Sobre o tremendo empreendimento científico do Cern em Genebra, com o Large Hadron Collider, recomendo a consulta de vários jornais estrangeiros disponíveis em rede: o The Independent, o Times e o Globo (versão online) têm artigos razoáveis sobre a coisa (os ingleses, com um toque de humor que só o jornalismo anglo-saxónico consegue dar às suas peças). Algumas revistas americanas de tecnologias também, mas não sei se estão disponíveis ao público em geral.
Para uma boa gargalhada sobre o tema, recomendo a leitura de duas notícias retiradas da página web do Público:
Notícia #1
Notícia #2
Leiam sobretudo os comentários a ambos os artigos - é o delírio em estado molecular. Desde acomodados a perguntar porque não se investe noutras coisas (típico), a profetas do apocalipse a anunciar que o fim do mundo começa em Genebra, aos teóricos da conspiração que afirmam que dali vai sair a nova arma de destruição massiça dos americanos (sempre os americanos), até evangelistas brasileiros a condenar os cientistas por acharem que estes querem substituir deus.
Mas vamos por partes:
1) Aos acomodados: problema não é investirem-se os oito mil milhões de euros que o projecto do Cern consumiu noutra coisa qualquer (combater o cancro, a fome, ou, suprema imbecilidade, o desemprego na UE, como alguém sugeriu). O problema, o verdadeiro problema, é não se investir noutras coisas também. O projecto do LHC é da maior importância para a humanidade, na medida em que poderá permitir a compreensão de fenómenos que até agora estavam absolutamente fora do nosso alcance. Ou não será o conhecimento um fim em si?
De resto, dizer que todos aqueles recursos estão a ser investidos num projecto sem utilidade nenhuma é um perfeito disparate. Em primeiro lugar, porque o conhecimento em si é útil, como disse acima. E em segundo lugar porque do conhecimento obtido com esta experiência poder-se-à criar muita coisa útil. Como já aconteceu antes, aliás.
E combater a fome no mundo com oito mil milhões de euros seria, convenhamos, um perfeito disparate. Se esse dinheiro fosse dado aos países necessitados, iria parar todinho aos já bem gordinhos bolsos das elites corruptas que governam aqueles estados, nunca sendo realmente aproveitados para retirar as populações da miséria.
E mais: imaginem quantos empregos gerou o CERN durante todo este projecto. É que não são apenas os cientistas em Genebra. Foram também firmas de construção civil, indústrias metalúrgicas e electrónicas, empresas de hardware e de software, programadores... para além, claro, dos cientistas e de todo o pessoal técnico de manutenção do laboratório. E, claro, um laboratório daquelas dimensões deverá certamente ter um refeitório, o que implica empregos a cozinheiros, e acordos com empresas de produtos alimentares e de distribuição de água. Interessante, não é?
2) Aos profetas: o mundo não vai acabar em Genebra. Em primeiro lugar, um detalhe que os media portugueses ignoraram: não começaram hoje as colisões de partículas no LHC. Só daqui a umas semanas é que dois feixes de partículas serão enviados em direcções diferentes. Portanto, a acabar o mundo, é nessa altura. Mas mesmo isso não é motivo de preocupação - ainda que o grande receio se confirme, e do choque de alguma partícula desenfreada se forme um buraco negro, ele será tão pequeno que se evaporará no mesmo momento. Seria um feito notável, conseguirem os cientistas do Cern criar do nada um buraco negro com massa suficiente para engolir a Terra!
3) Aos teóricos: sim, é verdade que as equações de Einstein conduziram à bomba nuclear. Isso, porém, não significa que tenhamos todos de voltar ao Paleolítico. Nem que os americanos queiram destruir tudo. Haja paciência.
4) Aos evangelistas: ninguém quer substituir deus. Vamos, numa primeira instância, partir do princípio de que deus existe. Nesse caso, queremos apenas saber mais sobre a sua criação. Agora imaginemos que ele não existe. Queremos conhecer a origem do universo. Qual é o problema?
Nem se trata de eu ser crente ou não. Admito a possibilidade de que deus possa existir - mas se existe, então a humanidade é, sem dúvida, a mais remota das suas preocupações. Tenho cá para mim que deus criou a mulher, deixou a espécie humana reproduzir-se, e depois escolheu as miúdas mais giras e montou tenda noutro universo, onde se anda a divertir há milénios.
jc