31.1.12

A arte do discurso e outras sublimidades.



jtf

30.1.12

The Descendents

Nunca há muito a dizer sobre filmes introspectivos e vertidos sobre si próprios. The Descendents constrói-se a partir de personagens não-lineares, oblíquas e mutantes. É, no fundo, um espaço de maturidade onde navegam personagens que se ligam afectiva e materialmente, ao longo de um Havai próprio e personalizado. Cada um dos desempenhos parte de uma aparente lunaticidade para, aos poucos, recolher ao casulo do sensato, do expectável. O melhor exemplo disso é o adolescente Sid, protagonista de uma trajectória que parte da estação da insolência na doença da avó, para a maturidade e perspicácia na cena final em que Julie Speer no hospital se despede de Elizabeth King. Este é um filme directo, seco, sem grandes artifícios, em que o confronto se faz na hierarquia de valores. E, como sabemos, nesse confronto de titãs nem sempre é a vida quem ganha.

jtf

29.1.12

Constatações (III) - escola da vida...

É curioso verificar que existe uma relação inversamente proporcional entre o acesso aos empréstimos que a banca foi dando aos cidadãos e o valor que a escola foi perdendo durante os últimos anos.
À medida que os empréstimos foram sendo "democratizados" - e uso esta palavra com muita liberdade... - e as pessoas se foram endividando num frenesi de dinheiro fácil para casas, carros, televisores e sofás, a escola foi perdendo o seu valor institucional, os professores passaram de "players" importantes do processo de construção de uma sociedade mais civilizada para uma posição de elo mais fraco de uma sociedade dita democrática.
Não afirmo que exista uma relação causal ou de alguma forma directa. É apenas uma constatação de uma relação que leio como inversamente proporcional. Reflicto apenas...
Hoje, com este governo admiravelmente empenhado na estabilização das contas públicas através da aplicação de medidas de inegável justiça social, através das quais aqueles que têm menos, com menos ficam e os que têm mais, com mais ficam, observo uns esforços titubeantes de inverter a relação inversamente proporcional que aqui apontei. O ministro das finanças ataca de um lado e o ministro da educação monta uns simulacros de reforma escolar, afirmando que os professores têm que ser respeitados.
Por outro lado constato que, durante o governo de José Sócrates atingimos um máximo histórico de endividamento público e privado. Ao qual foi contraposto o magnífico programa "novas oportunidades" que servia um outro simulacro, desta feita estatístico, para fingir que as pessoas, apesar de endividadas, estavam mais escolarizadas...
O mal está feito: o país está mais pobre e a escola já não ensina nada.
Portugal teve na sua história recente uma "segunda oportunidade" para entrar no clube das nações desenvolvidas. A adesão à CEE foi essa oportunidade. As comportas abriram-se e o país foi inundado com fundos comunitários para tudo e mais alguma coisa. O objectivo era desenvolver Portugal, fazê-lo convergir na direcção de um padrão de desenvolvimento comunitário. Outros países tiveram a mesma segunda oportunidade - a Irlanda, por exemplo... A diferença é que aqui construiram-se estradas e outras obras públicas, desfez-se a agricultura, a pesca e a indústria. E desfez-se a escola também. Porque era muito difícil de outra maneira... e o ideal era ter muitos licenciados a irem de A para B em auto-estradas com muitas faixas em carros novinhos em folha. Optámos pelo atalho, como bons Chicos-espertos que somos. Mas se os atalhos são mais curtos, normalmente a malta perde-se pelo caminho.
Isso serviu durante 20 anos. Hoje já não serve.
Temos estradas que ninguém consegue pagar para usar. Temos licenciados que têm dificuldades em soletrar a mais simples das palavras ou a fazer a mais simples das contas. E já não temos outra coisa se não serviços que já não servem porque ninguém tem dinheiro para os pagar e Turismo é um embuste.
A Irlanda não tem as nossas estradas magníficas. Mas não tem analfabetos. E nós temos 9% de analfabetos a correr todas as faixas etárias.
O mal está feito. Perdemo-nos pelo caminho. E não aprendemos nada - ainda hoje optamos pelos atalhos. O que são as medidas de austeridade se não um atalho desesperado (e desesperante)?

fp

27.1.12

The Golden Voice



jtf

26.1.12

Desafio à lógica (I)

Mais uma medida de inegável inteligência e elegância estratégica do Governo de Passos Coelho. Brilhante. Simplesmente brilhante!

O Governo anuncia o fim de alguns dos feriados do calendário civil Português.
Curiosamente, os feriados eliminados são dois daqueles que maior relação têm com aquilo que o Portugal político e simbólico representa.
A lógica da sua eliminação desafia a compreensão. O valor da supressão de um feriado, em si, desafia a minha compreensão, para ser franco...
Os feriados eliminados são o 1 de Dezembro e o 5 de Outubro, respectivamente o dia da Restauração da Independência e o dia da Implantação da República. Ambos foram revoluções estruturais do país.
O primeiro recoloca Portugal nas mãos dos Portugueses, terminando assim o período do domínio da dinastia Filipina. O segundo marca a transição revolucionária de uma Monarquia para uma República, regime que ainda hoje se encontra em vigor e que dita as regras da maioria da nossa vida política e social.
Dois feriados marcantes do calendário civil - e que vão deixar de existir e de ser celebrados. A História de Portugal, uma das coisas que os Portugueses ainda têm como fonte de pequenos orgulhos mobilizadores dos Portugueses, é assim desrespeitada e as suas memórias deixam de existir, caindo no esquecimento.
Mas há que perguntar: que benefício existe na supressão destes feriados? Será que o rendimento bruto que o Estado colhe em sede fiscal própria compensa o rendimento bruto que o Estado colheria em sede fiscal própria se as pessoas fossem às compras e passear? Será que compensa? Que lógica tem isso?
E mais: se é para eliminar feriados civis... porque não eliminar o 25 de Abril ou o 1 de Maio? Não são também feriados de origem político-revolucionária como os infelizes (es)colhidos? Ou o dia 10 de Junho, para todos os efeitos?
E mais ainda: se Portugal é uma República e, por isso, um Estado laico... porque não eliminar os feriados religiosos como o 1 de Novembro e tantos outros feriados católicos?
É que a religião, Sr. Primeiro Ministro, é uma coisa que é parcial a apenas um grupo de cidadãos, enquanto a celebração do regime republicano, a liberdade conquistada com o 25 de Abril, os direitos dos trabalhadores e a independência de Portugal são comuns a todos os cidadãos, sejam eles católicos, protestantes ou anglicanos - como eu queria poder ser para não ter que gramar com as tolices inexplicáveis deste Governo obcecado pela austeridade...
Não é a eliminação de feriados que vai aumentar a produtividade dos Portugueses. Vai, simplesmente, acirrar o espírito dos trabalhadores que, se já se sentem onerados em excesso pelas medidas de disciplina orçamental, se sentirão ainda mais violados e desrespeitados agora que perdem ainda mais direitos e o seu trabalho fica objectivamente e verificavelmente mais barato.

Os grandes senhores da banca internacional e os seus esbirros-políticos-neo-liberais comeram tudo quanto puderam e as pessoas comuns é que pagam a conta no final. Pagam com cortes nos ordenados, com impostos cada vez mais pesados, com a supressão de direitos adquiridos e, agora, pagam com mais dois dias de trabalho além daqueles que já dão...
Se isto continua assim, antes do final do mandato do presente Governo, vai ser um privilégio um trabalhador poder estar acorrentado e ser açoitado se não cumprir com as suas tarefas do dia - que nessa altura terá 16 horas de trabalho. Felizmente, o trabalhador poderá ter a companhia dos seus filhos de 6 anos no trabalho.
Ah, pois! Todos têm que contribuir para o sustento do Estado!

fp

Res pública















Parece que o imperativo económico subverte a memória colectiva. Alvariniza-se. Talvez não tarde muito para diminuirmos o hino nacional apenas para uma estrofe. Uma bandeira só com uma cor.

jtf

Paráfrase I

24.1.12

Cacofilia














Portugal é um território revestido por uma película muito especial. Há espécies mutantes para todos os gostos: pombos, lagostas, caranguejos e muitos camaleões de estirpes raras. Lá do alto, todos tomaram o seu lugar no banquete em que comeram os restos do que sobrou. Comeram que nem uns alarves. Trincaram Sócrates por muito menos do que este festival pirotécnico, alimentado a petróleo de filha de capitão. Muitas das rosnadelas tinham, entendamo-nos, razão de ser. Por isso, não me venham com cantigas, porque p'ra danças já temos a das cadeiras. Mas agora estão todos caladinhos. Somos terra de muito vento.

