28.2.09

00, uma década falhada na música?

Retirado do Blitz:

O que há de novo?  

Muitos defendem que esta década foi um grande zero em termos musicais. Nenhum grande género teve a sua génese nos anos 00, alguns apontam o reggaton
[o quê?] mas a discussao está acesa. Qual a causa? O que aconteceu nestes últimos anos?

Mp3, Change we can belive in 

A tecnologia é apontada um pouco por toda a net como a grande responsável pela mudança no panorama musical. As editoras e as rádios perderam o monopólio da distribuição. O fenómeno Ipod matou o ábum tradicional, e a partilha livre de musica que presiste desde os seus primórdios no Napster permite a todo o utilizador mais ou menos informado da internet ter a biblioteca musical com que sempre sonhou. As bandas podem com facilidade (orçamento reduzido) gravar e dar a conhecer os seus trabalhos através da rede. A música foi no principio da década a nova mercadoria favorita da rede, depois da pornografia reinar nos anos 90, teve de aprender a partilhar o pódio com a música, e posteriormente com a largura de banda a aumentar, com o vídeo (Youtube).  

Conclusões 

Parece ser opinião geral que a década foi pobre. Partilho dessa opinião, a maior parte dos artistas que admiro são dos anos 80 e 90. Poucos surgiram depois de 2000. É fácil partilhar a música, mas é dificil vende-la, porque é mais fácil que nunca piratear e partilha-la. Tão fácil que há muitos dispostos a dr-se ao trabalho à borla. As novas bandas passam momentos difíceis. As rádios e as editoras têm menos importância, e defendem-se voltando-se para o mainstream, estando agora piores que nunca. 

[Disclaimer] O tema é vasto, isto é um recurso para pesquisar e comentar, não um veredicto nem um verdadeiro artigo sobre o tema. 

Okay, vamos por partes. À partida, inclinar-me-ia para concordar com esta posição. Apesar de ter descoberto uma ou duas coisas muito boas nos últimos anos e dos últimos anos, também diria que esta década não tem conhecido muitas novidades. A tese falha, porém, ao considerar que a falta de novas tendências se traduz num período musicalmente fraco - o que está longe de ser verdade. Por um lado, assistimos à consolidação de bandas que na década de noventa seriam apenas promessas (Muse), e que hoje são fenómenos mundiais. Por outro, vimos emergir um certo movimento revivalista, que colocou toda a gente a ouvir Joy Division e The Smiths, que fez os Magazine e os Sex Pistols reunirem-se novamente, e que abriu os olhos de várias gerações à música da geração dos seus pais. É formidável ver miúdos de dezassete anos a curtir Buzzcocks, a sério que é. Não serão certamente uma novidade no sentido histórico do termo. Mas, e a título pessoal, Ian Curtis, Morrisey e Devoto foram novidades, e novidades mais valiosas do que 80% da música que ouvi em toda a minha vida.

A edição: é evidente que hoje, com orçamentos reduzidos, as bandas podem gravar os seus álbuns - e, mais importante, podem distribuí-los à escala mundial (hello, Radiohead). E isto só pode ser bom, na medida em que permite, por um lado, a que mais gente possa aceder a (boa) música e, por outro, a que novas bandas possam surgir, sem estarem sufocadas pelos espartilhos das editoras. A rádio tem-se sabido adaptar aos novos tempos, com podcasts, emissões online e com uma complementaridade de suportes que me parece muito interessante (diria mesmo que a Internet poderá estar a reinventar a rádio). A indústria discográfica, nem por isso. Devia ter percebido no início da década, com a reacção de bandas como os Offspring ou os Smashing Pumpkins à cruzada dos Metallica, que estava a lutar uma batalha perdida. Hoje, esforçam-se por manter um modelo que está mais do que ultrapassado - a menos, claro, que consigam impedir toda a gente que já fez um download ilegal de música de voltar a aceder a um computador. Veja-se a indústria cinematográfica: com o DVD, que prometia aniquilar o cinema convencional, surgiram os extras, as edições especiais para coleccionadores, e toda uma série de produtos que fazem um filme render ainda mais dinheiro. Compramos um CD, e o que temos? Cerca e doze músicas, a capa e - se tivermos sorte - as letras das músicas. E pagamos praticamente o mesmo que pagamos por um DVD. Veja-se a Apple, um verdadeiro case study: quando percebeu para onde corria a maré da música digital, foi dando forma a todas as componentes de um negócio formidável. Hoje tem uma loja de música digital fabulosa - a iTunes - e o iPod, que, goste-se ou não (não sou apreciador, confesso), é o leitor de música digital mais bem sucedido do mundo. Ou seja, a Apple, uma empresa de tecnologia, conseguiu fazer no mercado da música o que as próprias empresas do mercado da música pelos vistos não conseguem: ter lucros.

Posto isto, a minha conclusão só pode ser uma: se é verdade que a corrente década não trouxe muitas novidades na música, não menos verdade é que nesta década a música como a conhecemos mudou radicalmente. Mudou a forma como a adquirimos e como a ouvimos. Mudou a forma de ser criada e distribuída. E isso não tem preço. 

E, claro, tenho de mencionar isto: a década de 00 (isto soa tão mal) deu-nos Amnesiac e Hail to the Thief. Não chega?

john

[Só mais uma coisa: não creio que a música algum dia venha a ser mais importante na Internet do que a pornografia. E esta é uma indústria que, talvez mais do que qualquer outra, mostrou (e mostra) como é possível retirar grande valor da rede.]

27.2.09

Como diz o maluquinho lá da aldeia, "misérias...".

É sempre engraçado ver Augusto Santos Silva, o malhador, acusar Manuela Ferreira Leite de ter uma "concepção empobrecida da democracia". Mais: é hilariante ver o ministro dos Assuntos Parlamentares trazer de volta a célebre tirada da suspensão da democracia durante seis meses. E a propósito de quê? De a líder social-democrata considerar escandaloso que o primeiro-ministro não compareça a uma reunião de chefes de estado em Bruxelas devido ao congresso do seu partido.

ASS (heh, sigla curiosa, esta) pode espernear aquilo que quiser. Teixeira dos Santos e Luís Amado podem, como sempre, prestar-se a ser criados do primeiro-ministro. Só lhes fica bem. Mas Manuela Ferreira Leite tem razão. Esta definição de prioridades de Sócrates - e as atitudes dos seus ministros - diz-me muito sobre o provincianismo dos nossos líderes políticos. Colocar à frente da representação portuguesa nas instâncias da União Europeia a presença num congressozito partidário, já a cheirar a eleições, nem sequer denota uma "concepção emprobrecida da democracia". É uma concepção miserável mesmo.

john

26.2.09

Perdoem-me os colegas e os leitores a linguagem ordinária,

mas é a única que me ocorre: de há uns dias a esta parte só se vê cona na blogosfera portuguesa. E a mesma, para cúmulo. Que diabo: arte ou não, por muito menos o Google fodeu o E Deus Criou a Mulher.

john

Estou a ver a TVI 24,

mais concretamente, o programa "Roda Livre", uma espécie de Quadratura do Circúlo, mas com Vital Moreira, Vasco Pulido Valente e outro tipo cujo nome não me ocorre agora. Um painel impressionante, sobretudo se considerarmos que à excepção do moderador, todos os particiantes têm voz de falsete. É assim como assistir a uma "battle of bands" entre Thom Yorke, Matthew Bellamy e Brian Molko, mas sem guitarras eléctricas e stage diving.

john

Correcção: o tipo de cujo nome continuo a não me lembrar afinal não tem exactamente voz de falsete. Foi do cansaço, desculpem. Tira-se o Brian Molko da "battle of bands" e mete-se, sei lá, o Bono?

Correcção#2: o tipo afinal é o Rui Ramos. O que torna uma parte do texto acima numa das coisas mais ignorantes e idiotas que escrevi em seis anos de blogues - e já escrevi muitas coisas ignorantes e idiotas. 

(Já agora, não sei se sabem, mas os Placebo confirmaram para o segundo dia do Alive. Neste momento, tenho noventa por cento de certeza que irei gastar dinheiro nos três dias do festival.)

espelhos e reflexos #14

Mecanismo de contracção do músculo cardíaco:

Tu.




fs

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Foi do leitão.

