolina e incendiámos. Recordo também a enorme caixa de areia do recreio, onde um escorrega e um baloiço decrépitos permaneceram durante anos - ainda me lembro de serem novinhos em folha. Lembro-me também do avião. Sim, no recreio da escola havia um avião, uma antiga máquina de guerra que à época não passava de uma carcaça de metal retorcido, pontas aguçadas e vidro quebrado. E lembro-me dos muros que delimitavam o perímetro do recinto escolar - baixos, fáceis de trepar mesmo para um miúdo de sete anos.

Fui notando as mudanças no meu antigo recinto escolar à medida que os anos passaram. O velho avião foi desmantelado há anos, e levado para outro lugar para enferrujar em paz. Os pinheiros foram abatidos. O antigo pátio foi completamente fechado, dividido e restaurado, de acordo com os modernos procedimentos. E a grande caixa de areia foi removida - diz-me o meu amigo que isso se deveu a bactérias - foi agora substituída por uma cobertura de borracha esterilizada, e novos brinquedos, brilhantes, coloridos e seguros, foram montados no local. É agora impossível encontrar pedras soltas ou lama no recreio - uma camada de relva (verdadeira? artificial? não sei dizer.) cobre agora todo o espaço que antes era ocupado por terra batida, canteiros de rosas arranjados pelo velho jardineiro e ervas daninhas. Sobre os muros baixos foi montada uma rede alta, que contorna todo o espaço e encerra os novos portões de metal reluzente, também altos. Ninguém entra ou sai do recinto. Uma escola moderna, dizem-me, onde as crianças estão a salvo de todos os perigos - e estão mesmo a salvo delas mesmas. Aos meus olhos, não passa de uma prisão, de um espaço fechado que faria qualquer criança do meu tempo infeliz.

O meu amigo, durante a caminhada, evocou as palavras adequadas: estamos a enfiar crianças num redoma. Num redoma esterilizado onde não podem correr livremente e aprender algo que não se aprende numa sala de aula - a noção de perigo. Olho para os meus joelhos e vejo várias cicatrizes, vestígios das quedas de uma criança para quem o equilíbrio sobre os próprios pés foi sempre um desafio (ainda é). Perdi a conta das quedas que dei, das vezes em que vi sangue a escorrer dos meus joelhos, e que resolvi o problema com algodão e água oxigenada (hoje já não se pode usar água oxigenada). Era assim no meu tempo - caíamos a jogar à bola, aprendíamos a andar de bicicleta sem armadura, trepávamos tudo aquilo que era possível trepar. Coxeávamos uns dias, mas isso não nos impedia de continuar a fuzilar com uma bola o desgraçado que fosse parar à baliza - que, frequentemente, era feita apenas com duas pedras grandes e contada em passos. Não conheço traumas, infâncias destruídas ou necessidade de batalhões de psicólogos por causa da lama, da areia com bactérias, do velho avião destruído que guardava o recreio. Hoje criamos miúdos num mundo artificial e esterilizado (e estéril). Lentamente, receio, daremos forma a uma sociedade de lunáticos.

A insanidade moderna chegou à aldeia, ao mais improvável dos lugares. Eu olho para o velho recinto e sinto apenas saudades dos pinheiros.

john

12.4.09

Páscoa na aldeia (I)

Juro que não esperava viver para ver o dia em que lá na aldeia a igreja enchesse à meia noite de Páscoa. Ou que as mesmas pessoas que enchessem a igreja embarcassem numa procissão mais ou menos espontânea à uma e meia da manhã. Ou ainda que uma festa da igreja - com febras, vinho, cerveja e música de gosto duvidoso - conseguisse concorrer directamente com as festas do clube da terra - com bifanas, cerveja e música de gosto muito duvidoso. Aguardo o dia em que a aldeia seja abalada por uma guerra religiosa que oponha católicos a pagãos. 

john

10.4.09

espelhos e reflexos #17

Como é possível falarmos tanto uns com os outros e dizermos tão pouco? Todas as conversas, se fossem espremidas até ao verdadeiro sumo da linguagem que é a informação, apenas dariam umas quantas palavras. É muito surpreendente esta situação. Constatar que este dom, chamemos-lhe assim, de comunicação é tão ilimitado e, no entanto, tão deficientemente utilizado. E por muito que se tente evitar, será sempre deste modo. Uma linguagem plena de adornos, como jóias a embelezar a superfície de um corpo.
Verdade seja dita, por muito que me choque esta constatação, não concebo uma linguagem sem adornos. É o que faz dela uma arte.



fs

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9.4.09

É exactamente isto:

Ele nunca se se sentira assim - não quando Henry Cameron caiu aos seus pés no escritório, nem quando viu Steven Mallory estendido numa cama à sua frente, perdido num pranto. Aqueles momentos haviam sido simples, secos. Mas isto que sentia era pena - a completa visão de um homem sem valor ou esperança, uma sensação de finalidade, de impossibilidade de rendenção. Havia vergonha nesse sentimento - a sua própria vergonha por ter de julgar alguém dessa forma, por ter de conhecer uma emoção que não tinha qualquer vestígio de respeito.
Isto é pena, concluiu, e ergueu a cabeça, pensativo. Alguma coisa tem de estar terrivelmente errada com um mundo onde um sentimento tão monstruoso é considerado uma virtude.