jtf

23.1.12

Eles precisam de ti





















É relativamente fácil contrariar a ideia de que tudo isto é novo e de que Aníbal António pisou, fortuitamente, o presente que um jornalista mais irreverente lhe pôs num passeio do Porto. Cavaco é, e sempre será, Cavaco. É «isto» e «isto» será até ao fim. Monumento de admiração ao sonso, eterno-austero, Boliqueime reencarnada num interior de primeira metade do século. Agarrado até ao fim à ideia do respeitinho autoritário e reverencial, de quem nunca ninguém poderá sequer ousar duvidar, sob pena de suportar o incómodo de ter que nascer duas vezes. Acresce o exercício cómico de pretender fazer com que o comum dos cidadãos se torne um parvo amestrado, pronto ao mais sibilino dos impropérios, guiado pela trela e movendo-se a puxões de galope. Na mais simples das aritméticas, se 295 salários mínimos e 290 salários médios não chegam para pagar as contas do MEO, água, luz e gás; resta-nos a hipótese de atoalhados bordados a ouro, safiras e rubis, vivendas com jardim junto ao mar ou comprimidos de hipocrisia e de despudor.

jtf

20.1.12

Pobre cavaquinho


De há algum tempo a esta parte, sempre que Cavaco Silva abre a boca o meu mantra é: "Não me arrependo de ter votado Cavaco em 2011 porque as alternativas eram Alegre, Nobre, Jerónimo e Louçã." É repetir isto as vezes que forem necessárias antes de ir dormir.

Mas já foi mais eficaz, confesso.

john

19.1.12

A Europa e a consciência do vazio
















Nunca como hoje o continente se questionou tanto a si próprio, introspectivo, unidireccionalmente constrangido pelas doutrinas mais-ou-menos esquecidas nos manuais oleados do liberalismo ocidental. Este acto de contrição comunitário começa, nos dias de hoje, a permitir à velha Europa iniciar uma espécie de «acto refundacional» de meia-idade que, por caminhos tortuosos, reconduz a Zurique e aos «Estados Unidos da Europa» de Churchill. Este caminho para o «federalismo» só na aparência é novo. Já os próprios pais fundadores o tinham gravado nos tratados constitutivos, na celebre expressão «uma união cada vez mais estreita entre os povos europeus» - chamar-lhe povos não é um pormenor. Paradoxalmente, tendo a união política gradualmente mais estreita sido uma marca originária das comunidades, a viagem foi abortada com o processo de constituição europeia e, posteriormente, do seu sucedâneo tratado de Lisboa. Tende-se, hoje em dia, a achar que o processo de «federalismo» é uma espécie de reacção a 27 às deficiências da zona monetária euro a 17; mas, em rigor, o caminho para o «federalismo» esteve na génese do processo de integração desde o nascimento. A definição de Delors de poder tripartido, com o nível federal, intergovernamental e puro-comunitário, dá-lhe todo o corpo de que ele, «federalismo», necessita. Neste teatro entram em cena, entre outros, o BCE e a Comissão Europeia ao nível federal; o FEEF/MEE ao nível intergovernamental, a que se somam as jantaradas informais no Hotel Adlon de Berlim com o anfitrião que todos já conhecemos. Assim, este «acto refundacional» não é mais do que o regresso às origens do propósito comunitário, marcadamente solidário, no sentido do mútuo económico e político, mas sobretudo civilizacional.

jtf

Teorias da Conspiração?

Sempre gostei muito de teorias da conspiração. Mas deveriam ser atribuídas notas - de 1 a 10, talvez - às teorias da conspiração, classificando-as em função do seu grau de a) verificabilidade e b) verosimilhança.
A recente problemática da SOPA ou da PIPA - sobre a qual já escrevi - poderá ser classificada com um 10. Até mesmo com um 11!
A internet não pertence a ninguém. É terreno baldio que todos os habitantes da aldeia global podem usar conforme entendem. E como é muito grande, dá para todos: o António planta lá umas árvores de fruto, o Zé Mário semeia lá um bocado de trigo e a Maria planta lá umas couves. Daquelas enormes que crescem de forma inusitada no Entroncamento. E há aqueles que fazem jardins de micróbios. O que é sempre útil...
Enfim, tudo vai bem na nossa aldeia global. As pessoas são felizes e têm um acesso à informação, ao conhecimento e às couves da Maria como nunca havíamos visto na nossa civilização. Mais, ainda, o uso do terreno baldio contribui para a civilização como nunca. Justamente por isso.
Porém, não pode ser controlado... está fora das redes de controlo do Ti Manel - que é um "empresário" da aldeia... enfim, é o dono da taberna - e do Ti Celestino - que é o Presidente da Junta. Ora estes dois são aqueles que detêm, quase que inteiramente, o poder local. E não gostam - como nunca gostaram - do terreno baldio. É que, se as pessoas da aldeia usam o terreno baldio para produzir coisas que sustentam o seu novo estilo de vida civilizado e civilizante, acabam por não precisar do Ti Celestino para intervir nos casos de abespinhação local, porque a comunhão no terreno baldio cria, em si, soluções silenciosas e absolutamente diplomáticas para os problemas entre os aldeãos. Da mesma forma que não precisam do Ti Manel para lhes vender tudo aquilo de que eles precisavam anteriormente. (Recordemos que o terreno baldio é mesmo muito grande e dá mesmo para todos... lamento não ter criado personagens em número suficiente para ilustrar a imensidão do potencial do terreno baldio.)
Então, o Ti Manel (que é o representante dos interesses corporativos) e o Ti Celestino (que é o representante dos interesses políticos) decidiram que haviam de bloquear o acesso ao terreno baldio. E eis que, em conjunto, fizeram uma valente "sopa" e uma valente "pipa".
De volta à realidade: porque motivo querem os interesses corporativos e os interesses políticos controlar os conteúdos disponíveis na internet? Afinal, duas das coisas que a internet faz é tornar os mercados globais e, através do livre trânsito de informações, contribuir para a consciencialização dos cidadãos uma vez que têm acesso livre a milhares de milhares de milhões de conteúdos sobre, basicamente... tudo! E é esse o problema, verdadeiramente. A internet - que começou por ser uma tecnologia militar nascida da paranóia da Guerra Fria - tornou-se a mais possante ferramenta de "empowerment" que os aldeãos da aldeia global  têm à sua disposição. E não há nada que as grandes corporações e os governos temem mais do que uma população consciente e livre: livre para pensar, para escrever e aprender; livre para fazer compras onde e como quiserem. A internet tornou-se uma ameaça ao “establishment”, da mesma forma que as massas populares se tornaram uma ameaça ao Antigo Regime de Luís XVI em 1789...
O Ti Manel e o Ti Celestino há muito que temiam esta coisa... e, quando, noutra parte do baldio o Yousouf e o Achmed conseguiram, através de um extraordinário uso do potencial do terreno baldio, acabar com o longo domínio do Mahmud e do Al-faddi como presidentes da junta - das suas juntas, claro... não esquecer que o baldio é mesmo, mesmo muito grande - acharam que isso poderia acontecer na sua parte da aldeia. Até que um dia, entre outros, uma série de aldeãos começaram a fazer ameaças e exigências: eram os movimentos Occupy Junta de Freguesia do Ti Celestino e Occupy Taberna do Ti Manel... A Primavera estaria para chegar mais cedo? Possivelmente... Mas ainda havia tempo para agir, pensaram os Ti Manel e Ti Celestino. “Vamos falar com o Dr. Joaquim” - que é o Presidente da Câmara - “e explicar que o uso do terreno baldio prejudica os interesses e direitos de alguns aldeãos” - até aqui não mencionados - “e dizer que pode haver roubos aqui e acolá e que o baldio está a ficar perigoso.” E conseguiram falar com o Presidente da Câmara - que é um pouco estúpido e achou que eles tinham razão. E em breve, uma nova lei será aprovada na Assembleia Municipal, lei essa que - se não suprime inteiramente o terreno baldio - limita potencialmente o seu uso livre. E os aldeãos, se quiserem batatas vão ter que voltar à Taberna do Ti Manel para as comprar. E se tiverem divergências têm que depender do arbítrio e do bom senso do Ti Celestino (do qual o Ti Celestino já havia dado boas provas ao ir ao Banco do Dr. Aníbal pedir dinheiro, em nome da Junta, para comprar um belo carro... para uso estritamente oficial, claro está!).
E todos ficarão contentes. O Ti Manel e o Ti Celestino, claro...
Os outros não interessam. Que ideia absurda esta de ter uma aldeia contente e a funcionar de forma justa e democrática! Francamente... 


fp

SOPA ou PIPA?