Um gajo está a descer de Aveiro para Lisboa e faz uma paragem na Mealhada para comer uma sandes de leitão (e que delícia; realmente o leitão da Mealhada não é nada sobrevalorizado) e ver o Sporting levar quatro dos cinco golos que o Bayern de Munique marcou ali em Alvalade ontem. Foi do leitão, só pode. Doravante considero-me avisado; e da próxima vez que o Benfica jogar com os lagartos, poderão encontrar-me na Mealhada. Já vi que resulta.

john

24.2.09

Contra o marasmo #1

Estes também são Grandes Portugueses.





fs

(camaradas de blogue, quem quiser aumentrar a lista pode e deve fazê-lo.)

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23.2.09


Da noite de ontem (que só consegui ver até meio - sim, admito a minha falta de capacidade nestas maratonas pela noite dentro, mas o raio do sono veio com força), destaco a estatueta dourada de melhor actriz secundária para esta senhora. Porquê? Devido aos meus rigorosíssimos critérios:
- das actrizes nomeadas apenas assisti, ainda, às performances de Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona) e de Taraji P. Henson ( The Curious Case of Benjamin Button);
- vendo-me na posição de só poder tecer qualquer comentário sobre as duas supracitadas, e reconhecendo a boa prestação da segunda, a verdade é que os minutos em que a Penélope Cruz aparece no filme de Woody Allen são , na minha opinião, dos mais pujantes (andei um bom tempo à procura de um adjectivo adequado, saiu este) que vi nos últimos anos em cinema. A "sua" neurótica Maria Elena dá um novo fôlego ao filme a partir do momento em que aparece;
- por fim, e aqui se encontra o cerne do rigor de avaliação, a señorita está-se a tornar, para mim, uma espécie de fetiche cinematográfico: de há uns anos para cá a suas prestações têm melhorado bastante.

Quanto ao resto, os vencedores estão dentro da normalidade de uma entrega de prémios, permitindo as também normais discussões de quem é que merecia ou não (a blogosfera está cheia delas, veja-se, por exemplo, na cobertura que o Delito de Opinião fez).





Reparei agora que, na enxurrada de prémios de Slumdog Millionaire, nenhum pertence às categorias de representação. Não deixa de ser curioso.



fs

Abençoada ponte,

que me permite ver, pela primeira vez (sim, pela primeira vez), a gala dos óscares. Espectáculo interessante, muito bem feito, mas a transmissão da TVI é, para todos os efeitos, uma merda. Costuma ser assim todos os anos?

john

(já vou no segundo litro de cerveja, e nem assim os constantes intervalos se conseguem tragar, que diabo.)

19.2.09

E só me dizem para não tomar as pastilhas se "verificar alteração no meu aspecto".

Acordei com dores de garganta ontem. Já devia saber que sol não é sinónimo de calor, muito menos nesta época. Ontem de manhã, depois de fazer o trajecto Algés-Areeiro para ir tomar banho a casa da minha irmã (o esquentador continuava avariado) e Areeiro-Saldanha (para ir trabalhar), decidi passar por uma farmácia para comprar umas pastilhas. Mebocaína, provavelmente, apesar de saber que o seu efeito dura quinze minutos no máximo.

Sucede que já me tinha desabituado a ser atendido por farmacêuticos que percebem realmente de farmácia, pelo que fiquei surpreendido quando o senhor me perguntou que tipo de dor de garganta tinha eu. Sabia lá eu: doía-me a garganta, que diabo. Ele deu a volta à minha ignorância sobre inflamações na garganta: "custa-lhe a engolir"? "Um bocado." "Então se calhar é melhor levar aqui umas pastilhas com anti-inflamatório, as outras devem ser muito fracas." Ele lá sabe, pensei eu.

Não conhecia aquela marca de pastilhas para a garganta, mas o efeito foi imediato. Mais: não sei se por causa da sua componente anti-inflamatória ou por causa da minha psique, mas o que é certo é que senti a gengiva, aquela que tem sido impiedosamente rechaçada por um dente do siso mais rebelde, bem mais aliviada.

Claro que não me interessa aqui falar sobre o meu dente do siso. Nem sobre a minha dor de garganta, que entretanto até deu lugar a tosse (catarro, catarro). Eu é que gosto de prólogos. Adiante. Ontem à noite, alertado por um amigo, fui consultar os efeitos secundários das tais pastilhas para a garganta, pensando cá comigo que uma coisa tão inofensiva como uma dor de garganta não seria combatida com medicamentos que causassem efeitos secundários muito relevantes. Enganei-me, está claro. Com estes três dias de tratamento, corro, entre outros, os seguintes riscos: reacções alérgicas, dor de estômago, náuseas, vómitos, diarreia, indigestão, flatulência, úlceras na boca, dor de cabeça, tonturas, sonolência ou dificuldade em dormir, hemorragias no estômago, problemas hepáticos, problemas nos rins, "um pequeno aumento no risco de enfarte do miocárdio ou AVC, alterações no sangue.

E depois dizem que fumar é perigoso. Pois.

john

(Já agora, deixo a pergunta às nossas leitoras: já perderam cinco minutos a ler o folheto informativo das pílulas que tomam diariamente? Eu li uma vez, e a parte dos efeitos secundários era digna de um romance do Stephen King.)

Micro-assuntos internos #4

Aproveito o espaço para informar os micro-camaradas que adicionei o blogue Estado Sentido ali à nossa coluna de hiperligações. Não só porque eles nos "hiperligaram" também (digam lá que não soa melhor do que o horrível estrangeirismo "lincar"), mas acima de tudo porque é um blogue feito por gente interessante, que trata bem a nossa língua (a portuguesa, entenda-se), e é sempre cordial nos debates que surgem nas caixas de comentários. A eles, os meus cumprimentos; aos micro-colegas, deixo a sugestão de leitura.

E ainda não acertei o relógio.

john

18.2.09

Apeteceu-me vir aqui

dizer que nada tenho para escrever. Por outro lado, vou aproveitar estes poucos dias de férias universitárias para acabar com o stress, da melhor maneira possível*.



*preciosidade roubada, descaradamente, ao
blogue dos marretas.
fs

Deveria escrever aqui qualquer coisa sobre o tema do momento

que, como se sabe, deixou de ser o fripór, a crise económica, o desemprego, o bêpêéne ou mesmo o Benfica. E o tema do momento é para mim irrelevante. Sim, é para mim irrelevante que os homossexuais se possam casar. Idealmente, o estado não meteria "a colher" nestas matérias, cabendo aos indivíduos na plena posse das suas capacidades mentais decidir conscientemente o tipo de união que quisessem ter. Do ponto de vista fiscal, seria simples: eventuais benefícios fiscais seriam atribuídos não em função da "união", mas em função dos filhos, biológicos ou adoptados.

De resto, esta questão começa a ganhar para mim os contornos da questão do aborto: os defensores do "sim" insistiram rotular os defensores do "não" de retrógados, bárbaros, e outros apelidos mais ou menos sinónimos. Com a questão do casamento homossexual surge logo o bom defensor do "sim" armado com a espada da homofobia, e com uma mão-cheia de "retrógados" e "atrasados" para distribuir mais ou menos livremente. Como é evidente, a partir do momento em que uma discussão - qualquer discussão - entra nestes termos, é impossível retirar dela o que quer que seja. A verdade é que - tal como na história do aborto - ambos os lados terão certamente óptimos argumentos que se perderão com o ruído. Ou seja, o debate no espaço público será sobre coisa nenhuma.

O que, de resto, foi visível no último Prós e Contras, programa a que habitualmente não assisto mas ao qual dei ontem uma espreitadela, devido à promessa de um amigo de que "me iria divertir". Fui claramente enganado: contrariamente à opinião de Fátima Campos Ferreira, o debate foi tudo menos "elevado", apesar de algumas boas prestações (do que vi, destaco pela positiva Miguel Vale de Almeida). E a prova óbvia da mediocridade (bonito eufemismo, este) do "debate" nem foi Fernanda Câncio (que, no entanto, ajuda sempre), mas sim a jurista Isabel Moreira.

Respondendo à pergunta deixada pelo Lourenço aqui, sim, Isabel Moreira é "gira". Bastante, até - dava para a capa de qualquer revista masculina. Mas revelou-se completamente incapaz de conseguir articular duas ideias, dois pensamentos. Algumas das suas intervenções foram absolutamente disparatadas - a final, sobre a tragédia dos jovens homossexuais que se suicidam, foi um momento televisivo particularmente trágico. A maioria das intervenções da senhora foi de uma má educação gritante e despropositada, sobretudo contra Eduardo Nogueira Pinto. Dizer - ou antes, gritar, de dedo em riste - que o constitucionalista Jorge Miranda (?) estava "sozinho numa ilha deserta", e perguntar ao Eduardo Nogueira Pinto, falando por cima, se "não queria juntar-se a ele" ou "ir buscá-lo de barco" merecia, no mínimo, um convite para ir à merda. Destaque-se por aqui a paciência do cavalheiro, perante a fúria da senhora. Eu duvido que a tivesse, naquela situação. Mas fica a dúvida: como é que uma pessoa com um discurso completamente desarticulado e uma manifesta incapacidade de seguir uma linha de raciocínio se licenciou em Direito?