Ayn Rand, The Fountainhead (tradução minha).

Boa Páscoa. Volto para a semana.

john

Datas confirmadas:

7.4.09

Desculpa lá, john, mas...

6.4.09

Vinte e cinco

António Manuel Venda, no Delito de Opinião, refere os vinte e cinco livros da sua vida, e desafia os leitores a falar do tema. Pensei em deixar um comentário, mas iria certamente ficar longo. Aqui vai, portanto, em formato de post. Não vou mencionar vinte e cinco, mas deixo aqui alguns, com um breve comentário:

The Fountainhead, de Ayn Rand: É a minha leitura de momento, e posso já dizer que é o melhor livro que já li. Obrigado à malta do Insurgente pelas constantes referências - foram elas que me aguçaram a curiosidade.

The Catcher in the Rye, de J.D. Salinger: A história de cinco dias na vida do adolescente Holden Caulfield, após a sua expulsão do colégio que frequenta. Nunca encontrei uma personagem com a qual me identificasse tanto. E a escrita de Salinger é simplesmente brilhante.

The Silmarillion, de J.R.R. Tolkien: A obra-prima nunca concluída por Tolkien - que também nos deu O Senhor dos Anéis e abriu as portas à literatura de fantasia. No género, creio que é insuperável, e a sua influência saiu do universo literário - faz todo o sentido perguntarmo-nos se existiriam todos os fabulosos universos de fantasia em jogos de tabuleiro, cartas, videojogos e role-play se a obra de Tolkien não tivesse existido. Pessoalmente, acho que não.

The Snow Queen, de Joan D. Vinge: Numa época em que a ficção científica era dominada por personagens masculinas, houve duas rupturas: no cinema, Ridley Scott, com a personagem Helen Ripley (Sigourney Weaver) no genial Alien; e na literatura, Joan D. Vinge com Moon Dawntreader e Arienrhod no romance The Snow Queen. Para quem gosta de shoot-em-ups espaciais, pode não ser o livro mais indicado. Mas quem gosta de uma grande história, não hesite.

Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons: A graphic novel do século XX, e a única obra do género a constar na lista da revista Time. Watchmen desconstrói o conceito de super-herói com mestria, apresentando uma realidade alternativa da Guerra Fria onde os justiceiros mascarados são seres humanos como outros quaisquer. E onde o assassínio brutal de um vigilante acaba por revelar uma tremenda conspiração.

Psion, de Joan D. Vinge: É curioso - quando li Psion, pensei que estava muitos furos abaixo de The Snow Queen. Mas acabei por reler, e perceber que estava errado. Muito errado. Psion é um romance extraordinário sobre a diferença e sobre o preconceito - e sobre como os verdadeiros heróis são sempre improváveis.

Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick: Sobre este, não há muito a dizer. O melhor filme de ficção científica de todos os tempos - Blade Runner, evidentemente - baseia-se nesta obra. E o livro é ainda melhor, acreditem.

Brothers' War, de Jeff Grubb: Sim, é um livro do jogo geek Magic: The Gathering. E depois? A história da guerra entre os irmãos Urza e Mishra que levou à destruição do continente de Argoth e mergulhou o mundo de Dominaria numa era glacial continua a ser uma das melhores obras de fantasia que já li.

Northern Lights, de Philip Pullman: A saga His Dark Materials (Northern Lights, The Subtle Knife e The Amber Spyglass), foi considerada por vários críticos como a melhor trilogia de fantasia desde O Senhor dos Anéis. Não li, naturalmente, toda a fantasia desde a obra-prima de Tolkien, mas esta opinião não andará longe da verdade. Pullman criou um mundo extraordinário, cruzou-o com o nosso, e deu forma a uma obra imprescidível para quem gosta do género. E esqueçam a (péssima) adaptação para cinema.

Os Maias, de Eça de Queirós: Uma das leituras do tempo do Secundário. Impressiona por o retrato da sociedade portuguesa de finais do século XIX ser terrivelmente actual. E pela escrita, naturalmente. De resto, nunca percebi o mito da descrição do Ramalhete: continuo a achá-la uma passagem fabulosa do livro.

Aparição, de Vergílio Ferreira: A grande leitura do tempo do Secundário - aliás, creio que à época, fui a única pessoa da minha turma que verdadeiramente gostou deste romance de Vergílio Ferreira. Hoje já não consta dos programas, o que é uma pena (não desfazendo o Memorial do Convento, apesar de, confesso, nunca o ter lido).

O Cágado, de Almada Negreiros: Não é um romance, mas sim um conto (uma short-story, se quiserem) sobre um homem que escava até à China por causa de um cágado. Hilariante (e não, o cágado não se chamava Eustáquio).

Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Júlio Verne: O primeiro romance que li (se excluírmos a colecção Uma Aventura e as bandas desenhadas da Disney), tinha eu oito anos. Nunca me vou esquecer da chegada apoteótica do fleumático Phileas Fogg ao clube londrino, quando julgava que a aposta estava perdida - valeu-lhe ter viajado para Oriente, e não para Ocidente. A vida também é feita de acasos.

john

[se alguém quiser continuar, faça favor.]

A soleira da porta de Salinger.

Tom Leonard, jornalista da revista Spectator, foi procurar J.D.Salinger. Ficou pela soleira da porta do escritor que se mantém fora do mundo há cinquenta anos. O resultado pode ser lido aqui - e isto, meus caros, é jornalismo a sério.

john

child locator

Benjamin Franklin (já não se fazem homens como Benjamin Franklin, para mal do mundo) disse certa vez uma frase hoje esquecida: those who trade freedom for security deserve neither freedom nor security. Isto vem a propósito do child locator, um aparelhinho muito interessante que permite aos pais seguirem todos os passos dos seus filhotes ao longo do dia. Uma espécie de telecrã orwelliano, por enquanto a funcionar apenas por GPS. Coloca-se um chipzinho no bolso ou na mochila do petiz, e segue-se os seus passinhos num telemóvel ou num PDA. E troca-se assim a privacidade e a liberdade da criança por uma falsa ilusão de segurança para os paizinhos. Ah, admirável mundo novo!

Há quem diga maravilhas desta tecnologia - é ler esta peça do Público. É como qualquer tecnologia: é inócua até lhe ser dada uma determinada utilização. Esta utilização em particular é apenas mais um pequeno passo, a juntar ao famoso chip de matrícula para os carros (pago pelos donos dos carros, gostem ou não) e às câmaras de vigilância que aparecem por toda a parte, como cogumelos. E lentamente abdicamos das nossas liberdades, do nosso direito à privacidade, em nome de uma segurança que não podemos obter. Já fui assaltado diante de uma câmara de vigilância, numa estação de metro em Lisboa. A coisa não serviu para nada. Todos os dias há assaltos em comboios e no metro, onde cada carruagem tem a câmara da praxe - que já nem serve para dissuadir a criminalidade. Abdicámos, pois, da nossa privacidade - e não ficámos mais seguros. O child locator é apenas mais um embuste, que servirá apenas para vigiar crianças - mas que não conseguirá efectivamente protegê-las.

Benjamin Franklin tinha razão.

john

3.4.09

Mas entretanto,

e sobre o caso Fripór, ocorre-me partilhar convosco a seguinte citação:

A good conspiracy is unprovable. I mean, if you can prove it, it means they screwed up somewhere along the line. (do filme Conspiracy Theory; as maravilhas do Google!)

Vamos ver o que sai das história das campanhas negras.

john

Isto também é capaz de já ser uma "comuna anarco-sindicalista".

O primeiro-ministro processou João Miguel Tavares, colunista do Diário de Notícias, por esta crónica (certeira, na minha opinião). Está no seu direito, claro. Mas este episódio, mais do que me fazer pensar sobre a (débil) saúde da democracia portuguesa, traz-me imediatamente à mente uma cena memorável (passe a redundância) do não menos memorável filme O Cálice Sagrado, dos Monty Python: aquela em que o Rei Artur discute política com um camponês que chafurda numa poça de esterco e acaba a mandar o homem calar-se, fazendo-o gritar a mítica frase "Help! Help! I'm being repressed!".

A ver se consigo colocar aqui o vídeo assim que me apanhar em frente a um computador com o flash player instalado.

john

a despedida perfeita*

a despedida perfeita nunca e falada. nunca se torna real porque não o pode ser. vivemos poucos momentos tão constrangedores como as despedidas - e não pensemos aqui em casos de morte, uma vez que não é possível despedirmo-nos de quem atravessa definitivamente as fronteiras deste mundo pequenino e fútil. mas quando alguém está de partida, a minutos de entrar no comboio que o levará para o outro lado do país, quiçá do mundo - o que é suposto dizermos? ou quando somos nós a partir, o que dizer àqueles que deixamos para trás quando nos aventuramos no desconhecido? a despedida perfeita é silenciosa, pois em tal momento nada deve ser dito. ou feito. um beijo, um abraço, um aperto de mão? não. um olhar, apenas, um último olhar para os olhos de todos. é mais do que suficiente. é o reconhecimento silencioso de que, independentemente da distância ou do tempo que passar, nada irá mudar, e que aqueles que partem irão sempre amar aqueles que ficam para trás. ou que aqueles que ficam para trás, no terminal, irão ser sempre um porto seguro para aqueles que partem, ao qual estes podem sempre regressar se forem traídos na sua demanda.

*adaptado daqui.

john

2.4.09

Boa pergunta.

1.4.09

Uma iniciativa muito boa...

... para todos os maluquinhos astronómicos, categoria na qual me incluo: controlar um telescópio a partir da Internet. A ver se consigo dar um passeio por Andrómeda esta noite.

john

A gargalhada do dia:

A ler:

O ser e o nada, por Pedro Correia no Delito de Opinião.

john