Qualquer Português que se preze, ao ver estas palavras (que são acróninos e não substantivos) vai pensar imediatamente: "hum... almoço! Uma bela SOPA da pedra e uma PIPA de vinho vinham mesmo a calhar!..." Contudo, lamento informar os meus compatriotas que, de facto, nada disto se relaciona com alimentação. Pelo contrário: relaciona-se directamente com informação e com o livre tráfego de informações que a internet potencia.
SOPA e PIPA são projectos de lei, redigidos respectivamente pelo Congresso e pelo Senado dos Estados Unidos da América. O seu objectivo inicial é a protecção de propriedade Americana que possa, eventualmente, estar a ser pirateada na internet.
Até aqui tudo bem. Todos somos contra a pirataria - em princípio. E todos somos a favor da livre circulação de ideias e de informações. O uso que fazemos da internet alimenta essa ideia. Quando precisamos de saber alguma coisa, sacamos dos nossos smartphones ou dos nossos computadores e, imediatamente, procuramos a informação de que necessitamos. A internet tornou-se, assim, um indispensável recurso para o progresso cultural e civilizacional - mesmo tendo em conta que existe uma quantidade incrível de conteúdos incorrectos, inúteis ou desagradáveis... mas a existência desses conteúdos é prova cabal da liberdade de trânsito de informações, sendo o utilizador (em princípio) o único responsável pelas informações que procura e, em última análise, pelo uso que faz da internet.
Aqueles que são produtores de conteúdos que devam ser protegidos pelas leis dedicadas à defesa da pripriedade intelectual têm alguns problemas com a internet, é certo. Muitas vezes, aquilo que lhes é devido pelo seu trabalho e pela circulação do seu trabalho não é pago. E isso é chato - porque eu tenho direito a ser pago pelo meu trabalho e tenho o direito a defender, pelos meios à minha disposição, os frutos e a integridade da minha propriedade intelectual. Correcto.
Mas o que a SOPA e a PIPA fazem é, de facto, criar uma mentalidade de "caça às bruxas" - mentalidade que os Americanos criaram e pela qual têm um sórdido fascínio. Basta ver os infames acontecimentos de Salem (Massachusets) entre 1692 e 1693 e a "caça às bruxas" que foi levada a cabo em audiências do Congresso Americano, nos anos 50, à procura de comunistas... Os Americanos têm esta mentalidade prossecutória que transparece em todos os quadrantes da sua vida pública e privada. São famosos os casos de tribunal que fizeram furor deste lado do Atlântico e que contribuem para alimentar a imagem dos Americanos como povo estúpido, mesquinho e viciado em processos de tribunal, sempre à caça de indemnizações milionárias, tudo isto disfarçado sob a capa de uma moral rígida, mas cheia de paradoxos, na qual coabitam a ideia de fazer "the right thing"e "I'll sue you for that!"
O poder Americano não conhece limites. Consequentemene, a usura e o abuso de poder não conhecem limites. Basta ver a forma como foram conduzindo as suas guerras durante o século XX e início do século XXI. A ideia é defender os seus "interesses nacionais". Que é o mesmo que dizer "interesses corporativos"...
Assim, pegando na ideia de defender "a propriedade intelectual dos cidadãos Americanos" (que é o mesmo que dizer "a propriedade das corporações Americanas", o Congresso e o Senado fizeram os já referidos projectos de lei, adequadamente chamados SOPA e PIPA. O que faz sentido, dado que eles gostam muito de comer. Quase tanto como de ir para tribunal com os vizinhos ou invadir países produtores de petróleo.
A situação é lida como de tal forma grave que a Wikipedia - uma das plataformas fundamentais do livre trânsito de informações e conhecimentos - protestou com um blackout durante o dia de ontem. O que se revelou um incómodo tremendo para milhões de pessoas. Serviu o propósito de criar consciência e de chamar a atenção desses milhões de pessoas para o potencial censório que a SOPA e a PIPA representam. Se estes projectos de lei passarem a lei, poderemos contar com uma rápida supressão de conteúdos e bloqueio de sites que as corporações Americanas possam considerar, aos seus olhos - então defendidos por lei e pela (neste caso) regra do "rule of law"-, como perpetradores de actos de pirataria online...
sso significa que os EUA passarão a contar com uma censura real e efectiva porque a cultura comercial Americana, bem como a cultura de "liability" não conhecem limites. E a guerra ao livre trânsito de informações começará.
"Mas isso é lá com eles!" diz o tuga, cujo apetite foi aberto pelas palavras "sopa" e "pipa". Pelo contrário, meu faminto amigo. A magia da internet é o acesso universal a informações. Consequentemente, o facto de um site que possa ser bloqueado sob o pretexto da violação de propriedade intelectual estar "baseado" nos EUA afecta todos os cidadãos mundiais que façam uso da internet como ferramenta de comunicação ou de pesquisa de conteúdos. É que estas leis prevêm um esquema tentacular de controlo de informações... e sob o pretexto de protecção da propriedade intelectual, a super-autoestrada da informação será controlada, policiada e censurada. E os piratas - os verdadeiros piratas da internet - hão de escapar, porque serão engenhosos o suficiente para contornar o problema...
Chamem-me maníaco das conspirações, se quiserem. Mas a agenda secreta - e existe sempre uma agenda secreta... - é a imposição de uma censura efectiva, fundeada em falsos pretextos defendidos pelo Estado de Direito.

Para uma explicação detalhada da SOPA e da PIPA, vejam o seguinte:
http://www.youtube.com/watch?v=tzqMoOk9NWc&feature=g-logo&context=G2562213FOAAAAAAAGAA
Mas vejam depressa... porque amanhã pode já lá não estar.

E agora... podem ir almoçar porque toda esta conversa de SOPA e PIPA deve ter aberto o apetite à malta.

fp

17.1.12

Líderes Europeus: quem são eles, afinal?...