A presença de um padre católico no debate foi um golpe muito rasteiro também. Foi evidente que o senhor esteve lá apenas para servir de alvo (apesar de a sua prestação me ter parecido positiva também). A Igreja não tem nada que ver com este tema. O casamento civil é matéria da sociedade civil, do Estado - não da Igreja. Esta tem o seu sacramento próprio - o matrimónio - e administra tal sacramento aos seus fiéis, impondo para isso as regras que entender. A sua posição sobre a matéria é para todos os efeitos irrelevante.

De resto, a reintrodução do tema é uma manobra eleitoral que está a instrumentalizar por completo os homossexuais. José Sócrates, secretário-geral do PS, assume o tema como bandeira da sua moção, quando José Sócrates, primeiro-ministro deste país, rejeitou liminarmente o debate sobre o tema há pouco mais de um par de meses. É uma cortina de fumo, e issoo repugna-me. E não compreendo como os homossexuais - que têm, evidentemente, todo o direito a não ser discriminados - se deixam usar desta maneira.

Para terminar, peço apenas uma coisa: por favor, não referendem isto. Votem na Assembleia, decidam com moeda ao ar nos Passos Perdidos, peçam à Marisa Cruz para retirar uma bolinha da tômbola. Mas não referendem: isso seria repetir a palhaçada do referendo do aborto, que foi sendo repetido até o "resultado certo" sair. E, de resto, eu tenho de votar lá na aldeia, e não me está nada a apetecer fazer duzentos e cinquenta quilómetros para desenhar um manguito no boletim, ou votar em branco. Já me basta, em princípio, ir fazer isso nas eleições legislativas.

john

16.2.09

E depois dizem que eu não tenho razão ao acreditar que o mundo já esgotou as possibilidades de salvação (II).

Na verdade, eu já o sabia: descobri-o no sábado, dia de são valentim, quando assisti a uma declaração de amor de um jovem a uma jovem. Com flor e tudo. Na carreira 751 da Carris, entre Belém e o Calvário. Conto a história. As reacções dividem-se: "que piroseira", dizem-me de um lado. "Isso é muito romântico", dizem-me de outro. É verdade que há coisas bem mais pirosas (o rapaz podia ter-se ajoelhado, sei lá. Ou podia ter-lhe dedicado uma música de Tony Carreira.). Mas, por favor: a carreira 751? Entre Belém e o Calvário? Sou só eu aqui a detectar a referência bíblica? 

Aquilo vai acabar na cruz, está visto.

john

E depois dizem que eu não tenho razão ao acreditar que o mundo já esgotou as possibilidades de salvação.

O Lourenço tem toda a razão: "não há respeito de qualquer maneira". Mais do que isso: os brasileiros são chanfrados. Pelo menos alguns (algumas). Diz a jornalista "o felizardo que beija a atriz em frente ao seu prédio em Copacabana é o charmosíssimo escritor português Miguel Sousa Tavares". É impressão minha, ou o adjectivo charmosíssimo - no superlativo absoluto sintético, imagine-se! - não encaixa de todo no "escritor"? Nem o "escritor", enfim, mas dê-se o benefício da dúvida. A senhora certamente não terá visto MST a despejar o seu "charme" na TVI, sobretudo quando a conversa é o Futebol Clube do Porto. Mas o delírio é capaz de ser mais grave mesmo no caso de Maitê Proença: "Leia o "Rio das Flores". Também é lindo!", diz a (lindíssima; aqui o superlativo absoluto sintético adequa-se) actriz brasileira.

O mundo está oficialmente para lá da salvação. Que a ticketline avise quando os bilhetes de primeira fila para o julgamento final estiverem à venda.

john

14.2.09

Micro-fone #4



Mário Cesariny a declamar excertos do poema Quase*, de Mário de Sá-Carneiro



Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro, Paris 1913 - Maio 13

* em algumas edições, na grafia antiga: Quasi




fs

13.2.09

14 de Fevereiro versão 2.0

Só peço para, amanhã, não ser considerado, mais uma vez, o namorado da minha irmã. Só isso.





fs

Micro-assuntos internos #3

Ainda não fui dormir, estou no cigarro da deita. E reparo em duas coisas: a primeira, que o meu thoughts in chaos celebra aniversário a dezoito de Outubro e este jardim, a dezassete; a segunda, que ninguém em Outubro se lembrou disto. Quero festa para o ano, ficam já a saber.

Pronto, agora é que é. Cama. Queria tomar uma banhoca, mas o esquentador continua a não funcionar. A quem é que eu irei cravar um duche quente amanhã? (sim, tornei-me recentemente num mendigo de duche quente)

john

Dia dos namorados.

Não é curioso que, calhando o são valentim, catorze de fevereiro, a um sábado, o dia dos namorados seja precedido de uma sexta-feira treze? Dia de azar antes de um dia de amor? Ora aqui está um caldinho perfeito para ser entornado: acaba-se a relação na sexta, começa-se outra no sábado. Alguém fica fodido pelo caminho, é da sexta-feira treze. Alguém fica contente no fim-de-semana, é do são valentim. 

Como disse em baixo, estou com demasiado tempo livre. Nem devia, no meu juízo perfeito, escrever sobre este dia, uma vez que já tive de encher chouriços suficientes com uma coisa vagamente jornalística sobre o tema. Enfim. Vou dormir, que se faz tarde (não, não ando a praticar para o twitter). E boa sorte para amanhã, caros leitores.

john

Micro-assuntos internos #2

Camaradas,

é possível acertarmos o relógio interno deste blogue com a hora portuguesa, ou é assim uma grande maçada? Eu até o fazia, mas  reparei que há textos na calha, ali no forno dos fundos, a apurar, e não quero estragar-lhes a cozedura. É útil termos um relógio que marca a hora das entradas com a hora sabe-se lá de onde, porque se os patrões descobrem o blogue não percebem que andamos a escrever durante o expediente (guilty, guilty), mas isto às vezes confunde-me um bocado, sobretudo quando estou com um daqueles ataques que me fazem escrever dois ou três coisas diferentes em simultâneo. Aconteceu com os meus dois últimos textos. Por exemplo, neste momento passam vinte e cinco minutos da meia noite, mas para todos os efeitos o texto será publicado às quatro horas e vinte e um minutos... da tarde (onde é que são quatro e vinte e um, já agora?). Isto foi por acaso, ou teve o micróbio-chefe João alguma intenção secreta?

Já agora, aproveito para dizer que ando com demasiado tempo livre. E com um dente do siso a roer-me a gengiva. Aceitam-se sugestões para resolver ambas as coisas. E temos de combinar a jantarada no Porto, já agora - João, vê lá, não te esqueças -, e de preferência, numa altura em que consiga mastigar alguma coisa de jeito.

john

200 anos

12.02.1809 - 19.04.1882


Não podia deixar de assinalar este dia comemorativo dos 200 anos do nascimento de Charles Darwin.
Lembro-me tão bem quando, no secundário, me deparei com as bases do darwinismo e o conceito de selecção natural. E lembro-me ainda melhor, todos os dias (até porque a vida me levou, para meu gosto, nos caminhos da área da biologia), o pensamento que me veio na altura: "Fábio, estás lixado".




fs

12.2.09

A música de um micróbio.

nota #1: este texto foi originalmente escrito e publicado no meu blogue individual. Isto é uma tradução, que, para variar, ficou melhor que o original.

nota #2: no seguimento de uma conversa ali abaixo, deixo este texto ao Fábio - se tiveres pachorra para o leres todo, claro! Irra, que me estiquei hoje.

Não é segredo para ninguém que leia este blogue de vez em quando que as minhas bandas preferidas são os Radiohead e os Muse. É certo que gosto de um bom heavy metal, de preferência com um bom moshpit (já viram o cartaz do primeiro dia do Alive? O INEM vai bulir bem na noite de nove de Julho.), e a música dos anos setenta e oitenta cada vez entra mais aqui na minha caixinha de música. Mas Muse e Radiohead são definitivamente os meus favoritos: os Muse são simplesmente a melhor banda que já vi ao vivo e os Radiohead... bom, não têm comparação no que toca à escrita e composição de músicas. 

