30.4.12

Leis da Física













Comprovo, empiricamente, aquela lei da física clássica que diz que um corpo que, na feira do livro de Lisboa, se aproxime da barraca das Edições Tinta-da-China e dela fique distanciado menos de um metro, acaba, fatalmente, por comprar volumes a um ritmo médio de um por cada dez minutos.

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24.4.12

A Combatividade e a Inteligência em Forma de Gente














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Instantâneo

Parecia entreabrir-se ao de leve um trompete russo, tons de tenaz, apertando de um negrume despudoradamente libertário. As livrarias tornaram-se locais de terapia subsidiária, indisfarçável e rara. Os pequenos quiosques, as tabacarias e os outros coretos interiores são agora pequenas velharias a que só os velhos prestam verdadeira atenção. Não sou velho, mas no fundo acabo por ser. Não se afiguram, hoje, grandes as razões para que ousemos entrar nelas; em primeiro lugar porque é difícil encontrá-las, e, depois, porque estão de tal forma enxameadas de pequenas-narrativas e livrinhos de auto-ajuda, que me parecem sempre lojas medicinais para almas perdidas e mergulhadas no desassossego que não é (infelizmente) o do Bernardo Soares. Por vezes, nos dias mais encobertos, imagino-me na era gloriosa da impressão; na praça das narrativas e dos linguajares mais profundos. Não sei se voltarei a ser novo. E, como sabéis, estou plenamente consciente que esta piroseira de gostar de pequenas livrarias à antiga, é um lugar-comum dos diabos.

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17.4.12

A Comunidade

Há algum jurista experimentado -dos muitos que compõem esta «Comunidade» à lá Pacheco- que me consiga explicar qual é o preceito jurídico que sustenta que alguém que desconta catorze prestações anuais para a Segurança Social enquanto é activo, receba na reforma apenas doze, depois de unilateralmente lhe terem cortado duas?

Mais grave do que estar em causa o Estado-Social, é estar em causa o Estado-de-Direito. Antevejo até que este episódio histórico figurará nos compêndios de casos práticos das Faculdades de Direito que ainda sobejarem, como forma de ilustrar o princípio da segurança jurídica, demonstrada pelo método lapidar de redução ao absurdo.

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16.4.12

Proibir













Já que é para começar a proibir coisas evocando o nobre princípio da salvaguarda do interesse passivo, eu, pessoalmente, preferiria viver num país em que, antes de ser proibido fumar em automóveis com crianças a bordo, as grávidas estariam impedidas de fumar onde quer que fosse.

jtf

15.4.12

Novas Oportunidades

Tinha já assistido à introdução do flanqueador Saragoça da Matta nas lides do jornalismo de marioneta, coboiadas várias, debates e outros banquetes de corte. Não foram, pois, precisos grandes dotes analíticos para perceber que manobras de bastidores estariam por parir voos maiores. Porque, como se sabe, isto é como no futebol: primeiro começa-se a lançar os delfins nos jogos mais fáceis, para que a plateia os reconheça e não os rejeite nos posteriores poleiros em que repousam. Resumindo: o PSD indicou Matta para o Tribunal Constitucional. É toda uma escola de formação de novos atletas em acção.

jtf

11.4.12

Do Mérito

Muita gente ainda não realizou (como agora se diz) que o grande problema das sociedades modernas é a desigual distribuição do rendimento; tema que André Barata muito bem focou num Prós-e-Contras passado. Ora, esta é uma facticidade que nos salta à cara passo sim passo não, mesmo quando pensamos estar perante acontecimentos mundanos e menores. Por exemplo, quando a RTP convida pessoas decantadamente qualificadas, professores universitários, peritos neste ou naquele assunto, estudiosos dedicados para comporem um painel de análise no programa Prós-e-Contras, não raras vezes a soma dos rendimentos mensais dos dez ou quinze convidados não chega para igualar o rendimento da moderadora que, como se sabe, não demonstra ter conhecimento reconhecível para coisa alguma. Do mesmo modo, todas as semanas, a população portuguesa assiste à missa dominical do Professor Marcelo com admirável dedicação. Nela, Júlio Magalhães desempenha com virtuosismo o papel do submisso-ignorante-em-pousio-eterno, esperando que o brilhantismo e a sapiência do Professor (tudo isto é apimentado convenientemente com a palavra «Professor» no final de cada frase ou de cada interjeição) lhe ilumine o caminho. Também aqui, seriam precisos vários meses de Professor Catedrático para igualar o untuoso salário de Magalhães.

Será esta a meritocracia de que nos falam?!

jtf

10.4.12

Intervallu-

A verdade é que todos os pós são assim. Tão deprimentes e tão pouco dados a entusiasmos galvanizadores. Convém, ao mesmo tempo, admirar convenientemente o talento gingão dos dançarinos-da-corte; suficientemente dotados para executar com virtuosismo o milagre da fecundação selectiva: o facilidade para as matemáticas vem "do lado" do pai, a teimosia é feitio da mãe. Habituar-nos-emos à coreografia com o passar do tempo. E com o aumentar da vergastada chegaremos à brilhante conclusão de que a "vontade de mudança" tinha a consistência de um pudim. A verdade, pois, é que todos os pós são assim e pode dizer-se até que nunca foram tão inseguros e tão vácuos. A tropa-da-frente, coadjuvada pelas "estruturas locais" sempre tão solícitas, e num acesso de consciência auto-crítica, lembrou-se de prolongar a corrida para que corredores mais velozes não lhe mordesse os calcanhares e a fizesse tropeçar num galho mais saído. "Quem diria que Seguro se queria segurar tanto" (Clara Ferreira Alves).

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