Durante este período de crise do Euro tem-se falado muito, na imprensa escrita e no jornalismo televisivo, dos líderes Europeus. Fala-se muito da sua falta de coragem, da sua falta de capacidade de decisão e, por vezes, da sua incompetência para lidar com a seriedade de problemas que estão a afectar directa e imediatamente muitos milhões de cidadãos do Continente Europeu em geral e da União Europeia em particular.
Comentadores e jornalistas usam muito esta expressão "líderes Europeus", geralmente emparelhada com as palavras incompetência, lentidão e falta de coragem. Não contesto a posição desses comentadores. Na verdade concordo com eles nas linhas essenciais. Sim, há falta de coragem. Sim, há claros sinais de incompetência. Sim, o processo de resolução de problemas é demasiado lento e sim, onera em demasia as camadas populacionais mais frágeis, defendendo os interesses de grupos económicos específicos em detrimento de um bem estar geral. E vou mais longe: a defesa de grupos e interesses económicos é avessa aos princípios fundamentais da União Europeia, nomeadamente a promoção de um bem-estar geral a toda a população.
Mas falar dos "líderes Europeus" é uma abstracção grosseira e fugidia. Dizer as coisas assim chuta a bola da opinião pública para aquilo que se julga ser o paquidérmico monstro de Bruxelas. "Ah, a culpa é dos burocratas de Bruxelas! Ah, o problema reside em Bruxelas!" Mas isso não é verdade. Bruxelas é, de facto, lenta e deliberada nos seus procedimentos administrativos e burocráticos. É um procedimento de baixa de celeridade que sempre serviu bem o interesse de um número sempre crescente de países. Contudo, não é essa a raiz do problema.
Vejamos: o Parlamento Europeu é constituído por um número de deputados eleitos directamente pela população dos Estados-membros da UE. São figuras essenciais ao funcionamento da UE e primeiro garante do funcionamento democrático da União. Mas não são os "líderes Europeus" porque não têm o poder decisório nem o poder legislativo. São um órgão essencialmente consultivo com um papel muito relevante no processo legislativo - mas não têm iniciativa legislativa.
Essa iniciativa pertence à Comissão Europeia. Os Comissários Europeus são, de facto, líderes Europeus. Mas apenas no sentido em que "lideram" o processo legislativo Europeu. Dedicados a determinadas áreas específicas de competência, trabalham no sentido de criar projectos legislativos que serão aprovados ou rejeitados pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho Europeu. Não são, por isso, os "líderes Europeus" de que fala a imprensa. Exceptuam-se, certamente, o Presidente da Comissão Europeia e, no âmbito das relações internacionais, o Comissário para as Relações Internacionais e Segurança Comum.
Falta, por isso, o Conselho Europeu - constituído pelos Chefes de Estado e de Governo dos Estados-membros - e o Conselho - constituído pelos Ministros de uma determinada pasta. Esses sim, são os "líderes Europeus". São os líderes dos Estados-membros. São democraticamente eleitos pelos seus próprios cidadãos através de processos diversos, mas de impecável idoneidade eleitoral (ou assim deveria ser).
E são esses os líderes que se têm reunido em reuniões extraordinárias e em cimeiras fundamentais não só à gestão da crise, mas à resolução dos problemas que afligem os cidadãos Europeus.
São eles os responsáveis pelas medidas de austeridade - medidas draconianias de justiça social comparável apenas à Inquisição - que impõem, impunemente e sem questionar a sua própria posição, dificuldades inusitadas às pessoas que os elegeram na esperança de uma vida melhor nos anos que se seguem às eleições. São eles "os eleitos". Literalmente!
São estes, de facto, os tais líderes Europeus que a imprensa faz pensar que estão em Bruxelas, alheados da realidade. Mas não estão em Bruxelas. Estão em Lisboa, em Madrid, em Roma e em Atenas. Estão em Dublin e em Londres, em Bruxelas (mas noutra parte da cidade), em Paris e em Berlim... Lideram os governos nacionais. E aos fins-de-semana lideram - em part-time, apenas... - os destinos de 500 milhões de eleitores e contribuintes distantes.
É essencial que compreendamos que os "líderes Europeus" que tanto criticamos e tanto gostamos de ver criticados pelos nossos fazedores de opinião pagos a peso de ouro pelas agências de entretenimento informativo não estão distantes em Bruxelas. Estão aqui, bem perto de nós: em São Bento e nos Ministérios. É preciso quebrar este "efeito de distanciamento" que serve apenas o alheamento e o adormecimento das consciências, bem como o acirrar de sentimentos Anti-Europeus. Os líderes Europeus - os que são incompetentes, cobardes e incapazes de resolver os problemas que são de sua inteira responsabilidade - são os nossos líderes nacionais. Votámos neles. E a responsabilidade é nossa...
Talvez, por isso, não seja mau recordar os nossos "líderes Europeus": Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes, José Sócrates, Pedro Passos Coelho. Todos eles democraticamente eleitos por nós.

fp

16.1.12

O SNS e os problemas de expressão












Primeiro, na era dos dinossauros, começou-se por consentir que os animais e as pessoas morressem à fome; quais pedras desinteressantes, sem que ninguém se incomodasse muito com isso apesar do odor, fumegante, junto dos casebres mais pobres. Depois, com o evoluir da espécie, começaram a reconhecer-se alguns direitos básicos, papas de aveia e alguns outros curativos rudimentares. Séculos mais tarde, deixou de admitir-se que, quem quer que fosse o habitante do povoado, sucumbisse pela envergonhada magreza de meios, dinheiros ou  por pouco recomendável ascendência. Por fim, nos dias que vão correndo deste lado do monte, há alguns animais que querem voltar ao paleolítico. 
Há outros que dizem que são só «problemas de expressão».

jtf

15.1.12

Coutada














Para que o Primeiro-Ministro não deixe de ser "coerente" com a ideia de colocar anteriores devedores nas empresas credoras "para ajudar a resolver o problema" (é delicioso, não é?) e uma vez que estará para breve a mudança dos órgãos sociais da CP, eu proponho Manuel Godinho para CEO.

jtf

14.1.12

Standard & Poor's: The Empire Strikes Back

O Cruzador de Batalha USS Standard & Poor's - cruzador da classe Treason - ao serviço da Marinha Económica dos Estados Unidos disparou uma violenta salva de artilharia sobre navios das armadas das potências aliadas da Europa. O Porta-aviões (classe Champignon) République Française levou com a primeira salva de artilharia. Depois o USS Standard & Poor's apontou baterias contra o NRP Tuga (que já não é mais que um batelão pesqueiro) e acertou com mais dois tiros. A tripulação do NRP Tuga já não sabe o que fazer: há vários meses a tirar água a balde, estão cansados e, logo quando estavam a achar que o barco tinha salvação, levaram com mais dois tiros que abrem mais dois rombos no casco, fazendo do outrora orgulhoso navio não mais do que um arrastador de pesca (daqueles que o Cavaco Silva gosta tanto). Extraordináriamente, a armada dos EUA não abriu fogo sobre a orgulhosa (Ekonomisches)Kriegsmarine.
E isso é coisa que eu não percebo, francamente... Sempre julguei que os americanos fosse nossos aliados. Mais, até julgava que eram nossos amigos! Não percebo porque estão a abrir fogo sobre nós, aqui deste lado do Atlântico...
Ou antes, percebo. Mas é uma justificação tão absurda que não pode ser verdade: a economia dos EUA está completamente furada. Afinal, estiveram em perigo de "default" durante uma data de tempo, resolvendo o problema com o aumento do tecto da dívida (?!). As economias Europeias são as maiores concorrentes da economia Americana (não é a China, nem a Rússia, nem o Brasil - é a Europa). Como os Americanos não têm por onde reactivar a sua economia no sentido de produzir coisas palpáveis, dedicados que estão aos serviços financeiros e aos serviços imobiliários, decidiram que, para equalizar a sua desvantagem, têm que destruir a economia Europeia.
Assim, com a sua orgulhosa armada de agências de rating financeiro e bancos insolventes lançaram-se, qual matilha de lobos, às pernas dos pobres carneirinhos Europeus. Mas não se metem com o Cão Pastor - que é um Pastor Alemão... Porque esse sim, pode dar-lhes nas orelhas.

Felizmente temos os nossos submarinos: os submarinos da Classe Portas - NRP Cherne, NRP Aldrabice e NRP Fiasco. Isso é que nos safa...

fp

13.1.12

A Reinvenção da Roda

Muito imbuída na tradição católica romana, a sociedade tem vivido com o peso do pecado que aforismos como «não é possível ter o melhor dos dois mundos» significam. Surpreendentemente, descobre-se que este peso apenas pende sobre as pessoas ditas «singulares», porque as «colectivas» podem, com desafogo, viver com sol e calor o ano inteiro. Economicamente, sempre se soube que se uma empresa se instalasse nas ex-repúblicas de leste teria custos do trabalho mais baixos, mas teria que arcar com um enquadramento institucional e burocrático mais pesado. Por outro lado, se optasse pelos países mais desenvolvidos teria agilidade fiscal e administrativa mas os salários seriam mais onerosos. Nos dias que correm, há uma espécie de reinvenção da roda: é possível ter os salários portugueses e pagar os impostos holandeses, ao mesmo tempo. De facto, é possível ter o melhor dos dois mundos.

jtf

O Sol quando nasce não é para todos

















jtf

12.1.12

Anedota

Um Primeiro Ministro, um Banqueiro e um Grande Empresário vão jantar ao Gambrinus.
Conversaram alegremente e foram pedindo bifes com batatas fritas, cervejas e croquetes. Pediram uma data de garrafas de vinho e, no geral, divertiram-se imenso.
No final do jantar chegou a hora de pagar a conta.
O Primeiro Ministro diz que, sendo chefe do Governo, não sentia obrigação de pagar a conta uma vez que estava a jantar no pleno exercício das suas funções. Mesmo que fossem onze da noite num domingo!
O Empresário diz que não pode pagar porque achava que tinha sido convidado e, além disso, não tinha trazido a carteira por a ter enviado - via FedEx - para as Ilhas Caimão.
O Banqueiro disse que nem sequer tinha uma carteira, precisamente por ser banqueiro - que ideia absurda, um banqueiro andar com dinheiro!
Procuraram então uma solução. Não podiam não pagar a conta do Gambrinus porque precisam de um sítio baratinho para jantar. Afinal, a economia está dura e é preciso fazer poupanças.
Então, tiveram uma ideia!
O PM saiu à rua e apanhando o primeiro cidadão que encontrou disse-lhe que tinha uma conta para pagar. O cidadão Zé Mário disse então que achava que não tinha nada que pagar, que disparate, porque não tinha comido nem bebido nada. O PM apontou para o seu Pastor Alemão - chamado Fisco - e disse que se ele não pagasse a conta, como seria próprio, lhe atiçaria o Fisco a ele, Zé Mário, e a toda a sua família. O cidadão Zé Mário, assustado, meteu a mão ao bolso e tirou de lá uns trocos. Não era suficiente. Então, acompanhado pelo PM e pelo seu Pastor Alemão chamado Fisco, o cidadão foi à Caixa Multibanco e, a crédito, levantou dinheiro suficiente para pagar a conta. E, resignado, deu-o ao PM.