Esta minha preferência não é por acaso, sobretudo se pensar que ao longo dos anos as minhas bandas preferidas oscilaram (sim, elas oscilam) entre Oasis, Smashing Pumpkins, Linkin Park e System of a Down - não necessariamente por esta ordem. Ainda gosto de todas estas bandas, claro. Mas os tempos mudam, e com eles, os gostos. A primeira música que ouvi de Radiohead foi, como não podia deixar de ser, Creep (do seu primeiro álbum, Pablo Honey). É claro que adorei a música: ouvi-a nos finais dos anos noventa, devia ter para aí treze, catorze anos, e não passava de um adolescente secretamente depressivo (agora sou um jovem adulto secretamente depressivo, mas não entremos por aí). Era por isso natural que músicas como Creep ou Karma Police ficassem no ouvido para não mais saírem. Elas simplesmente encaixavam. Depois ouvi outras, claro - Dollars and Cents, que detestei ao início, assim como I Might Be Wrong (curioso: só hoje percebi o quanto gosto desta música, e o quanto ela se adequa...). Lembro-me de ter ouvido na rádio pela primeira vez a Knives Out, e de ela se ter tornado na minha música preferida deles, apesar de só recentemente ter descoberto o nome do raio da música. Lembro-me de ter fodido ao som da No Surprises, o que pode parecer estranho por ser uma música tão melancólica, mas... E lembro-me de ouvir mais uma ou duas que tinha aqui espalhadas no computador. Até Julho, quando um colega de trabalho (obrigado, Raimundo!) me ter emprestado a discografia completa deles, EPs incluídos, para eu copiar. Hail to the Thief - literalmente! Hei-de compensar, e comprar todos os álbums, EPs, singles, e mais uma ou duas coisas que apareçam, excepto toques de telemóvel porque não uso, mas por agora quero desfrutar disto, se não se importam. E aproveito para dizer: uma das coisas que mais aprecio nos Radiohead é o facto de compreender que a sua música realmente evoluiu. Essa evolução é clara: Pablo Honey foi um bom álbum para começar; The Bends já é consideravelmente melhor; OK Computer é extraordinário, e porventura terá sido para muita gente inultrapassável. Até ao Kid A, claro, e por aí fora, até ao glorioso ano passado quando lançaram o duplo - e brilhante - In Rainbows na Internet e fizeram a indústria discográfica ter suores frios. Musicalmente falando, nota-se que cada álbum é mais elaborado que o anterior, que as letras são um bocadinho diferentes, que estão a fazer mais maluquices. Sim, para mim, o In Rainbows é o melhor álbum de Radiohead, apesar de o meu preferido (são coisas diferentes, note-se) ser de longe o Amnesiac.

Pode-se dizer o mesmo dos Muse se ouvirmos os seus álbuns com um mínimo de atenção, de Showbiz a Black Holes and Revelations (sem esquecermos os lados-b de Hullabaloo, com músicas melhores do que alguns singles). Há uma evolução clara, e é interessante perceber isso a ouvir. Mas a minha relação, por assim dizer, com os Muse é diferente: vi-os ao vivo em 2004, quando fui ao Super Bock Super Rock para ver Linkin Park. E se bem me lembro, ao primeiro minuto de Apocalypse Please já eu me tinha rendido incondicionalmente. Já Time Is Running Out e Butterflies and Hurricanes foram uma espécie de "orgasmo" musical. Foi impressionante. Nunca eu tinha visto nada assim. Antes do concerto, conhecia apenas duas músicas, mas passado pouco tempo já eu ouvia a discografia deles. Entretanto, vi-os mais duas vezes ao vivo, sempre formidáveis em palco. Não creio que eles conseguissem dar um mau concerto, ainda que o quisessem fazer.

De qualquer maneira, não vale a pena desafiá-los.

Outra coisa que aco curiosa relativamente a Muse é que -  e tenho quase a certeza de que estou certo, adorava perguntar-lhes - cada álbum deles tem uma música especialmente concebida para abrirem os concertos, e outra para os fecharem. Respectivamente: o Showbiz tinha Uno e Showbiz; o Origin of Symmetry tinha Newborn e Plug In Baby; o Absolution tinha Apocalypse Please e Stockholme Syndrome; e Black Holes and Revelations tem Take a Bow e Knights of Cydonia. A ordem destas duas foi invertida nos últimos concertos, e o resultado foi extremamente bom.

Infelizmente, ainda não vi os Radiohead ao vivo. Acho que quando eles estiveram em Portugal pela última vez ainda eu não vivia em Lisboa. Continuo, portanto, à espera. Entretanto, vou ouvindo músicas deles quase diariamente, e todos os dias descubro alguma coisa nova: uma música particularmente boa à qual não tinha prestado a devida atenção, algum detalhe que me tinha escapado, uma letra que me diz realmente alguma coisa. acontece quase todos os dias. acreditem: actualmente, os melhores momentos diários que tenho são as duas horas que passo em transportes públicos a ouvir o Thom Yorke. Ou o Matthew Bellamy. Deus os guarde, deus os guarde (e os traga de volta um dia destes). 

john

Dia dos namorados

O Bruno Sena Martins que me perdoe, mas tenho de transcrever o seguinte texto do (excelente) blogue dele:

Percebo 4 modalidades de distância crítica em relação ao dia dos namorados:

1- A ideológica. É uma invenção capitalista, uma tradição inventada a que só se adere por cumplicidade com a pressão celebratória (e consumista) estabelecida sobre as relações ("é nestes dias que não namorar é uma coisa boa"; "mais valem as datas patrimoniais do casal do que o 14/02").

2- O frete. É uma data estúpida, mas não a comemorar de todo implica um statement demasiado arriscado.
a) Porque podia haver ressentimentos mais ou menos calados dentro da relação (sem a prendinha ou o jantarinho ela ia amuar, ele ia amuar);
b) Porque não há forma de ignorar a vigilância estabelecida sobre os sinais exteriores de romantismo ("o que é que eu ia dizer às minhas amigas?").

3- A inveja. O amor celebrado em todas as esquinas fere a solidão dos solitários que, assim, disfarçam a inveja de distância ideológica.

4- A coerência. Haveria a vontade para a celebração, mas "depois de anos sozinho a falar mal do dia dos namorados, seria ridículo, agora que namoro, fazer as figuras antes escarneci".

Subscrevo todas, excepto talvez a primeira - apesar de concordar que o aniversário de uma relação é mais importante. Não sei ao certo se encaixo em alguma destas categorias - talvez encaixe na terceira, em parte; mas certamente virei a encaixar na quarta, e nesse dia estarei metido numa alhada. Mas voltarei ao tema um dia destes. Em princípio. 

john

(Entretanto, a minha amiga Nomyia já abriu as hostilidades. Isto vai ser divertido, este ano.)

E o copo do primeiro-ministro, está meio cheio ou meio vazio?

Via Paulo Pinto Mascarenhas:

"Não me considero um homem rico... (...) eu ganho cerca de cinco mil euros". - José Sócrates a responder à imprensa, depois do debate quinzenal na Assembleia da República, a propósito da medida anunciada de cobrar mais impostos aos "ricos".

Vejamos. Cinco mil euros... imagino que por mês. Um estagiário de jornalismo (só para falar da realidade que conheço melhor) normal, ou seja, sem cunha e sem aquele rasgozinho de sorte que faz tanta falta, ganha sensivelmente 150 euros por mês durante o estágio, correspondentes aos subsídios de transporte e de alimentação. O rendimento mensal do nosso primeiro-ministro daria assim para pagar 33,3 estagiários de jornalismo. Nem vou mencionar quantos jornalistas tem hoje em dia a redacção de uma revista ou de um jornal não generalista.

Claro que esta minha comparação é absurda. Aliás, acho que nem é comparação: as declarações de Sócrates serviram apenas de pretexto para falar um bocadinho da vergonhosa situação dos estagiários de jornalismo. Mas voltemos a Sócrates, que não se considera um homem rico. Já sabemos que o nosso primeiro quer reduzir as deduções "aos ricos" (é só de mim, ou isto é absolutamente vago?). Ganha cinco mil euros por mês, mas não se considera rico. Pergunto-me, então, como vai Sócrates fazer: irá reduzir os descontos apenas para todos aqueles que ganham mais de cinco mil euros por mês? Irá reduzir os seus próprios descontos por achar que qualquer pessoa que ganhe para cima de dois mil e quinhentos euros já pode ser considerada rica? Ou faz toda a gente comer na mesma gamela, menos ele? Não sei se ele tem noção, mas todas as pessoas que sobrevivem com o ordenado mínimo - que é inferior a 20% do ordenado do primeiro, note-se* - também não se consideram ricas.