fp

2012: o ano (que dizem) que ninguém quer... (II)

Talvez eu tenha sido influenciado em demasia por algumas das minhas leituras de adolescência. Talvez eu tenha uma alarmante tendência para a desconfiança e para um exercício de escavação arqueológica de foro intelectual, procurando vestígios de conspirações secretas ou discretas no sentido de implementar uma ordem na qual a corrupção e a corruptibilidade são vantagens e virtudes. No passado talvez fosse mesmo um acto de escavação. Hoje é um passeio pelo campo no qual encontramos, não apenas vestígios, mas autênticas cidades e templos quase intactos. Como se andássemos à procura de umas pontas de flecha e econtrássemos Abu Simbel, Pompeia e Herculano ao virar de cada esquina. Procurar conspirações já não é estimulante. É demasiado fácil! Encontram-se aos magotes.
Já falei sobre esta questão de 2012 ser "o ano que ninguém quer". Já reflecti sobre a unidireccionalidade do calendário e o facto de não se poder querer um ano em particular. Mas resta-me reflectir (escavando um bocadinho aqui e acolá) sobre o porquê de nos quererem dizer que não podemos ou não devemos querer o ano de 2012 - proposição absurda? Talvez não.
Para começar - chamem-me cínico, não me importo - não confio nas agências noticiosas. E também não confio no(s) Governo(s). Ambos estão carregados de políticos e ex-políticos e o primeiro ponto da minha doutrina é: "nunca confiar em políticos." Para ser franco, os primeiros seis ou sete pontos da minha doutrina são: "nunca confiar em políticos." Sou mesmo assim: repetitivo.
A governação está a ser conduzida no sentido único de violentar e empobrecer a maioria, baixando o preço do trabalho, limitando as possibilidades das empresas sobreviverem, recortando a vida das pessoas no sentido de estarem cativas do dinheiro feito pelos bancos, escravizadas pela ideia de que não há outra hipótese que não "morder a bala" - bite the bullet (a língua Inglesa é muito mais rica que a nossa em metáforas militares) - e aguentar a borrasca.
Simplesmente, não há borrasca nenhuma... o que há é governos e interesses financeiros que soaram a sirene de tempestade, convenceram as pessoas (que através da televisão são mantidas estúpidas a curto prazo e que através da escola são tornadas estúpidas a longo prazo) a descerem às suas caves, onde se trancaram. E, debaixo de um agradável sol de Inverno (ou de qualquer estação do ano à escolha), os políticos e banqueiros batem em latas e panelas para fazerem um ruído infernal, simulando uma tempestade tremenda.
As pessoas, assustadas, quando desceram às suas caves deixaram as carteiras na mesa do hall de entrada das suas casas. E aí se encontram à disposição dos ladrões de fato e gravata, mercenários da inutilidade e da incompetência, paladinos da corruptibilidade, verdadeiros bandidos do far-west - mas sem o cavaleiro solitário para lhes fazer frente.
Dizem-nos que 2012 será o ano que ninguém quer para que fiquemos assustados, enrolados em mantas na cave, enquanto esperamos que a tempestade acabe...
A tempestade vai acabar eventualmente, sim. Bater em latas é cansativo e, ao fim de uns anos é monótono. E, se demorar demasiado tempo alguém vai suspeitar de um embuste mais cedo ou mais tarde. (Além disso as carteiras roubadas têm fundos limitados.) Então, as pessoas vão emergir das caves - magras e ofuscadas pelo sol, não vão conseguir perceber que os mercenários estão tão mais anafados quanto elas estão escanzeladas. E o processo recomeçará novamente...

fp

Constatações (II) - a verdade anda por aí...

É extraordinário fazer uma leitura das fontes de informação fidedigna de que dispomos hoje. Não falo dos meios de comunicação social convencionais como jornais, programas de informação na televisão. Essa informação não é fidedigna. É sempre uma (de)formação de notícias, novidades e informações que servem apenas e só alguns interesses privados.
Não - a informação fidedigna está nos meios de comunicação que a censura prévia dos intereses corporativos não consegue controlar.
Falo de blogues (como este, por exemplo...) e tantos outros que germinam nas núvens das redes sociais, das blogoesferas e afins. A informação que é dada ao público não é filtrada nem censurada pelas corporações, pelas empresas e pelos interesses financeiros que só pretendem a manutenção de um status quo que empobrece a maioria e enriquece a minoria.
O que se vê é extraordinário: centenas de autores, de pensadores, de jornalistas informais que, do (des)conforto das suas casas escrevem e escrevem o que pensam - todos eles a aproximarem-se de uma mesma frequência, todos eles a surfarem a mesma onda. A onda da verdade... ou de uma verdade. Mas sempre a mesma.
Já se perceberam os problemas e a sua origem.
Já se perceberam os rudimentos de uma solução para esses problemas.
Os astros alinham-se pouco a pouco.
E pouco a pouco as pessoas vão começar a perceber nas profundezas do seu consciente o que está errado.
E um dia vão ser capazes de dizer que já chega.

A menos que haja novas eleições... porque neste país, as eleições não servem a população: servem os políticos de carreira e os fabricantes de esferográficas baratas.

fp

O (des)Governo e a sua opaca transparência (II)

Para variar, vou ser breve e conciso.
A opacidade da pretensa transparência do Governo já não engana ninguém.
As pessoas estão a ficar cada vez mais zangadas e frustradas com os políticos. Ninguém confia na classe política. O que é pena. Porque ainda haverá dois ou três que, na penumbra dos jogos políticos de ex-ministros, ministos, ex-parlamentares e parlamentares, tentam fazer da política aquilo que ela é, realmente: serviço à Nação no sentido de melhorar, de forma global e inclusiva, as condições de vida da população. Simplesmente, nos meandros de um jogo sujo como é a política, ou não sobrevivem - os verdadeiros políticos - ou desistem de tentar servir, efectivamente, os cidadãos que os elegeram. E não há nada que os demova da sua posição entrincheirada. Até porque o sebastianismo está fora de moda e o Inverno está a ser demasiado brando para haver o necessário nevoeiro.
Quem são estas pessoas que elegemos?
Sobretudo, porque nos fazem o que têm feito?
Que fizemos nós para merecer tudo isto?

fp

Este Deprimente País

Lê-se nos jornais que Catroga mama na teta do Estado os seus trocos p'ra jantar no Gambrinus à sexta e no Panorama ao sábado: dez mil euros por mês. Lê-se nos jornais que mamará mais quarenta e cinco mil provenientes das nossas proeminentes facturas da electricidade, monopólio da oligarquia, jardim das borboletas do regime. Um país destes é uma lixeira a céu aberto. Os milhões de portugueses, a que agora se chamam «cidadãos», que recebem os salários mínimos, as pensões de reforma equivalentes às gorjetas do Catroga ou estão desempregados têm, face a isto, o «direito de pregarem fogo a este palheiro». A velha luta de classes, aqui e agora, é a do povo contra os «vampiros».

jtf

11.1.12

Constatações (I) - automóveis antigos

Já afirmei anteriormente que sou um aficionado de carros antigos. É uma triste sina, porque as viaturas geriátricas têm os mesmos problemas que nos nossos cidadãos sénior. Mas isso não me impede de gostar deles e de os respeitar - muito, aliás. Aos dois: viaturas e cidadãos.
E há um fenómeno curioso que se verifica neste nosso Portugal e neste pequeno passeio de vaidades que é a pequena (mas orgulhosa!) cidade que presentemente habito. Vêm-se cada vez mais cidadãos sénior. (Isso não é novidade nenhuma. É apenas um reflexo do envelhecimento do Velho Continente.) E vêm-se cada vez mais viaturas sénior a espalhar geriátricas manchas de óleo - pobrezinhos!... também são incontinentes. - e a fumar profusamente. É que antigamente, fumar muito não era um problema: era sinal de charme, requinte e maturidade. Nas pessoas e nos carros, evidentemente. Único ponto de confluência, quiçá?...
O surgimento nas nossas estradas - porque salvo raras excepções os velhotes andam no passeio - de viaturas antigas (old bangers ou clássicos devidamente homologados... e por vezes amolgados) é, na minha leitura, um reflexo de um fenómeno anexo à crise financeira, mas também um reflexo de uma certa crise de valores institucionais. Afinal, que valor institucional se pode dar a um Nissan Pixo ou a um Kia Rio? Não é, certamente, o mesmo que se dá a um velho Mercedes-Benz 220SE de 1964 em estado de concurso ou a uma velha Peugeot 504 xrd que há décadas transporta de A para B a família, os móveis da família e os cães da família em relativo (des)conforto e muito moderada velocidade. Mas com charme... com um meio sorriso de Humphrey Boggart. Que é muito mais interessante que o ridículo penteado andrógino de um Justin Biebber.
As velhas viaturas estão a (re)aparecer nas nossas estradas. Não só são mais baratinhas de comprar (a menos que se trate desse outro Mercedes de 1964 em estado de concurso), como são relativamente baratas de manter. E mesmo que bebam mais e fumem mais (condições que são aceitáveis na velhice) que o Justin Biebber (leia-se Nissan Pixo) são, no fim de contas, mais baratas e (agarrem-se bem, caros leitores...) sustentáveis. [Clamores de indignação!] Sim: não só os custos de produção já foram amortizados pela economia como o carbono gerado pela sua produção já foi absorvido pelas florestas dos anos 70 e transformado em oxigénio.
Há ainda um outro factor: solidez. Dos velhotes-pessoas e dos velhotes-automóveis.
Noutro tempo a sociedade de consumo era uma quimera insensata e as coisas eram feitas para durar. Vejam-se os meus Avós, matriculados nos anos 20 e que ainda andam aí de um lado para o outro, felizes e contentes - com as válvulas devidamente ajustadas e com revisões regulares, claro está.
Os carros feitos hoje são insofríveis criaturas mimadas, feitas com materiais de fraca qualidade e que se passam dos carretos quando o filtro de partículas da playstation fica sujo. E quando avariam têm que ir ao pedo-psiquiatra que nos cobra uma fortuna só para ver o nível de óleo...
A única diferença é que o Nissan Pixo, quando fizer 40 anos, já há muito que ninguém o quer. Não só porque vai dar em tolo antes dos 27 anos (ou 200 mil quilómetros), como também já não existe - transformado que foi em frigorífico ou varinha-mágica para passar a sopa. Sopa essa que será dada ao (muito geriátrico) Mercedes-Benz de 1964 porque já não vai conseguir mastigar. Afinal, é velhote - temos que respeitar as ideosincrasias da idade.

fp

Climatologia (I)

Este Inverno está a ser atípico. E, pela primeira vez, uma coisa estranha ou insólita não é - objectivamente - culpa do(s) Governo(s). Janeiro com muito sol, pouca chuva, quase nenhum gelo e nenhuma neve.
E toda a gente tem frio!
A quantidade de vezes que ouço pessoas a queixarem-se do frio que faz e que bom que é ter ar condicionado e estar em espaços devidamente climatizados...
Ora este é mais um daqueles paradoxos extraordinários que fazem dos Portugueses o mais estranho e insatisfeito povo da Europa.
Vivi um breve período na Bélgica. Curto tempo, mas o suficiente para conhecer um clima diferente e valorizar a benção que aqui recebemos - mas da qual não desfrutamos. Porque somos pindéricos. Ponto!
Cheguei a uma Bélgica de fim de Verão em Junho. Em Julho já tinha começado o Outono com aquelas copiosas chuvas que dizem ser Inglesas por quem não conhece nem a Inglaterra nem a Bélgica. O mês de Agosto foi marcado por mais chuva ainda mais intensa. Setembro nem se falava... Outubro - idem. Novembro, ainda na primeira quinzena começou a nevar - nevou até Janeiro ou Fevereiro.
Admissivelmente foi um dos Invernos mais rigorosos que a Bélgica experimentara em muitos anos. Não sou eu que digo, mas nativos desse país habituado aos rigores do surrealismo.
Mas até aqui tudo bem. É um país do Norte e no Norte faz frio e cai neve e por aí fora. O que me espantou - e que me faz perceber a pinderiquice da Portugália - é que, não obstante a neve, o gelo, a chuva e todo um clima adverso, as pessoas - grandes e pequenas, com ou sem crianças de colo - continuam a sua vida, continuam a sair à rua, a frequentar os cafés e as esplanadas aquecidas. As bicicletas continuam a circular como se nada fosse - aliás, são os únicos veículos que circulam em dias em que a neve bloqueia trams, metros e aviões... As compras fazem-se na rua: não sabem o que são shoppings e não querem saber. Porque é preferível a sanidade desperta da rua fria do que o adormecimento climatizado e massificado dos Colombos, dos Palácios dos Gelos e coisas afins...
Aqui, neste país pequenino e climaticamente abençoado, temos sol o ano todo - ou quase. E mesmo assim preferimos o ar de conserva, suprido de forma condicionada.

fp

10.1.12

O Eduardinho

Parece que Eduardo Catroga justificou os quase 700 mil euros de remuneração na edp dizendo que «50% do que eu ganho vai para impostos. Quanto mais ganhar, maior é a receita do Estado com o pagamento dos meus impostos, e isso tem um efeito redistributivo para as políticas sociais». Um comentário a este tipo de declarações poderia ter vários teores, alguns menos civilizados, outros mais pragmáticos e contundentes. Mas não deixa de ser curioso que um ex-Ministro das Finanças não seja rigoroso nas matérias que -supostamente- domina. Porque, fiscalmente, dizer que se paga 50% do rendimento em IRS é algo que daria um chumbo na cadeira de fiscalidade, mesmo em universidades pouco recomendáveis. 50% (ou melhor 49,5%) é a taxa marginal. Não é a taxa média. Mas todos sabemos que dizer 30% teria bem menos impacto no «grande público», como agora se diz. Depois disto, acho que está visto por que razão Catroga presidirá ao CGS da nova sucursal da 3Gorges, acompanhado do seu inesquecível Blackberry.

jtf

O (des)Governo e a sua opaca transparência (I)

Chamem-me ingénuo. Não seria a primeira vez. Talvez seja de ser novinho e inexperiente e pouco viajado. Aceito - chamem-me ingénuo. Crédulo. Tanso, até. Aceito tudo - e com razão. É que quando o Governo do Sr. Pinto de Sousa caiu eu - e tantos outros patetas, i.e., Portugueses - achámos que um novo Governo chefiado pelo Pedro Passos Coelho seria uma solução. Uma solução de circunstância com a solidez que precisávamos na altura em que foi.
Achei que o não envolvimento do Pedro Passos Coelho em Governos anteriores seria algo de positivo. Não parecia ter telhados de vidro - mas todos os têm. E ele também... não sabemos é quais, pelo menos nesta fase do campeonato.
A governação começou com energia e decisão. Sem medos aparentes, começam a assumir-se compromissos impopulares e a população estava a aceitar um S. Pedro Passos Coelho em estado de graça. Mas deixou de ter graça... e a graça ficou gracinha e a gracinha tornou-se tragédia. Não para ele - para nós que não temos os confortos e as subvenções daquele outro santo do breviário católico - o S. Bento...
O Primeiro Ministro começou com tudo com deslealdade. Não quis auditar as contas públicas e, escudado pelo pela gigantesca paquidermia do Estado, pôs-se a olhar para a frente - mas com umas palinhas nos olhos: não dos lados, mas pela frente.
Falou de cortar nas gorduras do Estado. Aplaudi. E pensei: não gosto lá muito dele, mas isto é boa ideia; pode ser que liberte o contribuinte do ónus de arcar com as responsabilidades totais da má governação dos últimos trinta anos. Não cortou nada no Estado. Apenas cortou nos funcionários do Estado e nos pensionistas. "Semântica, meu amigo!" - porque a bem ver, na lógica enviesada dos governantes, funcionários públicos e pensionistas recebem do Estado, logo, são Estado.
E agora, embicado na austeridade, fala de revitalizar a economia enquanto aumenta os impostos por todos os lados e os administradores (velhos e novos, recrutados à pressa no seio das Universidades Privadas) passam ao largo do empobrecimento das pessoas, da economia, das empresas e de tudo quanto gera riqueza concreta e material.
De sonhos de transparência e rectidão, passámos para o pesadelo real da opacidade decisória, da austeridade distribuída com o arbítrio de quem não quer partilhar o fardo - fardo que foi enfardado pelo próprio e pela sua corporação naquele infame "kolkhoz" que é o Governo - não interessa quem manda.
Chamem-me ingénuo. De facto, não seria a primeira vez...