Ganhasse cinco mil euros por mês, ainda que brutos, e não teria metade das preocupações que tenho. Podia morar sozinho, ter sempre uma garrafinha de Jack Daniels na mesa de cabeceira, encomendar mensalmente livros do Amazon.com, comprar um leitor de vinil só para poder ter aquele best-of lindíssimo dos Radiohead que encontrei na Fnac há dias, ter um computador decente e não ter preocupações com a mensalidade do World of Warcraft, ou com os picos de latência que o meu portátil velhinho e queimado dos cigarros dá sempre que jogo. Mas não é caso para me chatear. Talvez ainda vá a tempo de fazer carreira numa jota qualquer por aí.

john

*Note-se que defendo que os políticos devem ser muito bem remunerados. Não me chateia minimamente que Sócrates ganhe cinco mil euros mensais. Chateia-me, sim, que diga disparates destes. E que ganhe esses cinco mil euros para fazer a merda que faz, e para dizer as merdas que diz. Haja pachorra.
**Nota: Já tenho parte da resposta, obtida n'O Insurgente: "Eu ganho cerca de 5 mil euros e não me considero um homem rico. O meu escalão de IRS é de 42 por cento. E acho que devo ter deduções menores [no IRS] na saúde e educação". Com cinco mil euros mensais, José Sócrates não se considera "um homem rico", mas acha que deve ter deduções menores - ou seja, as mesmas reduções que disse querer aplicar aos ricos, aos tais que "sabia muito bem quem eram". É só de mim, ou isto não tem qualquer sentido?

espelhos e reflexos #13

Aos espelhos e aos reflexos não são exigidos quaisquer critérios. Diga-se, quanto maior o número de contradições que acarretem, melhor. Ou não fosse a soma de acontecimentos contrários a unidade.


fs

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11.2.09

A deontologia tem as costas muito largas.

10.2.09

Faltam sensivelmente dois dias...

... para que eu saiba de cor a playlist diária da MegaFM que passa entre as dez da manhã e as seis da tarde. A maior parte das músicas tem para mim autoria desconhecida, mas todos os dias passam as mesmas - de Linkin Park a Duffy, de Evanescence a Pink, de Pólo Norte a André Sardet e a uma ou duas músicas portuguesas da moda que os meus ouvidos já vomitam. Tivesse eu boa memória e tinha fixado a sequência por volta de meados de Janeiro. Muito sinceramente, tenho para mim que os tipos da MegaFM compuseram uma sequência de músicas e deixaram as emissões a cargo da senhora das limpezas, que só tem de carregar no play de manhã quando chega, e apagar as luzes de madrugada, quando sai. Que diabo, ao menos metam a playlist em modo aleatório...!

Qual é mesmo a frequência da Radar, alguém me diz?

john

O lápis azul e outras histórias.

O problema, João, é que Salazar pertence ainda à história recente do país. Morreu em 1970, mas ainda não foi a enterrar: a tumba em Santa Comba Dão encontra-se vazia, à espera de ocupante. Há alguns anos que digo isto, e parece que não me engano: o pior dos quarenta anos de salazarismo não terá sido a opressão, a censura, a PIDE, a falta de democracia, a guerra colonial - mas sim o facto de Salazar ser pequenino. Não tinha as illusions of grandeur de um Mussolini, de um Hitler ou de um Estaline. Não era, parece-me a mim, particularmente ambicioso - queria um povo calmo, recatado, com temor a Deus; queria manter os territórios conquistado pelos egrégios avós de que fala o hino nacional. E durante quarenta longos anos, adormeceu um povo inteiro. O seu fantasma continua aí, nos taxistas que acham que a economia precisava de "um novo Salazar", nos cidadãos que acham que o problema da insegurança - até o Minipreço é assaltado à mão armada - se resolvia "à moda antiga", e nas pessoas em geral, que sentem pouco apego à liberdade. Isso entranhou-se de tal forma que hoje somos todos assim: pequeninos.

Ainda não nos libertámos completamente do seu jugo. Pensemos na nossa vida política, onde os galões de "combatente antifascista" ainda são puxados com uma frequência embaraçosa para um país que vive em democracia há mais de trinta anos. O período conturbado que se seguiu à famosa "revolução dos cravos" - e queres maior prova da apatia de um povo do que uma revolução em que se derruba um tirano sem um banho de sangue? - serviu para cimentar a ideia de que a Direita, qualquer direita, é tendencialmente retrógada e totalitária. Olhamos para os partidos com assento parlamentar e pensamos: onde está a Direita? É tudo igual ali, tudo homogéneo como as gravatas azuis que agora viraram moda em São Bento. Eu penso nas próximas eleições e sinto a vontade de desenhar um grande manguito no boletim de voto. Não permitimos a formação de partidos de extrema-direita, mas permitimos que estalinistas tenham assento parlamentar (cá estão os galões antifascistas). Não nutro qualquer simpatia pela extrema-direita, mas devia-lhe ser dada liberdade de expressão. Enterrava-se mais depressa.

Podemos também pensar na educação, no ensino da História. Estuda-se no nono ano e no décimo segundo ano o período salazarista. Acaba-se o programa a 25 de Abril de 1974, ou, se houver tempo, dá-se um saltinho aos anos oitenta para falar da entrada na União Europeia. Não se fala do PREC, da Reforma Agrária, das FP-25, do 25 de Novembro. Não digerimos ainda a nossa história recente. Uma boa parte dos jovens de hoje em dia não sabe quem foi Adelino Amaro da Costa, e de Sá Carneiro ouviram falar porque o senhor deu o nome a um aeroporto (ironia), ou porque volta e meia um dos líderes de circunstância do PSD reclama para si a sua herança. Há gente da minha idade que não sabe, não sonha sequer, que Balsemão foi primeiro-ministro. Tudo isto é triste, é muito triste.

Agora fala-se da vida íntima de Salazar numa novela televisiva. Coisa digna de uma revista cor-de-rosa, deve ser tão interessante como o rebentar dos dentes do siso. Não vi a série, nem me arrependo. Provavelmente foi (mais) uma tentativa de branquear aquele mítico concurso, o dos "grandes portugueses". Esse, sim, foi um grande momento televisivo: o embaraço em directo dos presentes em estúdio, e o desassossego de Odete Santos valeram-me um sorriso que durou dias. E fez-se justiça: Salazar foi indubitavelmente a maior figura portuguesa do século XX. E, não tendo sido o "maior português da história", terá porventura sido o maior dos últimos séculos. Pois sendo pequenino, tornou-nos a todos ainda mais pequeninos. Foi o maior dos pigmeus.

john

9.2.09

Parece que

hoje dá a segunda parte da série sobre a vida privada de Salazar. Que venha lá, de novo, o lápis azul.



fs

E deu-me, também, um trabalho do diabo arranjar um título para este post, acreditem. *

John,
Sou forçado, por um lado, a discordar de tudo o que disseste, e, por outro, a aceitar irremediavelmente. Passo a (tentar) explicar.
Sim, gosto bastante dos Coldplay. É uma banda que acompanho desde o primeiro álbum (coisa rara em mim, mas a Yellow de que falas, juntamente com a Trouble, caíram logo nos meus ouvidos) e que encaixa nos estilos musicais que mais me agradam: pop e rock. São acusados muitas vezes, após o álbum de estreia (Parachutes, que lhes valeu um Grammy para melhor álbum alternativo) de se terem tornado um pouco mais mainstream, o que é verdade, e de se colarem continuamente a U2 , o que acho ridículo, considero-os, e isto vale o que vale, muito melhores que os irlandeses (digo-o sem qualquer arrogância, até porque Bono e companhia cabem sempre em qualquer das minhas playlists). Do mesmo modo, recorrendo ao maior dos subjectivismos, verdade é que os Coldplay são uma boa banda, com boas músicas e letras, e o Chris Martin até possui uma boa voz que só estraga quando se põe aos saltinhos no meio de uma actuação, o que muitas vezes lhe tira o fôlego e uma razoável colocação vocal.
Agora, se apelar à racionalidade, tenho de confessar que os Radiohead são uma banda, a todos os níveis, formidável. Já tive oportunidade de te dizer, no teu jardim caótico, que foram a minha melhor descoberta musical de 2008. Nem me vou alongar nas razões pois são evidentes (assim como a preguiça em me explicar), e a actuação deles ontem na cerimónia é mais um argumento para quem se sente relutante em admitir o óbvio.
Quanto a Muse, gosto, porém conheço pouco. Comecei há dias a ouvir o Showbiz e ainda estou em habituação.
Nesta altura chego à sempre normal constatação de que estas discussões musicais são-me completamente inúteis, cada um ouve o que lhe bem apetece e estes prémios têm o valor que cada um lhes atribui. Nem sei se isto é uma resposta, enfim, alguma coisa há-de ser.


P.S: gostava era de ver a cara do Joe Satriani ao ver os Coldplay a receber o prémio para melhor canção do ano para a Viva la Vida, agora que os está a processar de plágio nesta mesma música.

* mais uma vez, a culpa é da preguiça

fs

Olha, ardeu.

Parece que não são só as entidades de investigação policial inglesas a funcionar de forma diferente das suas congéneres portuguesas. O mesmo se passa com os adeptos de futebol, e dirigentes desportivos: Chelsea despede Scolari. Precisaram de poucos meses para perceber o embuste. Já nós por aqui...

john

Boas notícias:

Muse: disco novo e digressão já este ano. (fonte: Blitz).

Via-os de boa vontade por uma quarta vez. E a minha aposta com as músicas Uno e Showbiz mantém-se.

john

Gosto do anti-americanismo

Sem ironia. Gosto do anti-americanismo. Gosto de ver pessoas afirmarem "não gosto dos Estados Unidos" como quem diz "não gosto de comer cozido à portuguesa". Normalmente não há motivo para isto. Ou até há, e quando de começa a puxar pela língua destas pessoas, a única coisa que efectivamente sobressai é uma profunda ignorância. Até compreendo a ignorância: a cultura americana é mais do que aquilo que apanhamos em filmes e séries.

A ironia do anti-americanismo é que os seus devotos mais fiéis e fervorosos não conseguem compreender a profunda contradição em que se enfiam sempre que falam do assunto. Os mesmos que manifestam um ódio quase visceral aos Estados Unidos são frequentemente aqueles que todos os dias consomem avidamente a cultura americana. Vão ao cinema ver filmes americanos. Vibram com os Óscares. Seguem séries americanas na televisão. Ouvem bandas americanas, e vão aos seus concertos. Comem no MacDonalds e noutras cadeias de fast-food norte-americanas. Mas não gostam dos Estados Unidos. Alguns dizem "não gosto da sua cultura", o que é irónico quando lhes abrem a porta diariamente. Outros dizem que não gostam dos seus valores, quando nem sabem ao certo quais são os valores americanos. Gosto destas contradições. Revelam mais uma questão de fé do que uma questão racional. Num caso particular que conheço, isto em si é (mais) uma deliciosa contradição: questões de fé e ateísmo não são duas coisas que normalmente encaixem numa mesma frase em a adversativa "mas" (ou outra qualquer).

john

Dos autógrafos.

Tenho uma amiga que é mais ou menos obcecada com figuras públicas. Sim, sei que o termo é forte, mas adequa-se: ela tem uma obsessão com figuras públicas. Sei que me inveja por eu morar em Lisboa: como se sabe, 99% das figuras públicas que ilustram a TV7Dias e as restantes revistas do género, ou aquelas que, não ilustrando a imprensa cor-de-rosa, aparecem na televisão, vivem em Lisboa ou arredores. Sempre que nos vemos, é inevitável a pergunta: então não tens visto ninguém famoso lá em Lisboa? Quando lhe disser que, há dias, quase esbarrei com o Ricardo Araújo Pereira à entrada da Faculdade de Letras, já sei qual será a pergunta que se segue, repleta de entusiasmo: então e não lhe pediste um autógrafo?

Não pedi, e quando lho disser (à minha amiga, não ao Ricardo), ela vai olhar para mim como se eu fosse um extraterrestre.

Já dei para este peditório, confesso. Recordo-me de, em criança, ter pedido um autógrafo ao Camacho Costa quando ele foi fazer uma peça de teatro lá à aldeia (ele era natural de Odemira, e muito simpático). Também me lembro de, em idade púbere, ter pedido um autógrafo aos Da Weasel, no tempo em que gostava da música deles. E pedi um ao Gonçalo M. Tavares, na Feira do Livro de há quatro anos, mas apenas para quebrar o gelo e pedir-lhe que me desse uma entrevista (que infelizmente não chegou a acontecer). E ele escreveu numa página em branco d'O Senhor Valéry um autógrafo originalíssimo. Hoje, naturalmente, acho tudo isto um disparate. Pedir um autógrafo é insignificante. Okay, tenho um canto de guardanapo onde limpei a boca da gordura da carne de porco à alentejana assinada pelo Luís Figo? Não serve para nada, o autógrafo. Ou antes: serve para incomodarmos uma pessoa como nós - sim, como nós (a minha amiga discorda: quem aparece na televisão é mais do que o comum mortal) - quando ela decididamente não quer ser incomodada. E depois, que diabo: pedir um autógrafo a um jogador de futebol é um disparate. Se eu me cruzasse com o Gerrard, pedia-lhe antes que desse uns quantos toques de bola para mim. O mesmo se aplica a um actor - podia pedir-lhes, sei lá, que representasse uma cena qualquer de Shakespeare, que toda a gente conhece. A um escritor a coisa já poderia fazer mais sentido - com aquela cena de assinar os livros e tal. Mas vamos a um evento com escritores e o espectáculo torna-se deprimente. Veja-se o pobre do Saramago, já vergado da idade, na Feira do Livro: a fila de gente que quer os livros assinados atravessa o Parque Eduardo VII todo e dá quase duas voltas à rotunda do Marquês. Ou, no Verão, quando o escritor George Martin esteve por cá: estava pouca gente na apresentação, mas houve quem levasse a obra completa do homem para ele assinar. Gente que se prestou a carregar quilos e quilos de livros (o senhor bate o Miguel Sousa Tavares em volume da obra à primeira volta) para o desgraçado assinar. Talvez isso explique o sorriso dele quando o abordei da seguinte forma: "Hello, sir *handshake*. Well, I'm sorry, but I have no book for you to sign. As a matter of fact, I haven't even read any of your books - yet. I'm quite curious about them though. But I really enjoyed your conference here, you said a lot of interesting things. And I'd like to ask you for some advice, since I'm beginning to write science fiction and fantasy as well." Isto deu conversa para um quarto de hora, com Martin visivelmente aliviado.

Este ano, no Fórum Fantástico, tive a oportunidade de conhecer outro escritor de SF&F: Richard Morgan. Não lhe pedi um autógrafo, evidentemente. Mas, durante um jantar, consegui ter uma conversa interessantíssima com ele. E isso para mim é mais valioso do que um bocadinho de papel assinado. Se eu tivesse a oportunidade de conhecer o Thom Yorke (só para citar o post ali abaixo), garanto que não lhe pedia um autógrafo, mas agradecer-lhe-ia pelas excelentes músicas que tem feito para eu ouvir. Gostaria imenso de falar com ele, de o ouvir a dar uns acordes da Knives Out e tal, mas não lhe pediria um rabisco. A memória que traria de o ter conhecido, e de com ele ter falado, seria bastante mais minha do que a folhinha de papel.

É por estas e por outras que a minha amiga continua a pensar que eu sou um extra-terrestre.

john

E deu-me um trabalho do diabo arranjar um título para este post, acreditem.

Tantos fãs* de Radiohead por aqui e ninguém comenta que os rapazes ganharam, com In Rainbows, o Grammy para melhor álbum alternativo? Foi bom, mas soube a pouco: deviam ter ganho todos os prémios que os Coldplay levaram.

*Não gosto muito da palavra fã, nem como de me assumir como fã do que quer que seja. Acho excessivo, que querem. Se tivesse a oportunidade de conhecer o Thom Yorke, garanto que não lhe pediria um autógrafo. Mas logo falo dos autógrafos noutro texto.