fp

Maiores de dezoito

As nomeações do Governo para a EDP são tão descaradas e tão pornográficas que não entendo como foi possível noticiá-las antes das dez da noite e sem bolinha vermelha no canto do ecrã ou da página. Pode-se fazer queixa à ERC?

john

A-crítica

Para países como Portugal, o desprezo pelo pensamento crítico não é defeito, é feitio. Obviamente que não falo da mera gincana trauliteira e raquítica, ou da deambulação pelas casernas desidratadas do pensamento e da argumentação. Esta tendência dogmática, mesmo na ciência, despreza o espírito crítico desde a partida de Gama, olhando sempre de soslaio para o desdém apocalíptico do velho do Restelo. Uma espécie de repressão cultural ao exercício corajoso da controvérsia, dubitativo, útil. De certa forma, tende-se a valorizar a fortuna aleatória da antecipação, mesmo que acrítica, sobre o exercício vigoroso da racionalidade, mesmo que falível.

jtf

2012: o ano (que dizem) que ninguém quer... (I)

Tem sido hábito institucional e jornalísitico desde que me lembro (e admitamos: não me lembro de muito...) os senhores da comunicação social fazerem, por alturas do novo ano, um apanhado do ano que finda e um auspicioso prognóstico do ano que começa. Este ano não foi excepção.
Fizeram-se reportagens e montagens de imagens das tragédias do ano de 2011 - vulcões, terramotos, centrais nucleares, primeiros-ministros que se demitem, primeiros-ministros que são eleitos, técnicos do FMI que chegam ao aeroporto de Lisboa e apanham o táxi... enfim, esse tipo de coisas. É bonito de ver uma retrospectiva da nossa vida (ainda que noticiosa apenas) desta forma. Dizem que quando uma pessoa está à beira da morte a sua vida passa diante dos seus olhos porque o cérebro está a correr todo o arquivo à procura de uma coisa qualquer, de um qualquer diminuto pedacinho de informação que possa ser útil numa situação semelhante... Se as retrospectivas da televisão servissem esse propósito, a única infrmação útil a ser recolhida seria referente a formas excruciantes de cometer suicídio colectivo. Isto porque os auspiciosos prognósticos do ano seguinte - deste ano seguinte, 2012 - são tudo menos auspiciosos.
A "sic" - que deve significar "sociedade independente de canibalismo" - chamou-lhe "2012: o ano que ninguém quer!" Tchã-tchã! Bum! (Fundo de música dramática e relâmpagos misteriosos que anunciam algo de maléfico.) Com isso dito, lançou-se a fazer prognósticos incríveis daquilo que os pobres dos Portugueses enfrentam no ano que começou. Mais impostos, mais portagens, mais maldades, mais injustiças, mais pobreza generalizada, mais desemprego, mais retrocesso civilizacional. E até aqui tudo bem - porque até deve ser verdade, disso não duvido. Mas a forma fatalista como tudo isso é dito deixa-me muitíssimo irritado. Porque não há querer ou não querer: 2012 começa às 00:00 do dia 1 de Janeiro quer queiramos quer não. É uma fatalidade do destino... e do calendário. Vai ser uma ano duro e difícil para a maioria avassaladora das pessoas, é um facto. Mas de que serve à televisão, que hoje detém o monopólio da informação, augurar a desgraça para todos? De que serve - e a quem serve? - deitar as mãos à cabeça e dizer, enquanto se corre em círculos como uma galinha decapitada, que estamos perdidos e que vamos todos morrer e os Maias (os índios, não os do Eça de Queirós) é que tinham razão?
Os Portugueses já têm, por si, uma tendência tremenda para aquela posição ideológica que só se pode chamar de "desgraceirismo" (inventei agora - gostam?). Mas, por outro lado, também têm uma tremenda (e paradoxal) tendência para os actos de abnegação e coragem, sendo fáceis de galvanizar por uma liderança forte, clara e que eles considerem exemplar.
Daí que eu pergunte: de que serve anunciar 2012 como sendo um ano que ninguém quer, sendo que não há ninguém no Mundo que possa saltar imediatamente para 2013 - ou 1967 para todos os efeitos?

fp

9.1.12

Carnage



Irrepreensivelmente, Waltz, Foster, Winslet e -sobretudo- Reilly (eterno officer Jim Kurring) compõem uma aguarela aparentemente banal dos mecanismos inter e intra-relacionais modernos, nova-iorquinos, urbanos e irremediavelmente globalizados. O derradeiro reduto doméstico e domesticado em que Polanski gosta de borbulhar, na aparente simplicidade, no desprendimento da (ou das) mensagens. «Carnage» constrói e desconstrói os sucessivos equilíbrios sociais, colectivos e individuais. Sexistas às terças, relacionais às sextas, profissionais aos fins-de-semana, e o resto reserva-se à perversidade do «íntimo». No fundo, a absoluta literalidade da mensagem é sublimada pelo complexo desempenho dos mensageiros. É um triunfo da reacção sobre a acção.

jtf

O Sol quando nasce não é para todos

jtf

8.1.12

E depois?...

E depois da crise, que nos vai acontecer?
O Primeiro Ministro dizia há dias, no debate quinzenal da Assembleia da República, que o ano de 2012 seria um ano de grandes exigências, mas que marcaria o início da retoma económica. Ele lá saberá uma vez que é economista. Eu não sou, por isso não discuto (agora, pelo menos...).
A minha questão é outra neste momento.
É um facto que as pessoas neste país estão, por força das circunstâncias, a ter que se adaptar a um estilo de vida mais... frugal (à falta de melhor eufemismo). Sim, é isso - frugal!
As pessoas que não se deixaram cair nas tentações bancárias que anunciavam os jardins das delícias feitas com dinheiro barato e que, na altura foram acusadas de terem visões curtas e de não quererem providenciar às suas proles os melhores confortos - por, simplesmente, não se quererem endividar - conseguem fazer alguma coisa com o pouco que lhes sobra depois do Sr. Fisco bater à porta vestido de fraque e com um pé-de-cabra na mão.
(Re)Aprenderam a fazer coisas com as suas próprias mãos desajeitadas.
O marido decidiu fazer a revisão ao carro - que é velhinho, mas fiável e tem pinta - na garagem (para deleite do administrador de condomínio que já não sabe o que fazer com as manchas de óleo); a mulher decidiu fazer os cachecóis e as camisolas que picam e que não assentam lá muito bem no corpo. Mas fazem - e tiram prazer disso. Compraram bicicletas e vão para o emprego montados nos seus corcéis mecânicos. E chegam ao fim do mês com a satisfação de que não devem nada a ninguém e que estão mais saudáveis e felizes, apesar das comichões que as camisolas provocam. Sobretudo, chegam ao final do mês com a certeza de que aprenderam alguma coisa.
Mas as pessoas que se deixaram cair nas tentações e acharam que mereciam aquele sofá "chateau-d'ax" e que cairam na esparrela do crédito à habitação estão a tinir. E não sabem o que fazer, nem como fazer...
Não louvo uns e condeno outros. Cada um foi livre de fazer o que entendeu com as informações que tinha e nas condições que detinha.
A minha preocupação é outra. O que vai acontecer quando a retoma económica acontecer e entrarmos num novo ciclo de crescimento?
O casal das camisolas que picam aprendeu a fazer o que podia com pouco e vai conseguir "crescer" em termos financeiros porque cresceu em termos de auto-suficiência.
O casal das fotografias tiradas em Cancun no Verão de 1998 vai respirar de alívio. E marchar directamente para a agência de viagens para marcar uma viagem para Bora-Bora - porque a vida foi dura e merecem este presentinho... e assim se retoma o ciclo e se prepara uma nova "bolha" que, mais cedo ou mais tarde, vai rebentar novamente.
Moral da história?
De que nos serve tudo isto, todo o sacrifício se não aprendemos nada entretanto? A não-aprendizagem das lições que a vida nos ensina é a certeza de que os erros fatais do passado se voltarão a cometer no futuro. As crises são duras para (quase...) todos. Mas a vida também o é. E a escola também. Se não aprendermos nada, se não aproveitarmos as oportunidades para aprender não vamos evoluir, não nos vamos conseguir emancipar e libertar dos grilhões que alguém - porque haverá sempre alguém... - nos quer meter.

fp

Aluguem-nas todas

O protesto contra o patrocínio da PT à estação de metro Baixa-Chiado continua. Para mim, o único problema é não se fazer algo do género em estações que realmente precisam, como na Praça de Espanha, no Martim Moniz, nos Anjos, no Intendente e em Arroios. Aliás, até podiam alugar o espaço a empresas privadas que assim o desejassem, desde que estas garantissem a manutenção, a iluminação e a segurança dos espaços (para além dos acessos, claro).

Isto, claro, para nem sequer mencionar a situação aparentemente desastrosa das contas do Metropolitano de Lisboa.

(a sério, gosto muito dos néons azuis na plataforma do metro da Baixa-Chiado. Dá à estação um aspecto "sci-fi" muito interessante)

john

7.1.12

Um novo micróbio apresenta-se

Quem me conhece conhece-me por ser um pouco polémico, um pouco sarcástico e relativamente mordaz. O Mundo em que vivemos irrita-me - frequentemente... mas não sempre.
Enerva-me o simplismo de algumas pessoas.
Enerva-me a cultura da incultura.
Irritam-me as playstations que a minha geração adquire com o primeiro ordenado (já de si tardio porque já deveríamos estar a trabalhar há mais anos).
Irrita-me a insuficiência intelectual dos políticos e irritam-me os políticos. Irrita-me sobretudo a forma quase-autista como definem as suas políticas e o desrespeito absoluto com que tratam as pessoas que, para ganhar a vida, se vêm forçada ao ignóbil esforço que o trabalho constitui.
Irrita-me ser um homem de cultura (por (de)formação académica e profissional) num país que não tem a cultura da cultura.
Aborrece-me a imprensa escrita.
Aborrecem-me os noticiários que tratam a informação como entretenimento e os directores de informação que têm mais de 60 minutos de tempo de antena para fingir que estão a informar as pessoas de não sei bem que tragédia comercial e comercializada.
Irrita-me ver que há pessoas que se recusam a pensar. Porque eu gosto de pensar - pensar é bom...
E gosto de bicicletas. E de carros antigos. Gosto de coisas boas e bem feitas.
Gosto da Europa.
Gosto da ideia de poder anotar aqui algumas ideias que podem irritar pessoas.
Gosto da ideia de estar aqui, nesta plataforma de informação alternativa e partilhar a blogosfera com pessoas que pensam sobre o seu Mundo. Para seu deleite, sim - mas em defesa do inalianável direito a pensar, a resistir, a reagir, a louvar e a viver no Mundo que nós próprios construímos com o nosso próprio esforço.

fp

6.1.12

Loja dos 300

Há p'ra aí muita conversa desajeitada sobre organizações secretas, tão ao gosto do paladar da audiência desde o dia em que Dan Brown poli-copiou o Código-Da-Vinci e o lançou ao mundo. Não deixa de ser fascinante esta queda do público por tudo o que é vagamente «secreto», um ímpeto quase bisbilhoteiro, mesquinho, transeunte. Porque, como é bom de ver, ninguém se importa em perceber verdadeiramente o que foi e o que é a Maçonaria em si. O que Lhes importa é a trica, o cochicho. Até agora o rei do movimento é o Expresso que, na sua luta pela sobrevivência na selva, se aproxima galopantemente do estatuto de revista-de-tricot, desajeitada, desinteressante, ornamentada e entediante. Salvam-se, como sempre, uns dois ou três artigos de opinião e outros tantos no Cartaz. Naturalmente, como em qualquer grémio, acoplam-se vários tipos de espécies, desde os ratos e os lambe-botas àquela gente decente que nada de lá tira a não ser os salpicos da lama que nestas alturas de lá jorram. Convenhamos que Mozart é um nome demasiado erudito para que esta Maçonaria-a-puxar-para-o-chinelo (O que é a Ongoing?) dele se apoderasse. E este jogo de Quem-é-quem não vale um milímetro da excitação que o Expresso tem posto nele.

jtf   

Fiasco Digital Terrestre


Tipicamente português: quando a procissão já chegou ao adro é que surgem as discussões "com carácter de urgência". O processo de migração para a TDT conheceu muitos erros ao longo do seu atribulado caminho. Que o PCP defenda agora alterações e mesmo um adiamento agora não admira - o partido serve para ser do contra e pouco mais. Que o PS venha agora sugerir "alterações ao sistema" é que me espantaria se não conhecesse já bem a famosa cara-de-pau socialista - para além da amnésia que invariavelmente aflige todos os partidos do chamado "arco da governação" sempre que caem do poleiro para as bancadas da oposição. É que até parece que não foram Governo nos últimos sete anos, quando os prazos para a interrupção do sinal analógico estavam mais do que definidos. Não terá certamente sido por falta de tempo que não promoveram "a abertura de mais canais para uma melhor e maior oferta da TDT, tal como está a ser promovida na União Europeia."

john

5.1.12

Blogoesfera







Os meus parabéns ao Delito, pelos três anos cheios de estimulantes opiniões.

jtf

4.1.12

Citação

Para relembrar o "óbvio ululante" tão facilmente esquecido neste país:

It is not from the benevolence of the butcher, the brewer, or the baker that we expect our dinner, but from their regard to their own interest.

- Adam Smith

john

A fuga (3)

A polémica do grupo Jerónimo Martins está a levantar tanta indignação e tantas acusações de falta de patriotismo que Alexandre Soares dos Santos ainda se arrisca a repetir o feito de Scolari: daqui a pouco estão os portugueses a pendurar bandeiras de Portugal às janelas, num misto de protesto com amor à pátria. Os supermercados Pingo Doce que se apressem a vendê-las, para a ironia ser completa.

john

J. Medeiros Ferreira é




















provavelmente uma das poucas fontes de sensatez na trupe comentadeira que nos envolve. A naturalidade da narrativa, a conjugação, o poder do argumentário, a robustez, o fino-humor. Votos de que se reestabeleça depressa. Confesso que já sinto a falta da sua voz no Córtex Frontal.

jtf

A fuga (2)

Não compreendo a polémica com a "fuga" do capital de Soares dos Santos para a Holanda. Tanto quanto se sabe, toda a operação foi perfeitamente legal. Se um extraterrestre aterrasse aqui amanhã, iria pensar que este não seria o país onde, até há bem pouco tempo (passe o optimismo), só não descontava o ordenado mínimo no IRS quem não podia.

john

A fuga (1)

O país está indignado: o capital do grupo Jerónimo Martins, proprietário do Pingo Doce, fugiu para a Holanda (isto não é bem assim, mas perdoem-me os leitores a simplificação grosseira). Na falta de indignação, resta-me apenas a surpresa: ainda não há nenhum grupo no Facebook a apelar ao boicote ao Pingo Doce? Aqui há um par de anos fizeram pior por causa da música de uma campanha publicitária.

john

3.1.12

Patriotismo é coisa para pobre*

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Não é muito duvidoso que certos grunhidos não cheguem ao céu. O problema raramente é «aquilo» que se diz, mas sim o «quem» e o «como». Sentam-se em poltronas vermelhas que de encarnadas têm pouco, alinham as gravatas, ajeitam os botões de punho, esticam as camisas com as iniciais no mamilo esquerdo, centram o enquadramento e testam os brancos. Depois espalham a moral do situacionismo por todo o quintal. Doses cavalares para certos equídeos de corte. Não espanta, pois, que se ache que tudo o que se foi espalhando -plano-inclinadamente- tresande à hipocrisia-dos-subnutridos, grossa e possante, excepto se problemas de olfacto os impossibilitarem de distinguir o cheiro a merda do cheiro a jasmim. E, como em tudo, não faltam ajudantes-amestrados, em anuários de ocasião, sempre prontos a ornamentar a matéria fecal com a subtileza comovente de uma vénia.

* daqui; ** daqui.

jtf

2.1.12

2011 parte I:


No fundo, o que Poetry nos revela é a importância avassaladora da simplicidade, da limpidez, do que é irremediavelmente cru. Esta procura incessante pela transparência, o recato cuidado do pequeno plano, da pequena mensagem. É o triunfo da humildade sobre a pretensão.

jtf