**Sim, Fábio, sei que gostas muito dos Coldplay (e acho que o João também). E reconheço que os moços até fazem umas músicas catitas. Mas acho que o género onde se inserem -
bandas-com-vocalistas-masculinos-a-cantar-em-falsete - é mais bem representada pelos Radiohead (variante alternativa-depressiva-demente), pelos Muse (variante melancólica-e-épica-ao-vivo) ou pelos Placebo (variante rock-e-mais-qualquer-coisa-que-não-identifico). Por esta ordem, note-se. Na verdade, tenho uma ligeira embirração crónica com os Coldplay. A primeira música que deles ouvi - Yellow - enjoou-me mais do que vodka-limão, e o single que os mandou para a estratosfera - The Scientist, creio - passou tanto na rádio que me causou overdose. Repito: os gajos são bons. Mas quando o Chris Martin e a sua malta fizerem uma música tão boa como Where I End and You Begin, Butterflies and Hurricanes ou This Picture, eu darei a mão à palmatória.

john

8.2.09

Lápis azul #1

O que mais nos faltava era uma série sobre Salazar. Ridiculamente medíocre. À laia de Equadores. A apelar ao mais profundo analfabetismo que ainda nos resta. E para fazer renascer vontades fascizantes. Como que um bafiento pano de fundo à crise. Já vi este filme.

jtf

O filme do ano?

Não sei, ainda é muito cedo para decidir isso (e continuo à espera - com expectativa - de Watchmen). Mas vi poucos filmes tão perturbadores e marcantes como Valsa com Bashir. O facto de ser de animação apenas reforça isso. Em todos os aspectos, brilhante. E ao contrário do que as duas tias que estavam sentadas ao meu lado no King estavam a dizer no final, não, o filme não é um filme de condenação a quaisquer acções militares israelitas. 

john

7.2.09

Micro-assuntos internos #1 *


partilho também do entusiasmo pelo link no Delito de Opinião. É sinal de que a meia-dúzia de pessoas que nos acompanham e, quem sabe, aquelas três ou quatro que por engano venham parar ao nosso jardim enquanto deambulam pela internet, valorizam o que nós, micróbios sem quaisquer pudores e sempre competentes, andamos a fazer. E apraz-me bastante mais o facto de, sendo tu gerente e fundador deste estaminé, confessares que está a ser aquilo que sonhaste na altura do seu nascimento. Enquanto funcionário número seis a contar de cima, a experiência tem sido muito boa. As pessoas são agradáveis, o chefe não chateia os funcionários, o sítio é acolhedor, sempre tudo arrumadinho, no fundo é um paraíso para qualquer micróbio com uma ponta de dignidade. Deu e dá para aprender muito, principalmente, contigo e com o john (para diferenciar uma vez que há mais do que um João).
O que me traz agora aqui é uma dúvida crucial, um receio que me tem vindo a assolar. Com tamanha crise internacional instalada é inevitável questionar: o que será do nosso Jardim? Sucumbirá e vergar-se-á à imponência deste problema que tanto afecta os operários? No sentido de me esclarecer, vinha requerir a quem de direito, na pessoa do nosso estimado gerente, que explique se haverá contenção de custos ou outra acção preventiva para colmatar o avanço voraz dos problemas financeiros, se é que andamos com problemas desse género por aqui. Isto é: está posta em causa a permanência de algum dos funcionários? Porque se houver despedimentos eu devo dizer que assinei o contrato de olhos fechados, sem saber sequer quantos anos durará o dito cujo.
E atenção que os elogios que proferi de início não têm a função de puxar a brasa à minha sardinha! Quer dizer, talvez.



*estes assuntos internos vão poder servir como um repositório de dúvidas relativas ao funcionamento do Jardim, por mais parvas que sejam, o que acontece frequentemente.



fs

Humanos, variações e outras coisas que fazem a vida



Humanos, Humanos, 2004


"A Teia"
"Quero É Viver"
"Muda De Vida"
"Na Lama"
"A Culpa É Da Vontade"
"Maria Albertina"
"Rugas"
"Gelado De Verão"
"Amor De Conserva"
"Já Não Sou Quem Era"
"Não Me Consumas"
"Adeus Que Me Vou Embora"




Deu-me para voltar a ouvir este álbum, uma homenagem feita a António Variações (1944-1984) na passagem dos vinte anos após a sua morte, mas que nada tem que ver com os normais discos de tributo em que inúmeros músicos se juntam para recordar conhecidas canções de artistas que marcaram gerações. O que neste caso se fez foi diferente, e para melhor.
A história é conhecida: quando António Variações faleceu (ainda antes de completar 40 anos e com dois álbuns editados: Anjo da Guarda (1983) e Dar e Receber (1984)) especulou-se que haveria muitas cassetes gravadas pelo próprio plenas de músicas que nunca chegou a editar. De facto, essas cassetes existiam e o irmão de António Variações, que ficou com a tarefa de recolher e gerir os bens pessoais do cantor, entregou, em meados dos anos noventa, as ditas ao amigo e director na altura da EMI- Valentim de Carvalho, David Ferreira. Essas cassetes, cheias de gravações amadoras em que Variações ora cantava acompanhado por uma caixa de ritmos, ora por guitarra, ou mesmo somente usando a sua voz, possuíam muitas faixas inéditas.
E a inovação que referi no início foi feita na altura de se proceder à composição das músicas. Em vez de se avançar para o padrão de álbum tributo, convocou-se um leque de músicos reputados: na voz - Camané, Manuela Azevedo (Clã) e David Fonseca; nos instrumenos- Hélder Gonçalves (Clã) e ainda, pelo que me diz a wikipedia, Nuno Rafael, João Cardoso (Bunnyranch) e Sérgio Nascimento. Apareceram, assim, os Humanos. Estes assumiram a responsabilidade de recriar estas músicas no célebre sentido do compositor original: um som que fizesse a ponte entre Braga e Nova Iorque.
E conseguiram. A voz de Manuela Azevedo (talvez o bom som cosmopolita de Nova Iorque), Camané (som típico português) e David Fonseca (irreverência e frescura) associam-se muito bem com as melodias, dando-lhes um revivalismo sem esquecer o cunho inconfundível de António Variações.
Era para ser um disco de homenagem ao cantor. Não só o fizeram como acabaram por criar o seu terceiro álbum e, sem qualquer dúvida, um dos melhores discos da música de língua portuguesa.




fs

Let's look at the trailer

Longe de Mim (trailer):




john

(raios partam os vídeos do youtube, que agora deram para sair para fora dos limites. João, como podemos resolver isto?)

Got milk? (II)

A (tentativa de) piada na minha última entrada está relacionada com o facto de eu ter ido ver o filme Milk, de Gus Van Sant. E o facto de eu ter ido ver o Milk é extraordinário: não por ser um filme que, superficialmente, é sobre homossexualidade, como alguns leitores poderão pensar, mas sim porque desde o ano de O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (naturalmente) que eu não via nem um dos filmes nomeados para o Óscar de Melhor Filme. Ou seja, desde 2003 que a escolha da Academia para mim não era surpreendente, dado que eu não podia avaliar coisa nenhuma.

Não que tendo visto apenas um dos vários filmes nomeados me permita avaliar o que quer que seja. Mas ao menos na noite dos Óscares vou ter uma certeza: se Milk foi escolhido como melhor filme e Sean Penn levar a estatueta de melhor actor para casa, não terá sido uma má escolha. Da minha perspectiva, o filme - tal como, por exemplo, Thank You For Smoking não foi um (grande) filme sobre lobby do tabaco versus lobby antitabagista, mas sim sobre retórica e argumentação - é menos sobre homossexuais e mais sobre a luta por uma causa, sobre a motivação que leva alguém a colocar a sua cabeça a prémio para lutar por aquilo em que acredita. A prova disso está numa das melhores cenas do filme, quando Milk decide discursar sob ameaça de ser abatido assim que "tocar no microfone", e cita a Declaração de Independência e a inscrição da Estátua da Liberdade para demonstrar a justiça da sua causa. Em suma: é um excelente filme, com excelentes desempenhos. De resto, não creio que Sean Penn conseguisse representar mal, mesmo que tentasse.

john

Got milk? (I)

Aproveito para dizer que quero um Harvey Milk a candidatar-se a vereador por Lisboa. Dar-me-ia um gozo tremendo ver um candidato a fazer campanha... apanhando poias de cão das ruas com um sorriso na cara.

john

6.2.09

Eu tu e todos os que conhecemos

Desculpem a falta de regularidade com que tenho postado, no entanto constrangimentos profissionaisopessoais não me têm permito dedicar a devida atenção a Jardim.

Estamos todos de parabéns (mais uns que outros, particularmente o João e o Fábio) pelo nosso link do Delito de Opinião. É com felicidade que vejo que este espaço tem sido tudo aquilo que queria que fosse.

Na vida nem tudo é fácil. Nem tudo é agradável. Ou mesmo merece atenção. Muita da felicidade que tenho ou vou tendo em viver deve-se ao facto de existir uma coisa a que vamos chamando cinema. Na semana passada fui ver The curious case of Benjamin Button. É-me difícil encontrar méritos num filme que tem tanto de artístico como contraplacados de madeira. Nada daquilo tem que ver, por mínimo que seja, com arte. Pouco mais que enredo básico e displicente, técnica no lugar de talento, negócio no lugar de arte. Muito do fundamento dos objectos artísticos reside na transmissão de mensagens. Quanto menos directas, mais arte lá está. A este propósito lembro-me sempre de Me and You and Everyone we know ou mesmo The Darjeeling Limited. Sem esquecer qualquer filme do Lynch ou do Kusturica. Muito do que Picasso significa vem do facto de que quase nada lá está, mas no fundo está lá algo (ou tudo). Este está que não está faz do Hamlet do Shakespeare aquilo que ele é, ainda hoje. E por aí fora. Um filme que se limita a contar uma história sem que nada seja transmitido por debaixo da mesa é pouco mais que vento. No fundo é o mesmo que distingue o Manual dos Inquisidores do Equador.

jtf

Este também gosta de malhar


Sobretudo em Ordralfabétix*, o vendedor de peixe (podre) da aldeia, e em Assurancetourix*, o inefável bardo. Será Cetautomatix* o Augusto Santos Silva da mais famosa aldeia gaulesa de todos os tempos?

*Note-se que emprego os nomes originais do francês e das traduções portuguesas que me habituei a ler. Ainda não me conformei com a mudança de nomes feita quando a Asa tomou conta da edição de Astérix tão bem conseguida ao longo dos anos pela Meribérica, mas isso fica para outro artigo um dia destes.

john

Momento publicitário

... a um filme feito na minha terra, por e com gente da minha terra. A ante-estreia do filme, como não poderia deixar de ser, está marcada para Odemira - Cineteatro Camacho Costa - no dia 28 de Fevereiro. Longe de Mim.


Realizado por Nuno Matos, o filme conta com algumas caras conhecidas. Para mim, entenda-se. A banda sonora foi composta por Rodrigo Vieira, que já deu provas do seu talento com o projecto Athanthea (só isto deve valer o bilhete).

(via VaiDEscadas)

john

5.2.09

É a simplificação, estúpido!

Tomás Vasques tem razão. Nesta altura do campeonato, e com toda a conversa sobre "choque tecnológico", "simplificação administrativa" e "cartões do cidadão", ridículo é que ainda seja necessário alguém votar por correspondência. E acho que os emigrantes não são os únicos - alguém me pode esclarecer como votam os estudantes universitários açorianos e madeirenses a estudar no território continental?

Seria muito mais simples haver a possibilidade de se votar pela Internet. Aliás, o Cartão do Cidadão, já que foi feito e é obrigatório, deveria tornar isso possível desde o primeiro minuto. Se assim fosse, eu não precisaria de mudar a minha área eleitoral (ou lá como se chama). Vivo em Lisboa, e sempre que há eleições tenho fazer uma viagem de duzentos e cinquenta quilómetros se quiser votar. O que normalmente faço. Não por considerar o voto uma "obrigação", como algumas almas defenderam durante as últimas presidenciais, mas por achar que 'eu' devo votar, ainda que seja em branco. Há quem tenha de fazer viagens bem maiores. Não seria mais prático a coisa poder ser feita pela Internet? Para que serve toda a "simplificação administrativa" se um dos fundamentos da democracia - o voto - continua a não estar simplificado?

john

4.2.09

blogwatch

1) O Delito de Opinião é um blogue recente, mas com uma actividade frenética e bastante interessante. E com um link para este nosso jardim. Obrigado, obrigado (João, quando puderes...).

2) O Origem das Espécies mudou de visual. Ficou melhor. E Francisco José Viegas continua com a qualidade a que já nos habituou.

3) Alguém duvida de que o Filipe e o Pedro são os melhores bloggers nacionais da actualidade? Então leiam isto, do primeiro, e isto, do segundo.

john

2.2.09

Rolar cabeças

Vai por aqui alguma confusão. A tese parece-me simples: como alguns elementos do SFO (Serious Fraud Office, o organismo britânico que estará a investigar o caso Fripór) foram despedidos por incompetência. "Quem andou a enaltecer o rigor excelso da polícia de Sua Majestade bem pode limpar as mãos à parede." Por acaso até não pode. Porque é precisamente nesse detalhe que reside toda a diferença. Polícias - e magistrados, e investigadores, e procuradores, e... - incompetentes, há em toda a parte. A incompetência, creio, não é um exclusivo português. No entanto, no SFO foram apuradas responsabilidades, e a incompetência fez com que rolassem cabeças. Nos últimos casos, temos assistido a sucessivas provas de incompetência da parte do nosso Ministério Público na condução de alguns processos mais mediáticos. Quantas cabeças já rolaram? Quem se responsabilizou por alguma coisa?

O facto de o SFO despedir incompetentes parece-me a mim uma prova de seriedade. Mas todos sabemos como funciona Portugal, não é verdade?

john

Rascunhos e (má) memória.

Fiz há pouco um exercício curioso: no dashboard do nosso blogue, ordenei as entradas por drafts (rascunhos), a fim de ver que textos tinha eu alinhavado e deixado esquecidos nas profundezas dos nossos arquivos. Encontrei vários: algumas paredes de texto, frases soltas aqui e ali, o início de uma ideia que nunca foi continuada, uma resposta a um artigo de um colega. Volta e meia faço isto no meu blogue pessoal, e nunca fico desapontado com os resultados. De uma vez, vejam lá, encontrei em draft uma sinopse completa de um conto que tenho em mente para escrever um dia destes (um ano destes, melhor dizendo), assim como descrições bastante pormenorizadas de personagens e de locais desse mesmo conto. Encontrei também ideias repetidas, pontas soltas que agora já não serei capaz de tornar a juntar, e coisas que não publiquei e que me fazem pensar: ainda bem que não as publiquei. Também encontrei esboços de ideias que não consigo identificar, ou seja, cujo contexto se perdeu na minha (má) memória. Isso, de resto, já acontece com os textos que lá publico: volta e meio releio os arquivos, e há sempre um ou outro texto que me deixa a pensar "que diabo quer isto dizer?". Má memória, dizem-me. Nem por isso: tenho uma memória extraordinária para fixar factos históricos, o que me deu sempre notas muito boas a História (excepto na universidade, mas isso é outra história: as aulas eram uma merda). Não tenho uma boa memória para detalhes, até porque não sou um bom observador (sim, sou jornalista; não perguntem). Ilustro esta ideia com um bom exemplo: quando comecei a escrever este texto, não tencionava de todo falar sobre a minha (má) memória. Não faço a mais pequena ideia do que era suposto eu falar com aquela história dos rascunhos. É segunda-feira de manhã e estou a funcionar com uma caneca de leite, uma sandes de carne de porco frita com banha, um copo de água, um café e dois cigarros. Se isto não é saudável, não sei o que será, mas tinha de alguma forma fazer com que o texto descambasse ainda mais.

john

1.2.09

Preciso de um fim-de-semana para recuperar deste fim-de-semana.

A minha panela de pressão avariou, o que para todos os efeitos é uma tragédia. Não pude por isso seguir o meu mais sagrado ritual gastronómico: comer a minha feijoada ao almoço de sábado. Claro que ela - a feijoada - pode muito bem ser cozinhada numa panela normal, mas demora tempo e, para além disso, a fuga da minha panela de pressão arruinou o que restava do meu stock de feijão lá da horta dos pais. Enfim. Junta-se a isto o duche de água fria (ao menos a isto estou habituado) que levei no Jamor para ver a equipa de futebol americano de um dos meus melhores amigos jogar contra uns espanhóis. Raios partam o tempo, que até desenraizou árvores aqui em Algés. Ao menos a equipa do meu amigo - os Navigators, já agora - ganhou 14-2 aos espanhóis com um touchdown espectacular, e note-se que os espanhóis - os Imperials - são só bicampeões. O ataque dos Navigators parecia a linha do Condestável do Reino, Nuno Álvares Pereira, na batalha de Aljubarrota. Todo o álcool consumido ontem à noite - primeiro no restaurante do costume nos Olivais, e depois em Santos - destinou-se assim a celebrar o gozo que dá ver espanhóis a enfardarem touchdowns num Jamor escuro e chuvoso. E já agora, porque raios o Charlie Shots mudou de sítio?

john